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Sexta-feira na rádio, a Observador é sempre sinónimo de Pet Radio, tempo de falar dos nossos fiéis amigos, como se costuma dizer. Hoje comigo, Vicente Figueira, com a Vanessa Cruz, com o Bruno Vieira Amaral e Nuno Paixão. Tens uma convidada especial também aqui pra cumprimentar, é a Sónia Morais Santos, que assina a nossa nova newsletter, Coisas de Família. Não sei se subscreves.

Subscrevo, sim, senhora.

Muito bem, assim é um ótimo início de conversa.

Sim, já gosto dela.

Ah, só por isso. Agora amuei, de repente amuei.

Quem amuou com os gatos parece ter sido um cientista polaco ou pelo menos uma entidade polaca que considerou os gatos uma espécie invasora alienista. E este termo, alienista, está a gerar muita confusão, sobretudo em mim. Não sei se partilham o painel aqui.

E medo.

E medo também.

Eu às vezes acho que os gatos são um pouco invasores, sim.

Eu acho que já todos sabíamos que os gatos não eram deste mundo.

Os egípcios tinham razão.

Esta discussão tem duas grandes discussões, eu diria, uma séria e uma relativamente divertida. Não é novidade que às vezes dizemos que os gatos são alienistas. Até costuma-se dizer que eles vieram com quem construiu as pirâmides. Partindo do princípio que as pirâmides possam ser alienistas, também. E vamos ser muito sinceros, se nós pensarmos em termos macros, a vida na Terra é alienista, porque veio de outro planeta.

Somos todos aliens, é isso que estamos a dizer.

Exatamente. Não é uma discussão que eu ache que vai fazer muita diferença na ligação que nós hoje em dia temos com os gatos. Nós temos tendência a classificar como alienistas todos aqueles seres que a gente não conhece. E então como o gato tem sempre esta vaga, esta onda, esta sombra de mistério, nós podemos sempre pensar ter. E eu vou ser muito sincero, o primeiro filme da minha vida chamava-se "O Gato que Veio do Espaço". Se vocês forem ao YouTube, procurem "O Gato que Veio do Espaço", e o filme está todo lá. Claro que tinha uns efeitos especiais que quando a gente agora os vê, meu Deus, aquilo parecia... como é que era possível?

Os gatos parecem muito ideais aqui. O meu primeiro livro também foi "Um Gato e a Gaivota que o Ensinou a Voar". Os gatos andam em todo lado, não é?

Exato.

Até na literatura.

O gato é um animal que veio viver pra nossa casa, mas que mantém sempre um nível de independência. Às vezes é mal interpretado. Há muitos gatos que precisam de viver em família, em comunidade. Há gatos mais, entre aspas, caçadores, e aqui depois abrimos a outra conversa a seguir, que vivem mais solitários, que gostam mais de se afastar. Mas o gato vive no meio de nós sem perder a sua independência também.

Mas o comportamento dos gatos é diferente da maior parte dos outros animais domesticados. Isso é mesmo assim ou é apenas uma impressão nossa?

Não, todos os animais domésticos têm o seu comportamento diferente. A ovelha tem o seu comportamento, a cabra que está logo ali ao lado já tem o seu.

Mas o gato é um bocadinho mais diferente dos outros?

É porque temos o hábito de o comparar com o cão.

Por isso mesmo, o Vicente há pouco estava aqui a falar dos fiéis amigos.

Sim, os gatos são muito frios, também não acho que

Os gatos, eu não diria que são particularmente fiéis.

São traiçoeiros.

O que tu achas?

São felinos.

Não, eu não concordo que eles sejam traiçoeiros. Eu concordo que é mais difícil de interpretar. Nós temos um problema de linguagem, de comunicação, que é mais frequente com o gato do que com o cão. O cão viveu dentro da nossa casa nos últimos séculos e viveu mais dentro de casa. O cão depende mais das nossas decisões, depende mais daquilo que nós queremos, e isso fez com que eles se adaptassem. E a nossa comunicação, dos humanos com os cães, está mais perceptível. Eles aprenderam muito a fazer aquilo que nós queremos ou a adaptar-se àquilo que nós gostamos. Já o gato, não. O gato tem uma relativa independência, apesar de eu voltar a dizer, os gatos sofrem com o abandono, os gatos sofrem por ficar sozinhos, isso não justifica que a gente abandone gatos.

Só que não exprimem isso da mesma forma.

Não exprimem e alguns gatos conseguem sobreviver mais facilmente do que cães na rua. Não generalizando, e isto é um ponto importantíssimo, porque quem abandona um gato está a colocá-lo num sofrimento atroz que não é justo e é um ato cobarde, neste momento, pra mim. Mas sim, os gatos são mais difíceis para os mortais de interpretar. E aqui depois abre, porque esta notícia, há uma parte que eu tenho que discutir um bocadinho, que é o risco

O risco pra biodiversidade.

Pra biodiversidade. Nós sabemos que os gatos podem ser caçadores por natureza, e isso abre caminho a que eles cacem alguns répteizinhos, as nossas lagartixas, alguns roedores, que cacem algumas aves, e isso possa ser um risco para a biodiversidade. Eu vou ser muito sincero, eu nunca vi nenhum estudo que relacione exatamente isto. A gente sabe que eles são caçadores, mas ao ponto de dizimar uma espécie ou de causar uma extinção ou o risco da extinção de uma espécie, nunca vi nada que o relacionasse Sim, temos que ter algum cuidado, principalmente na biodiversidade urbana, mas vamos ser muito sinceros. Nós sabemos que temos algum excesso de pombos em algumas cidades e os gatos não estão a conseguir controlar esses pombos. Portanto, não podemos assumir que há muitos gatos, então há outras espécies que são extremamente e severamente afetadas. Claro que nós somos inteligentes e temos que fazer a gestão das cidades também tendo em conta a biodiversidade. Portanto, sim, aquelas colônias de gatos urbanas, que hoje em dia são autorizadas, são legais e são estimuladas, não devem ser feitas, por exemplo, próximo de parques, de jardins, de paisagens protegidas, onde existam espécies que possam ser mais vulneráveis aos gatos. Por outro lado, há métodos, somos suficientemente inteligentes para arranjar métodos operacionais de forma a proteger essa biodiversidade e proteger o gato ao mesmo tempo. Portanto, eu penso que houve aqui uma má interpretação também do próprio estudo. Não é tão linear assim. Penso que também o autor quis ser um bocadinho provocador. Acredito nisso.

Nuno, na Turquia, ainda há pouco tempo vi um documentário sobre os gatos, que há imensos gatos por lá.

Os gatos de Istambul.

Exatamente, os gatos de Istambul, há imensos gatos por lá e nunca ninguém se queixou de serem uma espécie invasora.

Não, reparem, o que se passa é que nós temos espécies que se adaptam facilmente a viver conosco e nós temos carinho por elas e dedicamos a elas. E isso leva a que elas prosperem, porque nós estimulamos essa prosperidade. Portanto, daí até classificar invasora, eu classificaria invasora, ou melhor, normalmente as espécies invasoras são aquelas que não são naturais de um determinado ambiente e que invadem esse ecossistema, esse ambiente, e conseguem suplantar as espécies que existem lá.

E criar desequilíbrios.

Exatamente. Claro que o autor, nesta peça, vai buscar a grande civilização egípcia, para dizer que eles são naturais daquela região. Gente, os cães também, meu Deus, se a gente for buscar o passado.

Já vi pastores alemães nascidos em Lisboa.

Exatamente. Portanto, vocês conseguem imaginar um persa, hoje em dia, comparado com um persa da Pérsia propriamente dita. Não faz sentido. O siamês, que também vem daquela região. O gato, sim, o gato normalmente é um animal que vem do deserto, por isso, às vezes, a adaptação dele a ambientes com menos água, por isso também problemas de saúde, muitas vezes, também ainda vêm com essa coisa. Mas isso já tem milênios.

Já tem os milênios. Vai ficar na gaveta, então?

Sim. Eu costumo me rir às vezes que o comportamento do gato pode se justificar como uma tentativa desesperada de voltar pra nave mãe. Mas isto é uma brincadeira pra gente perceber o fascínio que os gatos nos vão dando hoje em dia, que a gente tem tanto ainda pra entender e tanto pra trabalhar com eles.

Nuno, uma coisa aqui, vamos arrumar esta questão dos gatos. São invasores, mas não representam o perigo que o estudo está a tentar fazer prevalecer, pelo menos na tua opinião. Temos também aqui conosco a Sónia Morais Santos, que não tem gatos, mas tem dois cães, e não sei, pode aproveitar agora para tirar qualquer espécie de dúvida.

Exato. Não, eles estão bem, tenho dois cães. Eu sou mais uma dog person do que uma cat person. Os gatos, de facto, têm esse lado muito independente, eu gosto daquele lar, de ser aquele focinho, aqueles focinhos muito felizes de me ver, mesmo que eu tenha saído há dois segundos de casa. Eu gosto de ser recebida com esse fervor e os gatos desprezam, não é? Têm esse hábito de nos desprezar.

Os gatos. Nuno.

A gente costuma dizer que quando a gente alimenta um cão, o cão olha pra nós e diz assim: "Este dá-me comida, faz-me festas e protege-me, então este deve ser o meu deus". Quando nós fazemos isso a um gato, o gato pensa: "Este dá-me comida, protege-me e dá-me abrigo, então ele deve ser o meu deus".

"Eu escolho o deus". Ele é que é o deus.

Ele é que é o deus. Portanto, sim, e muito divórcio sempre há entre as dog person e as cat person, porque lá está, é a facilidade com que nós comunicamos mais com uma espécie do que com outra.

E eu não queria acabar este episódio sem mencionar os Aristogatos, que têm também uma boa maneira de tratar aquilo que é um gato.

É um filme da minha infância.

Também da minha, transversal. Uau!

"A Dama e o Vagabundo".

Também.

Com um filme e com gatos transversais. Este Pet Radio dedicado aos gatos que são invasores alienígenas. Talvez não tanto. Obrigado, Nuno Paixão, por Pet Radio. Assim é que é. Até à próxima sexta.

Até à próxima sexta. Bom fim de semana.