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6:37 esta tarde, sexta-feira, como sempre, uma conversa com o médico veterinário Nuno Paixão. Olá, Nuno, bem-vindo.

Olá, muito obrigado por me receberem.

É sempre um prazer. Hoje vamos falar sobre a Freya e a forma como estamos a lidar com os animais que nos incomodam. De que é que estás a falar? Para quem está menos por dentro deste assunto, como eu, por exemplo.

Não acredito.

A sério.

A Freya era uma morsa que, nas últimas semanas, e já há algum tempo, era vista num dos fiordes de Oslo, na Noruega.

Já sei do que estás a falar. Já li essa notícia.

Foi eutanasiada, não foi?

Exato. Mais ou menos.

Não foi eutanasiada, foi abatida. Eutanásia é uma razão médica que é feita por um profissional médico veterinário por razões de saúde daquele animal e é uma decisão consciente, tomada, bem ponderada do ponto de vista científico, médico, moral e ético. Abater animais é o que a gente faz todos os dias nos matadouros. São animais saudáveis que são abatidos e que acabam por morrer por causa disso. Aqui a gente não tem um animal doente, um animal que para acabar com o seu sofrimento, optou-se por que ele seja posto a dormir de uma forma mais suave ou então eutanásia. Não foi este o caso. Até porque a Freya já tinha sido avistada no Reino Unido, nos Países Baixos, na Holanda, Dinamarca, Suécia, portanto, andou já por vários países, era monitorizada por vários profissionais biólogos. A Freya era uma morsa um pouquinho mais diferente, porque ela era conhecida por ser bastante afável, por se aproximar dos humanos. Não é novidade os animais silvestres, hoje em dia, aproximarem-se de humanos, aproximarem-se das cidades. Isto porque as cidades estão a crescer, os habitats naturais destes animais estão a ficar cada vez mais pequenos e a adaptação destes seres silvestres começa a ser uma adaptação às nossas cidades, ao ambiente em que nós também vivemos. Portanto, raposas, javalis, saca-rabos, todos estes animais agora andam se a aproximar mais dos humanos, porque não têm terreno, não têm onde e por outro lado, também são suficientemente inteligentes pra perceber que a fonte da alimentação é mais fácil se estiver junto a um humano. A Freya vem nos lembrar um pouco aquilo que hoje em dia, e até inclusivamente com os cães e com os gatos, isto acontece. As pessoas olham e quando um animal incomoda, mesmo pessoas que dizem que gostam muito de animais, que se preocupam com eles, que até têm animais em casa, querem é que aquele animal lhes saia da vista, que saia do campo de visão. Muita gente não lhe interessa muito bem pra onde é que eles vão.

Há pessoas, Nuno, que até têm capoeiras em casa, galinhas, coelhos e vai havendo de quando em vez uma aparição, por exemplo, de um saca-rabos, como estavas aqui a exemplificar. Essas pessoas muitas vezes até criam armadilhas para depois apanhar esses animais, tendo em conta que acabaram por matar alguma da criação. Também é a propósito disso que queres falar aqui sobre essa maneira como nós tratamos esses animais.

Também, porque nós humanos arrogamo-nos de sermos o ser mais inteligente do planeta Terra. Eu penso que nós somos suficientemente ardilosos e inteligentes para conseguir arranjar uma alternativa. Conseguimos proteger as nossas galinhas, os nossos coelhos, sem termos que matar um ser que está a lutar pela sobrevivência deles. Por exemplo, há um problema relativamente grande em Inglaterra das raposas que vão para os caixotes do lixo. Então temos que ter caixotes do lixo suficientemente estanques, temos que ter população educada, temos que ter pessoas preocupadas. Não é eliminar as raposas, porque até está a ser prejudicial pra elas comerem os caixotes do lixo, porque estão até a desenvolver problemas de diabetes e outras complicações. E temos que ser suficientemente inteligentes para conseguirmos ter a nossa segurança humanos, a segurança dos animais à nossa volta, garantir que há uma coexistência e que nos adaptamos uns aos outros. E reparem, a Freya não matou ninguém, a Freya não magoou ninguém. A Freya era conhecida por tentar subir pra cima dos barcos, porque queria apanhar sol e estragou barcos. É verdade. Então será que nós não somos suficientemente inteligentes para conseguir proteger os barcos e impedir que a Freya suba pra cima dos barcos, mas que possa subir pra cima das docas, onde tenham força suficiente pra aguentar com um animal de 600 quilos? Tenho a certeza absoluta que quando nós humanos queremos, nós temos a capacidade de nos protegermos e protegermos os animais à nossa volta e manter uma coexistência pacífica. Hoje em dia é impossível nós vivermos sem termos que pensar nos riscos que existem à volta Quer para nós, quer para os outros animais. Às vezes é tão triste como ter pessoas que, por exemplo, reclamam que o cão do vizinho ladra muito. E em vez de o foco ser o vizinho que tem que aprender a controlar o seu cão, tem que saber o que fazer para que ele não ladre, tem que ir mais vezes com ele à rua, tem que deixar de o ter na varanda 20 horas por dia. Em vez disso, não, as pessoas focam-se em que o cão não pode lá estar, o cão tem que sair, o cão é que incomoda. Não, a má educação das pessoas é que está a fazer com que aquele animal incomode os outros. E o foco que muita gente tem, muitas das vezes, é exatamente este: vamos eliminar o animal, porque é mais fácil. É uma decisão que eu consigo dizê-la já. Vamos eliminar. Eliminar até não tem que ser eliminar abatê-lo. Às vezes, a maior parte das pessoas têm uma ideia idílica que vamos retirá-lo daqui e vamos pô-lo num santuário ou vamos pô-lo num canil onde ele vai ser feliz, ou vai para uma quinta onde ele vai correr a brincar com outros. E esta é a ideia idílica que, na realidade, infelizmente, não é possível fazermos isto a todos os animais. Nem muitas das vezes é justo fazermos isto aos animais. Reparem, retirávamos, por exemplo, a freia do ambiente dela e colocava-la num oceanário, num aquário, só porque ela habituou-se a subir nas docas de uma cidade mais movimentada.

Nuno, um dos responsáveis da Direção Geral de Pescas da Noruega disse que uma das razões para o abate foi precisamente de o animal não estar no seu habitat natural, não estar no seu ambiente natural, não ser aquela zona apropriada para o animal.

Sim, mas repare uma coisa. Hoje em dia nós temos, por exemplo, ao largo do nosso país e aqui concretamente ao largo de Almada, Lisboa, nós temos hoje em dia um afluxo completamente anormal de orcas, porque as alterações climáticas estão a fazer com que os habitats mudem. Nós não vamos poder imaginar que os ursos polares fiquem só a viver no Círculo Polar Ártico, quando o Círculo Polar Ártico está a diminuir. Eles vão ter que baixar, eles vão ter que se aproximar de cidades que não era normal. E esta situação é normal da freia estar a ir. Possivelmente, ela foi a primeira a vir. Possivelmente foi o primeiro bolono a vir para um novo território que vai passar a ser um território dessa própria espécie. E mesmo que não seja, então por que ela está lá? Perdeu-se? O grupo dela de onde é que veio? Então conseguimos movimentá-la, conseguimos levá-la para outro local. Ainda por cima, estamos a falar de um país que tem meios. E eu não queria só concentrar na freia, porque vou ser muito honesto, eu não tenho os pormenores todos sobre o caso.

De qualquer das formas, também não foram adiantadas explicações muito concretas sobre o motivo para essa decisão.

Exatamente.

Não se percebe. Fala-se em segurança, apenas, mas lá está, não se aponta aquilo que parece mais ou menos evidente e que tu estás a referir, Nuno, que é a questão de por que não se deslocou a freia para outro ambiente.

Exato. Onde é que está a colônia de morsas mais próxima? Ela perdeu-se, porque pode acontecer. E reparem, com as alterações climáticas que nós estamos a ter, não é preciso pensarmos muito, mas há uma doença nos animais, a leishmaniose, que é relativamente conhecida e muito comum hoje em dia, que há 30 anos atrás era raríssima em Portugal ou era difícil encontrar. E por que isso aconteceu? Porque os mosquitos do norte de África começaram a sobreviver na península Ibérica, no sul da Europa, e vão por aí acima, e estão a sobreviver no norte da Europa, coisa que esta doença não existia. Portanto, estas alterações, estas dinâmicas, são comuns e vão ser aquelas que a gente vai ter que lidar daqui para a frente.

Muito bem, Nuno.

Não podemos é decidir pelo caminho mais fácil.

Percebo completamente o teu ponto de vista e acho muito importante que tenhas trazido este assunto. Eu, de facto, passei diagonalmente os olhos por esta notícia e ela tem aqui camadas que me parecem bem mais importantes e que tu abordaste, e muito bem, neste "Pet Radio", que daqui a pouco fica disponível lá em podcast e voltamos a marcar encontro para de hoje a uma semana. Nuno, bom fim de semana. Obrigado, um abraço.

Bom fim de semana. Um abraço a todos.