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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. São os primeiros instantes de 2011. Milhares de pessoas de todo o mundo estão reunidas em Times Square para a passagem de ano. E Carlos Castro e Renato Seabra estão entre elas. No meio da confusão, encontram algumas caras conhecidas: o jornalista português Luís Costa Ribas e o advogado Rogério Alves, que também estão ali a celebrar o Ano Novo com as famílias. Cumprimentam-se. Carlos apresenta-lhes Renato.
Aquele era um dos momentos mais felizes do Carlos, em que ele parecia estar mesmo a viver uma paixão.
O jornalista Rodrigo Freixo também está em Nova York para a passagem de ano, mas não se cruza com o casal. Desde que chegaram, no dia 29 de dezembro, não têm parado. É a primeira vez de Renato na cidade e Carlos está a mostrar-lhe todos os pontos turísticos obrigatórios. A polícia de Nova York vai perceber isso ao descarregar as imagens guardadas no cartão de memória da Lumix digital, encontrada no quarto 3416. Ao todo, são mais de 150 fotografias, ao que tudo indica, todas tiradas por Carlos Castro, que não aparece em nenhuma. Exceto aquelas que mostram apenas pratos de comida, todas têm Renato Seabra como modelo. Há fotografias de Renato em Times Square antes, durante e depois da passagem de ano. Na Broadway, ainda coberta de neve, e no Battery Park, com vista para a Estátua da Liberdade. E há fotografias de Renato no interior dos centros comerciais mais célebres. Na loja da NBA, no Madison Square Garden e à mesa a beber um batido ou a brindar com um copo de vinho. Numa das imagens, o jovem de Cantanhede surge de braços abertos, com uma série de arranha-céus atrás. Noutra, está empoleirado num gradeamento, a meio da travessia pedonal da ponte de Brooklyn. Noutra ainda, sorri entre as icónicas estátuas dos faraós expostas na coleção egípcia do Met, o Museu Metropolitano de Arte. Numa sequência de fotografias captadas no Central Park, Renato Seabra aparece a saltar e a fazer poses engraçadas. Finge que é um esquilo a subir uma árvore. Noutra fotografia, imita uma estátua a apontar o caminho a seguir. Também há várias fotos à porta do Hotel Intercontinental e no interior do quarto 3416, com Renato junto à janela com vista para os arranha-céus de Manhattan. Numa delas, está em tronco nu. As fotografias são o suporte visual perfeito para as descrições de Vanda Pires. Encaixam na perfeição nos depoimentos da primeira e mais importante testemunha do caso, hão de confirmar as autoridades. Nos primeiros dias das férias em Nova York, Carlos Castro e Renato Seabra pareciam estar efetivamente em clima de lua de mel. Depois, algo quebrou essa aparente felicidade. As últimas fotografias foram tiradas no interior do quarto 3416, justamente na manhã do dia 6 de janeiro, véspera do crime. Nessa tarde, há de revelar a amiga do cronista social, Carlos Castro estava furioso com Renato Seabra. Nem sequer lhe dirigia a palavra. Faz sentido que tenham parado de tirar fotografias. Os últimos registros são um conjunto de oito imagens. Renato aparece sorridente, deitado na cama e depois sentado num plano mais aberto, de mãos nos joelhos e cara séria. As outras seis imagens são retratos em que o aspirante a modelo parece estar a treinar olhares e expressões. O último retrato é o único em que Renato Seabra aparece a rir. Carlos Castro diz que já esteve em Nova York mais de 35 vezes e está a fazer tudo para proporcionar uma grande primeira visita a Renato Seabra. Mas a verdade é que esta viagem nunca pretendeu ser só de passeio. Muito tempo antes da partida, aliás, oito dias antes de comprar sequer os bilhetes de avião, percebe a polícia através do cruzamento de registros, o cronista social falou com uma amiga que vive na cidade. Pediu-lhe que tentasse marcar várias reuniões em nome dele e de Renato em algumas das mais conceituadas agências de modelos de Manhattan. Mas entretanto, o tempo está a passar. É verdade que com os atrasos em Lisboa, Carlos prolongou a estadia até 15 de janeiro, mas já estão na cidade há três dias. 2011 já começou e essas reuniões não parecem estar mais perto de acontecer. Não há indicação de datas, de moradas, de nada.A polícia acredita que a partir de certa altura, isso vai tornar-se um problema para Renato Seabra. Numa das três sessões de avaliação que há de ter com o neuropsicólogo contratado pela acusação, Renato vai admitir que estava ciente do que estava em jogo. Pode ler-se no relatório de William Barr: "Renato sabia à partida que Carlos ia querer dormir com ele para lhe proporcionar os contactos que ele desejava". O problema era mesmo esse. Ele, Renato, estava a cumprir a parte dele do acordo. Carlos Castro, ao que tudo indicava, não. "Os ficheiros do caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Episódio quatro: alguém não está a cumprir o acordo.
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O Carlos não era uma pessoa fácil. Aquilo que ele achava, ele achava que era verdade, porque ele achava. Foi assim com os amores, foi assim com as amizades. Depois tinha umas amizades de sempre, pessoas que lhe achavam graça. E ele como trabalhava em coluna social, tinha um grupo de pessoas que o cortejavam, as minhas ladies. Ele fazia-se ser prima donna, e ele chegava a ser prima donna. Ele chegava às festas e vinham todos: "mas lá!".
A Bel Dias conhece Carlos Castro praticamente desde que ele chegou a Lisboa, vim de Luanda, em 1975. Conta que se conheceram à porta do camarim da atriz Laura Alves, no Monumental, na altura em que Carlos estava a começar a trabalhar como jornalista do social. Passaram metade da vida como amigos e a outra metade zangados. Carlos Castro pode ser um homem generoso, mas também tem uma personalidade difícil e é muito exigente. A Polícia de Nova York vai apurar, através do interrogatório de funcionários do hotel e dos e-mails trocados a propósito dos hóspedes do 3416, que assim que chega ao Intercontinental, Carlos Castro reclama do quarto, que é muito pequeno e tem duas camas individuais em vez de uma de casal. É tudo horrível, diz. A agência de viagens em Nova York explica ao hotel que aquele é um dos melhores clientes e pede que lhe seja feita uma atenção. No dia seguinte, logo pela manhã, a coordenadora de vendas do Intercontinental responde com um e-mail a informar que foi feito um upgrade para um quarto Skyview King, sem custos adicionais. E é assim que, a 30 de dezembro, Carlos Castro e Renato Seabra se instalam no quarto 3416, uma suíte deluxe com cama de casal no 34º andar, o antepenúltimo do hotel. Apesar de já ter ido aos Estados Unidos dezenas de vezes, Carlos Castro não domina o inglês. Sempre que precisa de resolver algum problema, pede ajuda à amiga Vanda Pires. Quando é preciso marcar mesa em algum restaurante, é ela que trata do assunto. E se há bilhetes para comprar pra algum espetáculo, também. Vanda Pires conheceu Carlos há já 25 anos. Vive em Newark e sempre que o cronista social viaja para Nova York, costumam estar juntos. Durante o resto do tempo, mantêm o contacto por telefone, Facebook ou e-mail. São mesmo próximos, percebe a polícia. Tanto que apenas uma semana depois de ter conhecido Renato, Carlos já estava a escrever-lhe no Facebook a dizer que tinha encontrado uma pessoa maravilhosa. A polícia vai juntar estas mensagens aos ficheiros do caso e serão apresentadas em julgamento como as provas 23 e 23-A. No dia 23 de outubro de 2010, Carlos Castro revela a Vanda que está apaixonado e que vai viajar com Renato Seabra para os Estados Unidos. Conta-lhe tudo sobre o novo namorado, mas pede-lhe que ela não comente nada com ninguém. É o nosso pequeno segredo. É o primeiro dia de janeiro de 2011. Vanda e o namorado, Avelino, encontram-se com Carlos e Renato à porta do Hotel Intercontinental. Combinaram passar o dia juntos e ir às compras a um centro comercial em New JerseyÉ a primeira vez que se veem desde que Carlos Castro e Renato Seabra chegaram à cidade. Vanda já sabia que o amigo estava apaixonado. Carlos já lhe tinha falado muito de Renato. Mesmo assim, fica surpreendida. Nunca tinha visto o amigo tão feliz, há de confessar mais tarde aos detetives da polícia de Nova York. Passam horas no centro comercial. Renato quer comprar presentes pra irmã, mas não sabe o que levar. Por isso, Vanda vai a Ralph Lauren escolher algumas peças. Enquanto isso, Carlos e Renato vão se enchendo de sacos, compram roupas, sapatos e cremes pra cara. E no final, Carlos paga tudo. "Mãos largas, cartão de crédito", aponta à mão o detetive John Mongiello, num bloco de notas pautado. Ainda a quatro, jantam num restaurante francês que fica ali perto, à beira do rio Hudson, com vista para Manhattan. Vanda assinala que Carlos e Renato decidem o que pedir em conjunto. Se um escolher peixe e o outro carne, podem partilhar e experimentar dois pratos diferentes. O ambiente é de descontração e felicidade. Carlos, muito falador, Renato menos expansivo e mais calado, mas ainda assim, sempre sorridente. Antes de a refeição chegar ao fim, revela Vanda Pires ao detetive, Renato Seabra vai confidenciar: conhecer Carlos Castro foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida. Nos anos 80, a ex-jornalista Palmira Correia foi chefe de redação da revista Nova Gente. Nessa fase, era a ela que o colaborador Carlos Castro entregava os textos.
Ele era um dos cronistas sociais da Nova Gente naquela época. Naquele tempo era muito o Abel Dias e o Carlos Castro. Ele era um tipo profissionalmente muito cumpridor. Nunca havia um atraso num prazo, numa entrega. Ele era absolutamente profissional.
Quase 30 anos mais tarde, Carlos Castro está de férias do outro lado do Atlântico, mas continua a trabalhar. 5 de janeiro de 2011, quarta-feira. Na crônica que envia todos os dias para o Correio da Manhã, Carlos Castro faz questão de mostrar que está em Nova York. Mas estes pequenos textos não coincidem exatamente com os roteiros que tem seguido na companhia de Renato Seabra. No jornal desta manhã, o cronista social fala sobre o entusiasmo à passagem da atriz Gwyneth Paltrow na Dior da Quinta Avenida e sobre os avistamentos de celebridades como Sandra Bullock e Julianne Moore no Boudakan, um dos restaurantes da moda, em que não consta que Renato Seabra e Carlos Castro tenham almoçado ou jantado. Na edição que irá pras bancas na próxima sexta-feira, o dia em que vai ser assassinado no quarto 3416, há de falar sobre o passeio de hoje a Atlantic City. Carlos Castro e Renato Seabra já estão em Nova York há uma semana. É tempo suficiente para criar rotinas, que vão ser reconstituídas pela investigação da polícia. Renato acorda todos os dias entre as 5h e as 6h para ir ao ginásio, no terceiro piso do hotel. Tomam o pequeno-almoço juntos e depois Carlos fecha-se no quarto a escrever. Antes do almoço, saem juntos pras ruas da cidade. Já foram a vários museus, já foram ao cinema ver o Cisne Negro e já foram à Broadway assistir ao musical do Homem-Aranha. Hoje, como vai estar sol, combinaram com Vanda Pires ir a Atlantic City. Vanda vai a conduzir. Carlos senta-se ao lado dela. No banco traseiro, Renato adormece assim que o carro começa a andar e só acorda quando chegam ao destino. Almoçam no Taj Mahal, o cassino de Donald Trump, onde em tempos aconteceu uma das edições do Miss Portugal America, o evento que Carlos Castro começou a organizar junto da comunidade imigrante em 1991. Só depois é que começam a jogar. Vanda atinge rapidamente os 200 dólares de prejuízo e para. É o limite dela. Carlos e Renato continuam. A portuguesa há de dizer mais tarde que perdeu a conta às notas de 100 dólares que o amigo deu ao namorado para ele gastar na roleta e nas slot machines. A dada altura, conta à polícia, Vanda repreende Renato por continuar a gastar dinheiro. Nas anotações que faz a caneta, e em que representa Renato Seabra como um triângulo, o detetive Mongiello escreve: Renato responde: "Perdemos os dois". E Vanda diz: "É verdade, mas eu estou a jogar com o meu dinheiro". Entretanto, Carlos volta a puxar a manivela da máquina onde está a jogar. E ganha um jackpot. São 1500 dólares, que depois de impostos passam a pouco mais de milMas continua a ser dinheiro mais do que suficiente para pagar o jantar no Caesars, mais um hotel cassino, onde a dada altura, Vanda vai surpreender Renato a dar comida à boca de Carlos, que sorri embevecido. Quando o telemóvel de Carlos Castro toca, Vanda repara que o amigo, em vez de atender, passa o aparelho diretamente para as mãos de Renato. Já tinha acontecido o mesmo no primeiro dia em que estiveram juntos. Renato até tem um telemóvel novo, que Carlos lhe ofereceu no Natal, mas não ativou o roaming. As chamadas nos Estados Unidos são muito caras. Por isso, sempre que a mãe quer falar com ele, o que por norma acontece todos os dias, às vezes mais do que uma vez, liga para o número de Carlos. Assim que entram no carro para fazer o caminho de regresso, Renato volta a adormecer. Só há de acordar duas horas depois, já em Manhattan, conta Vanda Pires a John Mongiello. Com fome e com sede, pode ler-se nas anotações do detetive. Depois de ser internado, Renato Seabra vai queixar-se aos médicos de não conseguir dormir. De estar, justamente desde dia 5 de janeiro, com muita dificuldade em descansar. Em tribunal, a defesa de Renato Seabra vai explicar aos jurados que para que um episódio seja considerado maníaco, o paciente deve apresentar pelo menos três de sete sintomas específicos. E vai acrescentar que um desses sintomas é justamente a diminuição da necessidade de dormir. Para a acusação, estas sestas no carro de Vanda Pires vão ser uma das provas de que a defesa de insanidade temporária não faz sentido. A defesa vai argumentar exatamente o contrário. O fato de Renato Seabra ter passado estas duas viagens de 200 km a dormir, mostra o estado de exaustão extrema em que se encontrava. E prova como, já nesta altura, a saúde mental de Renato estava a deteriorar-se. Em tese, todas as viagens que está a fazer com Carlos Castro deveriam servir para o dar a conhecer a agências estrangeiras e para lhe arranjar trabalhos como modelo. É nisso que Renato Seabra acredita. A polícia de Nova York vai perceber, através de um e-mail enviado por Carlos Castro a Vanda Pires, que o cronista social fez pelo menos uma diligência nesse sentido. A prova remonta ao dia 14 de novembro de 2010. Carlos Castro envia à amiga algumas fotografias do namorado, de rosto e de corpo inteiro. E faz-lhe um pedido: precisa que ela entre em contato com os responsáveis da Ford, da DNA e da Wilhelmina, e que lhes pergunte se nas datas em que vai estar na cidade, eles poderão recebê-lo. São três das mais conceituadas agências de modelos do mundo. Funcionam de acordo com as regras internacionais, segundo as quais um manequim só pode trabalhar através da agência com que tem contrato. E o cronista social sabe disso. Por isso mesmo, no e-mail que envia à amiga, faz questão de deixar claro que Renato Seabra não tem qualquer vínculo profissional. Diz-lhes que ele não está com uma agência aqui, portanto, não há problema. Pode ler-se no documento, que vai fazer parte das provas apresentadas pela acusação em tribunal. É uma mentira, mas nem Renato Seabra nem Carlos Castro hão de chegar a ser confrontados com ela. O dia que passam em Atlantic City é o oitavo da viagem. E Renato continua sem ouvir uma palavra sobre as supostas reuniões que deveria ter marcadas em agências de modelos. Em Londres não teve trabalho. Em Madrid também não. E por muito que ainda faltem 10 dias até regressarem a Lisboa, começa a parecer-lhe que em Nova York não vai ser muito diferente. Para Renato, isto não é amor. Ele e Carlos tinham um quid pro quo. A expressão é utilizada no relatório elaborado pelo psiquiatra Roger Harris, um dos especialistas da defesa. O paciente relatou que Carlos Castro foi muito generoso com ele, comprando-lhe coisas, mandando tirar fotos suas, comprando-lhe roupas. E disse que havia uma troca, um quid pro quo, que consistia no relacionamento sexual com ele. No formulário, escrito e assinado pelo detetive de homicídios, Richard Tirelli, também pode ler-se que os dois grandes objetivos que Renato Seabra tinha para aquela estadia nos Estados Unidos eram esses. Planearam esta viagem a Nova York para conhecer a cidade e possivelmente melhorar a carreira de modelo do senhor Seabra. Fátima Lopes é a responsável da agência Face Models, que representava Renato.
O Renato, nada fazia parecer que fosse homossexual. Os amigos não sabiam, a família não sei se sabia ou não, mas na agência ninguém sabia, ou pelo menos ele nunca assumiu
Renato Seabra não é o primeiro namorado de Carlos Castro que é ou quer ser modelo. E também não será o mais novo, diz Lilica Nessas.
O Carlos Castro, como toda a gente sabe, era homossexual e gostava de meninos muito bonitos a vida toda. E ele via nas festas ou, por exemplo, na Moda Lisboa. Ele ia a todas as Modas de Lisboa, porque ele era fashion mesmo, era uma pessoa que gostava de moda e penso que também gostava de ver os modelos desfilarem. O que o Carlos Castro me diria e via na Moda Lisboa: "Filha, tu tens estes modelos todos a fazerem género contigo, a bajularem-te e tu não tens nada com eles?". Eu digo: "Não, agora vou ter um romance com um modelo a propósito de quê?" "Porque és parva, se fosse eu aproveitava já".
Eram sempre mais novos que ele. Era fácil. Portanto, eram sim rapazes mais novos, mas não eram rapazes, ele gostava de homens. E eram rapazes bonitos. Assim entrou na vida dele o Seabra, um rapaz bonito, que ele contou-lhe uma história e ela acredita.
Cláudio Montez era um dos melhores amigos de Carlos Castro. No livro que escreveu, além de relatar a viagem com Carlos e Renato a Madri, revelou uma das confidências que o amigo lhe fez nessa altura. Renato tinha lhe dito que também gostava de raparigas. Carlos fez questão de garantir a Cláudio que estava tudo bem e que para ele isso não era um problema. Mas a ideia com que Cláudio Montez ficou, foi a de que o amigo se importava. E muito. 6 de janeiro de 2011. Se não tivessem apanhado mau tempo, Carlos e Renato deviam estar no avião de volta para Lisboa. Mas por causa da neve, o cronista social prolongou a viagem e ainda têm mais nove dias em Nova York. Hoje vão finalmente jantar ao Polino's, o badalado restaurante italiano que abriu há menos de um ano no Lower East Side. Carlos já lá foi uma vez e gostou tanto que quer voltar. É uma pizzaria moderna e barulhenta que tem um conceito de decoração invulgar. Os pilares têm azulejos recuperados das estações de metrô da cidade, parte das mesas foram feitas com madeiras de barricadas policiais e os empregados têm T-shirts com a frase mais usada em sinais de perigo ou avisos de cenas de crime: "Do not cross the line". Não transponha a linha. Vanda Pires chega ao Intercontinental por volta das 20h30. A mesa está marcada para as 22h. A ideia é irem os três juntos até a outra ponta da cidade. O namorado dela há de juntar-se mais tarde, se conseguir sair do trabalho a horas. Nos últimos dias, Vanda tem passado bastante tempo naquele lobby. Os seguranças do hotel até já a conhecem, sabem com quem ela vem ter. Mas hoje, ao contrário do que tem sido costume, não precisa ligar para o telemóvel de Carlos Castro pra ele descer. O amigo já ali está. Assim que olha pra cara dele, Vanda percebe que se passa alguma coisa. Carlos está sozinho e está transtornado. Diz-lhe que não sabe onde está Renato, que discutiram e que ele saiu do quarto. Conta que durante a tarde o viu a conversar com duas raparigas. Acha que chegaram a trocar número de telefone e teme que ele possa ter ido encontrar-se com elas. Renato não tem telemóvel, ou melhor, tem, mas como não ativou o roaming, não está a funcionar. Carlos não tem maneira nenhuma de falar com ele, nem de saber onde ele está, mas também não consegue ficar ali parado. Sai para a rua. Vanda fica sozinha, à espera no lobby. Passam-se cinco minutos, 10, 15. Já passa das 9 da noite quando finalmente a porta do hotel se abre e Vanda vê entrar os dois. Carlos continua furioso, nem para quando passa por ela. Diz-lhe apenas que já voltam. Renato vem andar tranquilamente, dá-lhe um beijinho e um abraço. E depois, segue atrás do cronista social. Cinco minutos depois, estão os dois de volta. Vanda ainda sugere deixar o jantar para outro dia, mas Carlos, de cara fechada, diz-lhe que não. Entram os três para o banco traseiro de um táxi. Carlos vai no meio. "O silêncio é terrível", há de descrever Vanda ao detetive John Mongiello. Em quase meia hora de viagem, só é interrompido uma vez por Renato, que é imediatamente mandado calar pelo cronista social. Carlos não lhe dirige a palavra. Aliás, nem sequer olha pra ele. Quando chegam ao restaurante, Renato vai à casa de banho. Vanda aproveita e pergunta finalmente ao amigo o que aconteceu, mas ele diz-lhe que não quer falar. Depois, logo lhe explicará tudo. É um jantar constrangedor. Carlos, habitualmente tão falador, não diz uma palavra. Em contrapartida, Renato, habitualmente tão tímido e calado, parece estar a tentar a todo o custo fazer as pazes com ele. A dada altura, chama a empregada de mesa. Quer pedir uma garrafa de vinho. Carlos já tem um copo de tinto e Vanda não bebe. Pergunta-lhe porque raio quer ele pedir uma garrafa inteira. E Renato responde-lhe: "Vamos celebrar". A cena, que Vanda há de recapitular inúmeras vezes, não faz sentido. Renato, aquele rapaz tão reservado, está a chamar a atenção, a falar alto, a sugerir brindes atrás de brindes. Entretanto, chega Avelino, o namorado dela. Renato levanta-se imediatamente e passa-lhe um copo. "Este já estava à tua espera há um bom bocado", diz-lhe. Brindam algumas vezes os dois. Carlos nem olha para eles. Continua zangado, amuado, absolutamente mudo. Depois de jantar, Avelino ainda sugere irem comer uma sobremesa. Carlos diz-lhe que não, só quer ir para o hotel. Chegam antes da 1 h da madrugada. É exatamente 12:57 a.m., quando a porta do elevador se abre no 34º piso. As imagens da câmara de segurança mostram Renato a passar. Depois, aparece Carlos Castro. A porta do quarto fecha-se, mas não pela última vez. Esta vai ser uma longa noite para os hóspedes do 3416. 12:17 p.m. É sexta-feira, dia 7 de janeiro. Carlos Castro pega no telemóvel e liga para a amiga Vanda Pires. A chamada está registada na listagem que a Polícia de Nova Iorque pede à operadora móvel. Diz que está farto. Passou a noite a discutir com Renato. Afinal, talvez se tenha enganado em relação a ele, admite. Parece outra pessoa. Tratou-o como lixo. Foi agressivo, chamou-lhe nomes muito violentos. E como se não bastasse, disse-lhe que já não era gay. Para o cronista social é o fim. Quer antecipar o regresso a Portugal. Vanda há de contar à polícia que lhe pediu para ter calma. Sugeriu-lhe que mandasse Renato de volta e que ficasse mais uns dias. "Se ele te trata como lixo, depois de tudo o que tens feito por ele, por que é que vais viajar com ele? Em vez de estar ali no hotel, até podia ir para casa dela". Carlos disse-lhe que não. Iam voltar juntos e quando chegassem a Portugal, aí sim, iria cada um para seu lado. Na verdade, nem Carlos nem Renato irão regressar a casa. Nem no voo que estava marcado, nem neste novo voo que o cronista social acaba de reservar. Dentro de algumas horas, Carlos Castro estará morto. Mas essa é uma história para o próximo episódio. O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. No próximo episódio.
Era óbvio que foi criado ali uma manobra para iludir a mãe, penso eu, a família dele.
Ele era até medroso, porque era pequenino. Se alguém o confrontasse, ele não tinha capacidade até física para enfrentar ninguém.
Aí que se cruza com o Renato Seabra e que ele saiu de uma forma completamente natural, vestido, banho tomado. Foi isso aquilo que foi mais estranho no meio disto tudo.
"Os Ficheiros do Caso Carlos Castro" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. "Podcast Plus" do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
