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E já cá estamos de novo com o médico veterinário Nuno Paixão. Está conosco todas as semanas com conselhos para os nossos melhores amigos. É o Pet Radio na Rádio Observador, sempre também disponível no nosso site e nas plataformas podcast. Nuno, bem-vindo, como é que estás?
Cheio de calor.
Está muito calor.
Estamos todos. Mas eu não me queixo. Eu não sou daqueles que se queixa muito com o calor, eu não me importo.
Eu sou um bocado o contrário, eu queixo-me um bocadinho.
Eu também.
Olha que eu queixo-me um bocadinho.
Nós já estamos aqui.
Eu gosto de frio, muito frio e muito calor. Os intermédios é que eu não ligo.
O que eu gosto é do intermédio. Então não se traga duas casas, dividimos isto.
É, o problema é que depois no intermédio chove e molha, e então é só tristeza.
Acho que até já deves ter falado disto no Pet Radio, mas um dia até podíamos falar deste calor para os nossos animais. Eu vejo o meu gato lá em casa, está sempre estendido nas tijoleiras, como costumamos dizer.
Coitadinho.
Com tanto calor, mas parece-me feliz. Os gatos também gostam de calor.
A gente já falou, temos tido ciclicamente episódios sobre o calor.
Sobre o calor.
Sim. E há uma coisa importante: irem para casa. Se estivermos confortável nós, eles também estão.
Pois é, muito bem.
E ter água disponível sempre, ter sombra disponível. Nestas alturas não podem estar nunca cá fora à corrente ou num quintal ou numa varanda que não tenha sombra, coisas desse género.
É o básico. Muito bem. Nuno, já aqui falámos um bocadinho sobre este tema há duas edições, acho eu, a propósito do abandono dos animais, mas tu trazias hoje aqui um ângulo que me parece mais interessante, até que é: o que fazer quando encontramos um animal abandonado? Já sabemos que há muitas instituições que nos podem ajudar neste sentido, mas quais são os teus conselhos para quem se depara com um animal que foi claramente abandonado nesta altura do ano?
Claro. Felizmente, muitos dos animais que andam na rua, ou pelo menos os que recentemente chegam à rua, não são propriamente abandonados. Ou perderam-se, ou desorientaram-se, ou fugiram porque foram atrás de outros cães a brincar. Ou seja, há uma percentagem que merece que a gente faça um grande esforço ao aproximarmo-nos deles e tentarmos descobrir se eles têm dono, se eles têm alguém responsável por eles. De uma forma geral, esses que, e hoje em dia, eu não posso cansar de referir isto, hoje em dia é obrigatório por lei, todos os nossos cães e gatos, e furões, estarem identificados com identificação eletrónica, com microchip. Portanto, a primeira coisa que nós devemos, ao encontrarmos um animal na rua, que evidentemente está à procura de ajuda, vem ter connosco, pede-nos ajuda, é tentar perceber se ele tem microchip. Temos várias opções. Normalmente, o mais rápido ou mais prático é tentar ver um centro de atendimento médico-veterinário ali o mais próximo possível e pedir com o leitor de chips para identificar, para ver se tem chip e tentar identificar o seu detentor. Normalmente, tendo detentor, é procurar nos contactos, se estiver tudo bem preenchido e tudo em condições, a própria clínica veterinária poderá tentar contactar o dono e combinarmos então a reunião para ele se encontrar. Essa é a parte feliz da coisa, é a parte mais fácil.
Mas mesmo assim, Nuno, como é que fazemos? Vamos meter o cão no nosso carro para o levarmos a algum lugar? Isso pode não ser muito fácil, não é?
Pode não ser fácil. Aqui, é óbvio que se não temos a possibilidade de nos aproximarmos dele, há várias coisas. Primeiro, podemos lhe tirar uma fotografia, tentar uma fotografia que se perceba a sua fisionomia, perceba-se as manchas, as expressões. E existe um site muito usado, eu diria que é o site mais usado para encontrar animais perdidos, que é o Encontra, que nós podemos colocar essas fotografias e dizer: "Foi visto na rua tal, no local tal, no dia tantos. Será que alguém anda à procura?" E normalmente quem anda à procura também vai procurar ao Encontra. Isso pode ser uma forma de nós também ajudarmos, porque também uma dor que é muito profunda são pessoas angustiadas à procura do seu próprio animal.
Claro.
E se nós pudermos aliviar essa dor, já contribuímos uns pontinhos enquanto estamos na Terra.
Claro.
Depois, há outras partes, há partes mais complicadas. Não podemos contactar, não conseguimos chegar ao pé deles, não conseguimos transportar, contactar as autoridades, as forças de segurança do território em causa, ou seja, a GNR, ou a PSP, ou a Polícia Marítima, se for na praia, por exemplo.
Eu tenho sempre a ideia dos relatos que vamos ouvindo, nem sempre as forças da autoridade acolhem esses pedidos com a vontade que às vezes esperaríamos também, se calhar estão com muito trabalho nessa altura, não sei, mas já ouvi alguns relatos de alguma indisponibilidade para essa ajuda por parte das forças de segurança. Tu da tua experiência, tens essa experiência ou nem por isso?
Olha, as nossas forças de segurança, já disse isto várias vezes, elas não são extraterrestres, ou seja, elas vêm da sociedade, vêm da nossa sociedade Portanto, tem lá pessoas com maior sensibilidade, menor sensibilidade, pessoas que gostam mais de animais, pessoas que não gostam de animais, tem todas as vertentes que estão lá. E isso pode facilitar ou não, pode nos ajudar a que obtenham mais empatia com a situação ou não. Agora, uma coisa é certa, independentemente da disponibilidade, e reconhecendo que todas as entidades hoje em dia não têm os recursos humanos necessários para fazer a sua função e a sua missão, reconhecendo isso, independentemente disso, abandono é crime. Se o abandono é crime, têm que ser os órgãos de polícia criminal a determinar realmente a situação, a avaliar a situação. Portanto, tenham recursos ou não, a obrigação e a responsabilidade é deles. O que quer dizer o quê? Quer dizer que nós, sociedade, mesmo achando que podem não dizer, podem não fazer, nós temos que continuar a exigir aquilo que a sociedade quis e a partir do momento em que se tornou crime, então a responsabilidade foi colocada nessas forças, nesses órgãos de polícia criminal, nos OPCs.
Mas diz-me só uma coisa. Portanto, a polícia recolhe esse animal e depois?
A polícia normalmente não tem meios de recolha.
Portanto, pede ao canil.
As polícias têm acesso a leitores de chip, têm acesso à base de dados para perceber se aquele animal tem dono ou não. Podem questionar à volta se alguém viu alguma coisa, e isso é uma coisa importante, é que as pessoas possam denunciar casos de abandono com o máximo de informação possível. Não é só porque um animal está na rua que é abandono, mas se alguém viu um carro a deitar um cão cá para fora e a ir-se embora. Temos que recolher informações, o máximo de informações sobre o carro, informações da matrícula, idealmente, uma fotografia, idealmente, um vídeo, quem é que lá estava, como é que estava vestido, o máximo de informações possível, porque essa investigação cabe aos órgãos de polícia criminal. Portanto, mais uma vez, não têm a disponibilidade, pois, mas a responsabilidade é deles. E na pior das hipóteses, enviamos essa denúncia por e-mail e mais tarde ou mais cedo, pode não ser com a velocidade que a gente gostaria, com a urgência que a gente gostaria, porque quando falamos de animais, às vezes o sistema tem a tendência de encarar os animais como coisa. Ou seja, uma coisa é algo que pode ficar numa garagem à espera. Se eu apreender um carro, o carro pode ficar no estaleiro à espera que seja averiguado. Os animais não é bem assim. E é curioso, porque quando há apreensão, por exemplo, de produtos perecíveis, imaginem um carregamento de bananas, em caso de suspeita de alguma coisa. As ações judiciais têm que ser rápidas porque não podem deixar estragar as bananas. Portanto, os nossos animais às vezes até são postos abaixo de bananas. Por quê? Porque não há aquela urgência, não são habituados à urgência. O dono do carregamento das bananas vai pressionar o tempo todo porque não quer que elas estraguem.
Claro.
Então nós, sociedade, cabe-nos a nós pressionar nesse sentido. Vamos ser o dono das bananas a pressionar pra que isso seja investigado. Por quê? Porque uma coisa é certa, a sociedade hoje em dia exigiu, e nós temos uma legislação, que foi aprovada, e que está em vigor, que classifica o abandono como crime. Portanto, se é crime, tem que ser investigado.
Portanto, cumpra-se.
Cumpra-se, exatamente.
Deixaste-me aqui duas boas dicas. Primeiro, gostei de saber que existe esse site, o Encontra-me, que pode ser uma boa plataforma pra quem encontra um animal e não percebe a situação dele, se é de abandono, se se perdeu. E esta questão do contacto com as autoridades, a GNR, a Polícia Marítima, se for numa praia. A questão de ligar diretamente pra um canil é uma das primeiras ideias que pode surgir a quem se depara com esta situação. É indicado ou nem por isso?
É uma das primeiras ideias, mas às vezes por muita boa vontade que exista, e infelizmente há situações em que não há outra alternativa. Nós temos que falar diretamente com as pessoas que queiram resolver o problema. Ou seja, ligar pra uma associação de proteção animal para fazer essa recolha, ligar pra um grupo de pessoas que é conhecida por ajudar os animais. Só que aqui estamos, e isto é um conflito que quem anda no terreno todos os dias, e eu ando no terreno todos os dias, é um conflito que a gente tem constantemente, que é o interesse do animal face ao cumprimento da legislação. Ou seja, há alturas em que o interesse do animal é mais importante do que o cumprimento da legislação, porque eu tenho é que retirar aquele animal daquela zona de risco. Claro que tentamos fazer depois, posteriormente, a reunião da prova e voltar a atuar nesse sentido. Mas sim, podemos ligar para uma associação, podemos ligar pro Serviço de Trânsito Municipal. De uma forma geral, o Serviço de Trânsito Municipal vai contactar as autoridades policiais também e até podem ir em conjunto. Porque sim, quem tem competência pra fazer a recolha dos animais são os serviços de trânsito municipais, que os levam para os centros de recolha oficiais, os antigos canis municipais. Que agora não se chamam canis, são centros de recolha oficial, porque recolhem cães e recolhem gatos. E por lei, vocês já devem rir comigo, e por lei também podem ter que recolher furões. Porque a legislação é europeia e é cães, gatos e furões.
Faz muito bem.
Mas em Portugal seria mais lógico ser cães, gatos e coelhinhos. Porque os coelhinhos de companhia são mais frequentes.
É verdade.
É aquelas coisas que a gente absorve e pronto, nem sequer se pensa quando chegam cá.
Muito bem.
Mas sim, a responsabilidade é deles
Nuno, mais alguma dica rapidamente para esta questão de encontro com um animal que não sabemos a sua origem e como é que podemos ajudar? O Encontra-me, as autoridades, também o serviço veterinário municipal ou uma associação que trate de animais. Mais alguma, rapidamente?
Muito rapidamente. Eu não direi mais alguma, direi que se houver uma provedoria dos animais no município em questão, que podem contactar também a provedoria, como em Almada existe. Por outro lado, aquilo que eu diria é: mesmo achando que os resultados possam não ser os que a gente gostaria ou que possa não haver a atenção das autoridades ou que possa demorar mais tempo, não deixem de fazer denúncias, porque só assim é que nós vamos aumentar as estatísticas ao ponto de as próprias forças de segurança decidirem que têm que alocar mais recursos e mais meios àquele tipo de crime, concretamente porque está a ser mais reportado, está a ser mais denunciado. Portanto, não desistir de continuar a lutar só porque infelizmente não estamos a atingir os resultados que gostaríamos.
Porque é lei e a lei é para cumprir. Ficamos com essa.
Isso mesmo.
E porque os animais merecem.
Exatamente.
Muito bem, Nuno, hoje falamos de abandono dos animais, nem só de abandono. Com esta situação, se se depararem com um animal que está perdido ou abandonado, qual a melhor forma de o ajudar? A questão de ver se tem um microchip. Esse site pareceu-me bastante interessante, o Encontra-me, o contacto com as autoridades ou também com as associações que prestam apoio a animais. Nuno, muito obrigado mais uma vez por este Pet Radio. Para a semana voltamos a deixar conselhos para os nossos melhores amigos. E bom fim de semana.
Bom fim de semana e protejam os animais do calor.
Combinado. Um abraço, Nuno.
Um abraço.