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Mais um domingo na Rádio Observador e, por isso, temos mais um Pet Radio, sempre com o veterinário Nuno Paixão. Olá, Nuno, bem-vindo a mais um Pet Radio.
Olá, cá estamos.
Como foi a tua semana? Correu bem?
Sim, foi boa.
Passou.
Já prontos para outra.
Exatamente. Olha, hoje trazes-nos um tema um bocadinho chato, não é?
É.
Não tão feliz. É o tráfico de animais, que infelizmente acontece muito.
Falar um pouco sobre tráfico de animais. Primeiro, nós temos vários tráficos de animais. Nós não nos podemos esquecer que o terceiro tráfico mais rentável para organizações criminosas é o tráfico de animais exóticos e silvestres.
Ok.
Portanto, a gente vai deixar esse para outros dias. Os desgraçados dos papagaios.
São os que mais sofrem.
São traficados, são transportados, às vezes, dentro daquelas garrafas d'água pequeninas, fechados.
Portanto, condições péssimas.
Condições péssimas e que para um sobreviver e chegar às nossas lojas, às vezes morrem 10, 15 animais.
Claro.
Mas pronto.
Isso é para outro episódio.
Outro, completo.
Hoje vamos focar nos cães.
Vamos focar nos nossos cães. Tem-se falado muito sobre a exportação, o tráfico de animais errantes, portanto, estamos a falar de cães sem raça, cães que andavam na rua, recolhidos em abrigos, em associações, em centros de recolha oficial, serem exportados. Essa palavra eu já não gosto.
É forte, não é?
Exato. Então, traficados.
Isso é pior ainda.
Pior. Para outros países da Europa. Eu começo, por já por dizer que eu aceito que haja outros países com outra qualidade de vida, com outra cultura já há algum tempo para cá, que tenha menos cães errantes, que ao quererem ajudar algum animal errante, as pessoas tenham uma intenção, uma boa intenção, de adoção de animais. Entristece-me que possa haver a imagem de que Portugal está pejada de animais maltratados e que nós somos um país do terceiro mundo, em que as pessoas vêm cá para salvar cãezinhos que estão a ser maltratados.
Pois é, uma imagem, se calhar, errada.
Eu gostaria de responder.
Espero eu.
Eu gostaria muito de responder assim rapidamente a dizer: "Sim, é uma imagem errada".
Supererrada. Mas será que é esse o problema?
Infelizmente, ainda temos animais a mais. Temos animais a mais, temos alojamentos, abrigos, associações, CRO, completamente atulhados de animais. Temos animais em condições não tão más, mas que estão à espera de ser recolhidos, porque aquelas condições não são as melhores, à espera de uma vaga numa associação, num abrigo, para entrarem. Portanto, se a gente andar a levantar pedras, infelizmente vamos encontrar muita coisa feia por baixo das pedras. Mas mesmo assim, nada justifica que não se cumpra a lei, não se cumpra os regulamentos, a lei europeia, a lei nacional, os regulamentos europeus, para o transporte de animais na Comunidade Europeia. E isso tem que ser cumprido. Temos pelo menos os requisitos mínimos, como a identificação, a vacinação, o estado de saúde, a avaliação por um médico veterinário, garantir que eles estejam em condições. Depois, garantir que quando chegam também são vistos e recebidos em condições e depois garantir que realmente as associações, as organizações não governamentais ou sem fins lucrativos do país que recebe, é credível, é honesta, realmente estamos com pessoas com boa intenção e que o que interessa é a salvaguarda do bem-estar e arranjar uma casa.
Já que vai para outro sítio, convém ir com segurança.
Não me custa que haja esta parceria, esta colaboração entre associações portuguesas, entre CRO portugueses, com associações que estejam noutros países e que também lutem pelo bem-estar e pelo interesse dos animais.
Claro que sim.
Custa-me um pouco, também vou dizer à partida já que existe uma coisa chamada taxa de adoção, o que seja, algumas associações cobram. Não me choca essa taxa de adoção. As associações, quando fazem um bom trabalho, têm as suas despesas.
Exato.
Quando se preocupam realmente com o bem-estar dos animais, implica certas condições, implica certos cuidados, isso é preciso pagar-se. Portanto, não me custa minimamente que haja uma taxa de adoção, para que isto se mantenha.
Até faz sentido.
Estas organizações sem fins lucrativos não têm que ser pobres. Pelo contrário, se tiverem os seus financiamentos, conseguem chegar mais longe, fazer melhor.
Sim, em melhores condições os seus animais.
Exatamente. Portanto, isso não me choca. Choca-me que no meio disto tudo haja intermediários que ficam com 90% do dinheiro, em vez de o investirem naquilo que devia ser, em boas condições, em boa alimentação, bons cuidados médico-veterinários. Tudo isso. Isso choca-me. Choca-me que haja esse interesse, essa exportação, que na realidade é isso.
Pois é, é o nome mais indicado, infelizmente.
Exatamente. Depois, custa-me que haja pessoas que se dediquem quase como especialistas nesta exportação, ou seja, pessoas que dizem, argumentam que têm uma boa vontade, mas que a adoção é só feita no estrangeiro.
Só por si, já parece um pouco suspeito.
É estranho. Depois que isto não esteja tudo transparente. Repare, às vezes quando uma pessoa adota um animal, essa pessoa Tem o direito à sua privacidade, à sua confidencialidade. O mundo inteiro não tem que saber quem é que adotou aquele animal. Até por uma questão de privacidade e de respeito pelos outros. Além do imperativo legal, hoje em dia nós temos uma lei de proteção de dados.
Por si só já .
Já por si só. O mundo inteiro não tem que saber para onde é que aquele, mas quando necessário demonstrar às entidades competentes, saber quais são os trajetos dos nossos animais. Além do trajeto legal, porque existe uma necessidade de transmitir, nomeadamente à Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, transmitir este trajeto. Além disso, há uma necessidade, eu diria, ética e moral de mostrar, demonstrar quais são os passos destes animais. Não que seja de conhecimento do mundo. Porque há que respeitar as pessoas, mas há que proteger os animais.
Claro.
Tem que haver aqui um equilíbrio, tem que haver uma lógica. Às vezes o bom senso não é suficiente para estas coisas funcionarem. É necessário entidades competentes que fiscalizem, que perguntem, que tenham, no mínimo, curiosidade em saber. Partindo do princípio que isto tudo está garantido, partindo do princípio que os nossos animais não andam a ser caçados na rua para serem enviados para outro lado qualquer. Que não é qualquer animal que anda na rua, é aqueles que necessitam.
Pois, é isso que eu pergunto, como é que este tráfego, esta é uma palavra muito forte, mas como é que funciona?
Reparem.
Era como estava a dizer, apanha um cãozinho na rua, por exemplo.
Há associações que nem sequer têm um alojamento legal, que os vão enviar para outro país. Isso para mim é estranho. Primeiro, há associações que nem sequer têm constituição legal. Nem sequer têm os trâmites comigo. Isso já começa mal. Depois, nem sequer têm um alojamento. Se não têm alojamento, onde é que estão os animais para? À espera para ir. Ou seja, dá ideia quase que eu ando a passear na rua, não interessa quem é o cão, não interessa se tem dono.
Sim, até para andar na rua e ter dono .
E apanho e levo. Quem me diz a mim que não é roubado?
Pois.
Como é que eu sei a origem? Isto tudo tem que ser levado a sério. Fala-se muito. Volto a dizer, eu não gosto de generalizar. Eu acredito que no meio disto haja alguns animais que foram bem adotados, que terão em famílias na Suíça, na Alemanha, na Suécia, onde seja, em famílias que realmente lhes dão um conforto que nós não conseguimos, nós temos excesso de animais, nós precisamos de fazer um esforço muito grande para que estes animais, que não têm ninguém para tomar conta deles, possam ter uma casa e um conforto. Acredito que haja boas adoções também fora.
Como tudo, há excessos, claro.
Agora, é preciso saber como e é preciso voltar à procura, ter a garantia de que não há animais roubados, não é isso tudo, que temos a garantia que aqueles animais realmente precisavam. Basta a gente abrir às vezes os sites de certas organizações de proteção animal noutros países e estão lá as fotografias dos cães portugueses para adoção, que não estão, por exemplo, em sites portugueses, o que me mete logo à partida aqui muita confusão. Ou seja, alguém na Suíça tem um privilégio superior ao meu. Eu estou a falar da Suíça, poderia ser outro país qualquer. Tem o privilégio superior ao meu de ter acesso a animais que estão aqui a 50 km, 100 km de mim, e escolher um animal, que esse animal vai fazer 1000 km, 1500 km para chegar aonde deveria.
E nem sempre nas melhores condições.
Sim, depois como é que o transporte é feito, também. Há normas para transportes, os nossos cães têm que ter condições mínimas para o fazer. Estas despesas todas aqui no meio, como é que elas são pagas? Porque é preciso serem pagas.
Claro.
Eu volto a dizer, às vezes esta noção de nós que temos que ser pobrezinhos para sermos muito dignos, está errada.
Exato.
Eu não tenho que ser pobre para ser honesto. E os honestos não têm que ser pobres .
Exato.
E isto é a mesma coisa nas associações de proteção animal. Elas não têm que ser pobres. Pelo contrário, quanto mais ricas elas forem, melhores condições vão dar. Eu acredito que haja despesas que sejam preciso pagar-se. Custa-me é que isto tudo seja feito assim, sem se perceber. Sim, há muita gente que fala também sem saber, é verdade. Mas quando é tudo muito obscuro, quando é tudo muito estranho, quando é tudo muito escondido, há sempre alguém que inventa. Eu às vezes uso aquela expressão: "Contem, senão eu vou inventar". Mas eu uso isso para os amigos na brincadeira.
Não neste caso.
Não neste caso, acho que isto é um assunto demasiado sério para isso. Mas, na realidade, há muita gente que inventa, há muita gente que faz filmes. Portanto, quem não deve fazer filmes, quem não deve inventar, são as entidades competentes que devem investigar e saber. E muitos avisos têm sido feitos nos últimos anos de que algo de estranho pode acontecer. Há um documentário também feito na Dinamarca, penso eu agora, pode me falhar a memória, de 300 cães portugueses que foram para a Dinamarca e que chegaram os 300 cães que tinham alguma doença, que eu também não percebi muito bem qual é a doença, o meu dinamarquês não é dos melhores. Está enferrujado.
Um bocadinho, mas a malta percebeu a ideia.
Exatamente. Está enferrujado. Volto a dizer, eu não fui investigar ao fundo para perceber tudo. Acho que está na hora de alguém o fazer. Acho que está na hora de se perceber e de esclarecer de uma vez por todas se é verdade, se não é verdade.
Quem é que o deve fazer?
Aqui temos as competências do ICNF, temos as competências da própria DGAV, porque a DGAV também tem competências em certas partes. Temos as competências das forças de segurança, dos órgãos de polícia criminal, como a GNR e como a PSP, conforme a sua área do território. Portanto, há várias entidades que têm a competência de saber o que se passa.
Para o poder fazer.
Claro que, às vezes, nós em Portugal dizemos que somos um país pequenino, e somos, mas um cão sai de Évora, é entregue em Alhandra, que depois passa para Vila Pouca de Aguiar. E há uma teia de associações e transportes no meio disto tudo, que fica tudo muito confuso. E se não cumprimos a lei como deve ser, ou seja, com a identificação eletrónica, com os exames clínicos, tudo registado, é difícil de se conseguir isto. Principalmente quando se vai de carro e dentro da Europa a gente sabe que podemos viajar livremente pela Europa num carro. Quando é de avião, às vezes sempre há um pouco mais de controle, porque pedem os documentos, acham estranho, é mais registo.
Acaba por ser mais fácil.
O carro disfarça um pouco. Volto a dizer, não quer dizer que quando se transporta cães de carro, a gente está cometendo um crime. Não estamos.
Reforçar esta ideia.
Exatamente.
É a maneira como se faz.
Exatamente. Temos que saber. Sim, eu agradeço a todas as famílias da Europa, do mundo que seja, que tenham a boa intenção de dar um bom lar, confortável e bem-estar a qualquer cão português que não o tenha. Agradeço-lhes do fundo do coração e gostaria de poder falar com todas elas, e arranjar um cão que elas merecessem e vice-versa. No entanto, no meio disto tudo, sim, há oportunistas. Nós sabemos que há oportunistas no tráfico humano. Nós sabemos que quando há refugiados, há oportunistas que se aproveitam. Nós sabemos de quando começou a guerra na Ucrânia, que houve pessoas que queriam fugir e que havia autocarros a ir buscá-las, e elas foram desviadas para trabalho escravo, para escravidão sexual, como a gente sabe. Portanto, há pessoas mal-intencionadas no mundo, que de tudo vão fazer para ganhar à custa dos outros. E os animais também, porque muito mais do que das pessoas, a humanidade foi feita em cima do sofrimento animal e vai continuar a ser, não só o sofrimento, mas muito sofrimento que nós causamos. Portanto, isto vai acontecer. Agora, cabe-nos a nós olhar, cabe-nos a nós perguntar, cabe-nos a nós ver o que se passa e garantir que esta probabilidade daquilo que possa acontecer seja a mínima possível e que dos, fala-se em 17 mil, números redondos, nos últimos anos, cães que foram para fora, que sinceramente, se isto é algo ilegal, se a gente sabe que são 17 mil, provavelmente não são 17 mil, vai ser muito mais.
Exato.
Isto é triste estar-me a rir disto. Mas a gente estima números de coisas que não estão declaradas.
Exato.
É estranho. Mas que sejam, porque alguns deles são declarados, o que seja. Portanto, estes 17 mil será um mínimo. A partir daí, são muitos que nos escapam ao radar e que a gente não sabe.
Claro.
Que destes todos sejam animais que vão ser felizes, ótimo, estamos bem. E é isso que a gente quer.
Cabe-nos a nós, Nuno, estarmos mais atentos.
Sim, e questionar, perguntar.
Sempre. Nuno, muito obrigada por este "Pet Radio", já sabe, pode ouvir novamente em podcast e sempre em observador.pt e nós, Nuno, temos encontro marcado para o próximo domingo aqui na Rádio Observador. Até lá, uma excelente semana.
Boa semana.