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Todos perlado às 17h, vamos a mais um Pet Radio com o veterinário Nuno Paixão. Mais um domingo na Rádio Observador e por isso temos mais um Pet Radio com o Nuno Paixão. Olá, Nuno, bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Tudo bem?

Está tudo.

Correu bem a semana?

Sim, corre.

Corre sempre.

Não adianta entrar em depressão de domingo ao fim do dia, mais do que já é.

Portanto, ficamos com: "Sim, correu tudo otimamente bem". Para o lado.

E a próxima semana ainda vai ser melhor.

Sim, esperemos que sim. Nuno, hoje trazes-nos um tema, vamos falar de cães de busca e salvamento. Acho que faz todo sentido.

Sim, é um tema que pra mim é muito caro e que eu vou trazendo. Os cães de trabalho com essa palavra tão pesada, que a gente usa, os cães de trabalho, parecem duas coisas incompatíveis uma com a outra. Mas eu diria os cães que nos acompanham, mais do que os cães de trabalho, aqueles que ao nosso lado tentam fazer algo. E vou ser muito sincero, há cães neste mundo que salvaram mais pessoas do que algumas pessoas salvaram alguém. E esquecemo-nos dessa parte, pensamos que: "São uns cães". Falando concretamente dos cães de busca e salvamento, são cães que não conseguem ser substituídos por maquinaria nenhuma. Já tentaram. Há empresas que tentam fazer narizes eletrónicos para detetar odores, mas aliar a capacidade olfatória, que é imensurável ainda hoje em dia, a gente não sabe qual é o limite do nariz dos nossos cães, aliado a uma agilidade relativamente grande, a uma resistência física grande e aliado a um companheirismo, uma comunicação e cumplicidade com o homem, não há máquina nenhuma que substitua. E por isso, é natural que a gente vá pedir ajuda, eu não gosto de usar a palavra vamos usar, a gente vá pedir ajuda aos cães para nos ajudarem nessas situações. Há vários tipos de cães de busca e salvamento. Há cães que detetam pessoas, por exemplo, na água e que vão buscá-las quando elas estão se a afogar, estão nas praias à espera e vão salvá-las. Há cães que procuram pessoas em grandes áreas, quer dizer, mais ou menos em zonas rurais, no mato.

Portanto, nem todos os cães de busca e salvamento são treinados da mesma maneira, é isso?

Não são todos iguais. Há cães de busca e salvamento que procuram odores específicos. Quando a gente vê aqueles filmes dos bloodhounds, daqueles cães a irem atrás, mostra-se uma peça de roupa e depois vai atrás, é uma forma de busca e salvamento. Neste caso, e agora estamos a acompanhar a toda a hora o que se passa na Turquia, nesta tragédia que se passa na Turquia, e concretamente, nós aqui estamos a precisar de cães de escombros, cães que fazem busca em locais, não são áreas muito grandes, infelizmente esta é uma área muito grande, mas o seu raio de trabalho é relativamente curto. Trabalham no meio de escombros, no meio de paredes caídas, de ferros, de madeiras, onde vivia muita gente, onde havia muita concentração de odores. E reparem que quando eles vão procurar pessoas, eles usam uma técnica de venteio, nós chamamos a técnica de venteio, é quando eles detetam odor de um humano, não específico de um humano, mas um odor de maior concentração de um humano.

Ok.

E assinalam que há alguém. Eles apanham correntes de ar que vêm das profundezas dos escombros, apanham odores específicos para humanos. E isto aqui é que é importante refletir, porque os humanos não cheiram todos igual. E não estou a falar daqueles que tomam banho e dos que não tomam banho.

Sim.

Estou a falar de que-

Sim, cada um de nós tem um odor.

Tem um odor sim. E há cães que não chegam a esse pormenor. Nós chamamos os compostos voláteis moleculares, que são pequenas moléculas que libertam odores específicos, ao ponto de permitir que, por exemplo, um cão consiga detetar alguém que tenha Covid ou que tenha um tumor a desenvolver, porque são esses odorzinhos que vêm. Nós temos é que dizer ao cão qual é o odor que ele tem que identificar. Nos humanos, nós devemos reduzir a uns, pelo menos uns cinco, seis componentes voláteis que são comuns a toda a gente no mundo. Por quê? Porque depois a cultura, aquilo que a gente se alimenta, a etnia, a raça, tudo leva a diferentes—

Claro.

A alimentação, muito, a diferentes odores. Portanto, um cão que esteja habituado a detetar determinado grupo de pessoas, não tem que forçosamente ser capaz de detetar todas as pessoas ou outros grupos de pessoas.

E como é que é feito este treino, Nuno? Já percebemos que nem todos os cães de busca e salvamento são treinados da mesma maneira.

Não. Nestas situações, nós estamos a lidar com cães profissionais, cães que têm a vida de alguém no seu nariz, vamos chamar assim. Por quê? Porque se o cão diz que está lá alguém, então as equipas têm que se mobilizar pra retirar essa pessoa de lá.

Exato.

Se o cão diz que não está lá ninguém, então vem a maquinaria pesada retirar os escombros, que pode ser um risco para o caso de alguém estar lá. Portanto, nós temos que ter um controle de qualidade muito grande, temos que ter a garantia de que aqueles cães sabem o que é que estão a fazer Isto implica experiência, implica muito trabalho.

São anos de treino?

São anos de treino, principalmente de um treinador, de um formador, vou falar assim, que saiba criar cenários. Talvez o mais simples é assim: uma criança até à adolescência não tem os mesmos odores de um adulto. Portanto, se nós não ensinamos o nosso cão a encontrar crianças, ele só vai encontrar adultos, por exemplo.

Ok.

Um bebê é totalmente diferente. Portanto, há uma série de coisinhas que o próprio formador, o responsável pelo treino daquele cão, tem que garantir que chegue lá e que ele seja capaz. Repare, só para termos um exemplo, talvez a gente tenha dificuldade, mas há um caso muito estudado de um labrador que ia num barco e que conseguiu detetar o odor de um cadáver a 20 metros de profundidade. E ele estava na proa do barco. Há cães que detetam, por exemplo, fezes de baleia no mar para fazer descontagens e testes, trabalhos com análises.

Portanto, o olfato deles é incrível.

Portanto, a gente não tem a mínima noção do limite que eles têm. Temos, felizmente, uma série de cães, e agora as últimas informações que eu recebi, os cães internacionais que estão a trabalhar na Turquia são around 250. São pelo menos seis ou oito cães portugueses que estão a trabalhar lá. Tivemos a felicidade, ainda ontem, das notícias de a equipe portuguesa ter encontrado uma criança. E eu adorei, porque nas imagens nós ouvimos o latido, o ladrido, ladrar. Latido, ladrido, ladrar.

Exato. Um dos três.

Um dos três. O au au.

Exato.

De um cão lá atrás nas filmagens, todo entusiasmado e a assinalar que estava ali uma pessoa. E talvez esse seja dos momentos mais emocionais de quando a gente está a trabalhar nestes ambientes, é vermos a felicidade que aquele cão está a transmitir por ter feito a sua missão. Vou usar a palavra felicidade, a gente já falou aqui sobre o que é um cão feliz ou o que é felicidade animal, mas pelo menos o sentimento de missão cumprida, que "eu estou a fazer isto, quer que seja passado a uma pessoa ou pura e simplesmente pra agradar ao meu guia, ao meu condutor, e estou a fazê-lo". Mas isto demonstra como, mais uma vez, nós estamos completamente interligados com os animais. Os cães vivem conosco para o bem e para o mal. Quando nós vemos estas imagens, quando lemos estas notícias, deveria servir para a gente respeitar um pouco mais aqueles seres de quatro patas que vivem conosco há milênios, que optaram por continuar a viver conosco, que nós ou eles, não sei, hipotecaram a liberdade toda. E aquela espécie não tem liberdade fora do contato humano.

Certo.

E isto leva-nos a pensar que talvez a gente deveria ter um pouco mais de respeito.

Sim.

De ter mais cuidado, de ter mais dedicação aos cães que nos rodeiam, porque eles salvam vidas. Porque eles, não só nestes casos, mas detetores de explosivos, detetores de armas, detetores de dinheiro falso, detetores de telemóveis, detetores de pen drives, de HDs. Hoje em dia conseguem fazer essas coisas. Nós temos todos os dias milhares de cães a trabalharem na segurança dos humanos, a trabalharem na saúde dos humanos, quando estão a detetar de forma muito precoce, mais do que a maquinaria, tumores, neoplasias e outros cancros nos hospitais, salvam milhares de pessoas quando são cães de apoio emocional, mesmo que sejam amadores, aqueles que a gente tem em casa, que pura e simplesmente nos apoiam a nós.

Sim, mesmo sem formação, vamos assim dizer, já nos ajudam imenso.

Já que não sejam os profissionais da área. E depois temos estes profissionais que realmente levam isto um pouco mais a sério e que são levados por nós para estes ambientes duríssimos, hostis, e eles estão lá. Primeiro, ajudam a manter uma moral de quem está lá a trabalhar, dos humanos, porque entusiasmam, porque estão animados, porque nós também temos que cuidar de alguém ao nosso lado. E, por outro lado, salvam pessoas, literalmente. Não quero arriscar, mas se calhar 90% das pessoas neste mundo nunca salvam o próximo. E aqueles salvam, salvam pessoas que poderiam morrer.

Portanto, merecem o nosso respeito.

Exatamente. Pessoas que estão em risco de morrer são salvas naquele momento, porque aquele cão está ali. E eu acho isto incrível e, por outro lado, acho incrível como muita gente não se apercebe disto.

Pois, é isso.

Talvez a imagem, ou melhor, a mensagem que estes cães transmitem ao mundo é: "Por favor, respeitem-nos, porque nós estamos a fazer isso."

Olhar com outros olhos e perceber a importância destes cães. E, Nuno, se calhar pergunto-te uma coisa, não sei se isto faz muito sentido ou não, mas existem raças aptas para certos Treinos e certos salvamentos?

Sim, se bem que não quer dizer que um rafeirinho não possa estar também capaz.

Por exemplo, nesta situação do terramoto.

Sim, precisamos de cães que tenham um bom nariz, que tenham uma boa capacidade olfactória e há raças que têm mais do que outras. Mas, ao mesmo tempo, não pode ser um cão de pernas muito curtas, porque tem de andar a saltar em cima de escombros e tem que ser ágil, tem que ser rápido. Também não pode ser muito pesado, para não pôr em risco certas infraestruturas, certas estruturas que possam colapsar mais. Tem que ser delicado à andar.

Portanto, neste caso, um labrador não poderia, se calhar, encaixar neste-

Pode. Não um labrador obeso.

Mais fit. Um labrador mais fit.

Mas sim, pode. E são cães activos, os labradores, são cães com bom nariz. Portanto, há raças que já têm alguma predisposição genética também para aprender, para interagir, para fazer um pouco melhor. Vou ter que ser um pouco racista, porque sim, há raças mais aptas, o que não quer dizer que haja elementos de outras raças não tão aptas, que não possam ser excelentes ou mesmo rafeirinhos que possam ser excelentes. Sim, acredito que sim. A raça permite-nos ter uma previsão mais garantida, ou seja, daquela raça é mais provável que aquele cão consiga fazer aquilo. Enquanto que se for um rafeirinho, já é difícil de eu prever, mas se eu pegar naquele elemento concretamente e avaliá-lo, pode ser que ele consiga.

Sim, o treinar durante uns tempos e ele responder às coisas.

Exatamente. Sim, há raças mais aptas. Há raças que pela conformação, pelo seu físico, podem ser mais adaptáveis a trabalhos. Por exemplo, nas praias para fazerem o trabalho de nadador-salvador.

Que raça é que seria a mais indicada?

O Terra Nova, por exemplo, é um cão grande, muito pujante, que pode ir para a água, passa horas a nadar. É difícil de ser afundado, caso uma pessoa entre em pânico, e é mais fácil para trazer. Há labradores que também fazem bem esse trabalho, mas queremos cães mais fortes, mais possantes. Há quem advogue também o uso de cães pequenos para entrarem em pequenos orifícios, pequenos túneis, para poderem cheirar. Até posso dizer, só por uma questão de levantar um bocadinho o véu disto, mas há quem use ratazanas para fazer estas buscas, porque elas são mais ágeis, entram dentro de buracos.

Também temos ratazanas de busca e salvamento.

Há uma ratazana muito conhecida, que é uma ratazana africana, que é muito grande, que era conhecida por desminar países. Eles detectavam as minas, onde é que elas estavam enterradas, como eram leves, não as faziam explodir, assinalavam e depois vinham as equipas de minas.

Temos de olhar com outros olhos para as ratazanas.

A gente tem que olhar com outros olhos para este planeta, que já fizemos tanta coisa de mal, portanto, a ver se a gente consegue ainda ver alguma coisa de bom nisto.

Nuno, muito obrigada por este "Pet Radio". Infelizmente não temos tempo para mais, mas temos encontro para a semana, mais um domingo, depois do jornal das 17h, Nuno Paixão, sempre aqui na Rádio Observador. Nuno, uma boa semana.

Boa semana e obrigado a todos os cães que estão lá na Turquia.

Muito obrigada a todos eles. O ouvinte Observador pode ouvir este "Pet Radio" em podcast e também em observador.pt. Nós ficamos por aqui. Temos encontro marcado para a semana.