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E eu estava muito bem a ver o Live Aid, o início. Aquilo começou às 14h em Portugal, não me lembro bem.

Sim, a seguir ao almoço.

Faltou a luz. E nós dizíamos sempre: "Ó mãe, telefona para lá".

Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop-Up", o vosso portal para este e para todos os tempos da cultura popular. Esta semana, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes, juntos para falar de 100 anos de televisão. Não vão ser bem 100 anos, porque esta rapaziada é bastante mais jovem, mas vamos aproveitar esta data redonda do centenário da TV. Já agora, vamos explicar só um bocadinho. Em 1926, foi feita a primeira demonstração do aparelho a funcionar. É isto que precisam de saber. Já agora, este ano também vão passar, mais para o final do ano, os 70 anos das primeiras emissões experimentais da RTP, que depois se tornaram regulares em 57. Pedro Boucherie Mendes, será?

Eu acho que sim.

Pronto, exatamente. Ora bem.

Foi dos últimos países da Europa a ter televisão.

É verdade. O que é que os nossos amigos aqui vão fazer? Um exercício de memória, nada mais simples. O que é que vocês viram na televisão que nunca mais esqueceram? Programas ou transmissões em direto, ou nem por isso, e que fazem parte da vossa história. Vamos começar a falar em história pelo Pedro Boucherie Mendes. Pedro, queres começar por, eu não sei se viste isto em direto, se não viste, se viste tudo, o Live Aid em 1985.

Não, não quero começar por aí.

Já me tramou.

A televisão teve o seu desenvolvimento interrompido pela Segunda Guerra Mundial.

Uhum.

E depois tornou-se inexorável.

Sim, senhor.

E foi, em larga escala, uma aposta na Europa dos governos.

Uhum.

E nos Estados Unidos, das rádios privadas. Ou seja, a televisão foi vista como uma continuação da rádio, que era muito popular na altura. Havia muitos programas de rádio, como este.

E as pessoas sentavam-se à volta da rádio, que era uma espécie de lareira.

Sim, e para ter publicidade, para ter anunciantes, fizeram-se umas televisões. Por isso é que há imensas estações de televisão que nós vemos que começa por K. Tem a ver com a zona, com a costa.

K ou W, dependendo.

E o televisor, a pouco e pouco, vai substituir um outro sinal de afluência das famílias, que era terem uma espécie de piano, ou pianola, tinham na sala. E a televisão vai ocupar esse lado de entretenimento e depois ocupará também a lareira, tanto que as casas passam a ser feitas sem lareira, porque agora havia o televisor.

E onde é que se ia pôr o televisor?

Onde as pessoas olhavam. Tem este lado interessante. Eu quando começo a ver televisão, ainda demora imenso tempo o televisor a ligar. Não sei se vocês passaram por isso ou não, mas nós carregávamos um botão que ele tinha que aquecer.

Ora, não.

Nunca percebi se tinha mesmo que aquecer.

Era como os carros antigamente, tinhas de puxar o ar.

Uhum. E a televisão era a preto e branco.

Isto é só para tu veres como eu percebo de carros.

Era a televisão a preto e branco. Nós, que crescemos na costa, víamos RTP um e RTP dois. E uma coisa que é muito pouco falada, ou não é mesmo falada, e que eu me orgulho muito de ter posto no meu livro dos anos 80, é que as pessoas que viviam perto da fronteira espanhola viam também muita televisão espanhola.

Uhum.

Que é um acontecimento cultural no país dos anos 70 e 80, que eu acho que devia ser mais-

Ainda hoje no Algarve se faz isso.

Acho que devia ser mais analisado, whatever. Porque essas pessoas tiveram uma aculturação, digamos assim, diferente daquela que as pessoas da costa, onde eu, enfim, não é que cresci, mas onde me fiz gente.

Olha, epa, sim, senhor.

E a televisão tinha um papel muito importante na nossa vida. Felizmente, os meus pais tinham mais o que fazer do que me proibir de ver televisão, mas, por exemplo, achava-se que fazia mal aos olhos, a televisão.

Pior é só à vista.

À vista. Mas lembram-se ou não? Que fazia mal à vista.

Fazia, se ficasses muito tempo a ver, claro.

"Não fiques tão perto da televisão que faz mal à vista".

Mas entretanto não provaste cientificamente que não faz mal?

Não a comprei nem deixei comprar, porque os meus pais não me aborreciam com isso. Nós víamos toda a televisão que conseguíamos ver.

E estás aqui sem óculos, à minha frente.

O problema é que não havia emissão de televisão. Portanto, a RTP não começava de manhã. E depois havia a teleescola e depois havia uma seca. E nós ficávamos ansiosos que visse televisão. E nós tínhamos uma relação com a televisão muito curiosa. Nós achávamos que a televisão era feita para nós.

Uhum.

E portanto, quando havia hipismo ou patinagem artística, que dava bastantes vezes.

Aborrecíamo-nos.

Ficávamos furiosos. Não sei se vocês passaram pelo hipismo, pela patinagem artística. Ficávamos furiosos, porque tínhamos era ver os jogos sem fronteiras, etc. Quem cresceu nos anos 70 e 80 em Portugal, como foi o meu caso, associa também muito a televisão à falta de eletricidade, que acontecia bastantes vezes.

Sim.

Esta coisa do apagão dá-me um pouco vontade de rir. Não o que se passa agora na região de Leiria, mas aquele apagão que houve há uns tempos dá vontade de rir, porque era muito frequente, na minha infância, não haver eletricidade.

Sim, nos anos 80 também me lembro muito disso.

Não haver luz.

Ainda ontem, por acaso estava a comentar isso, o abastecimento de velas em casa era uma coisa-

Trivial, sim.

Sim.

E não tínhamos lanternas porque as pilhas eram caras e eram uma porcaria, eram Tudor.

Uma daquelas lanternas a petróleo?

Não, tínhamos as lanternas de pilhas, aquelas pilhas Tudor.

Sim.

Não sei, gastavam acho que 30 segundos acabava a carga.

Sim.

Para dizer o quê? Para dizer que havia sempre uma certa tensão a ver televisão, porque a luz podia faltar.

Sim, por isso é a última vez. Não, eu lembro-me perfeitamente de um dos meus traumas de infância. Tenho inúmeros. Conto publicá-los em volume.

Espero que sim.

Em vários volumes.

Houve uma dada altura na RTP, julgo que em 76 ou 77, em que transmitiam todos os domingos à tarde os filmes do Tarzan com o Johnny Weissmuller.

Sim.

Nós adorávamos aquilo, como podes imaginar. Os filmes não são nada maus, mesmo agora. E houve um domingo que eu não vi um desses filmes, que eu não sei qual é. O Tarzan é sempre apanhado em areias movediças e consegue sempre se safar. Lembras-te, não é?

Claro.

Portanto, grande parte das minhas primeiras memórias da televisão tem a ver com os programas que eu não vi.

Ora bem.

Um ou dois filmes do Tarzan e o Live Aid, que eu julgo que estava no Algarve nessa altura. Eu estava muito bem a ver o Live Aid, o início, aquilo começou julgo que às 14h da tarde, não me lembro bem.

Sim, a seguir ao almoço.

Faltou a luz. E nós dizíamos sempre: "Mãe, telefona pra lá."

O lá era a EDP.

"Isto é deles."

Sim.

No fundo, não vi em direto uma grande parte do Live Aid porque faltou a luz.

Isso marcou-te. E não viste o Phil Collins, então?

Provavelmente não. Agora não me lembro. Só para dizer que há estas memórias bonitas e fantásticas de malta a comer pão com tule e creme a ver televisão, e depois há essas memórias de tipos como eu.

Traumatizantes.

Mais dados à depressão, que tem a ver com a falta de luz e de eletricidade.

Bruno Vieira Amaral, uma das coisas que escolheste falar aqui foi a primeira vez que viste os Oscars em direto.

Não é a primeira vez que vi os Oscars, é a primeira vez que foi transmitida a cerimônia dos Oscars em direto.

Em Portugal?

Em Portugal, em 1992.

1992.

Em 92. Antes, a cerimônia era às segundas, e então na terça-feira à noite normalmente passavam um resumo.

Era se calhar com o fuso horário. Portanto, não eram transmitidos porque aquilo começa de madrugada.

Sim, mas depois começaram a ser.

Certo, tá bem.

Não era transmitida em direto, porque provavelmente o 1º de Maio não-

Não compensava.

Depois foi na TVI muitos anos.

Sim, eu acho que se não foi no ano seguinte, foi no ano a seguir.

Sempre foi e ainda é um programa com pouquíssimas audiências. Desculpa, continua.

Mas eu vi nesse ano, portanto, era eu. A RTP era eu que estava a ver.

E ficaste contentíssimo.

É a idade.

É a idade.

Porque foi a primeira vez. Eu até me lembro do filme que deu antes na RTP, até que teve que encher um bocadinho de chouriço até à cerimônia, que foi um filme que se chama "O Assassinato de Randy Webster". Creio que com a Jennifer Jason Leigh. Procurem.

Por que lembras? Onde é que guardas estas coisas?

Não sei. Lembrei-me agora. Por acaso, que foi o filme que deu antes da cerimônia. Eu não sei se na altura tinha visto algum dos filmes. Provavelmente teria visto o JFK, que estava nomeado. Devo ter visto alguns em VHS. Em cinema não tinha visto nenhum. Foi o ano da vitória do Silêncio dos Inocentes, que tinha estreado uns meses antes também em Portugal, portanto também não sei se na altura já estaria disponível em VHS, porque na altura eram seis meses desde a estreia em cinema, portanto não devo ter visto, mas pra mim foi uma grande emoção ver em direto, até pela questão do fuso horário. Se tivéssemos o mesmo fuso horário, não teria a mesma emoção.

Ficaste acordado até tarde.

Claro, tinhas que ficar acordado.

Não, e atenção.

E havia aulas no dia seguinte.

Em 92 tinhas 13, 14 anos.

Em 92 tinha 14 anos. E aulas no dia seguinte. Tu chegavas à escola com a coroa de louros dizendo: "Eu vi os Oscars". E foi uma cerimônia muito interessante. Foi apresentada pelo Billy Crystal, que entrou em palco com aquela máscara do Hannibal Lecter. Lembro-me em particular de um momento, que foi o Oscar, não sei se foi da melhor, não, foi da melhor canção, que foi para uma das canções do filme A Bela e o Monstro.

Da Disney.

E que o autor da letra tinha morrido um ano antes com SIDA. E quem recebeu o prêmio, quem recebeu o Oscar, foi o companheiro dele. E eu lembro-me de ficar comovido quase até às lágrimas, pela forma como ele recebeu o prêmio.

Mexeu contigo.

É verdade, foi dos momentos de toda a cerimônia o mais marcante, e além, claro, do In Memoriam, sempre a homenagem que todos os anos se faz aos que morreram no ano passado. Mas pra mim foi-

Foi uma festa

...não, foi um momento.

Um marco.

Um marco por todas estas razões, porque gostava muito de cinema e porque pela primeira vez tínhamos a oportunidade de ver em direto a cerimônia de entrega dos Oscars.

Maria Ramos Silva, uma das coisas sobre as quais queres falar é a Guerra do Golfo em particular e a informação em geral, na televisão.

Sim. Para mim, a relação com a televisão é sobretudo muito informação. Sempre foi. Pra já tenho má memória, como sabes.

Isso não é verdade.

Terei mais relação com conteúdos de entretenimento nos primeiros anos. Hoje é, de facto, mais informação. Ainda que acho que é superimportante haver essa possibilidade de depois trazer para o grande público, a televisão, formatos como, por exemplo, os concertos ou espetáculos de palco. Apesar de, de alguma forma, ser um pouco uma experiência em segunda mão, porque tu preferencialmente queres estar nas coisas, mas permite pessoas que eventualmente não tenham acesso a isso, possam usufruir disso, portanto acho que também é importante.

A Guerra do Golfo. Eu lembro-me disso porque há ali por uma geração um pouco mais antiga, terá como momento de referência uns anos antes, o momento em que o Raul Dourão anuncia a morte do Sá Carneiro. Eu acho que é um momento televisivo marcante pra muita gente que terá hoje 60 anos, 50 e muitos, 60.

Sim, eu lembro perfeitamente disso.

Toda a gente se lembra disso, não é?

Foi uma chatice pras crianças, porque não deu a Dona Xepa, que era outra novela. Foi mesmo uma chatice.

Eu percebo.

Pronto, eu ainda não era nascida, faltavam dois aninhos.

Mas consegues imaginar.

Lembro-me perfeitamente, lembro-me dos meus pais, onde estavam. Isso foi, de facto, algo ali chocante pra muita gente, do ponto de vista também de imaginário coletivo de país. Imediatamente a seguir, pra alguém já na década de 90. Eu acho que a Guerra do Golfo, apesar de não ter muitos anos, é muito marcante também porque associas uma cara, o José Rodrigues dos Santos a anunciar o começar de tudo, e depois pelas próprias características da cobertura da guerra. Nós hoje temos os live blogs, a informação ao minuto. Eu acho que aquilo foi o mais próximo em termos de precursor dessa voragem de consumo de informação que nós tivemos. A presença, obviamente, constante do Artur Albarrán na televisão, que era o principal enviado especial, aqueles verdes, aquela explosão da CNN.

As imagens noturnas.

Sim, nós hoje vivemos num ritmo muito frenético, a seguir seja qual for o tema. Ali talvez tenha sido o primeiro contacto, a coisa mais seminal desse consumo de informação e desse empolgamento também, até de um certo, quase como uma série da Netflix. Ali muito à vã létere, mas de alguma forma ali como um conteúdo que também nos deixou muito ligados ao ecrã. E depois, posteriormente a isso, eu acho que em termos de informação, obviamente, o 11 de Setembro. Também quem viveu lembra-se onde é que estava, o que é que estava a fazer. Lembra-se depois de se pregar mais uma vez à televisão e de seguir aquilo de uma forma muito intensa, com o coração nas mãos. E depois ainda a tragédia entre os rios.

Que é antes do 11 de Setembro.

Exatamente, ela é muito colada, mas que é antes, e que traz por completo aquela ideia da vertigem do direto, em que tu estás horas e horas e dias constantes, e também do ponto de vista da cobertura jornalística.

Isso também deve ter a ver com o facto de apanhar logo ali a criação da SIC Notícias.

Também é, sim. Depois, temos aqui diferentes fases. Há uma fase na guerra em que tu ainda não tens essa abertura aos privados, mas depois, claro, com o nascimento dos canais de informação regular e permanente, vai mudar completamente a lógica. Mas ainda hoje são das coisas que consumo mais, tinha que trazer aqui estas memórias presentes.

E muito bem. Pedro Buchinho Mendes, antes de acabar aqui a primeira parte, tu tinhas os filmes do Tarzan com o Johnny Weissmuller, mas entretanto já falaste deles. Não sei se queres acrescentar mais alguma coisa sobre esta temática.

Da parte, digamos assim.

Ou seja, nós tínhamos isto aqui em tópicos separados e tu juntaste tudo. Juntaste o Johnny Weissmuller com o Live Aid.

A televisão era uma coisa muito familiar. Eu hoje não aguentaria que os meus filhos estivessem a ver televisão comigo ao mesmo tempo. Ou seja, as famílias reuniam-se ou davam por si reunidas, talvez seja mais preciso. E víamos o Dallas e outras séries. Eu sou do tempo, por exemplo, da série Raízes, não sei se vocês alguma vez viram. Sabes o que é Raízes, Bruno?

Sei, mas eu não me lembro de ver.

Pronto. Isso foi nos anos 70.

Pois, exato.

Os americanos começam a fazer minisséries. Primeiro passa uma coisa chamada Homem Rico, Homem Pobre, e depois o Roots.

Peter Strauss.

Sim.

Que eu acho que entrava em todas as séries. Tarde, noite.

Era. E a aculturação americana e a derrota da língua francesa e a vitória da língua inglesa passa muito pela televisão. E nós habituamo-nos a que houvesse sempre uma série boa a correr, fosse o Justiceiro, fosse o Esquadrão Class A, fosse o MacGyver.

Soldados da Fortuna.

Certo, Soldados da Fortuna. E a relação que nós tínhamos com a televisão era uma relação amistosa. Nós, pessoas jovens. Era uma relação amistosa. Surpreendentemente, tornar-se-á numa relação tensa e uma coisa que nós negamos.

Sim.

Quando eu comecei a trabalhar em televisão, esta é uma das coisas que eu mais repito quando estou em conversas sobre televisão, é o que eu vou dizer a seguir, que é: "Estava a olhar pra si", "Eu não vejo televisão". No fundo, eu nunca entendi bem por que as pessoas numa certa idade.

Recusam, negam.

30 e tal, 40 e tal anos, 20 e tal anos, não só recusam como fazem questão de anunciar ao mundo que não veem televisão. Mas depois veem tudo. E neste fim de semana fui almoçar ao Alentejo, porque calhou, um sítio meio recôncavo.

E com este almoço no Alentejo vamos terminar.

Ainda tive que tirar umas fotografias. Mas ninguém vê televisão em Portugal.

Claro. Mas depois vês-te nessas situações. E bem, final da primeira parte do Pop-Up. Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao Pop-Up com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos a remexer no baú de recordações para responder à pergunta O que vimos na televisão e nunca mais esquecemos. Tudo isto à conta dos 100 anos de uma das invenções que mudou o mundo. Bruno Vieira Amaral, uma coisa que tu viste na televisão e nunca mais te esqueceste foi o funeral da Princesa Diana.

Eu gosto muito de funerais.

Sério?

Desculpem. Eu gosto muito de funerais.

Essa parte não estava no guião.

Eu tenho uma amiga assim, vai ao YouTube ver funerais.

É uma coisa de cemitérios, não é da morte das pessoas, como é óbvio.

Estamos a perceber.

A Maria estava há pouco a falar da informação. Eu lembro-me muito bem de como os funerais ocupavam sempre algum espaço nos telejornais. Havia sempre grandes multidões, quando eram grandes figuras públicas. O Zeca Afonso, quando foi a morte do Zeca Afonso em 87, era um mar de gente.

Sim, depois quando foi o Álvaro Cunhal, quando foi a Amália.

O Álvaro Cunhal, depois, em 2005, se não estou em erro, tenho quase a certeza que foi, talvez o último grande funeral popular em Portugal.

E o Eusébio?

Sim, mas não sei.

A Amália foi mais.

O Eusébio em 2014.

O do Álvaro Cunhal eu lembro-me de ver ali a Morais Soares completamente.

Sim.

Mas a Amália beneficia da memória do da Diana.

Do da Diana, exatamente. O da Amália, aí está, por isso é que eu quis falar do funeral da Diana, porque marca, de facto, uma diferença em relação à forma como se acompanhava, a televisão acompanhava estes momentos. Como eu estava a dizer, havia reportagens nos telejornais, mas tu não tinhas o funeral transformado num acontecimento.

Num evento pop.

E que se arrastava até antes, durante o dia. E eu acho que o funeral da Princesa Diana marca essa diferença e creio que terá sido o funeral da Amália o primeiro funeral em Portugal de uma grande figura pública a receber os efeitos desse acompanhamento televisivo do funeral da Princesa Diana. E foi marcante, de facto, para aquela geração e na forma como a televisão trata, no caso, os funerais e os transforma num acontecimento que se prolonga, em que o direto é predominante, ao contrário do que acontecia, que eram reportagens, que depois davam conta da emoção.

Sim, mas depois passavam para outro.

Mas era outra coisa. Aqui não, aqui havia um acompanhamento que se prolongava por vários dias e eu acho que esse marca a diferença. Claro que a morte em si, o acidente, foi algo chocante e que marcou aquele período e marcou toda aquela geração, mas depois todo o envolvimento público à volta da morte e do funeral marca também.

Tu lembras-te de ter visto? Desculpa interromper. Lembras-te de ter visto?

Lembro-me de ter visto, porque digo-te já, quando a Diana morreu, é um domingo, sábado para domingo, estava num sítio sem televisão e continuei aí mais uns dias. E então eu lembro-me perfeitamente de regressar e ter fome de televisão. Aquela coisa quando ias para de férias para um sítio onde não tinhas televisão e quando regressavas, até parece que a televisão era maior. E lembro-me depois de acompanhar e a Madre Teresa de Calcutá que morre nessa sexta-feira, na véspera do funeral, se não estou em erro, da Diana. Portanto, lembro-me muito bem de acompanhar.

Isso era difícil.

Lembro-me muito bem de acompanhar pela televisão o funeral e acho que mudou completamente a forma como nós e a televisão trata esses momentos.

Já a Maria Ramosilva, lembras-te perfeitamente, nós também, mas dos Jogos Sem Fronteiras.

Adorava isto.

Eu também.

Desculpem.

Diz.

O que acontece também no mês da morte da Madre Teresa de Calcutá e do funeral de Diana é a abertura do Colombo.

Ora, cá está.

Que também deu em direto nas televisões.

Provavelmente um evento muito mais importante que todos esses.

E à sua maneira, uma cerimônia fúnebre.

Mais ou menos. Maria Ramosilva, Jogos Sem Fronteiras, sábado à noite, não era?

Era sábado à noite?

Não era? Sexta-feira?

Mudou muitas vezes.

Eu lembro-me de ver à segunda.

À segunda. Certo.

Não sei.

Depois numa fase mais adiantada, eu lembro-me.

Era ao fim de semana.

Era ao fim de semana.

Aquilo era muito divertido. É engraçado pensar isto.

Eu gostava muito.

Um formato inventado pelo general de Gaulle nos anos 60.

E havia algumas equipas que ganhavam muitas vezes de algumas guerras.

Sim.

Não me lembro agora, já não me lembro.

Mas é engraçado, para as pessoas que não têm sequer noção, era uma espécie de Jogos Olímpicos, que combinavam ali uma espécie de encontro europeu por um lado. Era uma festa do europeísmo, nós hoje quando pensamos nisso ficamos assim um pouco...

Exato.

Enfim, mas foi bonito o encontro.

Foi.

Mas depois também com essa componente muito local, porque iam representantes, as equipas eram representantes das cidades e, portanto, era essa coisa muito hiper regional.

Os próprios jogos, os próprios desafios.

E Portugal vencia bastante. Portugal até tinha uma prestação. Eram holandeses, numa altura em que nós ainda éramos.

Nós éramos bons naquilo. Aqui o menino Pedro quer falar, mas já falo à coisa.

Nós venciamos outras coisas. Nós pusemos os Jogos Olímpicos a sério e no futebol, já estávamos por ganhar tudo.

A gente vingava-se ali.

A gente vingava-se ali, exatamente. E além do clima, obviamente, temos que lembrar de mais um ou dois.

Como é que se chamava o do APIT?

Ana Zanatti também.

Ana Zanatti também.

Como é que se chamava o Michel? Não era Michel?

Deni?

Deni.

Diz lá, Pedro.

1979, Praça Todos de Cascais, é feita uma emissão experimental de televisão a cores nos Jogos Sem Fronteiras, onde participa Herman José. Pronto, fica aqui.

Estavas lá?

Não. O que é interessante nos Jogos Sem Fronteiras é isto que eu vou dizer a seguir. Ponto, parágrafo.

Portanto, tudo o que foi dito até agora por nós.

Esquece.

As primeiras vezes que nós vimos

Portugueses como nós enquanto concorrentes em ambiente mais ou menos doméstico, porque havia uma espécie de VTs, havia uma espécie de vídeos de apresentação: "Equipa da Covilhã, Tiago Pereira" e nós víamos vestido normalmente.

Com umas calças de bombazino.

Sim. Que é uma coisa que depois acontecerá a partir dos reality shows da TVI, em especial a partir do "Big Brother". Uma das coisas mais fascinantes da reality TV é que tu vês pessoas que podiam ser teus vizinhos ou filhos da porteira, ou o que for, em condições normais. A fumar, a dizer asneiras.

A fazer sexo numa cama de móveis forros.

Isso nunca vi, de facto.

Só para juntar aqui uma coisa no capítulo desportivo, porque há um momento também muito divertido e sublime na televisão, mas que se perde, que é a extração do Totoloto, que eu também adorava.

Eu também.

Sobretudo o zero, quando aparecia o zero.

Eu gostava muito daquela roleta.

Isto hoje parece absurdo num mundo em que há apostas.

Não era a Ana do Carmo?

A fazer apostas ao segundo, mas ali, de facto, era o que via.

Pedro Mexia Mendes, fala-nos lá.

Era sábado o Totoloto.

Já falámos isto muitas vezes, mas tem que ser, do "Tal Canal", em particular.

Não, deixa voltar.

E do Ema no geral.

Da Tômbola.

Era, mas eu gostava de ver aquilo.

Com musiquinha.

E a Tômbola do "Um, dois, três", de onde se tirava os postais.

Pois era.

Era um hexágono, não é? Era uma coisa assim.

Era um hexágono, talvez?

Não, acho que tinha mais.

Tinha mais? Já não me lembro.

Era esto. É assim que se diz? Não sei como é que é. Está-me a faltar agora. As pessoas da rádio não sabem nada, não são só as da televisão.

Sim, mas aquilo era um volume. Diz lá, "Tal Canal".

Considero ter sido uma fortuna.

Olha, começar por considero.

Considero ter sido uma fortuna ter podido assistir à estreia dos programas do Ema José nos anos 80. Quando estreia o "Tal Canal", eu tinha 13 anos, portanto, já tinha um certo entendimento das coisas, até porque eu era muito precoce. E foi, de facto, um privilégio.

Percebeste logo tudo.

Nem é bem isso. Eu acho que é uma coisa inimaginável, muito difícil de descrever a emoção que sentíamos, que sentimos, e depois discutir os programas no dia a seguir. Em que tínhamos que confiar na memória. Felizmente, um garoto de 13 anos tem boa memória, porque não havia o telemóvel com o vídeo do sketch.

Não tinhas que narrar. Ouvias.

E portanto, ter visto o "Tal Canal", depois o "Edmanias", o "Moda de Partição" e o "Casino Royale" são os quatro dos anos 80. E depois as passagens de ano, porque o Edman depois passou a segar a passagem de ano.

O "Crime não Pensão Estrelinha", etc.

Acho que fez duas, foi em 90 e 91.

Acho que fez mais. Mas eu defendo essa tese, de alguma forma, num livro que já citei aqui, que não vou citar outra vez, que é: a televisão portuguesa funcionou como um estabilizador do regime. Ou seja, havia montes de, desculpem a expressão, porrada, havia montes de manifestações.

Era a cola.

Havia montes de manifestações.

Deixam-me eu falar.

Havia salários em atraso, conflitos sociais enormes na região de Setúbal, imenso desemprego, fome. Mas depois havia esta televisão que de facto funcionou como um estabilizador social, que é um dos grandes papéis da televisão, que é a sociologia que aborda e que estuda isto, defende, e eu acho que tem razão. Para as crianças, era em larga medida aquilo que os ingleses chamam de third parent, pai e mãe, e depois a televisão, onde nós aprendíamos as coisas todas. Não sei o quê, das pirâmides do Egito. Os egípcios faziam pirâmides, depois líamos no Asterix também. E aquilo tudo fazia sentido. O conhecimento vinha da televisão, já tínhamos o David Attenborough.

E o Cousteau.

Sim, o Cousteau, os portugueses tinham a mania do Cousteau. Sendo que o filho dele morreu aqui em 79, num acidente no Tejo.

Dramático.

Sim.

Que informação dramática.

E havia também um espanhol, que agora não me lembro o nome, que fazia coisas de natureza. A televisão, de facto, foi muito importante e é uma pena que não exista uma história da televisão portuguesa, não no sentido hipercritico, mas como ponto de ligação da grande comunidade, que é o povo português, que apesar de tudo, somos.

Bonito.

Eu agora estou a imaginar o Pedro sentado a ver o primeiro episódio do "Tal Canal" e dizer: "Estou a viver um momento histórico. Nunca mais me vou esquecer disto".

Mas olha que eu vinha do Tony Silva, do Passares Alegres, e olha que nós achávamos aquilo incrível e fomos todos pra casa ver. E aquilo teve qualquer coisa de mágico e de histórico, porque a primeira pessoa a aparecer, a Helena Isabel, com os vestidos extravagantes, ela fazia locutora de continuidade. E pronto.

Olha, o que eu fui, foi correr pra casa para ver os Jovens Heróis de Xolinho, o primeiro episódio, num sábado à tarde, e infelizmente não tinha ninguém em casa e os meus amigos todos foram ver e eu não vi o primeiro episódio dos Jovens Heróis de Xolinho.

Não tinhas chave.

Não tinha chave, tinha uns sete anos, acho que era.

Entre as tuas memórias estão as finais da Taça dos Campeões Europeus de 85 e de 88.

Pronto, vamos lá ver. Aqui a questão não são essas finais. Era a transmissão das finais europeias.

Mas estas têm um lado especial.

Pronto, estas têm um lado especial.

Nem sempre os melhores motivos.

Não, a de 85 deve ser a primeira de que me lembro. Não me lembro do jogo em si, mas lembro-me da tragédia do Heysel, no jogo entre a Juventus e o Liverpool, que morreram cerca de 40 adeptos da Juventus, esmagados.

Em Bruxelas.

Em Bruxelas, no estádio do Heysel. E lembro-me De se estar a dar na televisão, talvez seja a primeira final da Taça dos Campeões de que me lembro e depois a do Benfica em 1988. Entre essas duas houve a final do Porto de Viena, que eu também lembro-me onde é que estava. Estava na rua enquanto toda a gente estava a ver.

Não quiseste ver.

Não tinhas chave.

Na altura, acho que tinha chave, mas não queria ver. Mas lembro-me da final da Taça dos Campeões de 88.

Acho que foi a primeira vez que chorei frente à televisão. É verdade, eu lembro-me disso.

Se não fosse com o seu clube, é isso?

Eu via outras coisas, mas esse em particular não vi. Mas mais importante do que essas em particular era toda a solenidade e a importância que nós sentíamos que aquele jogo e aquela transmissão tinha, porque começava com música da Eurovisão e de repente passava em direto.

Tu ouvias aquela música e sabias que alguma coisa importante estava a acontecer.

Exatamente. Isto aqui é um acontecimento. E depois ouvíamos a voz ou do Rui Tovar ou do Gabriel Alves, mas ainda fanhosa.

Com eco.

Com eco. E isso ainda transformava o momento, era mais importante.

Era mais dramático.

Era no fundo dizer: "Mesmo que as condições não sejam as ideais, isto é tão importante, temos de transmitir e vamos transmitir assim." Eu senti muita diferença quando essas transmissões em direto passaram a ser com o som limpo, que não se ouvia aquele ruído, esse eco. E então, talvez as melhores memórias sejam desses jogos remotos ali no início da década de 80, em que uma pessoa ouvia a música da Eurovisão e dizia: "Isto é realmente importante."

Falando em importante, Maria Ramos Silva. Mudei só aqui um bocadinho a ordem, porque também há aqui lado desportivo que tu queres abordar, que é o chamado seis a três.

Sim.

Fala-nos sobre isso.

Quero. Já que aqui estamos. Porque na verdade, vem um pouco aquela coisa de não estar muitas vezes frente à televisão, porque vou tentando estar nas coisas que são importantes ao vivo. E portanto, quando penso no meu clube, penso em jogos importantes que tive a sorte de assistir ao vivo. Este caso ainda era muito pequena. Lembro-me do que é que estava a fazer, lembro-me de estar a comer um ovo mexido na altura do primeiro golo que foi do Sporting, mas aquilo foi tudo absolutamente-

Mas acabaste a comer caviar.

Provavelmente, a fumar charutos com seis anos ou sete. Não, mais, isto foi em 94. Mas tudo foi altamente fotográfico.

O Pedro estava na rua, também não tinha chave.

Chovia. Portanto estavam na rua, tinha que estar bem equipado. Chovia imenso.

Estavas lá, Pedro?

Não, mas estava no 71.

Isso eu já sabia.

É assim tão velho?

Isso eu já sabia.

Não estava. E sabes que talvez um dia possamos fazer um programa sobre esse jogo. Eu não acho nada que o Sporting tenha cometido um erro, ou Queirós, não sei quem, não acho nada.

Não, mas perdeu três pontos e o campeonato.

Não cometeu com a saída do Paulo Torres?

Não, tirou o defesa esquerdo. Mas nós não sabemos se não houve outro jogador que ficou de cobrir aquele flanco.

Ele tirou o defesa esquerdo, o Paulo Torres, e os gols do Benfica foram todos por aquele lado.

Tem que tentar ganhar o jogo.

Claro.

Mas é o jogo faminto.

Nós podemos falar.

É o jogo que vem de um verão quente, vem ordenados em atraso, tudo aquilo era assim uma coisa louca.

E na altura o Estádio da Luz, os jogos em casa tinham perto de 10 mil espectadores.

Foi o Porto campeão? Já não me lembro.

Não, foi o Benfica. Estava a um ponto.

Não explicaste porque é que este jogo ficou na história. Para quem não viu, para quem não sabe, se calhar explicávamos.

Mas por quê? Como assim? O que queres que eu explique?

Seis três é albalroado.

O Benfica esteve sempre a perder, dá a volta ao resultado.

E o Sporting tinha uma superequipa.

Foi Costa no banco, o Toni treinador. O Sporting tinha perdido o Paulo Futre nesse ano. Querem que eu continue?

As pessoas precisam de saber estas coisas, Maria.

Eu estava a comer um ovo mexido.

O 71 foi tão extraordinário que eles deram o jogo no fim da tarde, aquilo acho que foi às 15:00, que eram assim os jogos à tarde, emitiram o jogo na televisão em diferido.

E nunca me esqueço da expressão do comentador, de quem fazia o relato na televisão, dizer que um golo de peixinho do Manuel Fernandes, que é um dos gols em que ele mergulha. É um golo de peixinho. São coisas que ficam pra vida inteira.

Pedro Ramos Mendes, tu também tens aqui um lado desportivo que queres abordar, que tem a ver com Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo de Futebol.

Sim, eu diria uma das grandes fortunas de ser jovem no tempo em que não havia internet e computadores era poder assistir, porque era em altura de férias escolares, a esses grandes eventos, aos Olímpicos. Sobretudo os Olímpicos, porque os Olímpicos tinham muito mais transmissões e uma enorme diversidade de desportos e de heróis. E lembro-me perfeitamente de ver os Olímpicos 1980, com o ursinho Misha, que era a mascote.

Em Moscovo.

Lembro-me perfeitamente de ver o Mundial de Espanha de 82, que era o Naranjito.

Mas não te lembras de certeza da mascote do 84?

Los Angeles?

Los Angeles.

Não.

Não havia?

Não te lembras?

Não havia. Por isso é que eu escolhi estes.

Eu sei.

Estes dois escolhi muito pelo lado infantil e depois o Mundial do Maradona, 86.

Com Pique e Malagueta.

Sim, que tinha um sombrero, a mascote. E lembro-me muito bem dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, por causa do Ben Johnson e do Carl Lewis.

Esse são os de Seul.

Seul. Sim, desculpe. 88, exatamente. E depois os 92, há ali qualquer coisa também. Acho que é o Carl Lewis também que ganha.

O Carl Lewis ganha os 100 metros em 92. Não, em 92 ganha o Leroy Crutchlow. Richard Lewis salta em comprimento porque ganha quatro seguidos no 50. Ver os Mundiais, os Jogos Olímpicos e os Europeus eram acontecimentos que tu não terias, ou pelo menos eu não teria trocado por uma semana de férias para a República Dominicana. Não, não quero. Quero ficar em casa.

Não, metia-se férias para ver aquilo. Eu lembro-me de ficar em casa para ver Mundiais.

Até hoje. Compramos campeonatos do mundo de atletismo. Sim, mas agora é um bocadinho mais, acho eu.

Sim, mas se for o campeonato de andebol não ficas a ver.

Não, de andebol não. Mas os de atletismo, sim. Os de atletismo normalmente são no verão. Ou seja, nós estávamos de férias, como dizia o Pedro.

Sim, eu lembro-me de falhar algumas coisas por estar na praia. Eu lembro, por exemplo, quando a Fernanda Riley vence.

Pois, eu não ia à praia. Lá está.

Ter falhado aquilo.

Eu estava em 1991, no Campeonato do Mundo de Atletismo, em que a Rosa Mota não ganha, desiste.

Já me estou a rir.

Não, é que é um campeonato do mundo importante, porque a Rosa Mota, na altura, era sempre a nossa grande esperança.

Eu acho que às vezes ainda é hoje.

E eu lembro-me, estava na Zambujeira nesse ano, mas todos os dias ia comprar o jornal para saber tudo sobre o Campeonato do Mundo, porque era um acontecimento que preenchia o vazio das férias. E eu ia acrescentar isso. Nós comprávamos revistas especiais para acompanhar. Tinha os horários e ficávamos subitamente especialistas em natação e com uma imensa vontade de fazer atletismo. "Eu corro bem." "Não, tu é que corres mais depressa." Só refletir aqui, de facto, a ausência de desporto escolar a sério em Portugal, pelo menos no meu tempo, é outra constatação que pode ser feita. Havia correr na rua, como fazia o Carlos Lopes e o Fernando Mamede, que também são acontecimentos televisivos muito importantes, nomeadamente a derrota do Fernando Mamede, que morreu há pouco tempo e a quem presto homenagem. Nós achávamos que em 84 em Los Angeles a medalha estava no papo e metade do país ficou acordado de madrugada para ver essa vitória que não aconteceu e que terá prejudicado a corrida de Lopes, que foi uns dias depois. O Mamede perdeu, ficámos muito pessimistas e depois o Lopes foi o campeão olímpico da maratona em 84. São também coisas que são seguidas pela televisão. As pessoas viam tanta televisão e viam tanto estas coisas que se partia sempre do princípio que o teu interlocutor tinha também visto. E até era difícil justificar porque é que não viste certas coisas. Essa coisa da chave é boa, é uma boa desculpa, mas "Então, ainda não viste o final dos Jogos em Fontana?"

Não havia tanta coisa para fazer.

Mas havia uma espécie de como se nós estivéssemos alistados numa espécie-

Tu eras convocado para aquilo.

Sim, é isso. Tinhas que ver. Pronto, era para ver e acabou. E consolidavas as memórias. Talvez nós nos lembremos de tantas coisas porque havia essa consolidação. Como não dependias da partilha de vídeos e teres a certeza que aquilo estava sempre disponível, consolidava-se a memória pela partilha, porque um lembrava-se de um pormenor e o outro repetia. Mas isso acontecia até com os filmes. Era normal nós vermos um filme, o filme passava naquele dia e não sabias quando é que ia passar outra vez.

Claro.

E no dia a seguir, estavas a comentar, eu lembro-me, por exemplo, ainda no outro dia vi com os meus filhos, "O Rei dos Gazeteiros". Eu lembro-me de ver quando era miúdo, quando deu na televisão, e no dia a seguir, na escola, cada um contava: "Epa, e aquela cena?" E isso, de facto, funcionava.

Mas isso só podia funcionar porque toda gente via a mesma coisa.

Claro. Mas havia essa partilha desses momentos, dos sketches, de repetires as coisas no dia a seguir. Consolidava isso na tua memória.

Isto tem a ver com aquilo que o Pedro estava a falar há bocado da cola social. Estávamos todos sintonizados.

Só mais duas coisas: as noites eleitorais, que eu acho que é autoexplicativo. Víamos e testemunhávamos a democracia a funcionar, embora não tínhamos consciência, porque éramos miúdos. E uma outra coisa, que é uma das coisas mais singulares de ver televisão em miúdo, sem internet, que é os enigmas e os mistérios que a televisão criava. Por exemplo, qual é a marca do carro dos Três Duques? Imaginem. Ou do Justiceiro.

Sim.

E um dizia que era um Ferrari, o outro dizia: "Não, porque os Ferrari têm as rodas não sei quê". Isto que o Bruno está a dizer. E ficávamos.

O do Justiceiro era um Pontiac.

Sim, o Trans Am. Mas ficámos.

E o dos Três Duques?

Acho que era um Dodge, mas enfim, pouco importante.

Era um muscle car americano.

Mas sobretudo ficámos anos sem saber, a não ser que fôssemos à procura depois da informação. "Deixa-lá ver qual é que era." E era muito interessante, porque pelo menos no meu contexto, as conversas iam sempre parar ao mistério. "Ah, viste ontem o Justiceiro? Não sei o quê." E depois: "E o carro?" "Não, o carro é não sei quê." "Não, o meu tio diz que..." Havia sempre um tio e um padrinho, um cunhado, que defendiam que o carro afinal não era um não sei quê, mas era um não sei que mais.

Muito bem. Bruno Vieira Amaral.

Ainda tenho coisas para dizer.

Tens. Mais uma coisa. Um clássico absoluto, dois clássicos. Festivais da Canção, sobre os quais até já falámos aqui várias vezes, mas também e sobretudo Natal dos Hospitais.

É claro!

Tu eras um espectador do Natal.

Eu não era.

Mas já não és.

Não, ainda espreito. Ainda vou espreitar. Não, é sério. Agora na última transmissão, percebi depois já quase no final que estava a dar e pronto, dei uma espreitadela, mas não bate como batia, porque era um acontecimento, era um dos acontecimentos do ano.

Sim, já vou fazer essa pergunta.

E depois aquilo começava às 14h.

E era até à noite.

E era até à noite. E depois o melhor estava reservado para o fim. Normalmente era o Herman José, que ia aparecer ali no final e tu estavas ansioso para que aparecesse o Herman José. Éramos miúdos e eras capaz de estar ali, sei lá, sete horas a ver aquilo. E depois distraías-te com alguma coisa.

E adorávamos.

Claro que adorávamos, porque eram os maiores artistas do país que iam lá.

Pedro Buchinho Mendes.

Era uma coisa natalícia também.

Tu saberás se isto é uma coisa portuguesa ou se é um formato que existe... A televisão começou por ser em direto porque não havia tecnologia para gravar. Exato. E no fundo, deixa correr. Isto eram os programas de variedades e depois transformaram-se nas chamadas telethons, maratonas para angariar fundos ou por telefone. E o Natal dos Hospitais eu acho que foi criado pelo "Diário de Notícias", que depois se transformou numa grande maratona televisiva e ainda continua com ótimos resultados de audiências. E é interessante que se pesquisarmos bem, encontramos o Pedro Bonjosa, o Hermano José, a Amália. Não era só o Refugo que lá ia atuar.

Eram todos, toda a gente.

Para fecharmos a loja e irmos embora. Maria Ramos Silva.

Posso mostrar aqui tudo. Queres que mostre aqui estas coisas todas? Que tinhas deixado para...

Sim, desenhos animados no geral, mas em particular o "Dragon Ball" e a forma de consumir este tipo de coisas e com a ajuda do VHS.

Sobretudo, sim, os desenhos animados em miúdos, eu ainda me lembro, imagina anos 80, de repente teres vários miúdos em casa com varicela sem poder sair, tens que os entreter, não tens canal Panda, não tens ecrãs, não tens nada disso e, portanto, eu recordo-me dos meus pais terem gravado não sei quantas VHS com desenhos animados e nós vimos aquilo em loop até estourar as fitas. E de facto, muita coisa era consumida em diferido. Nós gravávamos, falhávamos o tal appointment com a televisão naquele dia e naquela hora, passámos a ter depois essa possibilidade, também fazia muita diferença. O "Dragon Ball" eu acho que é um momento pop ali dos anos 90, início de 2000, que é um autêntico fenómeno entre miúdos, não tão miúdos, e sobretudo malta na faculdade.

"Dragon Ball" estreia em abril de 96.

Pronto, e depois mantém-se ali.

Mas depois foi conquistando fãs ao longo dos anos.

Sim, porque ele começa com a fase inicial, depois é o Z, depois é o GT, aquilo depois vai progredindo, mas eu adorava ver aquilo, como eu acho que milhares de pessoas, as faculdades paravam para ver aquilo. O meu pai via aquilo, não saía de casa sem o meu pai ver aquilo.

Vocês nas faculdades não estavam sempre a jogar matraquilhos? Ou a ver "Dragon Ball".

Ou a ver "Dragon Ball". Quando começa, eu ainda não estou na faculdade, mas recordo-me das aulas pararem.

Ali dois, três anos depois, era um fenómeno nas faculdades.

Há uma altura que a SIC transmite, não sei se é uma dose dupla antes ou depois do almoço ao sábado, há ali uma fase qualquer em que aquilo de facto continua a render. É a primeira grande saga para jovens adultos, que me lembro na televisão.

E para terminar, uma coisa. Acontece uma coisa curiosa no "Dragon Ball", que é às tantas a Associação dos Telespectadores começa a protestar contra a violência. E a SIC pede à empresa de legendagem que aligeire o script. Ok. Pronto. E não sei se vocês sabem, mas uma grande parte das falas, aquilo é completamente a navegar na maionese, a equipa de dobragem fez de propósito, assumiu. E tinha umas piadinhas do tipo: "Parece a Miss Portugal". Sim, tinha umas tiradas. Portanto, não seguiu o cânon "Dragon Ball". E é uma coisa que faz parte da memória coletiva e afetiva, mas que os puristas, anos depois, reclamam com isso porque aquilo não é exato. Para terminar, Maria, uma das coisas marcante também da televisão é a missa.

Achei interessante trazer, porque de facto eu não sei exatamente quando é que começa aqueles formatos de Eucaristia Dominical. Há de ser no início dos anos 90, salvo erro. Mas eu acho que é um formato que se manteve. O Pedro saberá melhor, mas eu penso que o share combinado entre a RTP.

Não, a Eucaristia Dominical.

É muitíssimo vista e é sobretudo uma nota de louvor, porque nós às vezes andamos aqui nestas guerras culturais e eu acho um formato de extrema importância, se queres que diga, porque chega a imensa gente.

É extraordinário que num país laico isso aconteça.

Mas laico não significa que seja acéfalo nem desmiolado, era aí que eu queria chegar. Vives num país majoritariamente católico e há muita gente que por razões não consegue deslocar-se, não consegue ir, estão doentes, estão nos lares, estão em hospitais e de facto é daquelas coisas que eu acho que não atrapalha entre tantos problemas maiores que temos.

Sim, a religião faz parte da vida das pessoas.

Exatamente.

Por que não vai estar na televisão? Não quero dar ideias a ninguém para proibir.

Sim, mas atenção, não estou ao domingo sentada a ver a missa, sequer.

Mas se calhar não te fazia mal nenhum.

Talvez.

Nós até vimos o "70 vezes 7", eu vi.

Olha, outro formato histórico.

Muito bem, meus amigos. Final de mais um "PopUp". Continuem a seguir-nos nas plataformas de podcast. Pedimos com amizade. Escrevam-nos para popup@observador.pt. Despedimo-nos com amizade e voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.