Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este episódio contém descrições de violência sexual que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Alguns nomes foram alterados para proteger as identidades dos entrevistados. Nesses casos, as vozes foram modificadas com recurso a inteligência artificial. Há uma taxa de inscrição de mais de €500, mas o pagamento não garante a admissão. Para participar no acampamento anual de verão do movimento de Gregorian Bivolaru, na estância balnear romena de Costineşti, é obrigatório cumprir outros requisitos. Juntamente com a ficha de inscrição, é preciso enviar fotografias. Mas não são fotos tipo passe. As regras exigem imagens de corpo inteiro, de perfil e tiradas de frente. As mulheres têm de estar em biquíni e os homens de tanga. Numa das mãos, os retratados devem segurar um pedaço de papel com a data atual para garantir que as fotografias ainda são fiéis à realidade. De acordo com a organização, é o próprio guru que decide quem pode ou não participar no acampamento. E para isso, Gregorian Bivolaru tem de ter acesso a informação relevante: as fotografias.
Aquilo que nos era dito é que através dessas fotos conseguiam ver a nossa aura, o nosso estado, para podermos entrar ou não nas iniciações ou nos campos.
Não é a primeira vez que Lara está aqui. Desde que entrou na escola de Lisboa, já veio várias vezes a Costineşti. É uma entre milhares de alunos e professores.
Centenas de pessoas. Não sei bem quantas, mas centenas, se calhar milhares, porque vinham pessoas de todo o mundo. Eram romenos, eram portugueses, vinham pessoas da escola da Alemanha, da escola da Suécia, vinham de todo o lado mesmo. Acabava por ser um momento em que nós conhecíamos pessoas de outros locais do mundo que também estudavam o tantra, portanto acabava por ser uma espécie de intercâmbio.
Mas as fotografias em biquíni ou de tanga também não são suficientes para garantir a entrada. Falta ainda um último requisito. É preciso apresentar os resultados de testes a doenças sexualmente transmissíveis, incluindo sífilis e HIV. Logo que chega ao campo, dão-lhe o cartão de identificação habitual. Para além do nome do participante, o cartão tem a imagem de uma mulher morena em pose lasciva e topless. Pouco tempo depois, recebe um segundo cartão especial. Este ano a experiência de Lara em Costineşti vai ser diferente. Foi escolhida para se juntar às eleitas do guru. O acampamento anual de Costineşti é o evento mais importante do movimento e dura um mês inteiro. É vendido aos discípulos como um momento de intercâmbio e de evolução espiritual acelerada. Há várias iniciações especiais que só são concedidas aqui. Há o concorrido concurso para eleger a Miss Shakti e há o próprio guru, que pode até não estar presente, mas dizem, faz sempre questão de visitar o recinto por telepatia. É em Costineşti, durante estes 30 dias de verão, que as técnicas mais extremas do movimento são postas em prática, incluindo um obscuro ritual tântrico que, segundo a teoria do guru, deveria estar reservado à intimidade com um parceiro amado e que aqui é feito em grupo e registado em vídeo. Para mais tarde Bivolaru poder ver e rever. "Os segredos da seita do yoga" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Episódio quatro: A noite secreta.
Conhecer a verdade muda tudo, muda histórias, muda caminhos. Na estrada também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.
Kia. Movement that inspires. Há centenas de coisas a acontecer ao mesmo tempo. Quando fazem check-in no campo, além do cartão de identificação, os alunos recebem um programa. São dois livros com 500 páginas no total e diferentes fotografias de mulheres nuas na capa e na contracapa. No interior, além da agenda de atividades completa e de mais imagens de mulheres nuas, há recomendações e indicações práticas. Umas são mais específicas. Quem quiser pode fazer nudismo dentro do recinto, mas para praticar ioga na praia, onde há pessoas de fora, é necessário usar fato de banho. Outras são bastante genéricas. Entre o meio-dia e as 15h, o mais prudente é não apanhar sol. No programa também há textos de Gregorian Bivolaru e de outros autores sobre temas tão diferentes como meditação, estados de transe, bioenergias, suplementos anticâncer ou a civilização que existe no centro da Terra e que a NASA está a esconder do resto da humanidade. E depois há alguns avisos que evidenciam que nem só de paz, ioga e amor vive Costineşti. Os alunos são aconselhados a recusar educadamente eventuais perguntas feitas por jornalistas. E são incentivados a denunciar imediatamente qualquer manifestação perversa e insidiosa de pessoas que, dizendo que estão a agir para o vosso próprio bem, estão, na verdade, a semear na vossa alma a maledicência, rumores venenosos e calúnia de toda a espécie.
Às vezes, quando estávamos sentados à frente do palco, antes do Miss Shakti ou antes de qualquer coisa assim, ouvia-se em alto-falante falar de pessoas que saíram da escola e que fizeram qualquer coisa de mal. Só que como a maior parte das coisas era em romeno, eu não percebia. Algumas pessoas traduziam-me. Se a pessoa for uma pessoa que tenha tido alguma importância ali dentro da escola e que possa estar a haver ali alguns rumores da saída da pessoa por algum motivo, eles acabam por tentar incriminar, no fundo, a pessoa internamente para os outros acharem que finalmente aquela pessoa está banida porque fez alguma coisa de mal.
Há décadas que há pessoas a abandonarem o movimento e a tentarem avisar quem ainda está nas escolas de ioga para os abusos que ali são cometidos. E a reação da cúpula é sempre a mesma: negar e desacreditar os detratores. Mas este ano, Lara não vai sentar-se no meio da multidão a ouvir acusações em romeno. Acaba de ser convidada para se mudar para um quarto na Vila Shakti, a casa reservada em Costineşti para as eleitas do guru.
Na Vila Shakti não se vai tanto às conferências e a essas coisas todas que estão no programa, porque dentro da Vila Shakti existe um programa mais específico. Dão-nos também umas ervinhas, umas coisas que nós quisermos tomar. Não é luxuosa. É uma casa grande, porque tem muita gente lá dentro, mas a casa tinha um portão fechado. Não pode entrar lá ninguém que não esteja ali dentro por algum motivo. Está sempre ali alguém à porta a controlar quem entra e quem sai.
Luís só ouviu falar sobre o que se passa na Vila Shakti. Os homens não estão autorizados a entrar.
Só entram mulheres, têm rituais especiais, iniciações especiais. Os únicos homens que eu ouvi dizer que entram lá são canalizadores e eletricistas, caso rebente alguma coisa lá dentro. De resto, não há nenhum homem que entre lá.
As mulheres que têm o privilégio de ficar na Vila Shakti não estão impedidas de sair da casa e de participar nas atividades do acampamento, mas ali têm um programa diferente, portanto, raramente o fazem. Quando está na casa, Lara ouve palestras e pratica ioga, mas não apenas isso.
Lá dentro temos acesso a outros conteúdos. Estamos só mulheres. E novamente, é informação para despertar o estado de Shakti, esse tipo de coisas que se diz sempre ali dentro.
Para atingir esse estado de sensibilidade a que chamam Shakti, faz parte do programa ver filmes. Alguns são eróticos e produzidos pelo próprio movimento. O objetivo é que as discípulas se sintam mais desinibidas e aprendam a interagir sexualmente. Beatriz nunca foi convidada a instalar-se na casa reservada às prediletas do guru, mas este ano vai participar no concurso para eleger a Miss Shakti e conquistar o privilégio de ser vista como uma das mulheres mais especiais do acampamento.
Miss Shakti é o centro da coisa.
Eu lembro-me de um rapaz, eu acho que ele era da Nova Zelândia ou australiano, não sei, que quando estava a falar com mulheres que participaram no Miss Shakti ou estão naquele momento a participar, diz que sentia que estava a falar com uma celebridade, era como estar a falar com um rockstar, porque o ego está alto. Elas são elevadas como: "Uau, corajosa, grande evolução". E são tratadas, são altamente bajuladas, toda a gente ajuda qualquer pessoa que está naquele palco a fazer o Miss Shakti, a fazer tudo durante aquele campo. Davam palmas para todo lado. És tratada como uma estrela de Hollywood por ali estar. Só por participares no Miss Shakti.
O concurso tem várias fases eliminatórias. No total, dura duas semanas e meia. Noite sim, noite não, os participantes no campo de Costa Inesti são chamados a assistir. Em cima do palco, há desfiles em fato de banho e provas de talentos e de cultura geral adaptadas ao yoga e ao tantra. Mas este não é um concurso de misses normal. E Beatriz vai perceber isso ainda antes de o espetáculo começar.
Sabes que aquilo vai-te dar muito trabalho. Tu estás ali num campo de férias de yoga, mas tu sabes que vais deixar de ter tempo, porque há muitos ensaios, há um programa especial, há muita coisa a acontecer. Tu vais, tu inscreves-te. A primeira fase é assinar os contratos e logo de seguida, fotos.
É a primeira vez que as concorrentes estão todas juntas no mesmo espaço, mas o Miss Shakti ainda não vai começar. São umas 200 mulheres de várias nacionalidades, quase todas jovens. Algumas já participaram noutras edições do concurso. Outras, como Beatriz, estão ali pela primeira vez. Há uns três ou quatro estúdios de fotografia improvisados neste armazém. É uma espécie de linha de montagem. As mulheres vão passando e têm de fazer uma pose diferente em cada um. A acompanhar e registar o processo, há videógrafos, que são as chamadas equipas de média do acampamento, as únicas autorizadas a captar em fotos e vídeo o que ali se passa ao longo deste mês. Beatriz está desconfortável. Está completamente nua, mas a verdade é que não é a única. Todas as concorrentes estão completamente nuas. É assim que vão ser fotografadas neste que é o primeiro ato do Miss Shakti, ainda nos bastidores. Recorda-se nesse momento da mensagem que a professora de tantra lhe enviou quando lhe disse que ia inscrever-se no concurso. "Just say yes to everything". Diz sim a tudo. Acalma-se e colabora. Está tudo bem. Estão todas na mesma situação, mas não está preparada para o que lhe vão pedir a seguir.
Tens os fotógrafos, tens todas as equipas de mídia e as primeiras fotos são da tua yoni, ou seja, da tua vagina. Tu tens de te sentar com as pernas abertas, o fotógrafo está bem em cima de ti e a fotografia é de corpo inteiro, identificação, mas também da vagina, o termo em sânscrito é yoni, então nós usamos sempre o termo yoni.
Neste momento, pela cabeça de Beatriz, passam os mesmos argumentos que tantas outras vezes usou na escola de Lisboa para justificar situações em que não se sentia à vontade. Diz a ela própria que a participação no Miss Shakti vai fazer com que evolua espiritualmente. Já sabia que ia ter de fazer coisas incômodas. E não há problema nenhum, porque o mais importante é o que vem depois. Foca-se nesse objetivo.
É só uma fotografia. Naquela nem apareço a tocar, apareço noutra que está antes. Identificas, mas naquela eu sequer apareço a tocar. Mas nem é isso. E ali é: "Ok, eu tenho que fazer isto para chegar a uma fase mais à frente, porque lá mais à frente é que vêm as coisas boas. Isto é só o nível um, isto não interessa para nada. Mais à frente vêm as coisas boas". Tu queres chegar o mais à frente possível e para chegares o mais à frente possível, é just say yes. Então agora é para fazer isto e depois mais giro. É que há mulheres que participam nisto há anos e anos. Então tu vês todas as mais velhas a fazerem e tu começas a chegar para trás e ver: "Ok, elas estão a fazer isto, eu também vou fazer, porque elas já evoluíram muito, já sabem tudo. Então é para fazer, é para sentar ali, abrir as pernas, mostrar a yoni, ser fotografada. Ok, I can do this. Vai por aí. Eu posso fazer isto".
Grigoryan Bivolaru pode até não estar presente fisicamente no acampamento de Costinești, mas está em todo lado. Há espaços equipados com alto-falantes e auscultadores com tradução simultânea, onde se reúnem milhares de discípulos para ouvirem gravações antigas com a voz do guru.
Imaginem o que é vocês irem a outro país e verem 4 mil, 5 mil, 6 mil pessoas numa palestra, todas a ouvir o mesmo que vocês, ou então todas a fazerem a mesma meditação convosco.
Vera também participa em alguns acampamentos de verão. Recorda um sentimento de pertença muito forte e um ambiente de verdadeira adoração a Bivolaru. Ali, são eles contra o mundo.
É muito impactante. Se 6 mil pessoas acreditam neste homem, ele tem que ser genuíno. E nós estamos a falar de pessoas burras. Todas as pessoas dentro do ashram eram licenciadas. Estamos a falar de pessoas que vinham das melhores faculdades e universidades do país e largavam tudo por aquilo.
No interior da Vila Shakti, a devoção é a mesma. A britânica Miranda Grace conta que dentro da casa, todas as meditações, iniciações e práticas eram dedicadas a Grigorian Bivolaru. E recorda as filas que as discípulas faziam para poderem entrar no quarto que era do guru, mas que na altura estava vazio. Ele continuava a ser procurado pela polícia.
Havia ali um grande foco no Bivolaru como guru. Tínhamos de fazer meditações para nos conectarmos com ele. Tínhamos de tirar fotografias sem roupa, que eram enviadas para ele ler a nossa aura. Havia um quarto que nos diziam que era o quarto dele e que como ele tinha estado lá quando era livre, tinha uma energia mais intensa. Algumas mulheres eram escolhidas para passarem uma noite naquele quarto. As mulheres faziam fila para ir meditar lá dentro. Diziam que a energia ali era mais forte.
Quando o espetáculo arranca, estas mulheres já conhecem bem todos os centímetros do palco. Sabem perfeitamente onde cada uma tem de estar em cada instante. Andam há dias a treinar as coreografias, os sorrisos, as poses sensuais, a experimentar vestidos, maquiagem, brincos, colares e pulseiras. Agora, finalmente, o concurso Miss Shakti vai começar.
Era como se fosse um show de entretenimento para quem estava na plateia.
Lara é uma das centenas de pessoas na assistência. Entusiasma-se com o espetáculo, os desfiles em biquíni, as danças em grupo, aos pares ou individuais, e até os momentos de quiz em que as concorrentes param no palco, de papel e lápis na mão, a responder a perguntas sobre yoga e tantra. A máquina está bem oleada. O Miss Shakti é organizado há anos de forma quase profissional. Há até momentos de interlúdio com artistas a atuar entre provas.
Na escola também há pessoas, que neste caso eram romenos, que são comediantes mesmo, romenos, atores. E eles participavam sempre, todos os anos, na envolvência, na construção do espetáculo e faziam também ali umas coisas. Nós tínhamos tradução em simultâneo, estávamos a ouvir, que aquilo estava muito bem montado.
Beatriz está em cima do palco.
Tens uns biquínis que estão sempre a cair, é uma porcaria. Eles dão-te que é para servir para todas, mas é dreads, aquilo é minúsculo.
Há muitas concorrentes que são eliminadas logo na primeira noite. E nas seguintes. Beatriz não está entre elas. Continua focada no objetivo, que é chegar o mais longe possível para alcançar a iluminação e evoluir espiritualmente. Se não conseguir manter-se em prova até à fase final, quer pelo menos chegar à misteriosa noite secreta. Já ouviu falar sobre esse desafio. Das 200 candidatas iniciais, menos de 20 vão chegar a esse momento. E está disposta a fazer mesmo tudo para estar entre elas.
As mais novas que estão a fazer aquilo pela primeira vez, aprendem com elas. É para fazer isto, bora. Porque tu queres mostrar um estado de abertura, tu queres mostrar que não estás fechada, que não tens bloqueios, porque as coisas sacudissem naquela fase. Aquilo era tudo visto como: "Epá, é os bloqueios dela, é os tês, ela está muito bloqueada, muito fechada, não é muito aberta", não sei o quê. Então tu ali: "Não, eu sou super aberta, bora lá".
Só há detalhe. Ainda antes da noite secreta, vai ter de passar por outra prova ainda mais exigente. Está fora do programa e não acontece perante o público, mas é gravado em vídeo para mais tarde um espetador muito importante poder ver.
O programa é tão intenso, tu queres participar nas meditações que começam logo de manhã e queres isto e aquilo, receber a iniciação e ainda participar no programa da Miss Shakti. Estás efetivamente muito cansada.
Beatriz está sentada em posição de meditação há demasiado tempo. Já não tem noção de quantas horas passaram, nem de quantas vezes adormeceu, despertou e voltou a adormecer. A sala não está completamente às escuras, mas quase. Há apenas uns pequenos focos de luz avermelhada. Quando abre os olhos, consegue distinguir os vultos das outras candidatas, mas pouco mais. Está exausta. É a quarta noite do concurso Miss Shakti. Ou será a quinta? Nem isso consegue saber ao certo. E ainda para mais, ninguém lhe explicou o que se vai passar naquela noite. Nesta altura já foram eliminadas quase todas as concorrentes. Restam umas 15 ou 20 e Beatriz é uma delas. Estão praticamente nuas. Além das mulheres, há alguns professores na sala. Têm estado a guiar-lhes as meditações e não há ninguém a assistir. Esta noite do Miss Shakti é fechada ao público. Estão ali há horas, a oscilar entre estados de consciência. A música é cada vez mais intensa. Além das flautas, das cítaras e dos outros instrumentos utilizados para meditar, ouvem-se agora outro tipo de sons. Sons sexuais. Beatriz distingue vozes de mulheres que gemem e gritam em êxtase. Reconhece algumas.
Eu já falei com uma aluna da escola que foi gravada enquanto estava a fazer amor com as suas palavras. E eu sei que os sons dela estão nesta meditação.
Volta a abrir os olhos quando sente que há movimento na sala. Um homem entrega-lhe uma garrafa de água e ordena-lhe que beba. É aí que percebe que só ela e as outras três ou quatro estreantes no concurso, se mantêm imóveis, no mesmo lugar. As outras concorrentes dividiram-se em pequenos grupos. Estão a beijar-se e a tocar-se. O choque é inevitável. Nada do que está a acontecer ali bate certo com os ensinamentos que Beatriz anda há anos a ouvir na escola. Nada daquilo faz sentido.
Há uma coisa que a escola ensinava e que fez logo desde o início para mim fazer todo o sentido, que é: só fazes amor com alguém que amas. E para mim o amor é uma coisa que se construía, não é assim uma coisa que eu já conhecia aquelas pessoas, mas não as conhecia bem. Acabam por ser conhecidas, sei que são da Escócia, sei que esta dá aulas aqui, sei que já estivemos neste ano aquele campo, mas não as conhecia bem.
Olha em volta e vê uma rapariga checa que também está ali pela primeira vez. Afastou-se das outras mulheres. Está a tocar-se, mas está sozinha e parece querer manter-se assim. Beatriz já decidiu que vai fazer exatamente a mesma coisa, mas é abordada por outra concorrente, uma finlandesa com quem já se tinha cruzado.
De repente, porque queria ir e porque queria chegar mais à frente, por todas essas questões, estava a aceitar fazer amor com pessoas que eu conheço mais ou menos ou estar envolvida numa orgia com pessoas que eu conheço mais ou menos. E aí também, se calhar, entra o estado de demência, o estado de sugestão do grupo, de já termos feito não sei quantas meditações, só ouvir orgasmos, de tu própria já estares altamente excitada.
Há vários homens com câmaras no meio das mulheres a filmar tudo o que está a acontecer. Depois, chegam outros com rolos de plástico grosso impermeável, que espalham pelo chão e com grandes vasos transparentes que distribuem pela sala. Na escola de Lisboa, a Beatriz já viu filmes pornográficos assim. É nesse momento que se apercebe do que vai acontecer a seguir. Um dos ensinamentos mais bizarros do guru baseia-se numa teoria desenvolvida por um pseudocientista japonês.
A água é o elemento que mais absorve energia. Quando tu pões palavras de ódio, a água fica toda scattered, fica toda cheia de espigas. Agora, se tu usas palavras de amor Beleza, de elevação espiritual, de tudo. A água fica com cristais extremamente bonitos, extremamente purificada e que te ajudam a elevar. Tu bebes aquilo, ficas com melhores estados, coisas mais bonitas te acontecem na vida.
Terá sido deste princípio que Gregorian Bivolaru partiu para desenvolver a teoria da urinoterapia, que é transmitida aos discípulos do movimento e que faz parte daquilo a que o guru chama o ritual de fazer amor, diz Miranda Grace.
A teoria é que quando fazes amor desta forma tântrica especial, durante pelo menos uma hora, a água no teu corpo muda, deixa de ser urina e passa a ter qualidades diferentes. E quando a bebes, e quando bebes a de outra pessoa, estás a absorver as qualidades positivas dessa pessoa para te tornares uma pessoa mais completa. E também estás a absorver todos os estados espirituais que ela tenha tido durante esse ato de amor.
Segundo o guru, há um objetivo maior nesta orgia em que ela e as outras discípulas de Bivolaru foram levadas a participar, explica Beatriz.
A urina, que é a água que está dentro de ti, que é recolhida dentro de ti, que se tu estiveres num estado muito elevado de consciência, com meditação, com uma boa prática, a urina sai altamente purificada. Mas ali o que é dito é que o teu próprio corpo transmuta a água e o que sai é a parte mais pura, é o melhor que tens dentro de ti e que aquela é toda uma forma de se recolher o melhor uns dos outros e de usar o melhor de cada um para todos evoluírem e para recolher em conjunto. Isto é resumidamente a teoria que está por trás e que a melhor urina que pode ser utilizada na purificação, na tua evolução espiritual, é aquela que é recolhida durante um orgasmo.
Quando as câmaras se desligam, Beatriz nem para pra pensar no que acabou de acontecer. Passou mais uma fase. Vai repetindo como se fosse um mantra: "lá pra frente é que vêm as coisas boas". E a tão ambicionada Noite Secreta é já a seguir. Nem toda a gente do campo pode assistir. Cada concorrente tem direito a levar dois convidados. De resto, só professores e membros da organização podem entrar na sala onde a Noite Secreta está quase a começar. As candidatas ao título de Miss Shakti vão subir ao palco completamente nuas. Mas é ainda nos bastidores que acontece um dos momentos mais importantes do concurso. Cada uma delas recebe uma garrafa com os líquidos recolhidos durante a noite anterior, diluídos em sete partes de água, por indicação do guru.
É considerada uma super fluida, superpotência, é o superalimento de Koestenest. E tu bebes essa água e o que tu estás a invocar ao beber essa água é trazer todos esses estados muito elevados das mulheres que estavam envolvidos nessas dias, que estavam num estado muito elevado, que passaram não sei quantas fases, que estão não sei quanto. Estás a invocar esse estado e a transmutar toda a energia em ti e a beber, é o superalimento da evolução espiritual. É algo assim que é apresentado.
Para a Noite Secreta não há ensaios. As músicas são escolhidas ao acaso pela organização e as coreografias são feitas de improviso. Primeiro a solo, depois a pares ou em grupo. Quando a música dela começa a tocar, Beatriz dança de forma erótica. Em cima do palco, e agora perante uma audiência restrita de convidados, simula atos sexuais com outras concorrentes. Depois disto, vem a grande final do Miss Shakti, mas Beatriz não estará entre as finalistas. Quando esta noite chegar ao fim, a concorrente portuguesa vai ser eliminada. Anos mais tarde, só lamenta não ter sido capaz de perceber o que estava a acontecer e não ter tido capacidade para contrariar o conselho da professora que a incentivou a dizer sim a tudo.
O que eu estava a fazer? O que eu estava ali a fazer? Por que eu não me levantei e não me fui embora?
Como foi eliminada, Beatriz não ganhou o prêmio reservado às primeiras cinco classificadas, escolhidas à distância por Gregorian Bivolaru. O encontro com o guru. No movimento, esta é uma das maiores bênçãos que uma discípula pode receber. Dizem-nos que é uma honra só ao alcance de um grupo muito restrito de eleitas Mas não são apenas as vencedoras do Miss Shakti que são chamadas à presença de Bivolaru.
Era uma grande raça divina. Com o passar dos anos, eu fui tendo noção de que algumas Shaktis, algumas raparigas, tinham a oportunidade de o conhecer. Mas que isso era uma coisa muito especial, muito secreta, que elas não podiam falar sobre isso e que só acontecia às mais especiais. Isso era mesmo para quem fazia uma prática de yoga toda e quem de facto era merecedor, não era para qualquer uma. Nós tínhamos que fazer por merecer.
Vera passa os primeiros anos na escola de Lisboa a desejar ser escolhida pelo guru.
Quando tudo na nossa vida gira à volta de evoluirmos espiritualmente no yoga, que maior evolução espiritual é que nós poderíamos ter do que ouvir as coisas diretamente do mestre?
Um dia, a professora mais sénior da escola vai ter com ela ao ashram. Finalmente aconteceu. O guru quer vê-la. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Todos os dias estava a pensar: quando é que me chamam ao quarto dele? Claro que estas iniciações implicavam que houvesse uma relação sexual com ele, mas ele não me disse isso.
Isto prova o quê? Prova que as pessoas podem ser manipuladas e levadas a fazer coisas impensáveis.
Não foi fazer amor, foi sexo nas posições e na sequência que tinha que ser. Foi horrível.
Se ouviu esta história e está a passar ou conhece alguém que esteja a passar por uma situação semelhante, pode ligar para a APAV, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, através do número de telefone 116006. O Observador contactou a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, a Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga espalhadas pelo mundo, e ainda Gregorian Bivolaru, através dos representantes legais. Foram confrontados com várias questões relacionadas com as alegações feitas ao longo deste podcast. O Observador contactou Gregorian Bivolaru através dos representantes legais. Não responderam. O Observador contactou a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra. A direção não aceitou ser entrevistada, mas respondeu por e-mail a várias perguntas. Seguem-se as perguntas e respostas relevantes para este episódio. O Observador pergunta: qual é a ligação da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, ao MISA? A Natha responde: a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, é uma associação com personalidade jurídica própria, com órgãos sociais próprios, que se dedica ao ensino do yoga e do tantra em Portugal, enquanto o MISA, Movement for Spiritual Integration into the Absolute, é uma organização estrangeira que promove atividades também de caráter espiritual a nível internacional, não existindo qualquer relação jurídica, administrativa, orgânica ou outra. Temos conhecimento que, a título individual, no exercício da sua liberdade pessoal e espiritual, alguns alunos e professores sócios da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, participam em eventos internacionais organizados por essa e outras entidades. O Observador pergunta: os professores e alunos da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, cessaram a participação nos eventos internacionais organizados pela Federação Atman e pelo MISA? A Natha responde: quer a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, quer os seus sócios, são livres e independentes, pelo que cada sócio, professor ou aluno, é livre de participar, a título pessoal, em quaisquer atividades externas. A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, não tem nem considera que deva ter controle sobre isso, pois preza a liberdade da escolha individual de cada um e não acompanha a vida pessoal ou o modo como cada um decide ocupar o seu tempo livre. A participação em eventos organizados por outras entidades é, portanto, uma decisão estritamente individual. O Observador pergunta: o site da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, no separador Quem Somos, faz referência a Gregorian Bivolaru como um verdadeiro mestre espiritual vivo. Qual é a ligação de Gregorian Bivolaru à Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Natha responde: como pode ser verificado nos respetivos estatutos suprarreferidos, a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, não tem qualquer ligação a Gregorian Bivolaru, sendo que o mesmo não desempenha nem nunca desempenhou qualquer função na Natha. Não é, nem nunca foi sócio ou membro dos respetivos órgãos sociais. Podemos dizer é que, como autoridade publicamente reconhecida na área, com vários livros publicados, nos seus cursos, a Natha segue alguns dos seus ensinamentos, pelo que no nosso site apresentamos Gregorian Bivolaru como o coautor do curso de Yoga Integral Esotérico, do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. Sendo que o curso de Yoga Integral Esotérico e o curso de Tantra Yoga Esotérico são apenas dois dos variados cursos que disponibilizamos na Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra O Observador pergunta: qual é a posição da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra face à detenção de Grigorian Bivolaru por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza? A Natha responde: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra repudia de forma inequívoca qualquer forma de violência, exploração ou abuso, ou qualquer tipo de atividades criminosas. Não compactua com atividades ou comportamentos que possam configurar crimes dessa ou de outra natureza. A Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra pauta-se pelos valores éticos do yoga, do respeito pelo ser humano e da integridade individual. Defende que qualquer suspeita ou acusação deve ser devidamente apurada pelas autoridades competentes, no respeito pelo princípio da justiça e do Estado de Direito. O Observador pergunta: a Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra deixou de lecionar aulas escritas por Grigorian Bivolaru? A Natha responde: a resposta a esta questão está clara no nosso site, aberto a todos os que quiserem ler. Grigorian Bivolaru é o autor do curso de yoga integral esotérico, coautor do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. O Observador pergunta: por que motivo se mantém a referência a Grigorian Bivolaru como mestre espiritual vivo no site da Natha Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Natha responde: no contexto do yoga, o termo mestre espiritual designa alguém que, através da sua experiência e prática, inspira e orienta outros no caminho de autoconhecimento e do desenvolvimento interior. A referência a mestres espirituais vivos reflete uma tradição milenar presente em várias escolas de sabedoria presentes em todo o mundo, que reconhecem a importância de pessoas experientes que transmitam conhecimento de forma direta e viva. A nossa menção mestre espiritual vivo deve ser entendida nesse enquadramento filosófico e espiritual, e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do yoga. A Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga do movimento criado por Grigorian Bivolaru, não respondeu diretamente às questões enviadas pelo Observador, mas enviou um comunicado. Nesse texto, a Federação Atman garante não ter recebido, até o momento e por parte da justiça francesa, qualquer comunicação oficial por possível envolvimento no caso. Refuta todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos. Recorda que a investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação. E acusa as autoridades francesas e os meios de comunicação internacionais de perseguição religiosa e de uma campanha midiática que, ao longo de anos, vem projetando a imagem da escola como um culto sexual culpado de lavagem cerebral e abuso sexual. Lê-se no comunicado: o que aconteceu em França é a continuação de uma longa série de ataques contra membros afiliados da Federação Atman e o professor de yoga Grigorian Bivolaru, por forças que consideram intolerável qualquer combinação de erotismo e espiritualidade. No mesmo texto, a federação garante ainda que não é responsável pela vida privada dos funcionários, alunos e professores das escolas afiliadas. Diz que as escolas são independentes e assumem total responsabilidade pelas respectivas decisões e atividades. Acrescenta ainda que condena categoricamente todos os tipos de abuso, incluindo o uso abusivo da força policial e detenções injustas. E por fim, assegura que ensinamentos de comportamento sexualizado nunca foram nem serão tolerados na Federação Atman. "Os Segredos da Seita do Yoga" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Rua, e tem banda sonora original de Benjamim. O guião e as entrevistas são de Mariana Marques Tiago e Tânia Pereirinha. A sonoplastia e desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é Diana Moreira. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
