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Olá, seja bem-vindo a mais um episódio do podcast "Valor da Floresta", uma iniciativa Observador e Navigator que o convida a pensar no bem precioso que é a floresta como um organismo vivo e em transformação, em vez de um cenário estático. Eu sou a Maria João Simões e hoje é nosso convidado Gonçalo Almeida Simões, diretor-geral da Beyond. Bem-vindo.
Olá, muito obrigado.
Obrigada por ter aceitado o nosso convite. O potencial de inovação e crescimento da fileira florestal em Portugal contrasta com a crescente escassez de matéria-prima. Como resolver este desequilíbrio é o que vamos tentar responder nos próximos minutos. Gonçalo Almeida Simões, apesar da crescente procura por fibras de eucalipto, a produção nacional está aquém das necessidades. O mesmo é válido, por exemplo, para o pinho, e por causa disso, o setor enfrenta uma dependência crescente de importações. Como é que chegamos aqui?
Portugal, neste momento, enfrenta um paradoxo que é precisamente esse. É o fato de ter floresta suficiente, ou seja, a floresta em Portugal representa 3 milhões de hectares, basicamente 40% do nosso território. E também aqui um dado que às vezes as pessoas tendem a esquecer, involuntariamente ou voluntariamente, só 5% do nosso território é que são cidades. Portanto, muito do nosso território é floresta e é agricultura. E depois, o que é contrastante com esta falta de matéria-prima é o fato de que temos as necessárias condições edafoclimáticas em Portugal para produzir certo tipo de produção florestal. Neste momento, infelizmente, estamos a importar, isto depende do ano, são números voláteis, 20 a 30% da nossa matéria-prima, sendo que sendo um setor que se propõe a substituir, por exemplo, o plástico, seria natural que, em termos de projeção, necessitássemos ainda de mais matéria-prima no futuro. Ou seja, o que temos neste momento é uma floresta que podia ser um ótimo exemplo em termos de ordenamento do território, um orgulho para os proprietários, ainda maior contribuição para a economia nacional, ou mesmo um estandarte para aquilo que devia ser a coesão territorial em Portugal. Não é. Não é porque 20% dessa floresta que temos é realmente gerida ou porque pertence à floresta que é da indústria ou porque pertence a proprietários florestais que se preocupam com ela. Falta o resto, mas o resto são 80%. E isso é que é gravoso, porque chegamos rapidamente à conclusão que sempre que há valor econômico na floresta, as pessoas interessam-se por ela e asseguram a gestão florestal. Sempre que não há esse valor econômico na floresta, há falta de gestão, abandono, desinvestimento. E isso é realmente muito preocupante, porque chegamos à conclusão que 80% da nossa floresta, neste momento, em Portugal, ou é floresta que não está gerida ou é floresta que está abandonada, logo, um problema de falta de valor econômico e de falta também de matéria-prima para esta indústria. Mas há aqui outras razões que levam ao desinteresse por parte dos proprietários. Desde logo, e podemos falar depois disso mais à frente, os obstáculos no tema de arborização e rearborização. Que implicam uma excessiva burocracia e, em alguns casos, limite, proibição de plantação de certas espécies. Depois, elevada fragmentação. Estamos num país de minifúndio, portanto, é preciso tomar consciência disso. Ausência de cadastro, um problema seríssimo. Estamos num país em que não sabemos a quem é que pertence parte da floresta. E depois, claro, estamos confrontados com problemas a nível mundial, como as alterações climáticas e daí aumento de incêndios, pragas e doenças. Nós temos feito a nossa parte. Temos programas operacionais no terreno, nomeadamente os programas operacionais da Beyond, e estamos convencidos que se utilizarmos o conhecimento e a tecnologia que está ao nosso dispor, conseguimos, desde logo, aumentar a produtividade. Aumentando a produtividade, maior valor econômico da floresta, maior valor econômico da floresta, mais atração e mais gestão. Do ponto de vista histórico, e por aqui termino, está identificado qual foi o problema. O problema é que nos anos 70, nos anos 80, houve um fenômeno de transumância quase sociológica da floresta e dos campos para a cidade, a que vulgarmente chamamos êxodo rural, mas isso resultou em algo ainda mais grave. É que a segunda e a terceira geração, que abandonou a floresta e que abandonou os campos, veio para as cidades. Somos nós, somos os urbanos. E essa visão tem uma visão romantizada do que é floresta, que por sua vez sustenta uma certa inércia para a tomada de decisão do decisor político. E estamos, neste momento, então, num confronto, temos floresta, temos condições edafoclimáticas e temos falta de matéria-prima.
Mas sobre Portugal estar a importar tanta matéria-prima florestal, isto é sustentável a longo prazo? Quais são os principais riscos?
Não é nem sustentável a longo prazo, nem sustentável a médio prazo. Seria a mesma coisa que dizer: somos os maiores exportadores de cortiça do mundo, somos dos maiores produtores de azeite do mundo, somos dos melhores produtores de vinho no mundo, mas o país tende e hesita em agilizar juridicamente as condições de crescimento das fileiras de sucesso e, portanto, a breve trecho, vamos deixar de o ser. Isto é uma péssima notícia para o país. Por duas razões. Desde já, o custo desta inércia é avassalador, porque um terço do território é floresta. E floresta no interior, é que é o interior que precisa de ser dinamizado, não é o litoral. Aí estamos mais ou menos bem com o turismo, é o interior. E depois, quer dizer, se não houver gestão e só houver abandono, estaremos certamente a falar de zonas mais fragilizadas, quer em termos de incêndios, quer em termos de pragas. E mais, não nos podemos propor a cumprir as metas de descarbonização, porque aí a floresta é uma peça absolutamente essencial. Depois do ponto de vista econômico, temos que decidir rapidamente o que é que queremos para as fileiras de sucesso deste país. Esta é certamente uma delas, como são as têxteis, como é o calçado, como é o turismo. Quais são os números? Representa 10% das exportações em Portugal, mais ou menos 5% do PIB. No caso do eucalipto, estamos a falar de 80 mil empregos. E, portanto, é preciso dizer sim ou não E qual é o caminho? Porque não só é um travão ao desenvolvimento atual, como é a mesma coisa que estarmos a dizer que novos clusters de valor acrescentado que vão aparecer e que são baseados naquilo que é a bioeconomia circular de base florestal, alternativa ao modelo fóssil linear, não vão fazer parte dos planos de Portugal para o futuro. Portanto, é preciso realmente tomar uma decisão.
E o que está a ser feito para ultrapassarmos essa dependência?
O diagnóstico está feito, isso é o mais importante.
Já é bom.
É bom, é um diagnóstico que vem sempre com muito tempo de atraso, porque é um diagnóstico que só é feito de 10 em 10 anos. Ou seja, em Portugal, só de 10 em 10 anos é que sabemos o que aconteceu com a nossa floresta.
E depois corresponde à realidade?
Corresponde a uma realidade atrasada. Ou seja, quando ele sai, já tem um ano de atraso e refere-se aos últimos 10 anos. Portanto, há um mês tivemos notícia desse apanhado dos últimos 10 anos, que é o célebre COS, e chegamos a uma conclusão que nos preocupa bastante. E a conclusão é a seguinte: temos menos 11 mil hectares de floresta em Portugal, quando tanto se fala de plantação de árvores e do necessário crescimento da floresta nos países da União Europeia. Portanto, se queremos mais árvores em Portugal, temos que promover um aumento líquido de área arborizada e, para isso, é preciso realmente alterar o contexto legislativo que temos em Portugal. Enquanto não houver essa luz verde, e essa luz verde só pode vir das autoridades públicas, temos que, entretanto, ir agilizando por outro caminho, que pode ser, por exemplo, aumentar a produtividade da floresta de produção ou agregar e contrariar aquilo que é o minifúndio em Portugal. Há bocado falava-lhe dos programas operacionais da BEYOND. Vimos que esta situação estava a acontecer logo no passado e a partir de 2019 dissemos: "Não, vamos fazer algo para mudar e para pelo menos demonstrar o que pode ser a transformação da gestão florestal em Portugal." E então fomos para o terreno. Até agora, entre 2019 e 2025, investimos a módica quantia de 23 milhões de euros, são os nossos associados que investem, e juntamente com os proprietários, gerimos 100 mil hectares. Ou seja, podem ser coisas que estão completamente abandonadas ou com falta de gestão ativa e contactamos os proprietários, encontramos esses proprietários, é possível encontrar os proprietários, que muitas vezes se escondem, porque associado a ter floresta, vem o custo da limpeza da floresta.
E como é que foram recebidos?
Fomos bem recebidos por 11.500 proprietários neste lapso temporal entre 2019 e 2025. E não são só os proprietários, é importante dizer, são os stakeholders locais, as associações florestais, as organizações de produtores florestais, as câmaras municipais, as juntas de freguesia. Estes agentes são importantíssimos porque são os agentes locais, percebem o que é ter uma economia local ligada à floresta. A economia da floresta não existe nas cidades, só existe nas zonas rurais, só existe no nosso interior, o tal interior que precisa de ser dinamizado. E depois, fizemos outra coisa também interessante, que asseguramos que, pelo menos, metade de toda esta área é certificada. Ou seja, é importante nós percebermos que, por exemplo, da parte das nossas associadas, só aceita madeira certificada, só faz produtos com madeira certificada. E chegamos a duas conclusões muito claras e que nos satisfazem ao longo destes anos e por isso estamos a pensar continuar com estes programas operacionais, que é, primeira: explorações geridas com a ajuda da BEYOND arderam 3,3 vezes menos. Ou seja, mais gestão, menos incêndios. E em segundo lugar, conseguimos aumentar, através desta gestão, 23% da produtividade florestal. Estes 23% de maior produtividade florestal não são importantes só por ser, são importantes porque é a partir daí que o proprietário florestal consegue tirar mais rendimento. É a mesma coisa que dizer: eu tenho um hectare e consigo C metros cúbicos, mas não está muito bem gerido. Ou outra coisa, eu tenho um hectare, está muito bem gerido e consigo daí retirar muito mais metros cúbicos e ter maior rendimento.
Portanto, aqui gestão é a palavra.
É a palavra.
E o que as políticas públicas atuais têm feito para lidar com esta escassez de matéria-prima? Não têm sido capazes de reverter esta realidade.
Se há um momento para atuar, eu diria que é este. Por quê? Porque qualquer decisor político tem que atuar com base em conhecimento científico, para dar uma satisfação à sociedade, por que está a ir por aquele caminho. Porque se tomar uma decisão em que haja conhecimento científico e esteja a contrariar esse conhecimento científico, é difícil explicar o porquê daquela decisão. A seguir aos incêndios de 2017, muito conhecimento científico se produziu sobre os incêndios. Muitos estudos foram feitos, muita fundamentação científica foi feita por parte das universidades e das faculdades e dos especialistas da floresta. E, portanto, neste momento, eu diria que o governo herdou uma herança com quase 10 anos, mas está em condições de avançar para algo fundamentado cientificamente, que não é seguramente a discriminação de alguma espécie, é ver como é que vai resolver a questão da gestão das nossas florestas.
O que fica a faltar, então?
Fica a faltar.
É a ação?
É mexer juridicamente naquilo que tem um nome estranho, que é o RJAR, que é o tal regime jurídico das ações de arborização e rearborização, que no dia seguinte aos incêndios de 2017, apressadamente resolveu-se que era aqui que teria que se mexer e que se proibia a plantação de algumas espécies, nomeadamente o eucalipto, e que o que estava em causa não era tanto a gestão. Ao fim destes anos, é quase consensual, por parte da comunidade científica, que Estamos muito mais no ângulo da falta de gestão e das alterações climáticas do que propriamente na discriminação de alguma das espécies da nossa floresta de produção. Nós temos apresentado várias medidas ao poder político ao longo destes anos e sabemos que é urgente, porque qualquer medida que se tome hoje só terá os seus efeitos daqui a 10, 12, 15 anos, porque é isso que a floresta de crescimento rápido demora a crescer. Mas há sim medidas que todos estaremos de acordo com elas, que é: precisamos atrair pessoas para a floresta e como é que isso se faz? Requalificando profissões na área florestal, criar condições para a obtenção dessa escala, lá está, contrariando o minifúndio. Outra coisa que vemos: como é que é possível? Nós não temos o cuidado de limitar a tipificação de áreas no nosso país. Nós deixamos que, em áreas de floresta, se continue a construir casas, em áreas industriais continue a haver floresta e depois, quando chega o tempo da gestão de crise, os meios não conseguem chegar a todo lado.
Como estamos a ver agora.
Depois, aquilo que já falámos, que é a melhoria da produtividade através de práticas ambientalmente sustentáveis. É isso, e é saber que, ao médio prazo, ao longo prazo, e que a floresta tem um calendário muito específico, que também não é o da agricultura, porque na agricultura, hoje plantamos uma cultura anual, podemos estar a falar de frutas e hortícolas, e no ano seguinte colhemos. A floresta não é assim. A floresta demora muito mais tempo para crescer e, portanto, os planos e as medidas que operam e que se decidem hoje só terão efeito muito mais à frente.
No início deste episódio, eu falei sobre o potencial de inovação e de crescimento da fileira florestal. Quer dar uns exemplos daquilo que está a ser feito? E para terminarmos a nossa conversa.
Sim, era como eu dizia, temos basicamente duas dimensões, a dimensão florestal e a dimensão industrial. Sabemos, e bem, que há 70 anos que andamos a trabalhar as espécies florestais para que elas tenham a maior produtividade possível, o maior rendimento possível e para que contribuam para esta nova bioeconomia. Sabemos que Portugal, por enquanto, e tendo em conta as alterações climáticas, ainda vai sendo um ótimo local para esta floresta de produção e, portanto, na dimensão florestal, o que temos feito é investido na capacitação das associações florestais, das organizações de produtores e dos grupos de certificação para que haja cada vez mais madeira certificada. Tendo em conta que realmente, também no terreno, se exigem novas tecnologias na gestão florestal, o que temos feito é investido nessas tecnologias para operar de forma mais eficiente e sustentável. E depois, na parte industrial. A parte industrial, hoje, é uma biorrefinaria. Por quê? Porque já não estamos só a pegar em matéria-prima certificada, que pode ser madeira, que pode ser biomassa florestal, e a transformá-la através de processos energético e ambientalmente eficientes para produzir esses tais materiais, que são, sobretudo, papel e cartão. Não. Hoje, essas unidades industriais produzem isso, mas o que produzem mais? Bioenergia, biocombustíveis e bioprodutos. E quais são esses bioprodutos? Por exemplo, têxtil, cosméticos, essência, as T-shirts, as calças, todo o têxtil que vestimos hoje, daqui a pouco tempo, e já há exemplos disso, nomeadamente uma das nossas associadas, podem ter matéria-prima de base florestal e não de base sintética. E isso é um salto quântico em termos tecnológicos. E depois, como é que se chegou aqui? É que o setor tem feito realmente um forte investimento nesta área da investigação e somos pioneiros mundiais de grande relevância. Só para termos uma ideia, e por aqui termino, os associados da Biont têm hoje mais de 50 patentes registadas para novos produtos. E isso ilustra bem o futuro que nos espera em termos de bioeconomia de base florestal e dos novos produtos que aí vêm.
Gonçalo Almeida Simões, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Eu sou a Maria João Simões, regresso daqui a 15 dias com um novo convidado para mais um episódio do "Valor da Floresta", uma iniciativa Observador e Navigator.