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Vamos a mais um Pet Radio aqui na Rádio Observador. Como é que você está, Duarte? Sempre com o veterinário Nuno Paixão. Olá, Nuno, bem-vindo. Mais um Pet Radio. Tudo bem?

Muito obrigado. Está tudo ótimo.

Ótimo. Hoje vamos falar de um tema um pouquinho mais sério, não é?

Sim, se bem que todos os nossos temas têm sido sérios.

Claro sim, são sempre com a sua seriedade.

É mais a nossa forma como olhamos para as coisas.

É isso mesmo.

E sim, é um tema sério, preocupante. Eu tenho defendido sempre esta aproximação à segurança única. Quando garantimos que os nossos animais estão seguros, estão em condições, garantimos que os humanos também se sentem seguros.

Claro, sim.

E há um ponto que me diz bastante e, inevitavelmente, na semana passada comemoramos o Dia Internacional da Mulher e, inevitavelmente, a violência doméstica vem à discussão, porque continuam a ser a maior parte das vítimas de violência doméstica as mulheres, ou pelo menos aquilo que se estuda mais e que se sabe mais. No entanto, se a gente pensar no que é a violência doméstica, a violência doméstica tem alguns padrões. Basicamente, tem um padrão coercivo, de controle, exercido direta ou indiretamente, em que há condutas violentas emocionalmente ou físicas contra pessoas do agregado familiar: a mulher, filhos, enteados, os avós, os pais. Mesmo que não estejam dentro de casa, porque podemos também estar a falar quando se fala de namorados, ainda que cada um esteja vivendo em sua casa.

Sim, e não deixa de acontecer.

E a família inclui os animais também. E depois, por outro lado, este tipo de violência implica mostrar poder perante os outros e controlar aquilo que os outros amam. Portanto, eu quando quero exercer poder perante outra pessoa, eu controlo a vida, controlo tudo o que se passa à volta e mostro que aqueles de quem essa pessoa ama estão sob o meu poder. E isto é uma forma poderosíssima de controlar, de sujeitar o outro.

Claro.

E isto assusta. Assusta porque quando se revê casos de violência doméstica, tem-se apontado que mais de metade dos casos de violência doméstica houve evidências de violência contra os animais desse agregado familiar, antes de se despoletar propriamente a violência doméstica mais visível. Infelizmente, os nossos animais são menos visíveis. A violência dentro de casa, a violência na intimidade é escondida, é preciso transmiti-la cá para fora e nem sempre se vê o que se faz ao cão, porque o cão raramente pode transmiti-lo cá para fora. Quando vem passear à rua, não vai poder dizê-lo. E isso acontece em casa. E é uma forma de exercer poder. E isto é um assunto tão sério, está mais do que estudado, existe a teoria do elo, que relaciona os maus-tratos, afirmando, em última análise, que maus-tratos não distingue espécie, não distingue sexo, não distingue idade, não distingue raça. Maus-tratos são maus-tratos e a tendência é agravar cada vez mais no sentido. E tudo o que isto também implica na educação das crianças, a forma como se tratam os animais, a forma como os mais velhos são mais disciplines, não tão preocupados da forma como os seus filhos possam tomar ou não conta dos animais ou infligir algum mau trato. E isto é assustador, porque estamos a criar gerações em que se torna natural. E há coisas que me assustam. Há vários relatos e eu vou passar.

Trouxeste-nos uns.

Trouxe alguns. Isto é um dos relatos transmitidos por alguém que estava a assistir, que diz assim: "Quando ela, vítima de violência doméstica, começou a testemunhar no tribunal a maneira como o seu ex-marido matou o seu cão, o juiz rapidamente interrompeu-a e disse: 'Não diga mais, por favor'. E o juiz e as pessoas na sala estavam incrédulos como um ser humano pode apedrejar um cão até à morte. Isto para mostrar poder perante ela."

É muito forte.

Sim. Outra transmite assim: "Ele ia pontapear o cão depois de me maltratar emocionalmente. Às vezes coisas tão simples quanto: morreu. Ele matou o peixe, atirou-o pela sanita e puxou o autoclismo". Isto eram relatos do dia a dia de alguém que sofre na intimidade, sofre sozinha dentro de casa este sofrimento. "Há um ano o meu ex-marido matou o cão enquanto estávamos a ter uma discussão." Outra afirma: "Eles, cão e gato, eram os meus filhos. Ele iria envenená-los ou enforcá-los se eu não fizesse aquilo que era suposto."

Pronto, estou aqui a tentar processar tudo.

E isto continua.

Continua e infelizmente é uma lista muito grande, não é?

Sim, há coisas muito ligeiras, entre aspas, se podemos chamar ligeiras. "Somente no animal naquele dia da agressão, ele chegou embriagado e agarrou o cachorrinho pelo pescoço." "Sim, ele bateu no cão e atirou com o sapato contra mim." E algumas vezes nem se percebiam. Por quê? Porque isto ao longo do tempo vai se controlando, vai se impondo poder nessa pessoa. E alguns dizem assim: "Alguns morreram, outros desapareceram ou foram entregues. E outros, o meu companheiro livrou-se deles. Iam pra uma quinta". Quando não se comportavam como ele achava que, pura e simplesmente diziam: "Vou entregar o gato no canil". Pura e simplesmente dizia: "Se tu não fizeres isto, quando não estiveres em casa, ele é que vai sofrer".

Até usavam como quase chantagem.

Claro, chantagem.

A obediência dos animais.

Sempre. E depois temos outra fase, que é aquelas pessoas, isto acontece em relação aos filhos, mas já se vai pensando, que são aquelas pessoas que não querem denunciar, não querem sair de casa, porque se saírem de casa, têm que deixar os seus animais de companhia para trás. Os abrigos de vítimas de violência doméstica, felizmente, hoje em dia, já começam a olhar e a recolher também. Porque noutros relatos, houve uma moça que disse: "Enquanto eu não arranjei um abrigo, quem ficasse com o meu cão, eu não podia sair de casa". E sujeitou-se durante meses aos maus tratos contínuos, porque não tinha onde colocar o seu cão, porque no abrigo pra onde era suposto ela ir, não tinham forma de receber o seu cão. E ela não o queria deixar junto do seu ex-marido.

Portanto, nem todos os abrigos permitem receber cães e gatos.

Não, infelizmente. Mas as coisas vão mudando.

Vão mudando, espero que para melhor.

Já há um alerta pra isto. E nós não podemos encarar a questão da segurança, dos crimes só humanos versus animais, animais versus propriedade, propriedade versus carros. O sofrimento é um, ponto final. A partir do momento em que haja uma consciência, há possibilidade de sofrer. E eu prometo fazermos um programa sobre como os Estados podem também provocar terror na população através dos animais. Há casos bastante interessantes que se podem discutir bastante. Mas esta questão é sempre importante. Por quê? Porque quando o agressor da violência doméstica, independentemente do sexo que seja, quando o agressor quer, quando ele começa a disparatar, quando ele começa naqueles acessos de raiva, que depois no fim vai pedir desculpa e dizer que nunca mais se volta a repetir. No meio, os animais normalmente são apanhados. São apanhados porque é uma forma de mostrar: "Eu não lhe queria fazer isto, mas tu obrigaste-me". E quem diz animais, depois diz os filhos, depois diz os sogros, diz os pais, dependendo da vulnerabilidade. Porque esta intenção, e há uma série de crimes concorrentes. Normalmente, não é raro alguém ser denunciado por violência doméstica, vai-se lá à casa das pessoas e aí depois têm armas ilegais, porque há uma série de crimes concorrenciais, crimes que estão interconectados, mas que têm um ponto em comum, que é alguém que quer exercer poder, quer exercer medo a outros.

E acaba por usar os animais.

Exatamente. Os animais são uma forma. Por quê? Porque a ligação emocional destas vítimas aos animais ainda é superior, porque sente-se sozinha, sente-se afastada, não pode falar. Possivelmente, aquele terror emocional que ela está a sofrer, possivelmente só o partilhou com o seu animal de companhia. Possivelmente, só teve coragem de contar àquele cão, àquele gato. E ao contrário daquilo que essa vítima está a sentir, que não é protegida, ninguém a está a proteger, com possibilidade ou impossibilidade, não interessa. Ela sente-se completamente desprotegida, ela sente-se ameaçada da manhã à noite, ela sente-se com medo, e então ela vai fazer o esforço abismal de que os seus animais não sintam esse terror, não sintam a opressão.

É o único refúgio.

E é um dos refúgios, é aquilo que mantém alguma sanidade mental e que mantém alguém a querer manter uma família unida, apesar de todas as vicissitudes que estão a acontecer. E mais uma vez, os animais sofrem no meio disto. Sofrem porque primeiro, logo à partida, a sociedade não se preocupa muito, porque não é assim tão grave. Era mais grave se tivesse sido uma pessoa. Matou um cão. Se tivesse morto o vizinho, era mais grave.

Mas não deixa de ser grave.

É grave, porque é o princípio. Eu já mencionei aqui uma vez a teoria das janelas quebradas, que foram utilizadas para limpar um pouco o crime em Nova York pelo presidente da Câmara na altura. E eles chegaram à conclusão de que crimes menores, ao serem prevenidos, vão diminuir os crimes maiores e mais graves. Não que eu considere que o crime contra animais seja um crime menor, mas do ponto de vista jurídico, ainda é. Mas quando nós combatemos estas más relações, quando nós combatemos estes crimes menores, entre aspas, nós estamos a evitar que os crimes Sofram escalonamento e que fiquem mais graves. Volto a dizer, a segurança é a única. Para uma sociedade se sentir segura, os animais têm que estar seguros. Todos eles. Animais de companhia, animais de pecuária, todos eles têm que ser.

Não é só os que temos em casa.

Não. Infelizmente, na violência doméstica, e também um dia eu espero fazer outro programa em que a gente fale da relação dos maus-tratos a animais com indivíduos que realizam atos de terrorismo. A violência contra animais, os maus-tratos contra animais, ou estão associados, ou são o primeiro passo antes de, ou são uma forma de exercer poder perante outros.

Até parece que é o abrir um caminho.

É um abrir um caminho. Vamos ser muito sinceros. Se eu quiser, se eu planear um atentado, se eu quiser maltratar alguém, mas se eu nunca fui violento e não causei dano a outros, eu não sei se vou ter coragem de o fazer. Então a primeira coisa que eu fazer é experimentar num animal. E normalmente, infelizmente, nós temos uma hierarquia moral de animais. Possivelmente vamos começar a torcer o pescoço aos pombos, depois a seguir talvez venha uma galinha, depois é o coelho, que apesar de ser bonitinho, mas vamos lá ver. Depois vamos cortar uma pata a um gato, depois a seguir vamos bater no cão. Nós temos casos em Portugal, tivemos um caso em Portugal que, como ele não conseguia chegar à ex-namorada para a punir por ela querer separar dele, ele matou o cão, esquartejou o cão e o mostrou. Enquanto nós não combatermos estes crimezinhos, entre aspas, os outros vão se manter.

Claro.

Além do dever ético, além daquilo que a própria sociedade hoje em dia quer, que é proteger os seus animais, já que algumas pessoas possam não entender isso, então que se entenda que ao combatermos crimes mais pequenos, estamos a garantir que os crimes maiores não ocorram, ou pelo menos haja menos frequência. Portanto, na violência doméstica e quando nós falamos de violência dentro de casa, a violência não é só física, há abuso emocional, abuso verbal. Alguns cães metem-se no meio.

Era isso que eu até ia perguntar. Acho que é normal, não digo tanto um gato, mas se calhar um cão intrometer-se. Meter-se no meio para tentar defender o que se passa, aquele aparato todo e depois também acaba por apanhar.

Claro, até porque começa a haver dentro de casa: "Se não estás do meu lado, estás do lado de lá. E eu é que mando, eu é que sei, faz aquilo que eu quero". Esta coisa de dizer ao cão: "Senta-te" e ele não senta, então bate-lhe para ele se sentar. O cão rouba qualquer coisa de cima do balcão e é espancado porque roubou qualquer coisa. Sinceramente, qualquer família que tenha alguém no seu seio familiar que explode e espanca o cão porque ele roubou o bife de cima da bancada, essa pessoa é um alerta gravíssimo e essa família deve se pôr bem alerta e ter cuidado.

São essas pequenas coisas que devemos também estar atentos.

São pequenas coisas que devemos estar atentos. Porque reparem, é uma covardia, mas eu posso exercer poder em cima de alguém, abusando, massacrando, e falamos tanto de abusos hoje em dia, em seres que não vão contar a ninguém. Eles não vão dizer.

É um ato de covardia até, não é?

É profunda covardia, é totalmente covardia, porque aquele ser não tem capacidade de se defender.

É isso, atira-se em quem.

Não tem forma de contar a outros.

Claro, exatamente.

E no íntimo da casa onde supostamente deviam estar protegidos, no íntimo da sua casa onde deviam dormir descansados, sofrem os maiores abusos e os maiores maus-tratos, porque alguém pura e simplesmente passou-se naquele dia, e passou-se no dia a seguir, e passou-se no mês seguinte, mas pede desculpa em todas e volta atrás, e massacra aquele cão ou aquele gato e pede desculpa, porque: "Repara, não, eu só quis educá-lo. Ele fez algo de errado. Tenta compreender, eu também gosto muito do meu cão, mas ele fez algo errado e por isso eu tive que o educar, eu tive que lhe bater."

Até utilizam os animais como manipulação psicológica.

Claro, e a seguir é assim: "E a culpa é tua, porque tu não educaste o cão. Tu não educaste o cão, ele está malcriado, ele está a saltar para cima da cama. Ele está a saltar porque tu permitiste, porque tu não tens capacidade para tomar conta do cão, muito menos vais ter capacidade para tomar conta dos filhos, e quando eu me separar de ti, tu vais ficar sem eles e não vais ver nenhum deles. E eu vou fazer o que eu quiser deles."

Portanto, mais uma vez, ali são os animais envolvidos no drama.

Claro, e os animais são um alerta. Estamos a falar de crimes, de alerta para crimes mais graves. Estamos a falar de relações emocionais doentias, que devem ser paradas e combatidas o mais rápido e o mais cedo possível. Que seja antes, pelo menos nos animais.

Claro que sim. E Nuno, voltando se calhar só um bocadinho atrás para terminarmos, era importante as associações poderem acolher também os animais.

Sim, era importante que todos os técnicos envolvidos na avaliação destas vítimas tenham em conta primeiro os animais que estão envolvidos, terem em conta e estudar a possibilidade de que os animais de companhia destas pessoas sejam recolhidos com elas e vão para essas casas, abrigos com elas. Garantir que as entidades mais envolvidas com assuntos relacionados com animais também são alertadas para isto. E havendo crime, que se cumpra a lei e que se junte mais crimes e que não seja só o crime, só entre aspas, o crime de violência doméstica, mas sim também o crime de maus-tratos, que seja todas as consequências que vêm daí, porque tenho a certeza que se nós começarmos a registrar tudo isto e não darmos mais importância a uns ou outros, entre aspas, nós vamos ter um número muito superior.

Basta como até estavas a ler há pouco, alguns dos relatos havia mesmo vítimas que não saíam de casa porque não tinham sítio para levar os animais e é compreensível.

Sim, porque senão se querem separar deles.

Exatamente, acabam por ser o apoio.

São o único apoio que têm.

Exatamente, o único apoio que têm.

São aqueles com quem partilha tudo o que acontece, porque eles estavam presentes, eles veem, eles assistem e a seguir àquilo tudo, confortam-se um ao outro. Quer a vítima, quer o animal, confortam-se um ao outro porque ambos compreendem-se e sentiram exatamente o mesmo.

Portanto, é importante haver um sítio em que possam ir os dois e ajudarem-se.

E ajudarem-se a recuperar mais rápido.

Um ao outro. É isso mesmo.

E levantarem-se novamente.

Claro que sim. Nuno, olha, muito obrigada por este "Pet Radio". Hoje já não temos mais tempo, mas temos mais um "Pet Radio" para o próximo domingo, cá estaremos.

Próximo domingo. Foi rápido.

É verdade, passa sempre a correr. Nuno, até lá.

Boa semana.