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"Onde Para o Caso?", na Rádio Observador. O Hospital de Sintra abriu portas há cerca de um ano com a promessa de aliviar a pressão sobre o Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, mas terá cumprido essa missão? Neste episódio do "Onde Para o Caso?", fazemos o balanço do primeiro ano de funcionamento daquela unidade de saúde com a jornalista Marta Caramelo Nobre.
O Hospital de Sintra foi inaugurado a 14 de julho de 2025, depois de quatro anos de construção. A nova unidade, que representou um investimento de mais de 80 milhões de euros, nasceu para servir cerca de 500 mil utentes e aliviar a pressão sobre o Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, um dos mais sobrelotados do país. Na altura, o então presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, Carlos Chá, traçava objetivos.
Aqui atenderemos os doentes que maioritariamente serão verdes ou azuis, e os outros doentes mais complexos serão, naturalmente, referenciados para a urgência do Amadora-Sintra ou, se for necessário uma urgência polivalente, para outra unidade hospitalar. Vamos abrir todas as valências que seja possível, quer ao nível da consulta, quer ao nível cirúrgico, quer ao nível do internamento e também, naturalmente, da urgência, de modo a permitir cuidados mais diferenciados e mais próximos das populações que servimos.
Ainda assim, a abertura do hospital ficou marcada por alertas. O Sindicato dos Médicos da Zona Sul avisava que o Hospital de Sintra estava a abrir sem médicos suficientes e que, em vez de aliviar o Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, podia acabar por aumentar a pressão sobre aquela unidade.
O novo Hospital de Sintra está a funcionar com muito poucos recursos e a grande maioria desses recursos vêm do Hospital Amadora-Sintra. Por exemplo, pra realização de TACs, de radiografias, de ressonâncias, são médicos e técnicos deste hospital que vão lá fazer esses exames. Portanto, não há um acréscimo de exames. Não é um hospital que tenha todas as valências, como tem sido propalado. É um hospital onde, por exemplo, as pessoas têm que perceber que situações mais graves, mais críticas, como por exemplo, um AVC, um enfarte, poderá não ter a devida assistência naquele hospital.
Ouvimos aqui Tânia Russo, presidente do Sindicato dos Médicos do Sul, em declarações captadas pelo "Fala Portugal".
Marta, já recordámos este caso do hospital, mas importa fazer esse balanço. Passado um ano, o Hospital de Sintra está ou não está a cumprir a missão?
Um ano depois, a resposta da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra é sim, mas em parte. À Rádio Observador, a ULS faz um balanço positivo do primeiro ano de funcionamento da unidade de saúde. A administração considera que o Hospital de Sintra permitiu reforçar a capacidade de resposta e distribuir melhor a atividade entre os dois hospitais.
E em que é que a ULS sustenta esses dados, esse balanço?
A ULS dá conta de quase 36 mil episódios de urgência realizados no primeiro ano de funcionamento, que corresponde a cerca de metade da capacidade prevista para aquela urgência. Isto porque, aquando da abertura, foi avançado que o serviço de urgência básica estava desenhado para responder a cerca de 60 mil episódios de urgência por ano, que é também aproximadamente metade dos registados no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca. A ULS adianta também que foram realizadas 2 mil cirurgias de ambulatório, aproveitando apenas metade da capacidade instalada.
Marta, mas houve outra questão que acabou por marcar a abertura do Hospital de Sintra, a transferência de profissionais do Fernando Fonseca. O que é que diz agora a ULS sobre esta matéria?
Sobre isso, a ULS não revela quantos profissionais foram, na altura, transferidos para o Hospital de Sintra. Confirma apenas que a maioria dos profissionais da nova unidade transitou efetivamente do Amadora-Sintra e garante que todos foram substituídos nos serviços de origem. A administração explica ainda que privilegiou a transferência de profissionais mais experientes para assegurar o arranque da nova unidade. À Rádio Observador, o Bastonário da Ordem dos Médicos sublinha que o novo hospital veio piorar a escassez de profissionais de saúde da região.
Não há falta de edifícios, há falta, sobretudo, de profissionais de saúde. E o facto de termos mais um hospital não resolve, obviamente, os problemas, porque para esse hospital poder funcionar, é verdade que profissionais tiveram que ser deslocados do Hospital Amadora-Sintra para o Hospital de Sintra. E foram recursos que se perderam, e o Hospital Amadora-Sintra já tem dificuldades em termos de recursos humanos e, portanto, isto não veio propriamente resolver nenhum problema.
O balanço de Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos, sobre o Hospital de Sintra, que abriu portas há cerca de um ano.
E neste "Onde Para o Caso?", é nossa convidada a Andreia Bernardo, vereadora da Câmara Municipal de Sintra, que tem o pelouro da Saúde. Um ano depois, que balanço é que é possível fazer deste Hospital de Sintra?
Olá, muito boa tarde. Antes de mais, obrigada pelo convite ao Ricardo e à Judite. É um balanço positivo, mas ainda não inteiramente positivo. O Hospital de Sintra foi inaugurado há cerca de um ano e sabemos que, na altura, foi inaugurado num momento que ainda não estava a 100%. Por isso, criou muita expectativa entre os sintrenses que iria resolver muitos problemas na saúde relativamente ao Conselho de Sintra, e os utentes ainda não viram resolvidas estas situações.
Mas um ano depois ainda não está 100%, continua?
Não, ainda não está a 100%. Todas as respostas ainda estão subaproveitadas e a própria ULS Amadora-Sintra assim o sabe e também assim o reconhece. E nós próprios, Câmara Municipal de Sintra, temos tido uma ótima relação com a nova direção agora da ULS Amadora-Sintra, mas sabemos bem que ainda está subaproveitado para as respostas que oficialmente terão que dar.
Deixe-me fazer a pergunta assim: o Hospital de Sintra é um centro de saúde um pouco mais robusto?
Podemos dizer que atualmente ainda o é, mas não é essa a ideia e nem é isso que a ULS Amadora-Sintra está a fazer. Também é importante dizer uma coisa, que a ULS Amadora-Sintra é a maior ULS do nosso país, que serve aproximadamente, entre os dois concelhos de Amadora e de Sintra, cerca de 600 mil habitantes. E que inscritos só no SNS, atualmente residentes, trabalham cerca de 4500 profissionais. Mas depois, embora tenha rácios mais baixos de camas por mil habitantes. Atualmente, o Hospital de Sintra, posso dizer que é um hub de pós-agudos e de ambulatório, até para libertação da capacidade do Hospital Fernando da Fonseca, que é o Hospital Amadora-Sintra, e que tem que dar umas maiores respostas, mas atualmente ainda não está a 100%. Isto também, porque é preciso dizer que há um ano atrás não tinha todos os profissionais de saúde e todos os concorrentes ou todos os municípios atualmente da Área Metropolitana de Lisboa, e sejamos concretos e também verdadeiros em dizê-lo, somos quase todos concorrentes uns dos outros. Nós atualmente estamos a captar os melhores profissionais de saúde, e não só dessas áreas, mas também profissionais, por exemplo, das forças de segurança, mas profissionais de saúde de todos os municípios. E cada município tem as suas estratégias de captação destes profissionais, como nós também assim o temos. E atualmente, nós precisamos de captar mais profissionais de saúde para conseguir então dar todas as respostas do Hospital Amadora-Sintra. E há um ano atrás, esquecemo-nos disso. Abrimos este hospital, e bem, e posso mesmo também comprová-lo, que tem ótimas condições de funcionamento, mas sem os profissionais de saúde que deveríamos ter a 100%.
Continua então esse problema de falta de profissionais de saúde ao fim de um ano?
Sim, sem dúvida. E a própria Câmara Municipal de Sintra, e como disse há pouco, tem uma ótima relação com a ULS Amadora-Sintra, que estamos a trabalhar em conjunto e algumas delas para captação destes profissionais de saúde. Por exemplo, em políticas de habitação. Nós atualmente já fizemos um primeiro programa para profissionais, onde incluímos profissionais de saúde, profissionais de forças de segurança, professores e também profissionais da Câmara Municipal, e existiram 25 candidaturas para profissionais de saúde.
Mas consegue saber quantos faltam neste momento? Quantos precisariam de ser?
Diversas áreas. Mas também posso dar uma boa novidade, e isso acredito mesmo que também já foi feito em pós destes benefícios que temos dado, porque abriu agora, a semana passada também, foi fechado estes números, a entrada de nove médicos de família para todo o Conselho de Sintra. E foi o maior número de médicos que ficaram e que permaneceram aqui no Hospital de Sintra e também nas várias ULS. Já é um dado positivo. Ainda não conseguimos contabilizar quantos utentes é que não têm médico de família ao dia de hoje, com a entrada destes nove médicos de família, mas conseguimos então saber que já é um dado positivo. Um deles também que nós percebemos, e acho que é importante também referir, os centros de saúde, e quando nós tomamos posse aqui na Câmara Municipal de Sintra, não tinham as devidas condições. Por exemplo, o Aqualva ou o Casal de Cambra. E a própria ULS está-nos a pedir ajuda, e bem, nós município vamos assumir algumas requalificações destes centros de saúde.
Mas senhora vereadora Andreia Bernardo, ou seja, um ano depois, este Hospital de Sintra está ainda longe de conseguir ser uma resposta eficaz para aquilo que está na cabeça de toda a gente, que era algo que pudesse retirar pressão ao Amadora-Sintra.
Sim, é verdade. Ele atualmente já reduz pressão. E, por exemplo, o Hospital de Sintra dispõe atualmente de uma capacidade de diagnóstico e de bloco, mas que está subaproveitado, porque pela primeira vez alavanca a reativação desta unidade e não a construção de novas unidades. Mas o hub de pós-agudo e de ambulatório vai reduzir naturalmente esta pressão no Amadora-Sintra, no Fernando da Fonseca, mas ainda não reduz toda a pressão existente. Daí que nós também estamos a fazer vários protocolos.
Só pra perceber, os pacientes continuam a ser triados no Amadora-Sintra e depois enviados pro Hospital de Sintra?
Alguns sim, mas também têm as urgências no Hospital de Sintra.
Ou seja, os utentes já estão a par do funcionamento do hospital e optam pelo Hospital de Sintra em vez do Amadora-Sintra?
Sim, já o fazem. Agora aqui, e a própria ULS Amadora-Sintra tem feito, e também em estreita comunicação conosco, temos que tem que existir uma maior comunicação desta estratégia, para que muitas vezes o que aconteça é irem a uma urgência de Sintra e não irem fazer esta pressão no Amadora-Sintra.
Portanto, falta ainda informação para os utentes e profissionais de saúde.
Sim, para os profissionais de saúde, não, mas muito para os utentes.
Mas não estão a ser capazes de atrair profissionais de saúde, é isso?
Não. Atualmente, ainda não. Posso também partilhar que, em estreita relação também com a ULS, a Câmara Municipal de Sintra vai criar uma rede de creches sintrenses. E uma delas é mesmo que queremos, e agora estamos a analisar os terrenos, o espaço em concreto, construir uma creche ao lado do Hospital de Sintra.
Para os trabalhadores.
Exatamente. Naturalmente, não vai ser unicamente para os trabalhadores, mas vai ser para os trabalhadores. E esta creche, a nossa ideia é que seja fora de horas. Não é 24 horas, mas que seja fora de horas, para que ela consiga ajudar, principalmente Os profissionais de saúde, não são só médicos, mas profissionais de saúde, a que tenham a tranquilidade e consigam colocar os seus filhos, porque sabemos que esta é uma das preocupações.
Então, senhora vereadora, deixa-me fazer a pergunta assim: se daqui a um ano voltarmos a ter esta conversa, o que é que já espera ter resolvido?
Espero ter resolvido algo que nós também estamos a analisar. O Hospital de Sintra está muito no centro, por exemplo, no centro do que é o bairro da Cavaleira. O que é que vai acontecer? Quando este hospital estiver a 100%, e que nós esperamos, e é nossa vontade que seja rapidamente, naturalmente, vai criar uma enorme pressão junto desse bairro, porque as próprias ambulâncias, o próprio estacionamento cria uma grande pressão. E nós vamos assumir uma ligação ferroviária e rodoviária, peço desculpa, para tirar o trânsito do centro do bairro, porque quem ali mora também merece este descanso. E todo este trabalho de planeamento, como por exemplo, a creche, como por exemplo, esta rede rodoviária ou mesmo as políticas de habitação para atração de profissionais de saúde, o que é que nós pensamos? Que deveria ter sido feito antes da construção do hospital. E isto não é desvalorizar a construção do hospital, porque tinha que ser feito e valorizamos, mas não foi feita toda a estratégia em volta desta construção. Não pode ser unicamente construir ou a criação de um betão. Têm que ser também dadas as condições para que os médicos também fiquem e tenham esse gosto.
Ana Bernardo, muito obrigado pela sua disponibilidade e por ter estado aqui neste "Tome para o Caso" da Rádio Observador.
Muito obrigada também, Ricardo Jordão. Obrigada.