22 de dezembro de 2009. Passam duas semanas desde que Rosalina Ribeiro foi assassinada, após um encontro com o advogado e ex-deputado Duarte Lima. Os amigos da antiga companheira do milionário Lúcio Tomé Feteira começam a chegar ao Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. Alguns estão já na capela 6.
São 9h30, falta ainda 1h30 para o início do funeral. Um carro vermelho pára no exterior do cemitério, no bairro de Botafogo. Do Fiat Pálio saem dois homens com passo apressado. Aurílio Nascimento e Rogério Lima são investigadores da Divisão de Homicídios da Polícia Civil e vão numa missão, por isso não podem dar nas vistas. Nas últimas horas foi-lhes entregue o inquérito que investiga a morte da portuguesa de 74 anos. Por esta altura, sabem apenas que era muito rica e que o corpo foi encontrado no dia 8, muito longe da sua casa, no bairro do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro.
Na mão, os polícias levam uma Bíblia oca, que esconde uma câmara e um microfone. E os botões de punho das camisas são gravadores disfarçados. Quem já estava no cemitério, como Maria Alcina, fadista radicada há décadas no Brasil, apercebe-se da chegada dos dois homens. Mas ninguém os reconhece de nenhum contexto. Aurílio Nascimento lembra ao Observador que, quando chegaram ao funeral, a primeira coisa que fizeram foi ir “à casa de banho para ligar os equipamentos”.
O objetivo daquela diligência é claro: perceber melhor quem são e o que sabem os amigos sobre o crime. No relatório final da investigação, os polícias escrevem mais tarde que, de relevante, “foi possível saber que a vítima se encontrava em uma longa disputa jurídica, tanto no Brasil quanto em Lisboa, envolvendo a milionária herança deixada por Lúcio Tomé Feteira”. No documento, a que o Observador teve acesso, pode ler-se ainda: “Os comentários eram de que, provavelmente, o crime deveria estar ligado a esta disputa”.
O episódio é recordado no primeiro episódio do mais recente Podcast Plus do Observador, “As Sombras de Duarte Lima”, que esta sexta-feira, 23 de outubro, foi disponibilizado em antestreia no site do jornal e em todas as plataformas de podcast — e pode ser ouvido aqui:
As suspeitas dos amigos: Olímpia Feteira e Duarte Lima
No cemitério, os polícias vão-se aproximando das pessoas — não são mais de 20 no total — e limitam-se a ouvir essas conversas. Tudo está a ser gravado, sem que ninguém se aperceba.
Também lá está o advogado brasileiro de Rosalina, Normando Marques, que por essa altura já falou ao telefone com Duarte Lima. A versão do advogado e político português sobre o encontro que teve com Rosalina no dia 7, pouco antes de ela ser assassinada, causa-lhe muitas dúvidas. Há coisas que não batem certo.
Duarte Lima tinha dito que após o encontro deixou a cliente, já de noite, na pequena cidade de Maricá, com uma mulher chamada Gisele, que estaria interessada em comprar parte dos terrenos da herança. E que essa teria sido a última vez que a tinha visto com vida.
“Os poucos presentes no velório também teceram comentários a respeito do encontro de Rosalina com seu advogado português Domingos Duarte Lima, achando-o estranho, pois fugia a todos os padrões de comportamento da vítima”, que tinha receio de sair à noite no Rio de Janeiro, relatam mais tarde por escrito os investigadores.
Ao longo de uma hora, Aurílio e Rogério ouvem inúmeras conversas. E reparam que muitos dos presentes no funeral levantam também suspeitas sobre outra pessoa que também não está lá: Olímpia Feteira.
Polícias identificam-se após o funeral e intimam logo alguns amigos
A relação de Rosalina Ribeiro com a filha do companheiro sempre fora conturbada e os amigos tinham consciência de que nos últimos anos as mulheres não podiam sequer ver-se. Para Olímpia, Rosalina não passava de uma amante de Lúcio Feteira. Achava que a antiga secretária do pai apenas se aproveitara do milionário para enriquecer.
E o sentimento era recíproco. O facto de Olímpia ter nascido de uma relação extraconjugal do milionário de Vieira de Leiria, que foi casado com Adelaide Feteira até ao fim da vida, fazia com que fosse descrita por Rosalina como alguém que apenas se interessava pelo dinheiro do pai.
Aurílio Nascimento recorda ao Observador que “ainda no velório”, já no final, intimaram “algumas pessoas que pareceram muito próximas da vítima” a comparecer na esquadra, para mais tarde serem interrogadas. “Uma foi a Maria Alcina, mas também intimámos as filhas dela e outras pessoas que mostravam ter muita afinidade e muito conhecimento da vítima”.
Foi apenas nessa altura que os amigos de Rosalina Ribeiro ficaram a saber quem eram aqueles dois homens que nunca antes tinham sido vistos com ela.
Pelas 12h, os polícias deixam aquela espécie de panteão, no bairro de Botafogo, onde estão sepultados Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carmen Miranda, Machado de Assis, Santos Dumont e Marcello Caetano. Regressam de imediato à Divisão de Homicídios, informam o delegado Felipe Ettore, que lhes atribuiu o caso, e sublinham que há três coisas essenciais a reter sobre a vida da vítima e sobre quem lhe podia querer mal: estava em guerra por causa de uma herança; tinha uma relação de ódio com Olímpia Feteira, filha do seu falecido companheiro; e horas antes de morrer tinha tido um encontro misterioso com o seu advogado português.
As buscas a casa e os pedidos às operadoras
Aurílio Nascimento e Rogério Lima acham que está na hora de avançar para buscas domiciliárias à casa de Rosalina Ribeiro, no bairro do Flamengo, e para o levantamento do sigilo telefónico — para que as operadoras possam enviar os registos de chamadas feitas e recebidas pela vítima. Felipe Ettore concorda. Nesse mesmo dia, os investigadores vão ao apartamento 701, no número 60 na Avenida Praia do Flamengo.
Voltariam a ver algumas das pessoas que estavam presentes no funeral — umas na esquadra, outras na missa de sétimo dia de Rosalina Ribeiro, celebrada no dia 28 de dezembro, na Igreja Santa Terezinha, em Botafogo. No relatório final de investigação, os polícias hão de escrever que se “notou um reduzido número de presentes” na cerimónia. Mas que, “mais uma vez”, os presentes voltaram aos “mesmos comentários entreouvidos anteriormente durante o velório”.
Os nomes que, nesse momento, mais interessavam à investigação, voltaram a não marcar presença. Nem Domingos Duarte Lima nem Olímpia Feteira, ambos portugueses, estiveram na missa.
Rosalina Ribeiro foi assassinada a 7 de dezembro de 2009, no Rio de Janeiro, a 60 quilómetros da sua casa na Avenida Praia do Flamengo. O crime aconteceu em Saquarema, tendo o corpo sido encontrado no dia seguinte de manhã, na berma de uma estrada. Duarte Lima, ex-deputado do PSD e advogado da vítima, foi desde o início um dos principais suspeitos. E acabou mesmo por ser acusado do homicídio de Rosalina Ribeiro pelo Ministério Público do Brasil em 2011. O processo foi depois transferido para Portugal, no final de 2020. Após seis anos, e vários adiamentos, o arranque do julgamento está agora marcado para 5 de novembro.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]