Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este episódio contém descrições de violência sexual que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Alguns nomes foram alterados para proteger as identidades dos entrevistados. Nesses casos, as vozes foram modificadas com recurso a inteligência artificial. 23 de abril de 2010 é um bom dia para Gregorian Bivolaru. Dois anos depois do início do julgamento à revelia em Bucareste, é absolvido das acusações de perversão sexual, tráfico de pessoas e relações sexuais com menor. Pela primeira vez em seis anos, o guru está livre de processos. Vive ainda na Suécia, que lhe concedeu asilo político, e continua a liderar uma organização que não para de crescer. Decide até processar o Estado romeno e pedir uma indemnização de €20000 por danos morais. Nunca esteve tão bem. Mas isso vai durar muito pouco. Na Finlândia, no outono de 2012, depois de um raide no ashram em Helsínquia, as autoridades acusam Gregorian Bivolaru de abuso de autoridade espiritual, de abuso sexual de mulheres e de tráfico humano. E na Roménia, à segunda tentativa, o Ministério Público consegue fazer passar um recurso contra a decisão do tribunal de primeira instância. O Estado não lhe vai pagar qualquer indemnização e em junho de 2013, o guru é finalmente considerado culpado de um dos crimes de que era acusado: manter relações sexuais com uma menor. São seis anos de prisão efetiva para Gregorian Bivolaru. Mas para que a pena seja cumprida, a polícia vai ter de o conseguir encontrar. Há um mandado de captura europeu emitido pela Roménia em nome de Gregorian Bivolaru há mais de dois anos. Mas isso não muda nada. Nada vai impedir que centenas de discípulas de escolas de todo o mundo continuem a ser levadas regularmente ao quarto do guru para serem iniciadas. Na escola de Lisboa, é dito às alunas que todas as iniciações são uma forma de progredir espiritualmente, mas as que são feitas por Bivolaru são as mais especiais. São diferentes de todas as outras por vários motivos. Primeiro, são iniciações práticas, não teóricas. Segundo, destinam-se exclusivamente a mulheres. E terceiro, só acontecem a quem realmente merece. Numa primeira fase, ainda nas aulas, as discípulas recebem a iniciação das posições eróticas, uma espécie de livro de instruções de como devem proceder no momento em que fizerem amor de forma tântrica. Depois, algumas são escolhidas para receber o que lhes dizem ser um aprofundamento dessas técnicas. Mas isso tem de ser feito presencialmente com o próprio guru e tem de ser mantido em segredo. As eleitas não podem contar a ninguém, nem dentro nem fora da escola. E para segurança de Bivolaru, também não sabem para onde vão. São levadas até ele e quando chegam ao destino, ouvem repetidas vezes que estão ali por serem especiais, que o guru as escolheu com carinho e com propósito e que elas são melhores do que todas as outras. É por isso que dificilmente alguma recusa aquela bênção espiritual. Convencem-nas de que se disserem que não ao guru, vão arrepender-se. "Os Segredos da Seita do Yoga" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Episódio cinco: No quarto do guru.

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Kia. Movement that inspires. Quando uma das principais professoras da escola de Lisboa lhe disse que tinha um convite para conhecer o guru, Vera resistiu. E se eu não for? A resposta não foi aquela que queria ouvir. Tratava-se de uma dádiva a que poucas mulheres tinham acesso. Se recusasse, ia sofrer uma quebra espiritual muito grande.

Do nada eu recebi uma chamada do estrangeiro, ao fim de alguns dias da professora falar comigo, e eu atendo. Elas dizem do outro lado que era para confirmar que eu vou naquelas datas e eu, de primeira vez, pergunto: "Mas eu tenho um problema, eu preciso justificar à minha família por que vou estar fora incontactável. O que eu lhes digo?". E a chamada cai.

Vera já devia saber. O guru não gosta que se façam perguntas. Quando ele chama, as discípulas vão, sem questionar. Neste caso, havia ainda outro motivo para o telefonema não se poder prolongar. Se a chamada durasse muito, podia ser rastreada pelas autoridades. E Gregorian Bivolaru era um homem procurado pela polícia. O convite ficou imediatamente sem efeito. Disseram-lhe na escola que, muito provavelmente, nunca mais ia voltar a ser chamada para conhecer o guru. Efetivamente, passa muito tempo, mas o telefone volta a tocar. E quando isso acontece, Vera está preparada.

Tinha de pôr fé e fazer as coisas em condições, senão não tinha direito a iniciação nenhuma. Ia cair no meu caminho espiritual. Ia ser malvista, de certeza, pelas pessoas da casa, porque novamente não tinha feito bem as coisas.

Estamos em 2016. Gregorian Bivolaru foi condenado há quase três anos a uma pena de prisão efetiva. Mudou-se para a França e está a viver na clandestinidade. Vera aterrou em Paris há poucas horas. Esperou que a fossem buscar junto a um jardim. Chegou a temer que se tivessem esquecido dela ou então que tivesse percebido mal as instruções e estivesse no sítio errado. Mas acabou por aparecer um carro. Depois de entregar o telemóvel e o passaporte à mulher que a foi buscar, Vera teve de pôr uns óculos escuros com as lentes pintadas por dentro. Foi levada para uma casa e trancada num quarto. É ali que está agora incontactável. Tem autorização para ir à casa de banho e mais nada. Mas não se sente maltratada. Bem pelo contrário.

Assim que eu chego, muitas vezes foi reforçada a ideia do "tu és tão especial por estares aqui, és tão especial. Foste escolhida por estar aqui, és muito especial".

Não fica nesta casa muito tempo. Mais uma vez, Vera tem de pôr os óculos escuros pintados por dentro e é levada para outra localização. Mas agora já não está sozinha. Nesta casa estão muitas discípulas, todas à espera de serem levadas à presença do guru. É um ashram normal e exclusivo para mulheres. Os poucos homens que têm autorização para ali entrar fazem-no de cabeça baixa, evitando qualquer interação. E são rápidos a fazer as tarefas, sejam elas despejar o lixo ou entregar comida. É nesta casa que Vera começa a ser preparada para aquilo que vai ter de fazer quando finalmente se encontrar com o guru.

Comecei a, todos os dias, ver vídeos com testemunhos de raparigas que se tinham encontrado com o Griga e que diziam que tinha sido beatífico, divino, a maior experiência de amor que alguma vez tinham tido na vida delas, que estar com ele era uma graça divina e, portanto, esta cassete, toda a gente nos dizia a mesma coisa e a mensagem era reforçada sem parar.

De cada vez que um desses vídeos termina, começa um novo, mas com conteúdo pornográfico. Durante várias horas, Vera é forçada a ver cenas de sexo em grupo e de urinoterapia. E quando o vídeo chega ao fim, tem de ouvir um novo testemunho. Está a ser vítima de condicionamento psicológico, explica António Madaleno, autor do livro "O Universo das Seitas Destrutivas".

E esse condicionamento psicológico, essa lavagem cerebral que ela sofreu nesse período de tempo, tornou-a permeável a aceitar essa prática, que ela normalmente nunca aceitaria se fosse num caso normal, numa vivência normal. Mas lá está, isto prova o quê? Prova que as pessoas podem ser manipuladas e levadas a fazer coisas impensáveis.

Até aqui, Vera tem se refugiado na ideia de que o encontro que vai ter com o guru poderá não ser uma iniciação sexual. Mas sentada em frente à televisão, começa finalmente a admitir que é isso que vai acontecer. Mesmo assim, ainda quer acreditar que lhe vai ser dada uma escolha.

Na minha inocência, eu pensava: "Não, mas eu vou ter tempo para o conhecer, para falarmos, para eu decidir se quero ou não. Eu vou ter tempo".

Vera está há quase 48 horas a ver testemunhos de mulheres que foram iniciadas por Bivolaru, quando lhe dizem que vai ser levada outra vez. É nessa terceira casa que vai finalmente encontrar-se com o guru. Está nervosa, esperou muito por este momento. Dizem-lhe que só pode levar uma escova de dentes e a roupa que tiver vestida, que tem de ser o mais sexy possível. Dão-lhe um casaco e um chapéu para se tapar. Entra no carro e uma vez mais põe uns óculos escuros com as lentes pintadas. Deve manter os olhos fechados durante o caminho. Explicam-lhe que é tudo para proteger o guru, que continua a ser procurado injustamente pela polícia. Quando o carro finalmente para, Vera é levada para a cave daquilo que lhe parece ser uma moradia e mais uma vez, volta a ser fechada num quarto, ainda mais pequeno do que o anterior, e onde nem sequer está sozinha. A divisão é do tamanho de uma despensa e nem tem janelas. Mas ao longo dos próximos dias vão dormir e viver ali várias mulheres. Em alguns momentos, vão chegar a ser quatro ao mesmo tempo. Todas vêm de países diferentes e todas estão sujeitas às mesmas regras. Só podem sair do quarto para ir à casa de banho. Afinal, a espera ainda não acabou.

Eu fiquei quase três ou quatro dias num quarto que tinha 2 por 2, portanto, 4 m², não tinha mais do que isso. Cabia um colchão num 40 por 2 e à volta tudo estantes de livros. Mal havia espaço para nós metermos o pé fora da cama.

Assim que Vera se instala, passam-lhe para a mão alguns dossiês com aquilo que dizem ser ensinamentos secretos. Deve estudá-los para se preparar para o encontro com o guru. São livros com parábolas e lições retiradas de várias religiões, documentos sobre fundamentos esotéricos e espirituais, e textos sobre a importância de beber a urina do amante como forma de atingir a imortalidade e a elevação espiritual. Sem mais nada com que ocupar o tempo, Vera lê todos os dossiês e quando acaba, começa outra vez. Já passaram quatro dias desde que chegou ali. Está cada vez mais impaciente e frustrada. Já foram chamadas várias mulheres ao quarto do guru. Algumas passaram horas lá dentro, outras apenas uns minutos. De cada vez que a porta do quarto se abre, Vera acha que vai ser a vez dela.

Todos os dias estava a pensar: "Quando é que me chamam ao quarto dele?" E eu ouvia as outras raparigas ir ao quarto dele, e não ouvia sexo, por assim dizer. Havia sempre música ao ar, mas eu não sabia exatamente o que elas estavam a fazer lá dentro. Mas ao fim destes quatro dias, eu estava a contar os minutos para o meu voo.

Vera está a chegar ao limite. No dia seguinte, tem de apanhar o avião e voltar para Portugal. O voo está marcado para às 9 h e Bivolaru continua a chamar toda a gente, menos ela. Lembra-se da mãe. Não lhe disse que ia estar fora do país. Inventou uma mentira, um retiro de silêncio algures em Portugal, mas garantindo que lhe telefonava assim que saísse de lá.

E eu conheço a minha mãe. A minha mãe, se não falasse comigo naquele dia, às tantas horas, ela ia mover montes e fontes, mas ia me encontrar e ela ia chamar a polícia se fosse preciso.

Perder o voo de regresso a Lisboa está fora de questão. Vera não vai continuar nem mais um dia naquela casa. Mesmo que isso signifique não ser iniciada pelo guru. São 5 h da madrugada. Vera está a dormir profundamente. Foi para a cama zangada. A viagem até Paris foi uma perda de tempo e agora só quer apanhar o voo de regresso Mas alguém abre a porta do quarto, onde esteve fechada durante as últimas 96 horas, e chama-a. É agora. Atravessa o corredor ensonada e finalmente abre a porta do quarto do guru. Gregorian Bivolaru é um homem velho, de cabelos grisalhos, compridos e despenteados. Está sentado na cama. Pede-lhe que entre e fecha a porta. Desde que ele chegou, Bivolaru passou duas ou três vezes no quarto minúsculo onde ela estava com outras mulheres, mas foi sempre muito rápido. Apresentou-se, fez umas piadas. Noutra ocasião, zangou-se com uma das discípulas porque ela não estava a ser suficientemente feminina. Agora, Vera está finalmente sozinha com ele. Pela primeira vez, fica cara a cara com o guru, o guia espiritual que segue há quase seis anos, o fundador do movimento que lhe mudou a vida por completo.

Eu estava à espera de olhar para ele e de sentir alguma coisa, tipo Jesus. E não foi nada disso. Era só um velho. Era só um velho num quarto desarrumado. E faltavam quatro horas para eu querer ir embora.

Trocam uns cumprimentos de circunstância. Depois, o guru diz-lhe aquilo que ela já sabe: "Vais ter uma iniciação". Pergunta-lhe se já aprendeu, na teoria, as posições para fazer amor de forma tântrica. Ela diz-lhe que sim e o guru dá-lhe uma garrafa de água. Vera tem de beber aquele litro e meio de seguida e se não conseguir é porque tem espíritos malignos dentro dela, diz-lhe Bivolaru. Vera engasga-se algumas vezes, mas não para. Já não tem dúvida nenhuma. A iniciação vai ser sexual.

Em teoria, o ritual de fazer amor é este. Começa-se desta forma, bebe-se não sei quanto de água. Começam por essa posição, esta é a sequência. E isto é para tu só fazeres com alguém que tu ames de verdade e com o teu parceiro.

Gregorian Bivolaru não é o parceiro dela. Ali não há amor envolvido, mas Vera continua a obedecer.

Eu achava que se me fosse feito o convite para alguma iniciação com ele, que eu teria tido tempo de o conhecer, de privar com ele, de decidir se queria ou não queria, de decidir se havia amor ou não. E eu estava convencida de que eu queria. Eu tinha escrito não sei quantas vezes que eu consentia. Se eu não quisesse, eu era um ser liberal. Portanto, o que quer que fosse a iniciação, naquele momento, eu já só queria fazê-la rápido para vir embora para Portugal.

A iniciação começa. Vera não faz ideia de quanto tempo passam em cada uma das posições.

Não foi fazer amor, foi sexo. Nas posições e na sequência que tinha que ser.

Estão ambos em silêncio. Até que ela comete um erro e Bivolaru a repreende. Vera enganou-se ao fazer uma transição entre duas posições sexuais. O guru está furioso. Acusa-a de não estar preparada para receber o conhecimento que ele se dispôs a partilhar com ela. Diz-lhe que não podem continuar. A iniciação acabou.

Eu lembro-me de me sentar na minha cadeira no avião e pensar: "Foi horrível. Foi horrível." Não foi nada daquilo que eu tinha imaginado. E de pensar: "Eu não posso falar disto com ninguém, mas será que isto foi assim para as outras?" Não tinha corrido bem, não tinha sido bonito, não tinha sido divino, nem místico, nem coisa nenhuma que se pareça.

Vera já está sentada no avião, prestes a descolar, quando consegue finalmente parar para pensar. São 9h00. Passou as últimas horas a correr. Voltou a pôr os óculos escuros e a entrar no carro onde já estava a mala dela. Antes de a deixarem no aeroporto de Paris, devolveram-lhe finalmente o telemóvel e o passaporte. Dentro de duas horas e meia estará de regresso a Lisboa. O guru, por quem tanto tinha esperado, não a tinha desiludido apenas. Quando chega a Portugal, Vera sente-se profundamente humilhada, triste e sozinha. Por sete vezes jurou por Deus, pela mãe, pela família, pela própria vida e pela evolução espiritual futura. Nunca iria contar a ninguém o que se tinha passado com Gregorian Bivolaru. Mas à medida que os dias passam, o desespero aumenta. Precisa falar sobre o que aconteceu em Paris. Pede ajuda a uma professora, conta lhe o que fez e como se sentiu. E a professora diz que se alguém errou, só pode ter sido ela, nunca o guru.

Ela tentou evitar a máxima conversa e disse: "Olha, se calhar fizeste alguma coisa de errado ou se calhar é um bloqueio teu".

É uma das características mais comuns das seitas, explica António Madaleno. Quem comete a falha é sempre levado a crer que o problema está nele.

A pessoa, quando falha ou quando tem dúvidas, quando tem questões ou quando começa a questionar o que anda aqui a fazer, por que estou a fazer isto? É ensinado dentro do grupo que o problema nunca é do líder, nunca é do grupo. A culpa é sempre da pessoa. A pessoa é que é fraca. A pessoa é que não tem o nível de espiritualidade ou de iluminação, ou de evolução que deveria ter.

Pela primeira vez em quase seis anos, Vera começa a ter dúvidas. Não lhe parece que a professora tenha razão. Aquilo que aconteceu em Paris, pura e simplesmente, não bate certo com as teorias e os ensinamentos que anda há anos a ouvir na escola de Lisboa. António Madaleno explica que há um nome para este processo. Vera está a passar por uma fase de dissonância cognitiva. Percebeu finalmente que há muitas contradições no movimento e que nem os professores nem o guru estão preocupados com a evolução espiritual dela.

Isto são lutas internas muito grandes que as pessoas sofrem quando estão nestes grupos e que não é fácil a pessoa conseguir sair. É muito difícil conseguir sair de uma seita destrutiva.

26 de fevereiro de 2016. Vera está no ashram sozinha, precisamente a viver essa luta interna, quando recebe a notícia. Gregorian Bivolaru acaba de ser detido. O guru do yoga, procurado há anos, foi finalmente apanhado por agentes da Brigada Nacional de Investigação de Fugitivos, um departamento da Polícia Judiciária francesa. Andava a passear numa feira do livro em Paris. Dentro de cinco meses, quando o guru for extraditado para a Roménia e começar a cumprir pena em Bucareste, Vera já não vai estar a viver no ashram de Lisboa. Quer ter uma empresa, começar uma família e ser mãe. Corta com a escola e com todos os amigos que lá ficam. Está feliz pela decisão que tomou e pela prisão do guru. Mas só um destes dois sentimentos vai durar. Em menos de 13 meses, Bivolaru vai voltar a estar livre, vai voltar a Paris e vai voltar a convocar discípulas para as iniciações. Lara não consegue parar de olhar para o relógio. Tem de esperar alguns minutos até poder tirar todas as dúvidas. E quando finalmente o tempo passa, confirma: está grávida. Tem 31 anos, vive no ashram de Lisboa e o namorado, com quem tem uma relação atribulada, nem sequer está na escola de yoga e tantra. Um filho vem estragar todos os planos. Sente-se ansiosa. Não estava a tentar engravidar e até insistiu com o namorado para que praticassem a continência sexual. Mas é contra o aborto. Defende que é preciso assumir as consequências de todas as ações. Abalada e sem saber o que fazer, Lara recorre ao guru.

Pensei: "Ok, eu estou aqui, estou nesta escola. Ele supostamente é o meu mestre. Eu posso ainda não o sentir completamente como meu mestre, mas se calhar ele até me pode dar um apoio". E acho que fui um bocadinho assim, no desespero, tentar pedir-lhe algum auxílio ou alguma orientação. E pronto, foi por isso que eu acabei por enviar uma carta.

Pouco tempo depois, uma aluna da escola chama-a à parte. Diz-lhe que o guru leu a carta e quer encontrar-se pessoalmente com ela. Gregorian Bivolaru foi posto em liberdade condicional no dia 7 de setembro de 2017 e saiu imediatamente da Roménia. Exatamente 11 dias depois, a Finlândia emitiu um mandado de captura em nome dele e o guru voltou a fugir. Está a ser investigado pela prática de cinco crimes de tráfico agravado de seres humanos em território finlandês e francês e entrou diretamente para o topo da lista dos mais procurados da Interpol Lara chega à capital francesa um ano e dois meses depois de o guru se ter voltado a refugiar em Paris. É uma noite fria de novembro. Está assustada e fica ainda mais quando o motorista que a apanha algures no centro da cidade lhe ordena que ponha uns óculos de sol com as lentes pintadas por dentro. Mas não reclama nem faz perguntas, porque está ali com um objetivo: desabafar com o guru e ouvir os conselhos que ele tem para lhe dar. E para isso vai fazer o que for preciso.

Aquilo é como se fosse uma casa com uma garagem. A carrinha para à frente da garagem e nessa garagem é o posto de controlo, é onde eles recebem os cartões de cidadão, os documentos das pessoas, fica ali tudo, têm um computador e têm lá coisas escritas, vão lá apontando coisas. O telemóvel também. Nós entregávamos sempre os documentos e os telemóveis. Nós não podíamos ter telemóveis.

Quando entra na casa, Lara encontra mais mulheres de várias nacionalidades e uma outra portuguesa com quem ainda tenta travar amizade, mas sem sucesso. Quase nem falam. A rapariga parece estar sempre ocupada com alguma coisa. Ficam a dormir em quartos separados e alguns dias depois a portuguesa desaparece. Lara nunca mais há de voltar a vê-la. O tempo demora a passar na casa de Paris e Lara fica cada vez mais impaciente. Bivolaro é a única pessoa que sabe que ela está grávida e Lara tem muita coisa para organizar em Lisboa. Não tem tempo a perder. Sem relógio nem telemóvel, não sabe há quantos dias espera ser chamada por Bivolaro. Tem passado o tempo ansiosa e aborrecida, a fazer ioga, ler e escrever. Tem um caderno com uma capa cor-de-rosa, o único objeto que foi autorizada a manter. Ganhou o hábito de escrever tudo nas aulas da escola de Lisboa. A informação era tanta que precisava de apontar para não se esquecer de nada. E é neste caderno que vai anotar tudo o que vê e tudo o que lhe é dito. Farta de esperar por ser chamada, decide agir. Escreve uma nova carta ao guru. É dia 2 de novembro de 2018 e no papel lê-se que não está confortável na casa onde a têm mantido. "Não sei como processar tudo o que está a acontecer na minha vida neste momento. Tento manter a calma, mas não consigo parar de chorar. Espero poder encontrar-me contigo e receber algumas orientações o mais cedo possível. Também desejo voltar a casa e falar com a minha mãe. Obrigada por me receberes aqui. Queria estar mais presente e atenta a todas as bênçãos que tenho recebido, mas não me sinto bem." A carta resulta e pouco tempo depois, Lara é finalmente chamada. Desce até à garagem, entra no carro e volta a pôr uns óculos escuros. Minutos depois, chega ao destino. A casa onde o guru se esconde é pequena. Tem um corredor principal cheio de estantes encostadas à parede. Nas prateleiras estão livros de meditação e ioga, mas também DVDs com filmes pornográficos. As estantes tornam o corredor tão apertado que é quase impossível duas pessoas cruzarem-se. Lara entra na primeira porta à esquerda e é aí que Bivolaro espera por ela. Não há luz natural no quarto, mas há um candeeiro aceso.

Quando eu entrei especificamente, lembro-me de me aperceber do cheiro do quarto, que era um cheiro a sexo, um cheiro que fica no quarto quando as pessoas têm relações, um cheiro assim esquisito.

O espaço não é acolhedor e está desarrumado. Há lixo, restos de qualquer coisa que o guru deve ter acabado de comer e mais livros e outra grande pilha de DVDs, tudo espalhado pelo chão. Só há uma peça de mobília: a cama. E é lá que Lara se senta, lado a lado com Bivolaro. O guru começa por lhe fazer várias perguntas pessoais. Lara nem quer acreditar.

Ele questionou-me várias vezes coisas como se não soubesse nada sobre mim, mas aquilo que se dizia na escola era que ele era uma pessoa que sabia tudo, que olhava para nós e saberia sempre Tudo o que nós fazíamos, o que nós teríamos dito sobre ele, tudo. E aquilo que eu notei na presença dele é que isso não seria real, porque ele questionou-me muitas coisas sobre mim que ele não parecia saber.

Quando ele lhe toca, não sente a energia a circular lhe pelo corpo, sente repulsa.

Eu notei também que ele tinha um aspecto muito esquisito. Tinha as unhas dos pés enormes, com muito mau aspecto.

Nas aulas de tantra em Lisboa, Lara aprendeu o conceito de transfiguração, uma técnica que permite ver os outros para além do aspecto físico. Para pôr o ensinamento em prática, só tem de olhar Bivolaru nos olhos muito fixamente, como se quisesse ver-lhe a alma. Mas nem tenta fazê-lo. Não está a gostar da forma como ele lhe fala. Já lhe disseram que o guru trata as pessoas como elas precisam de ser tratadas. Mas Lara tem a certeza de que não precisa daquilo. Bivolaru quer convencê-la a abortar o bebê. O guru vai direto ao assunto. Diz-lhe que o namorado é impulsivo e receptivo à influência de entidades satânicas e que não está apaixonado por ela. Lara aponta tudo no caderno de capa cor-de-rosa. Não quer esquecer-se de nenhum detalhe.

Eu, neste caderno, escrevi aquilo que eu senti quando estive perante o guru e as coisas que ele me disse. E disse-me que aquilo que tinha acontecido, neste caso, o facto de eu ter engravidado, era um erro que não era divino, que era uma irresponsabilidade dele e que era uma estupidez minha, que a única solução era o aborto.

Bivolaru acredita que os filhos roubam a aura da mulher e que a afastam do caminho espiritual. E diz que se Lara não seguir as suas indicações.

Iria ter uma vida trágica, ia ficar sozinha com uma bebê e que os homens dificilmente se iriam voltar a aproximar de mim. Disse-me que tinha muitos conhecimentos de biologia e que devido à minha estrutura, eu iria ter que fazer cesariana e isso ia me trazer complicações e dores irreversíveis sempre que eu voltasse a fazer amor, que eu iria ficar com uma cicatriz que me ia trazer complexos de inferioridade quando voltasse a estar nua. Depois falou das questões financeiras, que eu precisava de ter dinheiro para ter um filho e que não ia ter hipótese de me ausentar, tinha que estar sempre com ele.

Se Lara tomar a decisão mais sábia, diz-lhe Bivolaru, terá uma forma de purificar o corpo e a mente.

Disse que caso eu abortasse, existia um tapas especial para queimar o carma dessa ação, que durava três anos e meio.

Um tapas é um compromisso que se assume e que obriga a uma prática espiritual intensiva e uma grande disciplina. Dependendo das situações, é definido um ritual que tem de ser cumprido escrupulosamente. No papel escrito em romeno que Bivolaru lhe passa para as mãos, estão descritas as quatro posições de ioga que Lara deve fazer todos os dias, durante todo aquele tempo. Há ainda outra indicação escrita no papel: "Massajar os seios com um óleo especial para desenvolver harmoniosamente o seu volume. Podemos fornecer-lhe uma receita muito especial de ervas para promover o crescimento harmonioso. Desejamos-lhe muito sucesso". Lara tinha a esperança de que o guru a apoiasse e lhe dissesse o que deveria fazer para que o namorado mudasse de atitude. Garante que abortar não era mesmo aquilo que queria fazer. Está insatisfeita com a forma como o encontro está a correr e mais tarde há de escrever no caderno que, ao contrário do que era suposto, não se sentiu feliz por estar com ele. Bivolaru dá-lhe uma última indicação. Dentro de poucos dias e antes de fazer o aborto, Lara tem de voltar àquele quarto para ser iniciada por ele.

E depois ele disse-me que eu iria receber três iniciações, uma para a continência sexual, outra para as posturas amorosas dos chakras, que eram posturas sexuais. Mas que cada postura ativava-se um chakra.

Lara diz que já não se recorda do teor da terceira iniciação, mas sempre soube exatamente o que iria acontecer se voltasse ao quarto do guru.

Claro que estas iniciações implicavam que houvesse uma relação sexual com ele, mas ele não me disse isso. Eu é que sabia, porque já toda a gente sabia que era assim.

Na altura, conta, toda a gente sabia que o encontro com o guru era sinônimo de sexo. Não era dito explicitamente, e muito menos escrito, mas era comentado entre as mulheres do movimento. Mesmo antes de Lara sair do quarto, o guru dá-lhe três DVDs. Diz-lhe que deve vê-los para se preparar para as iniciações. O que não lhe explica é que são vários filmes pornográficos, alguns amadores, com atrizes muito jovens, e estão cheios de cenas explícitas de urinoterapia

Naquele momento eu tive a certeza de muitas dúvidas que eu tinha, porque acho que até uma pessoa o ver podem pairar muitas dúvidas ainda. E quando eu o vi, quando eu o ouvi, quando vi todo aquele cenário, etc., não me surgiram mais dúvidas, apesar de eu estar numa situação que para mim era um bocadinho delicada e emocionalmente não estava muito estável, mas interiormente eu tinha a certeza que não queria fazer nada daquilo e queria ir-me embora.

Lara está decidida. Não vai voltar ao quarto do guru, vai voltar para Portugal, mas não pode simplesmente abrir a porta da casa onde a mantêm e apanhar um avião. Não tem permissão para sair à rua. Como lhe retiraram o telemóvel, também está incomunicável e nem sequer tem documentos. Por isso, resolve escrever uma terceira carta.

Escrevi apenas que não me estava a sentir bem ali e que tinha muitas coisas para resolver e que queria voltar o quanto antes para Portugal e que não queria estar ali, nem queria receber a iniciação. Provavelmente agradeci imenso, porque agradecia isso sempre, como se fosse uma coisa maravilhosa que me estavam a oferecer, mas queria ir-me embora.

A decisão não é bem acolhida. O ambiente fica pesado na casa. As discípulas que a impedem de sair obedecem a Bibolaro. E só quando Lara levanta a voz e deixa claro que reterem-na ali contra a vontade dela é ilegal, é que decidem consultar o guru. Veredito final: Lara pode voltar para Lisboa, mas há duas condições. Tem de pagar a viagem de regresso e vai ter de gravar um vídeo.

Tive de ler uns papéis que eles me deram. A dizer que se eu alguma vez contasse o que se tinha passado, que eu era uma mulher larval, ignorante, podia mais alguma coisa, e que a minha evolução espiritual iria parar e que eu ia ter problemas de saúde. Era sempre tudo dentro do mesmo género. Aquilo que eu li foi escrito por eles e não por mim.

É mais um juramento, como tantos outros que já fez. A única diferença é que este ficou gravado. Lara regressa a Portugal e meses depois a filha dela há de nascer. Não há forma de saber quantas discípulas foram iniciadas por Gregorian Bivolaru. Nem antes, nem depois de Lara conseguir sair de Paris. O que se sabe é que a atividade do guru manteve-se, até mesmo durante a pandemia, quando praticamente todo mundo parou. Por esta altura, a britânica Miranda Grace ainda faz parte do movimento. Já foi iniciada sexualmente pelo guru em Paris, já deu massagens no templo tântrico de Londres e já passou meio ano na República Checa, seminua, em frente a uma câmara a emitir em direto para a internet. Mas ainda está longe de perceber que faz parte de uma seita.

Por volta de agosto de 2021, o homem com quem eu estava numa relação começou a dizer-me algo como: "E se não forem os outros que são maus? E se o Bivolaro for o mau?" Disse-me também: "E se estiveres a ser manipulada? Isto é uma seita". Fiquei mesmo zangada com ele. Fiquei furiosa e disse aquelas coisas do costume, que ele não era suficientemente evoluído, que não percebia, que não era espiritual.

Há de mudar tudo na passagem de ano de 2021 para 2022. Miranda está em casa, faz uma pesquisa no computador e entra pela primeira vez num fórum que reúne denúncias de antigos alunos do movimento de Bivolaru. É um site proibido. Os professores da escola de Londres já avisaram várias vezes os alunos. Tudo o que lá se conta é mentira e o movimento vai processar todos os que se atreverem a difamar a escola e o guru. Ainda assim, Miranda explora o site, lê alguns textos, vê alguns vídeos e é num deles que encontra uma cara familiar. Conhece aquela rapariga. Esteve com ela em Paris e na Roménia.

Pensei: "Espera aí, isto não é espiritual, isto não é a verdadeira espiritualidade". E também sei, eu conheço esta mulher. Sei que ela não é mentirosa. Então pensei: "Ok, toda a gente está a dizer que ela é mentirosa e que foi assim que o Gregorian Bivolaru a tratou, então eles é que são os mentirosos". E foi como se, de repente, tudo se desmoronasse.

Nos dias seguintes, Miranda vai começar a juntar os pontos. Primeiro fala com Ashley, a rapariga australiana do vídeo, depois com outros antigos membros da seita e a seguir com o biólogo francês, fundador e presidente do grupo de estudo para o fenômeno sectário, que anda há quase 10 anos a investigar o movimento de Bivolaru em todo o mundo. E a recolher provas contra ele. É o princípio do fim.

Hugh Gascan pediu-me que escrevesse uma espécie de resumo do que tinha acontecido e isso foi enviado às autoridades francesas, pois perguntaram se eu estaria disposta a testemunhar.

No dia 28 de novembro de 2023, Grégorian Bivolaru vai voltar a ser preso em Paris e agora o guru vai mesmo ficar preso. Mas de resto, nada mudou. As escolas de yoga continuam a ter aulas. Os ashrams continuam a receber discípulos que querem viver em comunidade. O templo tântrico continua a vender massagens sensuais e continuam a ser organizadas palestras para recrutar novos alunos. Tudo isto continua, incluindo em Lisboa. Mas essa é uma história para o último episódio. No próximo episódio. Mentira. Em todas as salas de yoga havia um pequeno altar com uma foto do Grigo, portanto, não venham com tretas que ele era apenas um professor. Isso é mentira de princípio ao fim. Ninguém tem direito a explorar-vos em nome da divindade ou pedir-vos despir-se.

Aqui o objetivo é mesmo explorarmos todo o corpo e perceber como é que o erotismo pode ser desenvolvido.

A escola é um polvo com muitos tentáculos. Se se corta um, os outros continuam. A máquina não para por ele não estar lá. Se ouviu esta história e está a passar ou conhece alguém que esteja a passar por uma situação semelhante, pode ligar para a APAV, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, através do número de telefone 116 006. O Observador contactou a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, a Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga espalhadas pelo mundo, e ainda Grégorian Bivolaru, através dos representantes legais. Foram confrontados com várias questões relacionadas com as alegações feitas ao longo deste podcast. O Observador contactou Grégorian Bivolaru através dos representantes legais. Não responderam. O Observador contactou a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra. A direção não aceitou ser entrevistada, mas respondeu por e-mail a várias perguntas. Seguem-se as perguntas e respostas relevantes para este episódio. O Observador pergunta: o site da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, no separador "Quem Somos?", faz referência a Grégorian Bivolaru como um verdadeiro mestre espiritual vivo. Qual é a ligação de Grégorian Bivolaru à Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Natha responde: como pode ser verificado nos respetivos estatutos suprarreferidos, a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, não tem qualquer ligação a Grégorian Bivolaru, sendo que o mesmo não desempenha nem nunca desempenhou qualquer função na Natha. Não é, nem nunca foi sócio ou membro dos respetivos órgãos sociais. Com vários livros publicados, nos seus cursos, a Natha segue alguns dos seus ensinamentos, pelo que no nosso site apresentamos Grégorian Bivolaru como o coautor do curso de Yoga Integral Esotérico, do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. Sendo que o curso de Yoga Integral Esotérico e o curso de Tantra Yoga Esotérico são apenas dois dos variados cursos que disponibilizamos na Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra. O Observador pergunta: e qual é a posição da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, face à detenção de Grégorian Bivolaru por suspeitas da alegada prática de crimes de violação, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de fraqueza? A Natha responde: a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, repudia de forma inequívoca qualquer forma de violência, exploração ou abuso, ou qualquer tipo de atividades criminosas. Não compactua com atividades ou comportamentos que possam configurar crimes dessa ou de outra natureza. A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, pauta-se pelos valores éticos do yoga, do respeito pelo ser humano e da integridade individual. Defende que qualquer suspeita ou acusação deve ser devidamente apurada pelas autoridades competentes, no respeito pelo princípio da justiça e do estado de direito. O Observador pergunta: a Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, deixou de lecionar aulas escritas por Grégorian Bivolaru? A Natha responde: a resposta a esta questão está clara no nosso site, aberto a todos os que quiserem ler. Grégorian Bivolaru é o autor do curso de Yoga Integral Esotérico, coautor do curso de Tantra Yoga Esotérico, oferecido pela Federação de Yoga e Meditação Atman, da qual a Natha é escola membro afiliada, e autor de muitos livros e publicações espirituais. O Observador pergunta: por que motivo se mantém a referência a Grégorian Bivolaru como mestre espiritual vivo no site da Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra? A Nata responde: no contexto do yoga, o termo mestre espiritual designa alguém que através da sua experiência e prática, inspira e orienta outros no caminho de autoconhecimento e do desenvolvimento interior. A referência a mestres espirituais vivos reflete uma tradição milenar presente em várias escolas de sabedoria presentes em todo o mundo, que reconhecem a importância de pessoas experientes que transmitam conhecimento de forma direta e viva. A nossa menção mestre espiritual vivo deve ser entendida nesse enquadramento filosófico e espiritual, e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do yoga. O Observador pergunta: duas alunas da Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, queixam-se de terem sido convencidas por professores a viajar para Paris para alegadamente receberem iniciações sexuais por parte de Gregorian Bivolaru. Estas alunas acusam a escola de ter assegurado toda a logística, juntamente com representantes do MISA, na Roménia. E dizem que, uma vez no local, foram privadas de meios de comunicação e dos próprios documentos de identificação e que foram mantidas em apartamentos sem permissão para sair. Essas mesmas alunas queixam-se de terem sido coagidas por meios de manipulação e lavagem cerebral a manterem alegadas relações sexuais com Gregorian Bivolaru em Paris. Como é que a Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, reage a estas acusações? A Nata responde: a Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, não tem qualquer conhecimento direto ou indireto relativamente às alegações mencionadas, nem existe qualquer evidência de que essas situações tenham ocorrido no âmbito ou sob a responsabilidade desta associação. A Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, é de forma absoluta contra qualquer prática que envolva coação, manipulação, privação de liberdade, abuso sexual, exploração ou violação dos direitos humanos fundamentais. Tais comportamentos são totalmente inadmissíveis e incompatíveis com os princípios éticos e espirituais de yoga e com os valores desta associação. A Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, reafirma o seu compromisso com o respeito integral pela dignidade humana, pela liberdade individual e pela autodeterminação dos seus alunos e professores e, naturalmente, mantém total disponibilidade para colaborar com as autoridades competentes se se revelar necessário. O Observador pergunta: e qual é a ligação da Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, ao MISA? A Nata responde: a Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, é uma associação com personalidade jurídica própria, com órgãos sociais próprios, que se dedica ao ensino do yoga e do tantra em Portugal, enquanto o MISA, Movement for Spiritual Integration into the Absolute, é uma organização estrangeira que promove atividades também de caráter espiritual a nível internacional, não existindo qualquer relação jurídica, administrativa, orgânica ou outra. Temos conhecimento que, a título individual, no exercício da sua liberdade pessoal e espiritual, alguns alunos e professores sócios da Nata, Escola Espiritual de Yoga e Tantra, participam em eventos internacionais organizados por essa e outras entidades. A Federação Atman, à qual pertencem as escolas de yoga do movimento criado por Gregorian Bivolaru, não respondeu diretamente às questões enviadas pelo Observador, mas enviou um comunicado. Nesse texto, a Federação Atman garante não ter recebido, até ao momento e por parte da justiça francesa, qualquer comunicação oficial por possível envolvimento no caso. Refuta todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos. Recorda que a investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação. E acusa as autoridades francesas e os meios de comunicação internacionais de perseguição religiosa e de uma campanha mediática que ao longo de anos vem projetando a imagem da escola como um culto sexual culpado de lavagem cerebral e abuso sexual. Lê-se no comunicado: o que aconteceu em França é a continuação de uma longa série de ataques contra membros afiliados da Federação Atman e o professor de yoga Gregorian Bivolaru, por forças que consideram intolerável qualquer combinação de erotismo e espiritualidade. No mesmo texto, a federação garante ainda que não é responsável pela vida privada dos funcionários, alunos e professores das escolas afiliadas. Diz que as escolas são independentes e assumem total responsabilidade pelas respetivas decisões e atividades. Acrescenta ainda que condena categoricamente todos os tipos de abuso, incluindo o uso abusivo da força policial e detenções injustas. E por fim, assegura que ensinamentos de comportamento sexualizado nunca foram nem serão tolerados na Federação Atman. Os Segredos da Seita do Yoga é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Rua, e tem banda sonora original de Benjamim. O guião e as entrevistas são de Mariana Marques Tiago e Tânia Pereirinha. A sonoplastia e desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é Diana Moreira. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.

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