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Sabem aquela impressão na barriga que sentimos quando o avião levanta voo? Estamos a bordo de um Boeing 727 da TAP, que acabou de descolar de Lisboa sem qualquer problema. A viagem não dura muito, tem como destino Faro e, por isso, daqui a pouco já estaremos a aterrar.
Boa noite, senhores passageiros. Agradecemos que permaneçam sentados e mantenham os cintos de segurança apertados enquanto o sinal estiver ligado. Obrigada.
Se olharmos em redor, contamos 83 passageiros, mas reparem em cada um deles com mais atenção. Um dos passageiros das filas de trás parece estar nervoso. Está aparentemente mal-disposto. Assim que o sinal de apertar os cintos se apaga, levanta-se para ir à casa de banho. Em vez de se dirigir à que está mais próxima, nas traseiras do avião, percorre todo o corredor até chegar à casa de banho da frente, mesmo junto ao cockpit. Pensando bem, isto deveria ter sido um primeiro sinal de alerta, mas na altura ninguém deu importância a esse pormenor. Quando finalmente derem por falta dele, já será tarde demais. É a primeira vez que anda de avião e, no entanto, sabe muito mais sobre aviões do que qualquer outro passageiro comum. Sabe, por exemplo, que este voo leva mais combustível do que o necessário para chegar a Faro. E esse vai ser um detalhe importante nesta história. Estamos a 6 de maio de 1980. Nas próximas horas, este passageiro vai pôr o país em alvoroço. Por causa dele, o governo não vai dormir. O primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, há de reunir de emergência um gabinete de crise durante a madrugada. No momento em que se levantou, este passageiro pôs em marcha um conjunto de acontecimentos que vão mudar a vida dele. Quando sai da casa de banho e dá alguns passos para invadir o cockpit, nesse momento, já não há volta a dar. Tem uma arma na mão esquerda e está a tremer. Falta aqui um pormenor. Eu já disse que ele só tem 16 anos? Este é o Piratinha do Ar, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, com banda sonora original de David Fonseca. Episódio um: o sequestro do voo 131. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Não foi por falta de aviso. Setenta e duas horas antes de o avião levantar voo, um grupo de amigos está reunido num sábado à tarde, quando um deles avança com um plano arrojado.
Estávamos na brincadeira e ele, de repente, conta-nos que ia desviar um avião. E nós: "Está bem, OK, nós vamos contigo". Brincadeira, claro. 15 anos, 16 anos. Alguém nos diz que vai desviar um avião. Está bem. Nós acreditamos. Vamos todos.
Estamos no Feijó, no Conselho de Almada. Renato Ventosa acha que é uma brincadeira. Afinal, nenhum deles tinha sequer entrado num avião. Os amigos saem de casa, atravessam o Tejo e gozam com o plano do Rui.
Íamos naqueles barcos dos cacilheiros que levavam carros. Íamos cá fora, na brincadeira, fazer aviõezinhos de papel e lançar os aviõezinhos pro rio e dizer: "Olha, vou desviar este".
Mas o Rui não está a brincar. O plano é mesmo real. Estava a ser preparado em segredo há várias semanas.
Objeto a levar na mala: máquina fotográfica
Flash e dois rolos. Bússola, lupa, calculadora Num caderno de linhas, escreveu tudo o que precisa para avançar com o plano. Caneta Parker A lista é longa, mas para ele, cada um desses objetos é essencial. Documentos que vão comigo no casaco. Passaporte, bilhete de identidade, duas agendas, número da conta bancária do pai, carteira com dinheiro, cartão de jornalista, bilhete de avião e gravador.
Era uma pessoa muito determinada, cheia de ideias, sempre a querer fazer algo mais. Era uma pessoa que tinha uma ideia e não deixava a ideia a meio, levava a ideia até o fim.
Renato Ventosa, hoje com 59 anos, recorda o amigo de infância. Um jovem determinado que escreveu um plano e estava preparado para o colocar em ação.
Ele mostrou-nos o bilhete e eu nem acreditei, nunca tinha visto um bilhete de avião. Aliás, já tinha visto, mas nunca tinha tido a preocupação. E houve um dos nossos amigos que olhou para o bilhete e viu: "Epá, não, de facto, isto é um bilhete de avião, é verdadeiro". E eu: "Não é nada, isso é uma brincadeira", dizia eu. E ele: "Não, isso é um bilhete de avião mesmo, a sério".
O bilhete era mesmo a sério. Foi comprado uns dias antes, um lugar no voo 131 da TAP para a noite de 6 de maio de 1980. Armando Coutinho Ramos é o comandante. No cockpit vão estar também Carlos Silva Rodrigues, técnico do voo, e José Correia Guedes, copiloto.
Era o tal voo que nós gostávamos de fazer, porque era um voo muito curto. Depois tínhamos uma aterragem lá, outra aterragem cá. Nós gostávamos de pilotar, também era uma forma de praticar e do ponto de vista familiar era um dia quase normal, portanto, ele deveria estar de volta cerca das 11 da noite, 11 e tal da noite.
É uma ligação entre Lisboa e Faro, mas Rui quer seguir para outro destino. Na mochila estão vários utensílios e aparelhos. Uma bússola, um fio de nylon, uma chave de parafusos, um gravador de cassetes. Tudo tem o seu propósito e nos próximos episódios vou contar-vos para que serve cada um deles na cabeça do Rui. Mas se tiver de chamar já a atenção para um, será certamente para o gravador. É que escondida lá dentro vai uma pistola. O jornalista Miguel Cordeiro falou com Renato Ventosa.
Ele quis nos provar. "Então, mas como é que fazes, como é que não fazes? Levo uma pistola que o meu pai tem". "É? É porreira. Então, mas dá lá a pistola." Ele de facto mostrou-nos a pistola. Ainda andamos na brincadeira com a pistola lá em casa nesse dia.
Carregada?
Não. Nós brincávamos, mas também tínhamos consciência do que estamos a fazer. Não, a pistola não estava carregada.
A arma podia não estar carregada naquela tarde, mas no dia em que o Rui entrar a bordo do avião da TAP, já vai levar oito balas no carregador. Rui está nervoso. Observa tudo o que se passa à sua volta, junto à porta de embarque. Normalmente, a segurança dos voos internos é feita apenas por amostragem. Um ou outro passageiro é escolhido ao acaso para uma revista, mas neste dia, nada. Entra numa casa de banho do aeroporto, abre a mala de viagem e agarra no gravador portátil. Usa uma chave de parafusos para o abrir. No interior, está escondida a arma que passa agora para o bolso. Arruma o gravador e entra no avião com a arma no casaco, sem que ninguém suspeite de absolutamente nada. Desviar um avião. A ideia hoje parece irrealista, mas na altura era muito comum. Há cerca de 50 anos, o mundo viveu a era dourada da pirataria aérea. Havia tantos desvios de aviões que nos Estados Unidos falava-se mesmo numa epidemia. Chegou a estudar-se a forma como o fenómeno era contagioso. Os investigadores desenvolveram um modelo matemático para provar que, por cada caso de um desvio bem-sucedido que aparecia nas notícias, novos casos surgiam nas semanas seguintes. No início dos anos 70, chegou a haver vários sequestros num só dia. Entre 1968 e 1972, foram mais de 300. Isto quer dizer que, em média, era desviado um avião a cada cinco dias. Em alguns casos, os sequestradores exigiam dinheiro, noutros tinham motivações políticas. Conseguem adivinhar qual era o principal destino dos aviões desviados?
Cuba era um destino muito conhecido na altura. Cuba já estava sujeita ao bloqueio e havia sequestros que se faziam ali naquela zona e os aviões eram obrigados a aterrar em Cuba. Os americanos ficavam furiosos.
José Correia Guedes, copiloto deste voo, tem Cuba na memória e os dados confirmam. De 1968 a 1972, mais de 90 voos foram desviados para Havana. Uma vez lá, os piratas podiam respirar fundo. A pirataria aérea não era punida pela lei cubana e também não existia a hipótese de extradição. Juntando isto à tensão política com os Estados Unidos, Havana era o destino ideal para quem queria extorquir dinheiro, pedir asilo ou simplesmente deixar o território norte-americano. Com que a revolução cubana sabe também lutar e ganhar batalhas neste campo. Na época, a segurança nos aeroportos era mínima. As companhias acreditavam que se os passageiros tivessem de esperar mais 15 ou 20 minutos por causa de um controle, poderiam decidir viajar de outra forma. Procuravam soluções alternativas. Até se estudou a possibilidade de construir nos Estados Unidos um aeroporto igualzinho ao de Havana, só para confundir os sequestradores. A ideia nunca foi para frente, claro. E em 1974, o Congresso norte-americano aprovou finalmente medidas pesadas. Desviar um avião passou a ser considerado um crime de pirataria aérea, punível com pelo menos 20 anos de cadeia ou até mesmo pena de morte. E os aeroportos reforçaram as medidas de segurança para que todos os passageiros fossem revistados. O número de desvios baixou, mas continuavam a acontecer tanto nos Estados Unidos como na Europa.
Aqui era a questão palestiniana, o envolvimento de Israel também, havia sempre essa guerra latente. Há casos conhecidos e muito bem documentados de sequestros que acabaram muito mal, com os aviões explodidos e muitas pessoas mortas. Quando estava envolvida a Al Fatah, esses principalmente que rebentavam mesmo os aviões. Faziam explodir os aviões. E na altura havia também uns grupos extremistas a atuar na Europa, o grupo Baader-Meinhof, que era um grupo alemão muito conhecido na Alemanha, e as Brigadas Vermelhas em Itália, que cometiam atentados em todo o país.
Portugal também já tinha um caso conhecido de desvios de aviões. Em 1961, um voo da TAP que ligava Casablanca a Lisboa foi tomado por um grupo de opositores ao regime. Era liderado por Hermínio da Palma Inácio e contava com outros cinco operacionais, quatro homens e uma mulher. Camilo Nortágua, Amândio Silva, Fernando Vasconcelos, João Martins e Maria Helena Vidal. Foi uma ação política contra Salazar. Chamaram-lhe Operação Wagô. O objetivo era muito simples: lançar milhares de panfletos com mensagens contra o regime salazarista. Lisboa, Barreiro, Beja e Faro. Estas foram as cidades onde choveu propaganda a denunciar a fraude nas eleições para a Assembleia Nacional.
Com um colega e um dos meus mestres, o comandante Marcelino, e um grupo de oposicionistas, como na altura se dizia, compraram bilhetes para esse voo e durante o voo foram ao cockpit. Estavam armados, mas muito educadamente disseram ao comandante Marcelino: "Nós queremos que você dê duas voltas sobre Lisboa para nós lançarmos aqui uns papéis pela janela". E assim foi, deram umas voltas em Lisboa. Alguns passageiros até ajudaram na operação, abriram as janelas, o avião foi despressurizado, abriram as janelas.
O plano foi cumprido. Os folhetos foram atirados pela janela a baixa altitude. O comandante José Sequeira Marcelino comunicou à torre de controle do aeroporto de Lisboa que voava sob coação. A missão terminou com o regresso a Marrocos. Os autores do desvio do avião ainda ficaram retidos durante uma semana, mas conseguiram ir para o Brasil, onde viviam exilados. Praticamente duas décadas depois da Operação Wagô, um jovem de apenas 16 anos, que vive no Feijó, também tem a sua própria operação em curso e também tem um nome para ela. Não é tão original, mas vai ser igualmente eficaz. 6 de maio, terça-feira, é o dia escolhido pelo Rui para colocar em prática a Operação TAP. Todas as manhãs, bem cedo, Alexandre Rodrigues, taxista, saía do Feijó rumo a Lisboa. Na primeira viagem do dia, transportava o filho Rui e o amigo Renato Ventosa. Os dois ficavam em Alcântara. O Renato estudava ali num curso de eletrónica. O Rui ainda seguia de autocarro para o Campo Pequeno, para o Colégio Crisphal. Mas nesta manhã as coisas não acontecem assim.
Nesse dia, ele não foi. Ele estava deitado e o pai dele vira-se para mim: "O Rui hoje quer ficar na cama, não quer vir". E eu falei: "Então, Rui, o que se passa?" "Hoje não vou, vou ficar aqui". Depois eu: "Então até logo, tchau". E quando vou embora, ele chama-me. Chama-me e diz: "Diz lá". E o pai dele a chamar-nos, a chamar-me para ir, já era tarde, já estamos atrasados. E ele: "Não, deixa estar. Depois à noite logo sabes".
A mãe, Idalina Rodrigues, prepara-se para sair pouco depois. Vê o Rui no quarto e diz: "Levanta-te, não te deixes dormir, levanta-te e vai pra escola". Rui responde: "Não, não me deixo dormir. Mas mãe, dá-me um beijo". Idalina não estranha muito, é comum dar um beijo ao filho antes de sair para o trabalho. Não estranha, mas dentro de algumas horas vai perceber o significado daquele momento. Era um beijo de despedida. Rui fica em casa, sozinho. Nesta manhã, José Correia Guedes, que já ouvimos neste episódio, também se despede da mulher com um beijo. É, por esta altura, um jovem piloto da TAP. Tem apenas 33 anos.
Eu morava em Carcavelos, tinha uma filha pequena. Nossa filha mais velha tinha acabado de nascer, ela nasceu em 78. Minha mulher era professora e morávamos em Carcavelos, uma vida tranquila perto da praia. Eu fui voar, como ia quase todos os dias, e nos despedimos. Um beijo, até logo. E de repente aconteceu o que aconteceu.
A poucos quilómetros dali, Vítor Azevedo está a meio de uma reunião acalorada. Nessa altura trabalhava para a TAP e à volta de uma mesa em Lisboa, naquela tarde, discute-se um projeto ambicioso: a criação de um sindicato que reúna todos os trabalhadores da aviação e aeroportos. Mas Vítor vive em Faro e, se não se despachar, vai perder o último avião de regresso a casa.
No dia 6 de maio, vim a Lisboa fazer mais uma reunião de preparação pra criação do SITAV. E quando a reunião terminou, nessas situações há sempre grandes discussões. E eu disse pro colega que tinha vindo comigo, ele era controlador de tráfego aéreo na altura, disse: "Olha, vou-me embora, porque tenho que apanhar o avião e tu?". Ele continua ainda a discutir, eu saí. O nosso sindicato ficava na Rua da Palma. Saí, entrei no táxi. Aliás, ele apareceu, eu pensei que ele ficasse, e veio comigo: "Vamos pro avião".
Esse amigo, que ainda entra no táxi a tempo, é Pedro Ferrão. É controlador aéreo, trabalha na torre de controle de Faro.
Eu era da Comissão de Trabalhadores da ANA. Eu tinha ido a uma reunião da Comissão de Trabalhadores. A empresa é uma empresa moderna, criada no pós 25 de Abril, e ela facilitava as reuniões da sua Comissão de Trabalhadores, pagava as passagens às deslocações dos membros da Comissão de Trabalhadores. E eu tinha feito isso, tinha ido a uma reunião.
No momento em que Vítor Azevedo e Pedro Ferrão entram no táxi com destino ao aeroporto, Rui já tinha saído de casa há muito tempo. Leva com ele o guia de rotas da TAP e folhetos da transportadora aérea portuguesa com imagens do avião específico que planeia desviar naquela noite, um Boeing 727.
O avião que a TAP utilizava na altura para voar na Europa, nas ilhas e nos voos domésticos também, não tinha outro.
José Correia Guedes, copiloto.
Mas pelo conceito é, porque era um avião médio, muito eficaz em termos de desempenho técnico.
Bissau é o nome do avião que esta noite vai fazer a ligação Lisboa-Faro. A bordo vão estar 83 passageiros. Está quase cheio e o Rui sabe disso. Nos dias anteriores, telefonou para diferentes departamentos da TAP. Apresentou-se como repórter do Correio da Manhã. Queria saber qual o dia e a hora em que o voo pra Faro seguia mais lotado. O raciocínio era simples: quantos mais reféns conseguisse fazer, mais hipóteses teria de que as exigências fossem aceites. Mas como é que era possível levar uma pistola pra dentro de um avião? Pois bem, em 1980, os aeroportos funcionavam de maneira diferente. Em Portugal, os detectores de metais só eram usados de vez em quando e apenas para voos internacionais.
A segurança, desse ponto de vista, não era uma grande preocupação. A grande preocupação era a segurança aeronáutica. Era que as máquinas não falhassem e os pilotos não falhassem. Portanto, era uma segurança diferente da segurança que resulta de atos externos contra os aviões.
Nessa altura, Alda Pato trabalhava como jurista na Direção-Geral de Aviação Civil.
Apesar de já haver alguns casos, não eram tão significativos nem tão graves que levassem, por exemplo, as autoridades dos aeroportos a serem obrigadas a vigiar os passageiros, a fazer revistas, a proibir o embarque de armas, de líquidos, de produtos tóxicos. Isso verdadeiramente sério, só acontece em 2001 com o que aconteceu nos Estados Unidos.
Hoje sabemos que para embarcar num avião é preciso passar por um detector de metais, há revistas, raio-X, são até proibidos líquidos a partir de certas quantidades. Se recuarmos 40 anos, percebemos que entrar em muitos dos voos não era assim tão diferente de entrar num autocarro ou num comboio. E isso deu origem a muitos casos insólitos, até mesmo em Portugal.
Há coisas que realmente só podem acontecer neste país, mas acontecem. Um indivíduo que entra no Júlio de Matos, que é ali perto do aeroporto, que vai por ali dentro, entra num avião. Portanto, para vocês verem o nível de segurança que havia. Com uma pistola de plástico, uma pistola de água daquelas de carnaval. Vai por ali fora, entra no avião, mistura-se com os restantes passageiros e a seguir à descolagem, entra no cockpit com uma pistola de plástico, de cor. O comandante Parandas, que eu conheço muito bem, tem 1,90 m, um calmeirão deste tamanho, levanta-se, dá-lhe um estalo, vai a pistola de plástico para um lado, o homem para o outro. Levou uma pistola de carnaval no moço e foi assim assaltar um avião.
José Correia Guedes conta que, à época, os pilotos da TAP até brincavam com a falta de segurança do aeroporto de Lisboa.
Os potenciais sequestradores veem que a balda é tão grande que devem pensar: "Isto não é assim, isto de certeza que é muito mais, isto deve ser chamariz, só para nos enganar. Eles devem ter sistemas muito mais sofisticados." Mas era realmente uma balda.
Em 1980, em Portugal, era assim. No voo embarcam 40 portugueses e 43 estrangeiros. O avião tem um corredor ao centro com três lugares de cada lado. Vítor Azevedo e Pedro Feiran sentam-se do lado esquerdo, na parte de trás do apareio. Ocupam os dois lugares junto à janela e continuam a discutir a criação do novo sindicato. Pouco depois, chega um miúdo que se senta ao lado deles, junto ao corredor.
Ele ia sentado ao meu lado e estava um bocado nervoso. Eu acredito que em maio houvesse algum calor, já, mas eu até lhe abri o ventilador para ele. Ele agradeceu-me. E mexia-se um bocado na cadeira.
Pedro continua a conversa com Vítor, mas ambos percebem o nervosismo do rapaz.
Perguntou-me onde ficava a casa de banho, já depois de termos posto os cintos de segurança. Disse-lhe que ficava na frente do avião, até atrás, aquele avião é um 727, sem um avião, relativamente pequeno. Mas disse-lhe que ele não podia sair porque já íamos descolar. Indiquei-lhe o saco de enjoo. Ele disse-me que se sentia mal disposto porque tinha jantado há pouco tempo. Eu pensei que ele devia ter medo de viajar, mas não disse nada, claro.
É a primeira vez que Rui está dentro de um avião. Aliás, aos 16 anos, é a primeira vez que passa uma noite fora de casa. E dentro de momentos, também pela primeira vez, vai apontar uma arma a alguém.
Boa noite, bem-vindos a bordo do voo 131 da TAP, com destino a Faro. O avião vai descolar dentro de momentos. Agradecemos que apertem os cintos de segurança.
Boa noite, senhores passageiros, daqui fala o comandante Coutinho Ramos. Estamos a subir para a nossa altitude de cruzeiro, que será a 20 mil pés. Estaremos a aterrar dentro de 45 minutos. Neste momento estão 20° em Faro e voamos com céu limpo.
Rui continua nervoso. Aguarda apenas por um sinal que lhe vai permitir pôr em marcha a próxima fase do plano.
Apagaram-se as luzes dos cintos, as pessoas já se podiam deslocar. Ele saiu logo da cadeira. Saiu logo da cadeira e caminhou em direção à casa de banho, julgo eu, ao pé do cockpit. Nós vínhamos na parte de trás do avião e ele percorreu aquele espaço todo. Eu lembro-me disso porque eu nunca mais o vi.
Pedro Feiran tem também na memória que o jovem deixou uma mochila aos pés do lugar onde ia sentado. Não se lembra se levou alguma coisa com ele para a casa de banho, mas nós já sabemos que levou. No bolso do casaco vai a pistola. Rui entra na casa de banho e fecha a porta. A arma está carregada. Ele está pronto. O plano é simples: sair da casa de banho e entrar rapidamente no cockpit. A distância é muito curta, são praticamente porta com porta.
A porta do cockpit daquela época era uma porta praticamente de cartão. Era uma coisa que, em caso de emergência, a gente dava-lhe um pontapé e a porta desfazia-se. A porta só lá estava para, até certo ponto, insonorizar o cockpit, a gente não ouvir o que se passava lá atrás e criar alguma privacidade para os passageiros não estarem a ver o que nós estamos a fazer ali no cockpit. Portanto, era uma porta muito frágil, não tem nada a ver com aquilo que se passa hoje, que são portas blindadas. E que não fechava. Ele chegou ali, rodou a maçaneta, abriu a porta, entrou por ali dentro e apontou-me os arma. Voltado de braço estendido, com a pistola apontada à minha cabeça.
Numa questão de segundos, o sequestrador faz a primeira exigência.
A primeira coisa que eu ouço é: "Vamos para Madrid".
Num primeiro momento, ninguém naquele cockpit acredita no que está a acontecer.
Nós olhávamos uns para os outros. "O que está a acontecer, o que se passa?" E o rapaz ia apontando para mim, para o flight engineer, para o comandante. E vamos, e vamos para Madrid. Até chegamos a pensar que pudesse ser uma brincadeira, uma coisa qualquer, mas rapidamente nos apercebemos que não, que não era brincadeira.
A primeira reação dos pilotos é tentar enganar o sequestrador.
E começamos a tentar reagir. E a primeira coisa que ocorreu, penso que foi o comandante que disse isso: "Não temos combustível para ir para Madrid". Ele disse: "Têm, sim, que eu sei quanto é que têm nos tanques, quanto é que costumam abastecer".
Pode ter apenas 16 anos, mas o Rui não se deixa enganar tão facilmente. Afinal, ele tinha preparado tudo isto ao pormenor. O avião inicia a mudança de rota para Madrid. O comandante está ocupado a operar o Boeing 727. O engenheiro de voo está atento ao percurso e às comunicações. E é nesta altura que o pirata do ar atira uma frase que ninguém esperava.
Nós estamos esmagados debaixo de papel, a fazer contas para chegar a Madrid, e mudanças de rumo, e de rotas, e programar uma série de coisas. Os pilotos e o flight engineer também, ele repara naquele rebuliço todo e sai-se com esta: "Os senhores desculpem o trabalho que lhes estou a dar".
O sequestro começou. No próximo episódio, o país vai ser surpreendido.
Notícia de última hora, um avião da TAP que ia para Faro foi desviado para Madrid. Aí caiu-nos tudo. Aquela história que ele tinha contado, agora estava a bater certo.
A aventura de Rui Rodrigues está a ser transmitida em direto na televisão e na rádio, mas ninguém sabe ao certo o que se passa.
Ninguém dizia nada. O comandante não dizia nada, não falava. Ninguém dizia nada. E o avião a passar e Faro a ficar para trás e nós a 17 mil pés de altitude.
É um pirata do ar diferente, mas tem uma arma real e um plano preparado ao detalhe.
"E então, o que é que tu queres?", perguntei-lhe eu. E ele vem então com as suas condições.
Afinal, o que quer o nosso Piratinha? O Piratinha do Ar é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martelo Garcia. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos excertos das músicas "London Calling", dos The Clash, "Corre el golpe", de Israel Cachao López, "Eight Miles High", dos The Byrds e "Adeus, Amor", de Manuela Bravo. Usamos também sons de noticiários das cadeias de televisão norte-americanas ABC, CBS e CNN, retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
