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Olá, seja bem-vindo ao podcast "Valor da Floresta", uma iniciativa Observador e Navigator. Ao longo de três episódios convidamo-lo a pensar neste bem precioso, mas de uma forma diferente da que estamos habituados, ou seja, não como um cenário estático, mas como um organismo vivo e em transformação. Eu sou a Maria João Simões e nas próximas semanas vou conversar com vários protagonistas de diferentes áreas. Hoje a minha convidada, Nélia Aires, engenheira florestal da Agrogés. Bem-vinda.
Obrigada.
É um gosto recebê-la. A floresta não é apenas o meio por onde se escoa o carbono, é um aliado essencial na mitigação dos efeitos das alterações climáticas e na adaptação dos territórios. E por isso, neste primeiro episódio, discutimos o papel das florestas plantadas e o seu contributo para as metas da neutralidade carbónica. E não é por acaso que a Nélia Aires é a nossa convidada. Integrou a equipa que desenvolveu o roteiro para a neutralidade carbónica até 2050. E aqui a pergunta que se impõe é: ainda temos ou já só temos 25 anos para atingirmos os objetivos?
Na realidade, nós já só temos 20 anos para atingirmos os objetivos, porque a meta foi antecipada para 2045. Eu não quero parecer pessimista, mas a minha resposta é: já só temos. E por quê? Porque cumprir estes objetivos de neutralidade depende muito de políticas, que têm que ser robustas e também, sobretudo, de incentivos. E quando falamos concretamente no setor da floresta, incentivos que promovam a gestão da floresta e o aumento da sua capacidade para sequestrar e absorver carbono. Mas eu gostava também de realçar que não podem ser postas todas as apostas na floresta só, porque mais do que garantir a capacidade de sequestro da floresta, nós temos que, acima de tudo, assegurar que conseguimos reduzir as emissões de gases com efeito de estufa dos outros setores de atividade, todos. Só dessa maneira é que nós conseguimos contrabalançar e neutralizar o efeito das alterações climáticas, nomeadamente da elevada concentração de carbono na atmosfera. E por que de dizer que já só temos 20 anos? Porque há factos que demonstram que as metas que foram estabelecidas no roteiro para a neutralidade carbónica estão longe de serem cumpridas. E só a título de exemplo, relativamente a uma meta, que era a meta da redução das áreas ardidas. O roteiro estabelecia que deveria haver uma redução da área ardida média anual na ordem dos 70 mil hectares por ano.
E como é que estamos?
Só no ano passado arderam 136 mil hectares, dos quais 81 mil foram floresta e 46 mil foram matos. Estamos longe de atingir a meta dos 70 mil. E depois a meta relacionada com a florestação de áreas que não são hoje floresta e que deveriam passar a ser floresta. Havia um valor de florestarem cerca de 8 mil hectares por ano e segundo os dados do ICNF, no ano passado, apenas foram intervencionadas cerca de 6700 hectares em ações que contemplavam tanto a arborização como a rearborização, ou seja, criação de nova floresta, mas também a manutenção de floresta. Isto mostra que nós estamos um bocadinho longe das metas que foram previstas.
E portanto, ainda há muito trabalho a fazer ao longo dos próximos 20 anos.
Exatamente.
Mas por que é importante fazermos a distinção entre florestas plantadas e naturais, nativas?
Eu acho que a grande diferença, ou a necessidade de distinguirmos estes dois conceitos, tem a ver com gestão e com a origem das florestas. Quando nós falamos em florestas plantadas, falamos em florestas que a sua origem tem um objetivo, tem um propósito, seja esse propósito de produção ou um propósito de proteção ou de conservação, mas existe um planeamento, existe um objetivo de gestão. Florestas plantadas significa que há uma regeneração artificial, ou seja, existe uma plantação num determinado território. E como essas florestas são instaladas com um determinado objetivo, obviamente que o investimento na instalação dessa floresta é maximizar esse objetivo. E portanto, essas áreas são, a partir de áreas que têm maiores níveis de produtividade, essas florestas têm maiores níveis de produtividade e também têm um menor risco associado. E aqui, quando eu falo em risco, falo não só no risco de incêndios, mas também no risco de ataques de pragas e doenças. Ao contrário, as florestas ditas naturais, são, a partir de florestas que surgem por regeneração natural, ou seja, pelo desenvolvimento das sementes que estão no solo. E isso significa que normalmente não estão associados ao conceito de gestão, ou seja, áreas que resultam de regeneração natural, por regra, não têm evidências de uma gestão ativa. Elas crescem descontroladamente, com grandes densidades de vegetação, sem intervenção, portanto, não há aqui um objetivo concreto para a função da floresta e o risco associado é um risco maior. E isto também se reflete ao nível da capacidade de sequestro de carbono, porque as florestas plantadas conseguem otimizar o seu objetivo produtivo, conseguem sequestrar mais eficazmente carbono, ao contrário das florestas naturais, que sequestram carbono, mas têm um risco tão grande associado que o risco desse carbono ser perdido é gigante.
E a propósito disso, é possível quantificar a quantidade de carbono que uma floresta plantada pode consumir ao longo do seu ciclo de vida?
Aliás, os engenheiros florestais, que é o meu caso, nós temos algumas cadeiras na faculdade exatamente para monitorizar e quantificar a questão da biomassa. Carbono, no fundo, é a biomassa das árvores. E como é que nós conseguimos quantificar o sequestro de carbono? É medindo a biomassa que uma determinada árvore tem num determinado momento. Se nós conseguirmos saber Quantas toneladas de biomassa uma determinada árvore ou floresta tem numa determinada idade, conseguimos converter essa biomassa em carbono e perceber qual é a taxa de sequestro anual ao longo do tempo.
Feita esta introdução, Nelia Aires, vamos então ao tema deste nosso episódio. Imagino que está a explicar o beabá aos mais novos, de que forma os ecossistemas florestais podem ajudar a responder aos desafios das alterações climáticas. Esta é a grande questão.
Grande questão. Antes de mais, só para explicar o beabá aos mais novos, as florestas são os principais sumidouros terrestres de carbono. Só as árvores, só a vegetação é que tem a capacidade, através da fotossíntese, de absorver o carbono da atmosfera e transformá-lo em biomassa, em tecido vivo. E esse carbono depois é armazenado em produtos, e o armazenamento desse carbono, se for duradouro e estável, de facto compensa e mitiga os efeitos das alterações climáticas, porque compensa as emissões. Só que é muito importante também reforçar nos mais jovens, que não é possível a floresta atuar sozinha, como eu disse no início. As florestas são apenas um dos lados da intervenção. É mesmo muito importante que seja conseguida a redução das emissões de gases de efeitos de estufa, que resultam da atividade humana nos mais variados setores: no setor dos transportes, no setor industrial, no setor da energia, também no setor agrícola. Só dessa maneira é que as florestas conseguem, de facto, assegurar o seu papel de mitigar e equilibrar este balanço entre emissões e remoções. E depois, eu acho que também era muito importante fazer passar, sobretudo para os mais jovens, do verdadeiro valor e da verdadeira necessidade que é nós mantermos a nossa floresta gerida, saudável e com baixo risco de perder este ativo, que é o carbono que está ali acumulado, novamente para a atmosfera. E por isso, era muito importante passar a mensagem para os mais jovens de que gerir uma floresta não significa só mantê-la intacta.
Como está, exatamente.
Sem intervenção, não. Muito pelo contrário, ela tem que ser intervencionada. E intervencionar uma floresta significa poder colher de lá os produtos que ela dá, nomeadamente a madeira. E também explicar que, porque eu já referi e vi isto em manuais escolares, a exploração florestal, ou seja, a remoção, o corte de uma floresta, não significa necessariamente desflorestação. Segundo uma gestão florestal responsável e sustentável, gerir e explorar uma floresta significa mantê-la também, porque depois do corte da floresta, vai haver a replantação, vai haver a condução das plantas. O objetivo é manter a floresta na continuidade, ao longo do tempo.
Exatamente.
Mas a ideia principal é mesmo esta, é a gestão da floresta, isso é que é importante passar.
Mas como a Nelia dizia há pouco, este é um compromisso que nos deve envolver a todos, incluindo o governo. E o que é que, na sua opinião, ainda falta fazer em termos de políticas públicas para valorizar o contributo, lá está, das florestas plantadas para o clima? Por exemplo, há algum tipo de incentivo económico ou fiscal para os proprietários que plantem florestas com objetivos climáticos?
Sim, há vários incentivos para o investimento na floresta, mas na minha opinião, eles são escassos, estão mal orientados, estão mal distribuídos e existem processos muito burocráticos, nomeadamente no que diz respeito à elaboração de candidaturas, à submissão de candidaturas, à análise e depois até mesmo à fase de atribuição do próprio apoio. E este apoio, muitas das vezes, é insuficiente para conseguir suportar o investimento na floresta, que é um investimento mesmo muito grande. E eu gostava também só de fazer referência a uma coisa, sobretudo quando falo que ainda só temos 20 anos para atingir a neutralidade. É porque os investimentos na floresta, que são feitos hoje, não se veem só hoje. Aliás, não se veem amanhã, só se conseguem ver daqui a longo prazo. E isso é muito importante quando falamos em investimento, porque quando um promotor pretende investir na floresta, o retorno desse investimento não é imediato, é um retorno a muito longo prazo. Portanto, é preciso ter mesmo muita vontade em investir e, se não houver apoios-
E ser resiliente também, sem apoios não se consegue.
E sem apoios não se consegue. E gostava só de fazer referência aqui a uma questão. Nós temos um programa, é o PPAC, o plano estratégico da PAC, que apresenta um pacote, um orçamento dedicado às florestas para ser aplicado até 2027. Esse orçamento já teve reduções consecutivas ao longo das várias reprogramações do programa e atualmente a última redução foi de 44%, ou seja, passámos de 153 milhões de euros para 275 milhões de euros. O que isto significa? Significa que cada vez mais os produtores florestais, os proprietários florestais, veem a disponibilidade financeira a diminuir. Isto desmotiva.
Completamente, sim.
Isto leva, obviamente, ao abandono, à falta de incentivo.
Sim, o não querer saber.
Exatamente, o não querer saber. Mesmo que haja outros programas, como por exemplo, o recentemente aprovado plano de intervenção para as florestas, que tem um pacote gigantesco de 6,5 mil milhões de euros. Mas a verdade é que ainda não se percebeu muito bem como é que isso vai funcionar. Ainda está muito assim na gaveta.
Ainda está muito no cinzento.
E para além disso, eu acho que para além destes apoios e destes investimentos, destes apoios ao investimento direto na floresta, eu acho que o que falta realmente é a concretização daquilo que toda a gente fala, que é a remuneração dos serviços dos ecossistemas. Os produtores e os proprietários florestais detêm um ativo que gera benefícios ambientais para toda a sociedade e não há o devido reconhecimento, nem a devida valorização desses benefícios pelo resto da sociedade. E, portanto, o ônus não pode ficar só do lado do proprietário. Tem que ser, de facto, incentivado a que os produtores e os proprietários mantenham as suas áreas florestais devidamente geridas, com o risco controlado. Esse reconhecimento e a valorização desses serviços ambientais é fundamental para que se mantenhaMantenha a atividade florestal.
Estamos mesmo a terminar e, em jeito de mensagem, como é que cada um de nós, no seu dia a dia, pode contribuir para alcançarmos a neutralidade carbónica até 2045?
Eu acho que todos nós temos um papel muito importante e mesmo as pequeninas coisas que podem ser insignificantes.
Que parecem insignificantes.
Exatamente. Multiplicadas por milhões, vão, de facto, ter um grande impacto. E como eu disse, não basta só olharmos para o aumento da capacidade de sequestro das nossas florestas, nós temos também que intervir do lado da diminuição das emissões dos gases com efeitos de estufa. E, portanto, há, de facto, algumas mudanças que todos nós podemos fazer. Mudanças, por exemplo, ao nível das opções de mobilidade urbana, deixarmos de usar o nosso veículo individual e usar outro tipo de transportes, mobilidade partilhada, uso de bicicletas, etc. As questões da eficiência energética e da redução do consumo de energia são fundamentais, portanto, usar eletrodomésticos mais eficientes, painéis solares, etc. E depois, eu acho que tem que haver uma mudança no paradigma dos hábitos de consumo das pessoas. As pessoas têm que ser mais conscientes quando falamos em consumo responsável. Optar por consumir produtos de cadeias curtas, ou seja, produtos que tenham uma pequena pegada de carbono. Por exemplo, quando falamos em alimentação, optar por produtos que são produzidos localmente, produtos da época, todos esses tipos de intervenções são fundamentais. E depois, lá está a reutilização, a reciclagem, enfim, todas aquelas coisas que todos nós já sabemos, mas que, de facto, se forem fomentadas e se forem feitas diariamente, em conjunto, vão ter realmente um grande impacto. Ao nível da floresta, eu acho que é muito importante também todos nós termos consciência de que a floresta é um ativo que deve ser mantido e que há riscos na floresta que dependem de nós e dos nossos comportamentos para que eles não ocorram, nomeadamente alguns comportamentos negligentes, sobretudo em dias de elevado risco de incêndio. Todos nós temos que ter consciência de que, às vezes, uma bijinha mal apagada ou até mesmo um descuido pode originar uma grande catástrofe.
Nélia Aires é engenheira florestal da Agrogés. Muito obrigada por ter estado conosco neste primeiro de três episódios de "O Valor da Floresta", uma iniciativa do Observador com a Navigator. Gostei muito de conversar consigo, Nélia Aires. Muito obrigada.
Muito obrigada, bom dia.
Eu sou a Maria João Simões, regresso daqui a 15 dias com Manuela Pintado, da Universidade Católica, para falarmos sobre bioeconomia circular de base florestal. Vai ser bem interessante. Espero por si.