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Tinha 10 anos, Tubarão 4, Cineparque, da baixa da banheira. Não foi comigo, foi com o meu tio, o Quinjó, de quem já falei. Quinjó, já falámos aqui do Quinjó. Um grande abraço. Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso bilhete para a primeira fila da cultura popular. Este espetáculo é protagonizado por estes três verdadeiros artistas: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e, claro, Pedro Boucher Mendes. Esta semana vamos falar de filmes, mais especificamente vamos falar sobre ver filmes na sala de cinema. Foi neste mês de janeiro que finalmente, digo eu, chega ao fim, que ficámos a saber que, tirando o período da pandemia, 2025 foi o ano deste século com menos espectadores nas salas de cinema. E nós, que aqui tantas vezes falamos de filmes, resolvemos falar também sobre o melhor sítio para ver os filmes. Ou então, se calhar, já não é. Vamos tentar esclarecer isso aqui com os nossos amigos. Pedro Boucher Mendes, falai, amigos. Começo por ti e pergunto-te se ir ao cinema é mesmo a melhor forma de ver filmes. Coloco aqui todo este ênfase dramático nesta pergunta. Ainda é, já não é? Diz-me o que sentes em relação a isto.
O homem é a sua circunstância.
Meus amigos. Ortega e Gasset, para começar. Já está. Pula.
E de facto, será que a cama é o melhor sítio para dormir?
Ora bem.
Será que comer é melhor sentado à mesa e com talheres?
É.
E sim, até te digo mais, ver vídeo. Agora não sei como é que se diz.
Esse é outro problema.
Ver imagens em movimento, com som. Sei lá, ver filmes. De facto, no ambiente daquilo que nós costumamos dizer sala de cinema, é incrível. Deixa-me só dizer, por razões profissionais, eu desde há uns anos vi muita televisão em salas de cinema.
Claro.
Na Califórnia, mas não interessa. Mas naqueles cinemas clichê.
Mas é um grande toque.
Mas naqueles cinemas clichê, absolutamente gigantescos, aqueles cinemas americanos.
Estás a falar tipo sala grande multiplex.
Sala grande multiplex. Não deve haver mais confortáveis no mundo. Quer dizer, deve haver na China, imagino. Havia uma coisa que se chamava, ainda existe, mas que se chamava de LA Screenings, que era onde, nos tempos pré-streamers, as televisões americanas exibiam as suas séries, a sua colheita de séries.
Para vender, não é? Para tentar vender.
Para as televisões de todo o mundo poderem comprar. E então eram manhãs e tardes passadas a ver séries.
Gostavas de fazer isso, Pedro?
Sim, gostava imenso. Mas o nível de felicidade, ou seja, o conforto, a qualidade das cadeiras.
E estás a falar de séries.
É isso. No fundo, é aí que eu quero chegar. Se eu tivesse uma boa sala, confortável, com a dimensão certa, essa parte também é importante, a experiência, como agora se diz, é insuportavelmente boa. E nós próprios vínhamos de Los Angeles achando que aquelas séries eram todas ótimas. E depois vias cá em-
Depois punhas na televisão em casa: "O que eu fui fazer?"
Por exemplo, não sei se viste uma série da HBO, The Night Of.
Sim.
Uma minissérie.
Vi.
Agora imagina o que é ver isso no cinema. Claro, uma sala escura, confortável, com silêncio, com alguma cerimónia, em que tu sabes que à partida ninguém se vai levantar. Há poucas coisas mais irritantes do que alguém que se levanta a meio do filme para passar.
Certo.
Ou que chega atrasado. Eu, por mim, as pessoas não deviam entrar. O filme é às 17h30. Às 17h30 e 30 segundos já não deviam poder entrar. Esta é a minha opinião. Mas então, o escuro, a cerimónia, o próprio barulho de fundo, onde tu ouves, às vezes, agora já não se ouve, a projeção, uma espécie de zumbido. É uma experiência humana altamente satisfatória. E às vezes o filme nem interessa tanto. Ou o filme, ou o que estamos a ver nem interessa tanto. Portanto, perguntas-me se ir ao cinema é mesmo a melhor forma de ver filmes e a minha resposta é absolutamente, ponto, sim, ponto.
Ora bem. Maria Ramos Silva, sobre esta questão, nós falamos muito sobre isto.
Nós falamos muito sobre tudo.
À hora de almoço. Sobre essa história de cada vez menos gente nas salas de cinema em Portugal. 2025 foi o-
Em algumas.
Isso que te ia perguntar também. Eu também tenho umas teorias sobre isso.
Calma, que a gente não vai já embora. Sobre estas teorias, há sempre explicações, tentou-se atirar sempre explicações, entre elas o preço dos bilhetes, que tem vindo a subir. A minha pergunta é se razões como essas, especificamente dos preços, não serão bodes expiatórios. Quando, e nós também já falámos aqui várias vezes sobre isso, há tanta coisa e se calhar cada vez mais a esgotar mais rápido e muito mais cara.
Sim, as pessoas fazem escolhas.
Será uma questão de escolhas e de prioridades?
Também. Eu acho que há aqui dois pontos interessantes. Por um lado, sim, tens muito mais oferta de experiências. E eu acho que hoje a ideia da experiência única bate muito a ideia do cinema, porque na verdade aquilo que as pessoas sentam e vão ver é uma cópia, que acompanha o cinema desde os primórdios, mas é uma cópia. Não é um espetáculo de dança, que é uma coisa que tu podes ir ver 10 dias seguidos e nunca vai ser exatamente igual. Agora, há obviamente aqui um pouco essa ideia de bode expiatório. Vemos coisas a esgotar, pessoas que investem balúrdios, que vão a correr para comprar o bilhete para o cantor que vai atuar não sei onde. E não é só o preço do bilhete, é a viagem, é o alojamento, são as refeições. Portanto, aquilo na verdade é quase um pretexto para tu viajares, em que por acaso vais ver A, B, C ou D.
E nada contra, não é?
Sim, obviamente, são escolhas. Agora, eu acho que no cinema, há uma perceção de que é caro, que depois surge por quê? Porque aquilo que surge como uma arte muito popular, de entretenimento familiar, acaba por ser um pouco substituída pela experiência das plataformas. E quando tu sentes que hoje pagas, não é oito ou nove euros, pagas mais, mas com isso tens um acesso virtualmente a centenas, milhares de títulos, mesmo que não vejas nenhum. Mas a percepção é: eu tenho aqui isto tudo para ver, agora vou gastar oito ou nove euros. Isto só no bilhete, porque quando vais ao cinema, depois podes gastar, obviamente, mais, no jantar, nas pipocas, tudo mais. Eu acho que é muito esse racional que as pessoas fazem. Portanto, numa análise assim mais geral, será esse talvez o motivo. Agora, como nós também temos vindo a notar, há uma experiência, um caso de resistência das pessoas que, de facto, não prescindem de ir ao cinema. E que sequer até procuram cinemas mais de bairro, que se afastam um pouco do fenômeno do multiplex, e que continuam a preferir essa experiência. E acho que também o sucesso, também já falámos sobre isso, de ciclos de clássicos, também comprova que há um interesse. E o cinema, sequer, depois esse cinema mais generalista, acaba por ser mais utilizado por famílias, por miúdos, porque os títulos, se formos a ver bem, que foram campeões de bilheteira o ano passado, são filmes de miúdos, são Lilo and Stitch e coisas por aí fora. Portanto, é uma experiência mais familiar nessa perspectiva. Acho que acabamos por ter aqui diferentes pistas. Mas a questão do preço, mais uma vez, vais sempre ter à escolha. O que é que preferes fazer? Há pessoas que, de facto, preferem gastar 300 € num bilhete para um espetáculo, um concerto, sei lá.
Ó Bruno Vieira Amaral, tu que já trabalhaste em salas de cinema, atenção. Para já, isso também é engraçado. Tu, enquanto funcionário de cinemas na altura, vias as salas constantemente cheias?
Sim, depende do cinema.
E do filme.
Isto foi no início dos anos 2000, entre 2003 e 2006, mas já se falava em crise, de uma redução do número de espetadores, que poderia ser muito mais, tinha sido mais uns anos antes, porque depois houve ali um período nos anos 90, na segunda metade dos anos 90, de grande pujança dos cinemas, que tinha que ver também com os filmes, mas em Portugal, com o aparecimento dos multiplex, que foram revolucionários. Já havia alguns, mas ali em meados dos anos 90, no AMC, no Arrábida Shopping, era o cinema que mais espetadores fazia em Portugal. Cerca de, nas melhores semanas, 50, 60 mil espetadores por semana, o que é uma coisa gigantesca. Ou seja, tu chegavas a ter, e nós tínhamos depois acesso a esses números, chegavas a ter sessões esgotadas, aquilo tem 20 salas, se não estou em erro, ou tinha na altura, e chegavas a ter sessões esgotadas para todas as salas, a partir de sexta-feira à noite até ao domingo à tarde. E isso tem que ver com hábitos de consumo cultural, também, com o sucesso em Portugal dos centros comerciais e também com a variedade que existia ao nível dos filmes. Quando eu trabalhei em cinemas, eu apanhei ali uma altura, por exemplo, em que as coisas começavam a mudar, o tipo de filmes, os grandes sucessos começam a mudar um pouco até chegar ao que temos hoje, que é muito filmes de animação, sequelas. Os filmes de super-heróis estavam na altura a começar a ganhar terreno, mas lembro-me que uma das sessões especiais que tivemos foi, na altura da estreia do "Regresso do Rei", da última parte da trilogia de "O Senhor dos Anéis", fazermos a exibição dos três filmes consecutivamente.
Exato.
E foi um enorme sucesso.
Filmes à volta de três horas cada um.
Exatamente, e aquilo foi um sucesso, tivemos sessões completamente esgotadas. E outros filmes que dessa altura, o segundo do Matrix, também foi um grande sucesso. E havia, claro, depois no meio disso tudo, destes maiores sucessos, havia uma grande variedade de filmes, opções, ou seja, se chegavas e encontravas uma sessão esgotada, ias ver outra coisa. Não sei se hoje as pessoas já estão nessa disposição, ou seja, se quando vão ao cinema-
Eles também não precisam, porque tu podes comprar o bilhete em casa, vês se há bilhete, compras no telefone.
Sim, mas se estão disponíveis.
Para mim, isso é um problema.
Lá está.
Mas se estão disponíveis para ir para o cinema e dizer: "Bem, olha, vou ver o que estiver". E na altura ainda havia essa abertura. Depois, tínhamos alguns fenômenos. Por exemplo, o cinema onde trabalhei, que foi um dos que fechou agora, o Alvalaxia, na altura era o único cinema com exibição digital. Foi o primeiro cinema a ter exibição digital e foi o único a exibir o "Saraband", do Bergman E foi um sucesso avassalador e que explica um pouco aquilo que está a acontecer hoje, que é a criação de uma espécie de nichos. Ou seja, deixaste de ter os cinemas como existiam nos anos 90, início dos anos 2000, são cada vez menos, e os primeiros que sofrem são em centros urbanos mais pequenos, mas começa a haver cada vez mais espaço para cinemas de nicho. Qual é que é o problema? É que isso transforma os cinemas, a sala de cinema, quase em museus. Há uma musealização da experiência de ir.
É quase pequenas cinematecas, não é?
Exato. Para não dizer cinematequização.
Mas se isso garantir espectadores do lado de quem tem o negócio, pode ser uma boa decisão.
Pode ser, mas isso tem um efeito para a criação de cinema.
Sim, claro, obviamente. É um mercado, é uma indústria.
Se a sala de cinema fica reservada para clássicos, para ciclos de cinema, onde é que está o espaço para os novos? A não ser que vás depois fazendo aqui uma programação, como já existe em alguns sítios.
Que cruza as duas coisas.
Alternada. Ou seja, em vez de teres aquele modelo, que era: o filme estreia e então está em sala até deixar de ter espectadores durante três, quatro, cinco semanas, e ocupa aquela sala o tempo todo, podes ter é: temos cá este filme, mas ao mesmo tempo, neste dia, e não é o único filme que está em exibição. Temos outro.
Já tem cinemas que fazem isso. Por exemplo, o Ideal faz isso.
Exatamente.
Falávamos dos casos também do Trindade ou do Nimis.
E essa é uma das alternativas, uma das vias possíveis para a salvação das salas de cinema.
Antes de fazermos aqui uma interrupção, rapidamente, Pedro, eu gostei dessa tua pertinente observação em relação à questão do: eu vou comprar o bilhete em casa e se não houver, então já não vou ao cinema e como isso pode ser nocivo.
Bem, inimigos do cinema, que eu acho que afetam a ida ao cinema. Quando eu digo cinema, é ao edifício onde é projetado o filme. Porque a língua portuguesa não ajuda muito a enfrentar esta questão de uma forma objetiva, porque ir ao cinema significa eu vou ver aquele filme, quando, na verdade, ir ao cinema é saíres de casa. Para sair de casa já é preciso um estímulo suficientemente grande ou suficientemente desafiador para que possamos sair de casa. E ir ao cinema é afetado, por exemplo, pela existência do Uber Eats, do delivery. É uma experiência à qual os portugueses aderiram muito depressa, sobretudo nos grandes centros urbanos. Eu ontem falava com alguém que me dizia que agora já há na Covilhã e que as pessoas usam imenso. Portanto, mesmo na Covilhã, digamos assim, que é uma cidade do interior. As pessoas, ao terem a oportunidade de terem o delivery, se calhar, preferem mandar vir a comida, comer em casa e ver qualquer coisa em casa. Há menos crianças. O cinema é muito um sítio onde os pais, sobretudo os pais separados, vão, porque pelo menos os garotos estão calados durante uma hora, uma hora e meia.
Toma, cria um bocadinho de sociologia.
Mas é verdade. É um ótimo sítio para isso quando não queres falar com alguém.
Exato.
Recomendo vivamente.
Já lá vou. Depois, as redes sociais e o engate, no sentido, a construção de uma história que aproxima duas pessoas.
Epá, terá sido esta a melhor tradução de engate?
A construção de uma história que aproxima duas pessoas.
Boucherit.
Eu em vez de dizer à Sandra: "Olha, queres ir ver o Parque Jurássico?" Mando-lhe umas mensagens. Escusamos de ir ao cinema.
Fazes um método com a Sandra.
Anda cá ver.
Anda cá, Sandra.
Ver na Netflix. Sandra, anda cá.
Tradicionalmente, o cinema servia para que as mulheres jovens, as raparigas, pudessem sair de casa. "Ô filha, onde vais?" "Vou ao cinema com uma amiga." Quando, na verdade, ela ia ver um John qualquer, ou um Bill.
Mas olha, Pedro, faz-me um favor. Agarra esse pensamento, não deixe fugir. Não deixa a Sandra ir embora, porque chegamos aqui ao final da primeira parte do PopUp e voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao PopUp com a Maria Ramos Silva, Bruno Viera Amaral e Pedro Boucher Mendes. Esta semana estamos à volta das coisas dos filmes para tentar perceber por que há cada vez menos gente nas salas de cinema. Pedro, estavas a fazer uma bonita elencagem.
Estava a especular, sim.
E bem. Acerca dos eventuais motivos pelos quais há cada vez menos gente nas salas de cinema.
E depois, talvez o mais importante de todos, e isto é válido para o cinema e para muitas outras coisas, e essas coisas não são muito abordadas em Portugal, nas conversações coletivas, nas conversas cá nos media, nos podcasts, não sei o que é. Ir ao cinema deixou de ser um hábito. Ou seja, nós íamos ao cinema e depois, em segunda instância, víamos o que lá estava, como o Bruno estava a dizer e bem há pouco.
Logo escolhias o filme.
Sim, olha, vamos a este. Não, vamos àquele. Não, olha, não abre. Está bem, não faz mal, vamos àquele. A mim parece-me, por exemplo, que no El Corte Inglês isso se passa bastante. Nas últimas duas vezes que eu tentei ir ao cinema no El Corte Inglês, estava esgotado.
Está sempre cheio, sim.
Porque as pessoas vão lá às compras. Vão lá. E vão também ao cinema, têm o hábito.
Mas então quer dizer que diferentes sítios têm diferentes públicos, diferentes públicos têm diferentes vontades.
Evidente. E se calhar, não sei como é que isso se resolve, mas há certas coisas que se tornam um hábito e outras coisas que deixam de ser.
Como já aconteceu com outras coisas.
Ora bem
Os humanos, a nossa capacidade de lidar com as coisas não é infinita. Nós conseguimos lidar com 10, 15 coisas. E se eu tenho agora o hábito de mandar vir comida, então perdi o hábito de cozinhar, por exemplo. Mas o Bruno levantou aqui uma questão importante que é: esta transformação de hábitos, até que ponto pode depois ter resultado negativo na produção de filmes? Claro, impacta, porque os tipos fazem lá as contas, os filmes que mais atraem malta. Super-heróis. Vamos pôr dinheiro nisto, não vamos pôr dinheiro nenhum nesta outra coisa.
Desculpa, Pedro, porque estava a lembrar só no Corte Inglês. É um caso também muito interessante, em que tu tens desde o filme mais super-herói, mais blockbuster, ao filme mais independente. Acabas por ter ali-
Tens os blockbusters, porque tens de ter os blockbusters.
Claro.
Não há um cinema, um complexo, que tenha mais de seis salas, tem que ter os blockbusters.
Não pode estar só a passar o "Milho de Cana".
Mas claro que depois tem, em função do público específico desse complexo de cinemas, tens um determinado tipo de filmes. Isso tem a ver também com os interesses da distribuidora. A distribuidora sabe onde é que aquele tipo de filme vai correr bem. Agora, o número de cópias será mais fácil, mas na altura, o número de cópias, quando era de película, era muito limitado e tinha que ser bem escolhido. Se tu tinhas, por exemplo, alguns filmes independentes, com por exemplo, duas cópias para o país todo. Ora, se tinhas duas cópias, não ia para o cinema que fazia mais espetadores, mas para o cinema onde aquele tipo de filme podia fazer mais espetadores. Por isso é que tinhas filmes que tu já sabias que iam estar no King ou no Monumental, mas que não iam estar no Colombo. E isso, claro, tinha a ver com os interesses.
E o espetador também já sabia. Antes já sabia o tipo de filme que podia encontrar.
Agora, como estava a dar aquele exemplo do Sarabanda, é um exemplo quase ao contrário, que é: só havia uma cópia e só havia uma sala com condições de passar aquele filme. E então fez com que muitas pessoas que ou nunca tinham ido, e algumas que nunca mais voltaram àquele cinema, fossem àquele cinema. Ou seja, as pessoas queriam ver aquilo e eram forçadas a ver. Eram obrigadas a ver ali. Nos restantes casos, o que tu tinhas era uma distribuição das cópias em função do tipo de público que frequenta aquele cinema. E o El Corte Inglês tem esse público, eu diria, misto. Pode ir ver o blockbuster, mas também é capaz de ir ver o filme independente um bocadinho mais ousado. Sentimental value. Deixa-me só dizer isto: para mim, a questão das apps e de comprar bilhete em casa estragou a experiência. Essa experiência estragou outras. Eu renovei o passaporte há pouco tempo. Conseguieste? A tensão que provoca marcar, não marcar, tirar senha, não tirar senha. Ou seja, eu tiro senha à distância. Se eu estiver a 100 metros, tiro uma senha. Eu quero simplesmente tirar o passaporte, eu não quero estar a ter uma licenciatura em tirar senhas e apps. Felizmente, no sítio onde eu tirei o passaporte, há lá um senhor, que é o segurança, digamos assim, que como é humano, consegue- Explicar. Não, de alguma forma, ele consegue intuir as dinâmicas do tipo: "Olhe, agora não há senhas, mas espera aí 10 minutos, porque não sei o quê, vão libertar senhas". Deixa-me só contar uma história a propósito disso que estás a dizer. A propósito de passaportes? Não, a propósito desse lado humano. Eu lembro-me uma vez estava lá no cinema, no Alvalaxia, e estava na bilheteira, acho que foi uma sexta-feira à noite, e aparece um casal, os senhores já nos seus 60 anos, e chegaram lá e não sabiam que filme ver. Não sabiam, tinham ido ao cinema e ainda não tinham escolhido o filme. E pediram, disseram: "Para nós, o que recomenda?" E na altura estava em exibição o "Fiel Jardineiro". O filme já estava a ter algum sucesso junto precisamente desse público, que é muito público El Corte Inglês, também. Eu disse: "É capaz de gostar deste filme, do 'Fiel Jardineiro'". Os senhores gostaram tanto que sempre que voltaram ao cinema e que me viam lá, perguntavam: "O que é que vamos ver hoje?"
Isso a mim acontecia. Tu vias muita gente, às vezes no cinema, sobretudo pessoas mais velhas, e não iam ver sinopse, que tu percebias claramente o que é que eu vim aqui fazer este filme. E depois estavam ali um pouco naquele assombro, que também fazia parte dessa coisa. Eu lembro de ir ao cinema e, de facto, primeiro, havia um lado muito aleatório, porque podias ir ver o filme A, mas depois estava esgotado, então vias de ir ver o B, e depois muitas vezes nem sabias bem o que ias ver. Tu hoje sabes tudo antes de ir.
Mas eu, na verdade, eu acho que só saí de um filme ou dois na vida. Um foi o "Species: Espécie Mortal". Não aguentei mais, tive que ir embora, que era tão mau. Quer dizer, para mim era tão mau. Mas vi uma coisa curiosíssima, eu não lembro bem do nome do filme, mas vocês devem se lembrar. Aquele filme em que há umas miúdas de Los Angeles que assaltam casas, chama-se "Bling" qualquer coisa. Sim.
Do Sofia Coppola.
E que tem uma miúda qualquer muito célebre. Uma atriz. Uma das atrizes.
Não é a Mischa Barton, não sei.
Não é a Britney Spears, obviamente. Então uma mãe levou a filha porque a filha devia querer ver a sua heroína. E aquilo tem bastante droga e sexo. Depois a senhora foi embora com a filha ao fim de 20 minutos.
Vamos já embora daqui.
Eu achei graça a isso.
Vamos já embora daqui.
Maria Ramos Silva, há bocado estávamos a falar disso, que é o lado social ou não do cinema, e tu estavas a dizer que é dos melhores sítios para não termos que falar com ninguém.
Para mim, primeiro, é uma ótima experiência a solo. Adoro, faço regularmente. Porque tu queres mesmo ver um filme.
E tu vês muitas pessoas a irem sozinhas ao cinema?
Muitíssimas. Eu vou e vejo muitíssimas pessoas. Depois também depende das sessões, mas eu acho que continua a ser muito o refúgio, sobretudo para pessoas que fazem este tipo de programas sozinhas. O cinema continua a ser aquele bom amigo que está ali, que tu sabes que estás descansado. De facto, se tens realmente interesse no filme e não é só uma coisa de fundo de ecrã, queres mesmo ver o filme, não vais para falar.
Claro.
Agora, depois tem essa dimensão também social. O Pedro falava e bem. Tu vais acompanhado, se estás num date, se vais em família, esse ritual de levar os miúdos ao cinema. Eu acho que continua a ser um pouco essa esperança de renovação de alguns públicos. Se calhar não é muito possível. Deve ser difícil, apesar de tudo, saíres de casa e arrastares a família inteira, porque depois tens essa logística toda que o Pedro falava.
O Bruno está-se a rir e agora vou ter que lhe perguntar porque é que ele se está a rir.
Exige uma militância.
Estou a rir por causa de uma situação pessoal.
Mas se não quiseres contar, não há problema.
Não, quero.
Não, Bruno, desculpa, só para dizer uma coisa: não é só levares um miúdo. Nós estamos a falar de uma experiência que, a brincar, dura muitas vezes três horas. Tu tens que estar quieto e calado, no escuro, a ver aquilo.
É uma experiência.
Tem alguma exigência.
Vou-te dar um exemplo. Eu aqui há umas semanas, um mês e tal, dois meses, fui ver com os meus filhos mais novos o "Shining" do Kubrick, que não é um filme para a idade deles.
Tu estás a criar um problema.
E é de facto. Eles aguentaram ali duas horas, coisa que é dificílimo.
Mas tinham comida.
Tinham comida.
Tinham bens essenciais.
Acho que tinham água.
Mantimentos.
Acho que água tinham, pelo menos, porque o meu filho adora filmes de terror e queria ver no cinema e fomos ver.
E a irmã, percebeu?
Também, curiosamente. A irmã quis ir para não ficar de fora da experiência.
Fomo.
Exatamente. Mas é um tipo de experiência, porque o ir ao cinema em família, sobretudo para ver filmes familiares, filmes de animação, hoje é dominante.
Mas aí se fizeres a conta vezes três, vezes quatro, vezes cinco, já custa um bocadinho.
Claro, isso é outra coisa que pesa.
Uma coisa é comprar um bilhete.
Todas as experiências, para mim, do cinema são boas, mas são muito diferentes entre si. Ver um filme sozinho ao cinema ou ir ver com amigos, com colegas de faculdade. Mas cria uma ligação, uma memória com aquele filme em particular. Ou seja, tu és capaz de te lembrar, se calhar não te lembras exatamente quando é que viste um filme na televisão ou com quem é que estavas, mas associas aquele filme, que viste há 30 anos, à pessoa com quem foste ver ou às pessoas.
É filme e a circunstância. Isso é que é maravilhoso.
Eu lembro-me de muitas das pessoas com quem fui ver o "Titanic".
É isso.
Há coisas que eu me lembro de amigos.
Em 97. Foram vários, é isso?
Fomos vários.
Ah, foi um grupo, é isso?
Foi um grupo mas curral.
Não, mas eu lembro-me, nessa altura.
Sei lá, eu não te sei explicar agora. Estreou em 98, em Portugal.
Fui ver o Titanic.
Foi em 98?
Em 98.
Mas terá sido no início do ano, não?
No início do ano.
Ó Pedro, muito obrigado por seres quem és.
Eu fui ver com o meu amigo Ruca, ao Monumental.
Ruca, um grande abraço.
Um grande abraço, ele costuma ouvir-me.
Ora, cá está.
O Titanic, ao Monumental, na segunda-feira da estreia. Na altura ainda estreavam à sexta, os filmes.
Era mais barato ir à segunda.
E à segunda era mais barato. E ele é que foi comprar os bilhetes antecipadamente.
Eu fui ver ou ao Turim ou ao Fontenova, não me lembro.
Pronto, mas estás a ver. E lembro-me, por exemplo, em 99 vi o "Tudo sobre a minha mãe" com outro amigo, com o Marco.
Marco, grande abraço.
Umas semanas depois vi.
Marco, Ruca, que é quase.
Quase. Com o Micka.
Com o Tom Saw. A Maria foi com a Bluey.
E depois fui ver novamente, uma segunda vez, o "Tudo sobre a minha mãe", mas já com um grupo da faculdade.
Apesar que já estavas aí no engate, que segundo o Pedro, é aquela...
Era com a Sandra que ele estava.
Também há essas ligações.
Eu já estava com a Sandra.
Os filmes que foste ver só porque aquela pessoa queria ver aquele filme.
Claro.
O filme para o qual arrastaste aquela pessoa e ela não queria muito ver, mas lá se deu. Portanto, há uma história.
Eu tenho uma história melhor.
Há quase uma arqueologia. Não digas isso. Dizes que tens uma história.
Então, mas avança. Não, desculpa, Bruno.
Que história é essa?
Nós íamos muito ao cinema nos anos 80, ali em Carcavelos, um cinema chamado Atlântida Cine, que fechou há relativamente pouco tempo, que era um cinema extraordinário, porque nunca tinha ninguém, tinha um conforto inimaginável. Vi lá, por exemplo, o "Octopussy" e o "Never Say Never Again" do James Bond 7, esse lembro-me perfeitamente. Eu ia com um colega e ficávamos sempre na fila A, na primeira fila.
Ah, mas isso não é...
Espera, e o cinema era vazio. E eu: "Não, ficamos aqui."
Já me estou a rir.
Ele descobriu mais tarde que não via bem. Ou seja, ele não usava óculos, mas ele não sabia. E o ponto alto de ir ao cinema naquela altura, quando se é adolescente, e depois paguei isso bem caro em contas de dentista, era comprar quatro quilos de rebuçados e de bolas de neve, de caramelos de fruta e de gomas.
Pedro, mas já que estás aqui, deixa-me aproveitar para te perguntar.
Há bocado confundi o filme, era o Spring Breakers, que tem a Selena Gomez.
Ah, é, do Harmony Korine.
Não, não é isso. Agora estava a pensar na pergunta que ia fazer. Aconteceu aqui há várias décadas, quando começou a acontecer a revolução da televisão, isso também teve um efeito nas salas de cinema. Depois o cinema teve que se adaptar e teve que investir e tecnologicamente mudou e tentou atrair mais pessoas, etc.
Não é por acaso, calha com estes 25 anos deste primeiro século, a questão da internet, da forma como consumimos os conteúdos multimédia, como eles estão disponíveis, como muitas vezes estão disponíveis de forma gratuita, seja legal ou ilegalmente, mas isso obviamente tem impacto. E agora a questão do streaming. É possível o cinema sobreviver com o streaming? Desta forma como está a acontecer, provavelmente não. Lá está, o que é o cinema? O cinema é nós deslocados. Claro. Voltamos sempre à filosofia da coisa. E estas estatísticas do: "há menos espectadores". Se as pessoas estão preocupadas com isso, por que não abrem o seu próprio cinema? Claro que não é fácil. Digo isto, é um bocado parvo. Estás a provocar e fica-te bem. Não, porque é uma atividade económica, caramba. Aquilo são salários que têm que ser pagos. Aliás, tens razão.
E é cara.
Tens razão. E é que é muito cara uma sala de cinema. Sim, fazer aquilo, só em cadeiras. E depois há outra questão, por exemplo, em Portugal, agora foi notícia, tem sido notícia, parece que cada semana fecha um cinema e tudo o que é distrito do interior. Aliás, passa-se o mesmo com a tal distribuição de jornais em papel. Os distritos do interior praticamente não têm salas de cinema. Mas parece também que tem cada vez menos gente e as coisas não acontecem por acaso. Pronto, é um pouco isso. E será que em Portugal, e eu acho que a resposta é não, será que em Portugal nós temos uma noção de comunidade, ou seja, eu vivo neste bairro e eu tenho que estimular a vida neste bairro, seja de que forma for. Nem que seja apanhando o lixo do chão quando estou a passar e pôr no contentor, que é uma coisa que em Portugal não se faz. Nós em Portugal conseguimos, na zona onde vivemos, passar por uma lata de refrigerante que está no chão e ter um caixote do lixo a um metro de distância e conseguimos não a agarrar e pô-la no coiso. Eu creio que nós não temos em Portugal, por várias razões, que eu não sei, um sentido de comunidade. Eu não vou comprar o vinho ao Corte Inglês, vou comprar na loja que há aqui no bairro, porque ter uma loja aberta no bairro é bom. Faz diferença no bairro. Por muitas razões, entre as quais a segurança. Uma das coisas que se descobriu na América nos anos 70, investigações e aquelas coisas que os americanos fazem, é quando tu tens os comércios de rua, é bom para a segurança, porque há menos crime.
Evidente, há movimento.
Mas é um afterthought. É quando te dizem é que tu achas que é evidente. No limite, devia haver benefícios fiscais para lojas de rua por causa disso. E a questão do cinema, esses cinemas de bairro. Muitas vezes as próprias pessoas, sei lá, da Covilhã ou de Leiria ou do Fundão, é que não iam ao cinema, e depois fechou. E nós em Portugal também temos a tentação de: "a câmara devia, o Estado devia." Não sei. Mas é no mínimo aborrecido que não existam. E é uma piscadinha de rabo na boca, porque aquilo que estavas a dizer em relação às plataformas de streaming. Imagina, mesmo que seja mais barato hoje produzir um filme, fazer um filme, fazeres com meios, onde é que o vais exibir? Ou seja, onde é que estão as salas de cinema para exibires aquele filme? Porque as salas de cinema depois também só querem filmes que garantam muitos espectadores. No streaming, tu podes financiar um filme e ele está ali no meio do resto da oferta.
E uma coisa compensa a outra. Sim, está lá há muito tempo. Coisa que o cinema não pode ter essa vida na sala.
E naquela sala, se tu tiveres aquele filme naquela semana ou naquele horário, não podes ter outra coisa. Não podes oferecer outra coisa. Ou aquilo faz espectadores ou não é bom para ninguém. Portanto, os riscos que a produção de cinema corre, tem a ver também com a falta de salas onde exibir. E havendo um risco maior, tu tentas jogar pelo seguro e apostar naqueles produtos que tu sabes que vão gerar, à partida. Estão garantidos, não é? Estão garantidos uma grande receita, o que alimenta isto e faz com que haja mais espaço, cada vez mais espaço, nas plataformas para produtos um bocadinho fora e que serão menos comerciais, o que parece um contrassenso, mas não é. Ou seja, uma espécie de santuário, de reserva natural do cinema mais experimental, independente, podem ser as plataformas de streaming, porque pelo menos não têm associado esse custo de: "se eu tenho aqui este filme, não posso ter o blockbuster que me vai dar dinheiro." Muito bem, só para terminar, porque temos mesmo que ir embora. Pedro Boucherie Mendes, lembras-te da primeira vez que foste ao cinema? Não me lembro, obviamente. Pena. Mas talvez filmes de que tenho memória em garoto, ainda nos anos 70, filmes do Hurly, aquele Volkswagen. Do Carocha. Sim, do Carocha. Filmes do Trindade. Ora bem. Filmes do Louis de Funès. Pronto, é por aqui. Muito bem. Maria Ramos Silva.
Eu não me lembro do primeiro filme, mas lembro-me de ser miúda e provavelmente foi o primeiro contacto com a imagem do ecrã. Foi num antigo cinema que já não existe, que foi substituído na minha terra por um centro comercial, que entretanto também já não existe. Enfim, mais uma tragédia local portuguesa.
Esse centro comercial dá uma grande história.
É.
Maria Ramos Silva é da terra do primeiro IMAX de Portugal.
Exatamente. Que era aí. Mas o antigo cinema, que era um cinema com uma arquitetura incrível. Lembro-me de ver umas imagens à entrada do cinema, ser muito miúda e ver umas imagens de um cavalo e de uns touros, provavelmente. É verdade, acompanha-me até hoje. Como deves calcular. E depois tenho uma memória, e eu acho que até já contei aqui, tenho uma memória com 10 anos, que é talvez a primeira memória de experiência mesmo desse ritual de ir ao cinema, que é ter ido ver o primeiro "Sozinha em Casa", em Londres. Para mim foi um absoluto acontecimento, porque depois ainda por cima, ias comer hambúrgueres, já não sei onde, a seguir. Portanto, tudo aquilo, não era só o filme, era desde que tu saías de casa até que voltavas, era uma perfeita aventura. E depois não me lembro o filme que é, que ficou estes anos todos.
Lembro-me perfeitamente.
Ora cá está.
Ao contrário destes dois.
Não estás a dizer a verdade.
Tinha 10 anos, "Tubarão 4", Cineparque da Baixa da Banheira. Não foi com o Ruca, foi com o meu tio, o Quinjó, de quem já falei.
Já falámos aqui do Quinjó. Um grande abraço.
Lembro-me perfeitamente de estar à espera e de ver o cartaz lá fora, e de olhar e ver o nome do realizador Joseph Sargent, e eu pensei: "E o Spielberg?"
"Mas eu vim aqui por causa do Spielberg."
"Era o Spielberg que eu queria." O cinema era enorme, devia ter lugar para 500 pessoas ou mais.
Ou pelo menos agora na tua idade.
Não, era um daqueles cinemas à antiga.
Como é que se chamava? Cineparque.
Cineparque da Baixa da Banheira, que hoje é um cineteatro municipal. Foi reconfigurado, onde há concertos e também, de vez em quando, exibição de filmes de cinema, onde o meu filho também foi ver pela primeira vez um filme de cinema.
Deixa-me adivinhar.
"Bob no Oeste". Foi o Bob, não foi o Ruca.
Pensava que era tipo o "Sexta-Feira 13" ou algo assim.
Não. Coitadinho, tinha três anos. Fomos ver o Bob, o construtor no Oeste, uma coisa assim. Já no Cineparque, agora, que é o Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, qualquer coisa assim.
Qualquer coisa assim. Vamos pesquisar. Muito bem. Chegámos ao final de mais um "Pop-Up". Já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Continuem a seguir-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.