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11 minutos para as 17h, vamos a mais um "Pet Radio" na Rádio Observador com o veterinário Nuno Paixão. Começa agora mais um "Pet Radio" na Rádio Observador com o Nuno Paixão. Olá, Nuno. Bom domingo.
Bom domingo.
Tudo bem contigo?
O finzinho do domingo agora.
O fim, exato. Mas com este tempo pede uma mantinha em casa, não achas?
Sim.
Eu estou muito nesse mood, confesso.
Também.
Que tema é que nos trazes hoje?
Vou falar de um tema que infelizmente fala-se muito, parece que faz-se pouco, que é abandono. Normalmente, quando se fala de abandono de cães e gatos, associamos os cães e os gatos que são abandonados na rua. Que alguém os põe fora de casa e não quer saber deles. Ou pior, que alguém os amarra a qualquer lado e vai-se embora, amarra ao portão, amarra a um poste. Isso ainda continua a acontecer hoje em dia.
Infelizmente, sim.
Infelizmente ainda continuamos a ter isso em muitos locais. E aqui há um ponto importantíssimo que eu tenho que salientar, que hoje em dia a identificação eletrónica, aquele chipzinho subcutâneo, é obrigatório por lei para todos os cães, gatos e furões. Para todos. Se não tiver, o seu detentor, o seu tutor, está a cometer uma ilegalidade.
Portanto, tem que ter o chip.
Tem que ter. Às vezes as pessoas consideram que abandono, se eu tiver um cão com chip e ele andar na rua, eu posso dizer assim: "Ele fugiu-me". Não. Se ele é apanhado na rua, e se não houver uma demonstração, uma prova de que se andou à procura dele, uns posts no Facebook, uns papéis espalhados, informar a base de dados da identificação eletrónica de que ele fugiu, podemos ser acusados de abandono, mesmo que tenha sido um acidente.
Ok, faz sentido.
Portanto, a primeira coisa que se tem a fazer quando eles fogem de casa, às vezes um acidente, o que seja, é informar de imediato o SIRA, que é o Sistema de Informações de Animais de Companhia, que pode ser através de um médico veterinário, de um médico veterinário assistente ou de outro qualquer, informar que ele fugiu e que se está à procura dele.
Senão é considerado abandono.
Exatamente.
Mas existe outro tipo de abandono, não é?
Sim, existe um tipo de abandono que para mim é menos visível.
Mas também existe.
Mas existe muito e infelizmente é mais frequente do que aquilo que a gente gostaria, que são aqueles cães que são abandonados emocionalmente. Ou seja, até têm acesso a comida, até têm acesso a água, até têm uma casota, possivelmente, ou até têm mesmo um quarto, mas que não têm acompanhamento, não têm apoio emocional, familiar, social, eu diria antes assim.
Quase que são um cão de loiça.
Sim, antes fossem, coitados.
Pois, exatamente.
Antes fossem um cão de loiça e que não existissem naquela situação. Eu sei que a nossa vida, no dia a dia, trabalhamos horas seguidas, acordamos cedo, temos trânsito.
Mas se assumimos o compromisso de ter um animal, temos de organizar-nos de maneira a dar tempo.
Temos que organizar-nos.
Exatamente.
Talvez a fase mais visível do abandono emocional são os cães acorrentados. Eu considero que alguma coisa correu mal na dinâmica daquela família, daquela casa, quando a gente vê um cão acorrentado. Alguma coisa correu mal. Ou porque eu quando adquiri, quando arranjei o cachorrinho, tinha uma expectativa de algo que não aconteceu, porque eu achava que eles iam ser muito obedientes, iam ser ótimos e depois, por culpa das circunstâncias, aquilo não aconteceu. E as circunstâncias somos nós.
Exatamente. E depois a solução é amarrar.
É amarrar ou pô-lo no fundo do quintal, num canil em que só se lá vai uma vez só para dar de comer. Não se vai passear, não vão à rua, não têm contato com outros cães, não têm contato com outras pessoas, com outras famílias. Isso é abandono emocional e pode ser tão devastador quanto o abandono físico, o abandono na rua, porque pura e simplesmente estes animais ficam isolados, ficam sozinhos, sentem a solidão. Os nossos cães e os nossos gatos, volto a dizer, são sociais, eles precisam ter contato com outros. Podem até ser humanos, mas precisam ter contatos com outros, com outros seres.
E como é que podemos notar que um cão ou um gato, não sei se também sentem isto ou não.
Sim, também demonstram de uma forma talvez diferente, mas sim.
Como é que nos podemos aperceber que um animal de companhia
Normalmente, as pessoas, os seus detentores, se pensarem bem, se puserem um pouquinho a mão na consciência, percebem. Das horas do dia, quanto tempo é que a gente passa com os nossos animais? Temos tempo de qualidade? Vamos passear com eles à rua? Brincamos com eles 15 minutos, três vezes por dia? Reparem que 15 minutos, três vezes por dia já era o mínimo dos mínimos. Isto para nós estarmos com eles, realmente, para nós termos ligação com eles. Porque senão, por que raios de razão é que a gente tem um cão em casa, se não é para partilharmos com eles? E eles connosco, não é?
Exatamente, sim.
Eles têm que ter motivação. Eu já disse isto várias vezes, mas hoje os animais, é óbvio, têm direito a não sofrer Mas eu acho que já estamos numa fase em que devíamos pensar noutra. Têm direito a sentir também emoções positivas, ou seja, também têm direito a sentir alegria, têm satisfação, sentir esperança, sentirem-se motivados. Nós somos muito negativos: "Sou contra o sofrimento animal". É óbvio que quem no seu bom senso não seja contra o sofrimento animal. São aquelas frases feitas. Quem tem o mínimo bom senso não é a favor do sofrimento animal.
Claro.
Agora, se a gente passar pro lado de lá, o que eu posso fazer pro meu cão ser mais feliz? O que eu posso fazer para o meu gato se sentir mais realizado?
E o que é que podemos fazer, Nuno?
Interagimos com eles.
Que dicas é que nos trazes?
Primeiro, determinar, arranjar horários para estarmos com eles. Forçar-nos, por quê? Porque isto é como tudo, a gente quando se afasta, não sente a satisfação de estar com eles e então afastamo-nos cada vez mais e não nos esforçamos. A partir do momento em que começamos a esforçar-nos, a fazer os nossos horários para passar tempo, e até podemos passar tempo com o cão e com os filhos ao mesmo tempo.
Sim. Com os amigos e com a família.
Exatamente, com o cônjuge ao mesmo tempo. É uma boa desculpa pra se passear pra rua, pra andarmos. Contar passos. Hoje temos muito a ver com conta passos. Vamos contar passos com o nosso cão ao mesmo tempo.
Claro.
E esse tempo de qualidade é fundamental. Eu sei que a gente trabalha oito, 10, 12 horas por dia e não podemos estar oito, 10 horas por dia com o nosso cão, mas estarmos períodos do nosso dia com ele, em que realmente estamos atentos a eles, em que lhes damos importância, em que interagimos, em que os fazemos sentir emoções, quer elas sejam mais positivas ou menos positivas, porque às vezes a gente quando interage também nos chateamos. E o chatearmos entre nós também faz parte das relações. E a gente também tem que se chatear com o nosso cão, o nosso cão também tem que se chatear conosco. Porque faz parte do crescimento das relações. Nem tudo é um mar de rosas na vida e a vida dos nossos animais, infelizmente, também não é um mar de rosas. Portanto, tentarmos perceber o que eu posso fazer. Durante a semana só consigo fazer estas caminhadas 10 minutos, 15 minutos, vai até lá abaixo rapidamente pra fazer suas necessidades e volta para cima.
Mas se calhar no fim de semana já temos um bocadinho mais de tempo.
Exatamente.
Ir à praia.
Isso mesmo. Em vez de irmos passar o dia todo só nós a divertir-nos, pôr uma parte do nosso dia também a partilhar com eles. Porque depois quanto mais isolados eles estão, mais energia vão acumulando. E depois quando a gente os tira cá pra fora pra fazer qualquer coisa, aquela energia, meu Deus, quem é que os aguenta?
Uma pilha Duracell.
Exatamente. E depois é uma ansiedade muito grande, e depois eles comportam-se mal, e depois quando se comportam mal na rua já não queremos.
Exatamente, parece que não sabem lidar com tanta energia que têm acumulado.
Exatamente. Depois levamos para uma esplanada e na esplanada eles estão a querer saltar em cima de toda gente pra pedir festas, e depois nós ficamos frustrados, depois as pessoas ficam chateadas com a gente e diz que o cão é mal-educado. E depois o que é que faz? Volta a fechar na parte de trás do quintal, no canil, e não volta a acontecer. É óbvio que a gente tem que se esforçar para que os nossos cães sejam o mais educados possíveis, os mais capazes de viver em sociedade sem incomodar o próximo. De confiança, que a gente sabe que eles não vão morder o próximo. E isso só com tempo. Nem é preciso grandes escolas. Eu sou mais do que a favor que os cães devam ir pras escolas aprender o mínimo básico possível, pelo menos o mínimo e básico de convivência. Mas as escolas não substituem a educação da família. Isto é verdade pros cães, pros gatos e pras pessoas.
Aplica-se em vários.
As escolas não substituem a educação e o tempo que a família tem que estar com os cães e com os gatos, que é a minha área, não vou entrar noutra.
Aqui falamos o que sabemos.
Exatamente. Temos aqui na rádio outras pessoas que falam do resto.
Exatamente.
Mas esse tempo é fundamental para combatermos este abandono emocional. Os cães fechados nas varandas, os cães fechados nas garagens. Eu aceito que um cão fique em casa sozinho umas horas, porque não vai trabalhar. Eu até aceito isso. Agora, o tempo que a gente pode, devemos dar-lhe atenção, devemos ter interação, devemos conversar com eles, devemos ouvi-los, e ouvi-los é interpretá-los, é perceber o que eles estão a fazer. Devemos ter comunicação verbal, mas também comunicação corporal, olhar nos olhos e perceber o que se está a ver ali. Quando as pessoas que me dizem: "Só lhe falta falar", são aquelas que não os abandonam emocionalmente. Portanto, as pessoas que me dizem só lhes falta falar, é porque os entendem, é porque passam tempo com eles.
E conhecem o seu cão.
Conhecem-nos, sabem o que eles estão a querer dizer, e eles depois também os conhecem a eles.
Claro.
E é essa parte de abandono emocional que eu penso que já estamos, apesar de ainda haver muito trabalho pra combater o abandono físico propriamente dito, mas que devemos começar a falar mais e alertar para esse abandono emocional.
Claro.
Porque os nossos cães, os animais em geral, não são para estar fechados num quadradinho.
Sim.
E não ter qualquer interação com os da sua própria espécie, com outras espécies, com humanos. E nós é que somos os responsáveis. Teoricamente, nós somos os racionais nisto tudo. Portanto, se somos os racionais, cabe a nós agir como tal. E dar este prazer.
Claro.
Não é só não os fazer sofrer, porque quando os abandonamos emocionalmente, a gente também os faz sofrer, mas também lhes dar prazer. E esse prazer não é só a comida, não é só a água, é o prazer de interagir.
É, por exemplo, fazer passeios.
Fazer passeios.
E dentro de casa, o que podemos fazer? Por exemplo, Nuno, vamos pôr aqui uma hipótese: está a chover, não podemos ir fazer um grande passeio com eles ou ir correr pra praia. O que podemos fazer dentro de casa para combater?
Podemos brincar, nem que seja atirar uma bolinha e trazer. Podemos fazer pequeninos joguinhos em que escondemos os biscoitos debaixo das almofadas, no sofá, debaixo da mesa, e eles depois vão ter que ir descobrir. É engraçado como às vezes podemos pô-los noutra divisão e deixá-los ali e dizer: "Fica aí e vai se esconder" e depois: "Agora vai, procura."
Vai procurar. Estar escondidas.
Isso vai estimular mentalmente também, porque eles têm que resolver problemas. E a maior parte das pessoas vão ficar surpreendidas com a capacidade de raciocínio que estes animais vão tendo e de resolução de problemas. E que nós podemos ir complicando cada vez mais as coisas, até ao ponto de eles terem que abrir uma gaveta pra tirar o biscoito lá de dentro. Cuidado, porque a gente não quer ensiná-los a abrir as gavetas.
Exato, depois ainda vão buscar coisas que não devem.
Exatamente. Porque muitas das vezes a gente ensina, fica muito orgulhoso com certas coisas, mas depois eles fazem-no e a gente fica fulo porque eles fizeram. Mas fomos nós que os ensinamos, mas enfim. Começar a dar problemas pra eles resolverem. Há puzzles, até, inclusivamente, hoje em dia. Mas isso já era ótimo. Eu já ficava muito contente se toda a gente investisse, apesar de ser um termo não muito correto de utilizar, porque eu também não queria utilizar perder.
Sim, perder também. Era criticar perder tempo.
Não, é usar um tempo de boa qualidade com os nossos animais, brincar. Mesmo os gatos, eles gostam de brincar. Às vezes as pessoas têm um bocado a tendência de dizer: "Os gatos gostam de estar sozinhos." Não.
Isso que ia perguntar, voltando um bocadinho atrás, ainda há pouco falamos também dos gatos, disseste que também sentem este abandono emocional. Com um gato, se calhar, é um bocadinho mais difícil de pôr uma trela e passear pro paredão ou algo do gênero. Mas o que é que podemos fazer com eles?
Sim, mas podemos brincar com eles, podemos pegar numa caninha de pescas, daquelas de brincadeira, e andar ali a brincar com um laser, com uma luz, com um ratinho. Há uns ratinhos, hoje em dia, uns ratinhos elétricos, que dá pra eles andarem. Escondendo também, podemos esconder também biscoitinhos e eles também usam o nariz e vão procurar. Podemos também aprendê-los a dar cinco.
Portanto, não faltam opções.
Eles também aprendem. É preciso termos um bocadinho mais de calma, é preciso sabermos interpretá-los. Eu acho que é mais natural pro humano interpretar um cão do que interpretar um gato. Há uma história diferente, há uma proximidade diferente. O gato, apesar de ter sempre ganho o estatuto de animal de companhia, sempre foi um gato que andou na rua, andava na rua a controlar os ratos.
Sim.
Mas isso não quer dizer que não haja gatos que sejam muito dependentes.
E o contrário, cães que sejam mais independentes.
Exatamente.
Só pedem festinhas quando lhes apetece.
Quando lhes apetece, exatamente. E isso é um dos pontos que a gente, hoje em dia, deve pensar: até que ponto é que nós estamos a abandonar ou não, emocionalmente, os nossos cães dentro de casa, os nossos gatos dentro de casa? E já nem digo de outras espécies. Porque quando eu tomo a decisão de ter uma cobra píton em casa, eu assumo a responsabilidade de ter que lhe dar as condições ideais. Se bem que é sempre difícil da gente conseguir dar umas condições ideais. Mas, mesmo assim, há muitos répteis que conseguem desenvolver ligações emocionais também.
Nós falamos sempre de cães e gatos, mas estes outros animais também sentem?
Sim. Há um grupo de animais que sempre me custa, que são extremamente abandonados emocionalmente, não lhes damos o valor, que são os psitacídeos, aqueles papagaios. Quando a gente vê aqueles papagaios cinzentos, os verdes, aquelas araras, as catatuas, mesmo caturrinhas.
Sim, fechadinhos numa gaiola.
Fechadinhos numa gaiola em que não têm contato nenhum, algumas vezes a gaiola nem lhes permite sequer esticar as asas.
É importante abrir a gaiola e deixá-los voar um bocadinho?
É muito importante. E são animais que chegam a viver 60, 80 anos.
Acompanham-nos quase a vida toda.
Completamente. E depois estão ali com uma correntezinha presa ao poleiro. Começam a desenvolver comportamentos e a demonstrar comportamentos compulsivos. E esses, sim, também são abandonados emocionalmente. Portanto, eu quando decido tomar conta de um animal, eu tenho que saber minimamente quais são as necessidades emocionais daquele animal. Por muito que às vezes me pareça que não tem. Tenho, sei lá, uma iguana, tenho um mini dragãozinho daqueles d'água, o que seja. Eles também têm necessidades emocionais.
E as tartarugas também são incluídas?
Também têm.
Lembrei-me agora, também é um animal de-
É, e são muito mal tratadinhas, coitadinhas. Às vezes ficam a viver naqueles mini tanquezinhos que aquilo devia ser proibido. E depois nem lhes dão condições pra eles poderem crescer em condições. Nós temos a responsabilidade, como seres que raciocinam, seres teoricamente mais inteligentes, de dar as condições, não só de alimento, não só de água, mas também as condições emocionais da espécie que a gente resolveu tomar conta. Fomos nós que resolvemos tomar conta. A píton não veio da rua, subiu as casas e foi pra lá dormir.
"Com licença, deixe-me entrar, vou ficar aqui."
Exatamente. Quando as pessoas têm aquelas coleções todas de animais exóticos, elas têm que ter condições e ter conhecimento das necessidades alimentares, físicas, ambientais, de terrários, mas também as emocionais. E às vezes há certas espécies que deviam viver em grupo e vivem sozinhos. Tá um elemento daquela espécie fechado ali naquele local.
Por exemplo?
Peixes, não é raro a gente ver peixes que deviam viver em cardume e que estão sozinhos.
Fechados no aquário sozinhos.
Sem mais ninguém. Alguns répteis, aves que deviam viver em casais ou em famílias e que estão sozinhas. Nós somos muito mauzinhos.
Portanto, antes de arranjarmos um cão, um gato, o que seja, temos de perceber que vai mudar a nossa rotina e temos de nos comprometer a cuidar bem deles.
Claro que sim, nós é que fomos buscar.
A decisão foi nossa.
Aquela família agora tem outro elemento, portanto, só temos é que nos preocupar com eles.
Temos de nos organizar de maneira a ir passear com eles, brincar com eles e dar-lhes a melhor vida possível.
Combater este abandono emocional.
É isso mesmo. Nuno, temos encontro marcado pra semana. Esta semana já não temos mais tempo. Uma boa semana e já sabe, ouvinte Observador, pode ouvir este "Pet Radio" em podcast e também em observador.pt. Nós, Nuno, ficamos por aqui. Até semana mais.
Dediquem um bocadinho mais de tempo aos vossos animais.
Esperamos que sim.