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Eu vi um bocado do Bad Bunny e pronto, achei ok, porreiro. Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso encontro semanal com estes três guardiões da sabedoria do mundo da cultura popular: Maria Ramos Silva, Bruno Vera-Manel e Pedro Bucheri Mendes. Esta semana, três verdadeiros artistas para falar de uma outra grande estrela, talvez a maior deste momento. Chama-se Bad Bunny. Ora, e para aqueles que não tiveram a oportunidade de estar a par daquilo que se está a passar, aqui estamos nós para assinalar. Vamos fazer aqui um pequeno resumo dos acontecimentos mais recentes. No domingo, dia 1 de fevereiro, Bad Bunny, cantor porto-riquenho, foi o grande vencedor dos Grammys, graças ao álbum "De Mi Tirar Más Fotos". Não foi mau este castelhano. No domingo seguinte, dia 8, Bad Bunny foi o protagonista do intervalo da Super Bowl, que é das coisas mais vistas na TV no mundo inteiro, diz por aí, e nos sítios onde não passa na TV, passa no YouTube, que também conta, como Portugal. Já agora, em 2025, foi o artista mais ouvido no Spotify. Maria Ramos e Silva, eu fico sempre fascinado com o efeito que tem este intervalo da Super Bowl. Porque aquilo não chega a 15 minutos. É ali um lusco-fusco, muito rápido.

Aquilo deixou de ser um jogo com espetáculo, é um espetáculo com jogo lá dentro.

Pois, é essa a questão.

Não é às vezes, é mesmo isso.

Pelo menos é a sensação que passa para nós, europeus.

Sim, também vos digo, como vocês sabem, eu não sou muito futebolístico do futebol europeu.

Quanto mais.

O americano ainda menos.

Exato.

Quando é que viste o espetáculo? Foi só quando eu te obriguei para fazer o trabalho de casa?

Não foi quando tu me obrigaste, mas quando começou a passar, ou seja, quando fomos inundados pela internet.

Sentiste uma onda.

Essa onda estava lá, de facto, mesmo que não queiras ver.

Ou como diria Bad Bunny, uma ola.

Uma ola, exatamente. Mesmo que não queiras, ela está lá e és apanhado. Enfim, eu acho que é um pouco como diria o próprio Bad Bunny nas suas canções, é inevitável tu ires flertando ou namorando um pouco as canções. Depois, se é para casar ou não, isso logo se vê. Logo diz a ti: "Se calhar não é bem para casar".

Obrigado, Maria, por este momento.

Mas ele está claramente em altas. Já estava. Acaba por ser um ponto alto de carreira do Bad Bunny. Eu acho que é um fenómeno divertido, interessante. Acho que são bons temas, acho que são muito divertidos, mesmo para quem não percebe muito bem o que ele está a dizer, porque às vezes acontece.

Porque ele tem aquela-

Sim, mas isso também faz parte, acho que é engraçado.

Sinto que a Maria vai pôr água na fervura. Vamos acalmar os ânimos.

Mais uma vez, e nos últimos anos. Há pouco falava daquilo que para nós é hoje o intervalo do Super Bowl. O Super Bowl começa esta ideia do half time, do espetáculo, é uma coisa muito amadora nos anos 60. Aquilo eram bandas da escola que iam para lá tocar com uns standard, umas coisas assim muito pouco pretensiosas. Mas depois nós também nos esquecemos que nos anos 80 tivemos nomes como o Michael Jackson a atuar, o Prince.

Já nos anos 90. A partir dos anos 90.

Sim, mas mesmo em 80 começas a ter ali alguns nomes.

É o Michael Jackson que está a volta à coisa.

Em 93.

Mas a própria Gloria Estefan, era aí que eu queria chegar, que é uma referência latina e que a certa altura é para os Estados Unidos-

É a referência latina durante muito tempo.

O próprio Ricky Martin.

E acho que é a artista que se não é a que tem mais presenças.

Sim, ela faz mais do que uma vez. Duas ou três, sim, por aí.

Não sei se há alguém que tem mais, mas ela tem três participações.

Sim. Portanto, imagina, eu acho que o Bad Bunny é a pessoa certa no momento certo, digamos assim, do ponto de vista pop e cultural. Está a viver o seu momento, há um contexto. Mas essa dimensão mais vocal do ponto de vista político, se quiseres, no intervalo do Super Bowl, que ele teve, obviamente, porque há esse contexto, também não é nova. Nós tivemos o Eminem a emular o gesto do Kaepernick, nós tivemos também a Beyoncé a fazer umas coisas, a própria JLo quando atuou há pouco tempo também tinha a bandeira de Porto Rico e tinha lá uma alusão com as jaulas e os miúdos. Também falava muito ali da imigração e dos problemas nas fronteiras. Quer dizer, nada disto acaba por ser propriamente novo. Há uma onda que tem vindo a crescer. De facto, o Bad Bunny é a voz mais elevada.

E que já tinha um passado recente de quezílias e confrontos.

Sim, ele tem feito a questão da residência em Porto Rico.

Recusar-se a atuar nos Estados Unidos.

É evidente que há todo um ambiente muito fervilhante.

Todo o disco tem muitas referências políticas explícitas.

Precisamente. E ele é um artista, nós já falámos disso aqui em alguns programas. Há, de facto, grandes figuras da pop que têm uma conduta, se quiseres, mais branca, que se demarcam mais desse envolvimento, mas ele tem sido um tipo relativamente engajado. Portanto, é natural que uma prestação, ainda por cima, que é um grande espetáculo, que de facto teve ali uma série de ramificações. Também já vamos falar disso. Figurantes. É, de facto, o momento em que tu, mesmo que não estejas a pensar, vais ser confrontado com isso no dia a seguir nas redes sociais e vais acabar por ver alguma coisa. Eu depois vi tudo, obviamente. E lá está, e só me apercebi do resultado do jogo, sei lá, dois dias depois. Pensei: "Olha, deixa cá ver quanto é que isto ficou".

Eu ainda não estou a par.

Pronto, foram os Seahawks que ganharam, entretanto. Mas de facto, nós estamos aqui a falar é de Bad Bunny.

Exatamente. Por falar em coelhinhos maus, Pedro Bucheri Mendes Quero muito saber, obviamente, o que sentes sobre o Bad Bunny e esta prestação, mas também quero saber até que ponto é que faria sentido um dia que-- eu não sei se nós temos fãs suficientes e gente interessada o suficiente para ver a Super Bowl em Portugal. Compensaria pagar uma coisa dessas e transmitir isto ou isto é estupidamente caro?

Evidentemente que não. Por causa do fuso horário e porque as regras são extremamente difíceis de apreender em sete segundos.

Desculpa, mas isto não foi transmitido na TV?

Talvez numa Sport TV qualquer.

Acho que a DAZN costuma transmitir jogos.

Deixa-me só dizer uma coisa importante que é: os artistas não são pagos para atuar no intervalo. E depois uma outra coisa importante também.

Então tem os artistas que pagar toda aquela produção? A produção é paga.

Não. Imagina, à volta há uma compensação, mas o teu retorno, na verdade, é a exposição.

E a flor na lapela, o achievement.

De que foste escolhida.

Exatamente. Deixa-me só dizer uma outra coisa que é: esta coisa dos half time shows, que é assim que se chama, percebeu-se que atrai as mulheres para o desporto. A grande mudança na última década tem a ver com o facto de o público feminino, as mulheres, estarem a começar a aderir a desportos que tradicionalmente eram só de homens, como a Fórmula 1, por exemplo, através do Drive to Survive. E de certa forma, este acontecimento do Super Bowl, que é um acontecimento que nos é familiar na Europa, através da ficção americana, do cinema. Eles vão fazer um barbecue.

E há sempre um quarterback no liceu.

Sim, mas depois vão beber umas cervejas no domingo.

Sim, fazem o tailgate.

É isso. E estes shows, estes eventos existem já porque já têm de existir. Certo? Faz sentido o que eu disse?

Sim. Ou seja, não é possível voltar atrás.

Exatamente. E se calhar com a cardiação.

Mas tem efeito essa vontade de "vamos trazer este tipo de novo público". E resulta?

Resulta. Por exemplo, quando eu via futebol com 20 e tal anos, digamos assim, quando eu ia ao estádio, havia poucas mulheres no estádio. E agora há imensas mulheres nos estádios. Pelo menos no do Sporting. Eu suponho que nos outros também. Uma mulher ir ao futebol já é uma coisa vista com normalidade. Há 20 anos não era. E esta coisa das mulheres assistirem a corridas de Fórmula 1 ou a jogos de Super Bowl, que é uma coisa obviamente boa, digamos assim, porque quantos mais melhor, deve-se também a esta espetacularização dos eventos. Na Europa, e aqui peço a ajuda do Bruno, eles também tentam de vez em quando na Champions pôr uns tipos a cantar ou antes ou depois.

Eu acho que na Champions, na final, acho que há qualquer coisa.

Mas ninguém liga. Tanto que a gente não se lembra. E eu acho que vai ser difícil para a Europa acompanhar esta parada, até porque tradicionalmente nós dizemos: "A cerimônia de abertura do mundial. Que seca, começa lá o jogo".

É verdade.

Mas os americanos, de facto, fazem aquilo espetacular.

Mas aquilo são 15 minutos.

Sim.

E é no intervalo.

E é uma coisa muito forte, porque os tipos conseguem montar o palco. Eu vi um bocado do Bad Bunny, achei ok. E só mais uma coisa que é: nós podemos ver como a linguagem da televisão mudou vendo estes half time shows. Por exemplo, se virmos o do Michael Jackson, que é incrível, mas a maneira como está filmado, a distância das câmaras, os enquadramentos, parece uma coisa meio normal.

Não, este aqui é filmado milimetricamente planeado.

Mas o do Michael Jackson.

Isto é um minifilme.

Parece que estás a filmar um concerto.

E parece que foi o meu pai lá ao longe com uma camcorder.

E é um espetáculo, digamos, que é feito a pensar na transmissão televisiva.

Era isso que eu ia dizer.

Não necessariamente.

Era isso que eu ia dizer. Televisão é imagem em movimento. Passo o lugar comum, aquilo é só feito a pensar na televisão.

Aliás, tu tens neste espetáculo e outros anteriores, tens inserção de excertos.

Cenas pré-gravadas.

Pré-gravados e depois se misturam com o direto, que as pessoas lá em casa, provavelmente, as pessoas no estádio estão a ver uns ecrãs gigantes, mas há essa combinação.

Tem um delay por causa daquela coisa de Janet Jackson.

Há o falso direto. Tem ali uns segundinhos.

Em princípio, tudo tem. Os Oscars também têm.

Exato.

Portanto, se alguém der uma chapada.

Mas o outro não estronba na mesma.

Uma chapada, não diria, mas se alguém, enfim.

Exato.

Qualquer coisa que envolva o dez.

Eles vão ter que carregar no botão. Muito bem. Falei no dez. Bruno Vieira Amaral.

Esse foi o non sequitur.

Vamos lá ver. Tu percebes muito disto. É a Bad Bunny o maior artista pop da atualidade?

Quê? Masculino?

Pois. Responde.

O maior acho que é a Taylor Swift.

Achas que sim, é a Taylor Swift?

Depois de uma semana, acho que é.

Não é comparar.

Não sei.

São complementares.

Estamos a falar aqui num momento em que toda a gente está a falar do Bad Bunny. Ele ganhou Grammys e agora teve este espetáculo no intervalo do Super Bowl.

Teve o disco em tudo que era top de melhores do ano, foi o artista mais ouvido, esgotou uma digressão.

Haverá boas razões, bons argumentos.

Vai estar duas noites no Estádio da Luz este ano.

Sim, mas creio que a Taylor Swift, nos últimos 10, 15 anos, é a grande artista pop deste tempo. O Bad Bunny provavelmente disputará um honroso segundo lugar. Só claro que neste momento parece que só existe Bad Bunny e parece que toda a gente estava a ouvir Bad Bunny, o que provavelmente é só em parte verdade.

Mas também não é bem mentira.

Não é bem mentira.

Não há tanto tempo a gente estava a ouvir o Despacito.

Claro.

Mas olha, até por falar nisso, eu não gosto de estar a falar só do meu ponto de vista

Mas podes.

E assumir isso como o geral. Mas a verdade é que estavas a falar do "Despacito", que foi uma canção que toda a gente conhecia. Eu não sei se há assim muitas canções do Bad Bunny que sejam tão transversais ou que cheguem a tanta gente como essa, por exemplo. Essa foi um fenómeno. Mas se pedires a uma pessoa na rua: "Aí uma canção do Bad Bunny". Eu não sei quantas pessoas te conseguem cantarolar uma canção do Bad Bunny. Eu só consigo uma, mas não a vou fazer.

Já resolvemos isso daqui a bocado.

Daqui a bocado. Portanto, eu tenho algumas dúvidas que seja. Agora, que é uma figura central no mundo do showbiz e que é também um indicador de transformações que existiram neste século. E para isso basta olhar para a lista dos artistas convidados para fazer este espetáculo. O Super Bowl, o futebol americano em geral e a Super Bowl em particular, é um grande momento de afirmação da identidade americana, daquele tipo de coisas que nós olhamos e pensamos: "Aquilo é demasiado americano, não comunica conosco". Estes espetáculos têm mudado isso, têm ajudado a mudar isso. E por isso é que também a escolha dos convidados, dos artistas que vão lá atuar, põe tanto em causa e suscita tanta discussão sobre coisas que vão muito além do espetáculo ou do desporto, que tem a ver com a própria identidade norte-americana. Nos últimos anos, só para se ter uma ideia, vou dar aqui os artistas que atuaram no intervalo do Super Bowl nos últimos cinco anos. Este ano o Bad Bunny, Kendrick Lamar no ano passado, Usher com a Alicia Keys, o will.i.am, o Ludacris, a Rihanna em 2023. 2022 foi aquele ano do hip-hop da West Coast.

Do Dr. Dre.

Dr. Dre, Eminem, Snoop Doggy Dogg. 2021, The Weeknd e 2020, Shakira e Jennifer Lopez, nesta onda latina. Isto eu não sei se é muito representativo da América no seu todo. Não parece que seja.

Obviamente não será, logo de rajada não tens aí ninguém da country.

Ora aí está. Que nos primeiros espetáculos um dos primeiros espetáculos nos anos 90 foi precisamente dedicado à música country.

Nada, não é um fenómeno, é uma tradição da cultura americana. Continua.

Aí que suscite tanta discussão, porque de facto há uma discussão que nasce destas escolhas e deste espetáculo, a propósito do que é a própria identidade americana. Depois podemos falar disso mais à frente, mas eu acho que a cultura latina, ao contrário da cultura negra, que é percebida, mesmo dentro dos Estados Unidos, como especificamente norte-americana, do país dos Estados Unidos.

A pesar de tudo.

Mas já não tens ali blues, lá está, por exemplo.

Mas tens outras coisas. Mas está dentro dessa cultura. Eu acho que a cultura latina ainda é vista como algo externo. É um corpo estranho ainda e que os Estados Unidos ainda não conseguiram assimilar. Também não se percebe se querem assimilar e os latinos também não se percebe se querem ser assimilados ou se querem esta afirmação da cultura. Portanto, há aqui uma série de discussões a propósito da escolha do Bad Bunny, que eu acho que vai muito além de saber se é de facto a maior estrela ou o que é que pode estar aqui em causa quando a escolha de um artista levanta tantas outras questões, debates, também debate político, mas que podemos falar depois.

E já lá vamos, sim, senhor. Chegamos aqui ao final da primeira parte do "Pop Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Bouchery Mendes. Esta semana estamos a falar do inescapável Bad Bunny, muito amado por uns, razoavelmente odiado por outros, e que todos tem conseguido surpreender, de uma maneira ou de outra, pelo que faz e até pelo que veste. Maria Ramos Silva. O Pedro riu-se. Um dos óbvios tópicos de discussão, porque é sempre, não é só com o Bad Bunny, naturalmente, foi aquilo que o Bad Bunny vestiu. Ele vestiu Zara. Nestas coisas, isto nunca é apontamento. Nunca são só detalhes. A que calhou vestir Zara? Isto não funciona assim.

Não há ali grande casualidade nestas coisas. Mas de facto não é só no Bad Bunny.

Mas foi um bocadinho inesperado, ou não?

Sim e não. Quando pensas na imagem do Bad Bunny, ele tem vestido muitas marcas associadas à alta-costura, grandes nomes de design. É interessante porque eu acho que ele traz precisamente essa dimensão mais popular. Também foi criticado por vestir Zara, porque de alguma forma está associado ao consumo rápido, ao descartar roupa e nunca é uma coisa consensual. Tem esse detalhe engraçado, nós podemos sempre ir buscar aquela teoria do parafuso português, faz lembrar um pouco a bandeira que foi à Lua que terá sido cosida ou costurada por uma portuguesa. Ali também tivemos uma fábrica de Santirsa a confeccionar parte a uma das T-shirts. Maravilha.

Parece que houve histórias logo de T-shirts revendidas a Milhares de euros.

Mas nós produzimos imensa coisa, inclusive para as grandes marcas, como a Zara. Isso também não devia surpreender os portugueses. Estranha-me que não saibam isso, é pena que não saibam. Somos, de facto, uma fábrica formidável para estas coisas. E não foi só a Zara. O Bad Bunny tem uma parceria com a Adidas, acho que fez mesmo uns ténis de raiz com a Adidas. Até porque a Adidas, lá está, precisava também de passar aquele capítulo do Yeezy, que correu muito mal.

Pois, aquilo não foi fácil.

Com o Kanye West, teve de descontinuar aquele produto e acho que já teve uma exposição midiática, depois desta participação absolutamente estrondosa. E é aí que eu quero chegar. As marcas querem estar onde os consumidores estão, onde estão, sobretudo, os jovens, onde estão as pessoas que se associam a nomes como estes, tentam estar ligadas às grandes figuras de hoje e esperar torcer, num mundo tão competitivo, que eles não cometam erros, como por exemplo, o Kanye West, que depois se transformam em ativos pouco simpáticos para as próprias marcas. O Bad Bunny até agora, lá está, como eu dizia na primeira parte, tem sido um tipo muito vocal e associado em causas que, em teoria, a maior parte das pessoas e dos jovens se reveem. Ele tem também uma postura interessante do ponto de vista de outros aspetos, até da própria imagem do arquétipo da masculinidade. É um tipo que aparece de unhas pintadas, que se veste, lá está, tem uma forma de se vestir, faz produções para a Vogue incríveis, anda com malas. Apoia imenso a comunidade LGBT, a comunidade trans, que são uma série de causas que acabam por estar em cima da mesa e ele envolve-se muito nisso.

Eu acho que a imagem que ele passa, ou que se calhar todos temos, é que é um tipo porreiro.

Mas eu acho que é precisamente isso, e vai tocar na ideia que o Bruno dizia há pouco. Eu acho que o Bad Bunny, se calhar, muito poucas pessoas conseguem conhecer ou identificar de rajada o repertório do Bad Bunny. Conhecem, sobretudo, o Bad Bunny e a personagem que está ali e o tal tipo porreiro.

A voz, os tiques, a imagem.

Pronto, e no caso do "Despacito", tu lembras-te da canção e se calhar nem te lembras quem é o tipo que fez a canção.

Luis Fonsi.

Mas é menos imediato. Neste caso, eu acho que ele consegue, e essa é a grande virtude do Bad Bunny e das estrelas pop, no geral, ele consegue estar para lá das suas canções.

Mas há uma coisa interessante que é: pelo menos aquilo que tenho visto, espero não estar a falar só da minha bolha, mas parece ter um apelo relativamente transversal em termos de público.

Posso só dizer uma coisa?

Podes até dizer três.

O que o Bad Bunny tem, e nós estamos agora a ver com as cheias em Portugal, o que o Bad Bunny tem é muita aura, muito carisma. Estamos a ver, porque nas cheias, pelo menos na minha opinião, não vemos isso nos políticos que falam.

Sim.

Não há ali um político.

A ministra do Ambiente conseguiu.

Sim, a Graça Carvalho. Mas de resto, não há nenhum Bad Bunny a sensibilizar para a situação.

Sim. O Leitão Amaro.

E estas coisas são muito mais importantes do que parece.

Quando dizes essas coisas, tu falas dessa aura.

Pronto, que não se compra no supermercado. E que depois nós racionalizamos. "Não, ele canta bem, não, ele é porto-riquenho, não, ele tem tatuagens, não, ele pinta as unhas". Isso é tudo verdade, mas, sobretudo, o tipo tem imensa pinta, tem imensa aura.

É isso.

E esta coisa da cultura latina nos Estados Unidos. Os Estados Unidos são, na minha opinião, a mais incrível nação que existiu na história da humanidade, sendo claro que eu não conhecia a cultura romana.

Uma pena.

Mas é um país muito jovem. Está tão à frente cientificamente dos outros, por exemplo, em termos de tecnologia, que quase parece uma série de ficção científica, aquilo que os Estados Unidos, a superioridade dos Estados Unidos face aos outros países. Eles são um melting pot, é essa a expressão. Significa que, na origem, são habitantes de várias nações, incluindo da Europa. O americano branco europeu, com ar de europeu, tem precisamente origem na Europa.

Claro.

O Trump, que é meio irlandês, meio, não sei o quê.

Meio alemão.

Meio alemão.

Não, também acho que é escocês.

Agora, posso-lhes dizer uma coisa, e eu até nem costumo ter sensibilidade para isto que vou dizer a seguir.

Eu de certeza que não concordo. Como assim não tens sensibilidade?

Ir à Califórnia, por exemplo, a Los Angeles, ires a um bom restaurante, daqueles normais. É quase ofensivo ver a diferença que há entre as pessoas normais, brancas, que lá estão, vou dizer normais, não as pessoas, o óbice que lá estão, e a quantidade de empregados latinos que há. Depois nós podemos sempre dizer, e é verdade, que é uma forma desses empregados poderem aspirar a ter uma vida melhor ou os seus filhos. Isso é uma coisa que é muito usada na ficção americana, que é o tipo que é empregado, ou que é jardineiro, e depois a sua filha chega a médica e advogada, que é uma coisa que de facto acontece nos Estados Unidos e que acontece muito menos na Europa, que está sempre a criticar os Estados Unidos. É muito mais difícil a um pobre português, digamos assim, ascender na escala social do que, de facto, a uma filha de um empregado mexicano na Califórnia, que depois vai estudar para o Texas e pode chegar a presidente, no limite, como o Obama, aliás, que é filho de uma mulher que nem sequer tinha marido. A forma como se critica os Estados Unidos, muitas vezes nós esquecemos como, de facto, é a terra das oportunidades, na prática. E o facto de termos um porto-riquenho, que nem sequer é bem um estado americano, é um território, no palco do intervalo do Super Bowl, também demonstra a força da América.

Exatamente.

Teríamos um rapper da margem sul na final do Campeonato Português? Não sei mesmo. E é um pouco isto que me oferecia dizer nesta altura.

Não, e eu acho que é bem bonito. E aliás, Bruno Vieira Amaral. Eu queria voltar àquele tema que falaste há bocado, da cultura latina. Até porque nós antes do programa falávamos sobre isso Tu dizias que talvez em tempos, esta coisa da cultura latina, entre aspas, este conceito, talvez fosse uma coisa relativamente exótica, quando hoje é uma coisa, pelo menos nesta área da música então.

Mainstream é o dominante.

É dominante há vários anos. Primeiro, perceber se isto é um facto ou se é uma perceção nossa por alguma razão. E o que é que mudou?

É um facto baseado numa perceção.

Muito bem. Assim vale a pena fazer um programa.

Não, porque o que tu tens ao longo da história de Hollywood é um determinado tipo de representação estereotipada dos latinos.

"West Side Story", por exemplo.

"West Side Story" que até tem poucos atores latinos. Eram brancos disfarçados de latinos ou de outras origens. Mas o que tu tens é essa representação exótica, porque os filmes eram produzidos para o espectador médio americano. E aos olhos do espectador americano, tudo é exótico, tudo que se afasta um milímetro da fronteira é exótico.

Mas para o português, para o francês, para o alemão e o belga também. Esta coisa de que nós somos mais, desculpem interromper, mas que nós na Europa somos mais abertos à diferença, não.

Vou dar aqui um exemplo, por falares nisso. Aqui há uns anos houve aquele grande sucesso, a lambada. Que era uma coisa que eu acho que nem era feita por brasileiros. E depois houve aquele sucesso também do boi. Se não era o bumba meu boi, era outra coisa qualquer.

Enfim.

"Eu quero o tic tic tic tic tcha".

"Bate forte o tambor".

"Bate forte o tambor" e o Chico Buarque um dia é convidado para a televisão, para um programa da televisão francesa.

Que bela volta, estou a adorar, vamos a mais.

Espera, por falar no exotismo. E o apresentador do programa estava muito contente de ter ali o Chico Buarque e disse que conhecia uma música brasileira e que era aquela, e se ele também conhecia. Portanto, estás a ver o Chico Buarque a ser questionado sobre o "Bate forte o tambor, eu quero o tic tic tic tic tcha". Pronto, claro que essa questão do exotismo não é um exclusivo dos Estados Unidos. Estamos a falar da produção cultural norte-americana que olha para aquilo que está à volta, mesmo que seja muito perto, como se fosse de outro planeta. E os latinos olham para si mesmos, apesar de todas as diferenças, por exemplo, de argentinos para uruguaios e para mexicanos, mas, e isso vê-se agora no discurso do Bad Bunny, gostam de afirmar um pan-americanismo, de se dizerem que partilham uma cultura comum e que, de certa forma, os Estados Unidos não se devem pôr à parte, que é essa mensagem que o Bad Bunny está a transmitir à América. Eles são contra a utilização da América para se referir aos Estados Unidos da América, daí aquela questão do estadunidense ou dos americanos. E há aqui uma afirmação de identidade comum que, pela influência que a comunidade latina, a população latina já tem nos Estados Unidos, na perspectiva deles, também deve englobar os Estados Unidos. E os Estados Unidos acham que não se misturam com o resto da América, não se veem como o resto da América.

Mas diz-me uma coisa, nesta altura específica, está a acontecer toda esta questão que tem a ver com aquelas brigadas dos serviços de fronteiras do ICE. As comunidades latinas têm sido protagonistas de muitas situações, no mínimo, complicadas e difíceis. Bad Bunny é uma figura ultraconhecida e popular e com muito poder mediático, que vem opor-se a isto. Depois tem havido muito confronto vindo, por exemplo, de republicanos, que entretanto pediram que ele fosse preso e que tem que pagar multas porque fez isto e fez aquilo e disse aquilo, etc. Uma estrela destas, ao ser assim e ao comportar-se desta maneira, tem algum poder, tem alguma influência ou isto é demasiado romântico?

Alguma influência tem, estamos aqui a discutir isso e se há essas reações, claro que tem influência, até do próprio discurso que os próprios latinos têm sobre si mesmos.

Exato.

E a forma como eles se entendem. Eles querem essa afirmação da cultura latina dentro dos Estados Unidos, querem essa diluição na cultura norte-americana ou querem uma afirmação da latinidade dos Estados Unidos. São coisas diferentes.

Claro.

Eu acho que isso é percebido, e sobretudo nestes tempos de grande polarização política, essa afirmação da identidade latina dentro dos Estados Unidos é percebida, por exemplo, por uma ala dos republicanos como uma ameaça, porque é algo estranho e que se vê logo na questão da língua. O fato dele ter cantado praticamente só em espanhol.

O primeiro a ganhar um Grammy de melhor álbum totalmente em espanhol.

Ora, isso levanta logo-- nós ouvimos muito aquelas discussões sobre a grande substituição na Europa e da ameaça dos muçulmanos. Neste momento, para um setor, eu não diria só do Partido Republicano, mas da sociedade norte-americana, isto assusta. Esta onda da cultura latina, com todas as diferenças que tem, assusta mais do que a cultura negra, que como dizia de início, está entretecida ou está assimilada no tecido da sociedade norte-americana.

Homem, que até ocupou o espaço. A música que interessa, de certa maneira geral, não vieram no Mayflower. A questão é precisamente essa.

Mas o secretário de Estado americano, que viu então o primeiro-ministro, é um latino, é um Marco Rubio.

Não, é isso. São alterações profundas que têm existido. Estava a falar da questão da representação na cultura, nos meios, no cinema, na televisão. Mas nós vemos o Ted Cruz, a Alexandria Ocasio-Cortez, para ir ao outro lado do espectro político. Portanto, há uma participação, porque eles são cada vez mais.

Sim, exactamente.

Os latinos são cada vez mais. A questão é: fazemos parte desta sociedade, desta ideia de nação que são os Estados Unidos, ou isso já é uma outra coisa? Ou são os Estados Unidos que fazem parte deste conjunto alargado que se entende pela América? São questões que são levantadas, não pela participação do Bad Bunny, mas pela existência de artistas como ele, são questões sobre a identidade norte-americana.

Sim, mas isso também tem a ver com dinâmicas da sociedade. Nós estamos, mesmo nesta conversa, a amplificar mensagens ignorantes. Os Estados Unidos são uma realidade cultural, mas também são uma realidade política, social e institucional. A grande força dos Estados Unidos, na minha opinião, é a força das suas instituições. E quero crer que, apesar de haver, obviamente, racismo e discriminação, que existe porque existe em todo lado, as instituições americanas são mais fortes e mais poderosas do que, por exemplo, as portuguesas, que não são muito fortes e deveriam ser mais. O que eu acho é que o Bad Bunny também é ruidoso, é irritante, é diferente, canta em espanhol, pinta as unhas. Não é um tipo com chapéu de cowboy a lamentar-se que a sua picape ficou sem gasóleo ou gasolina na autoestrada, que seria mais consentâneo com a América branca, daquela parte mais do osso, dos estados sem mar.

Por acaso é engraçado, até o Springsteen fez um tema. Já atuou no Super Bowl, fez um tema agora a propósito do AS.

Já atuou no Super Bowl, sim.

Mas a verdade é que o Bad Bunny hoje consegue ter mais impacto do que mesmo isso. Ele já é a voz em si, ele já traz uma imagem e uma geração diferente e com tudo isso consegue ser um furor.

Quero crer que para as gerações mais novas, estas barreiras, é tudo muito mais fluido, quero crer. Espero que sim.

Também me parece.

Eu tenho algumas dúvidas que seja generalizado. Haverá focos de resistência e há, de facto, muitas Américas, muitos Estados Unidos dentro dos Estados Unidos. Há muitos estados dentro dos Estados Unidos. Agora, só pegando numa coisa que o Pedro dizia há pouco acerca da aura do carisma, isso é inegável. Eu vi aqui há dias, já depois do espetáculo.

Eu vejo e quero ir com ele fazer imensas atividades. Com o Bad Bunny.

Atenção.

Não, quero.

Sim, está bem.

Vamos ver a bica e depois logo se vê.

Há umas imagens dele com o Ricky Martin. Eu não sei se as imagens são antes do concerto ou já depois do concerto, mas está ele a abraçar o Ricky Martin como se fosse um ídolo e é uma das referências da cultura e da música latina em todo o mundo. E tu vês ali, parece um miúdo, o Bad Bunny nesse momento, parece um miúdo ao pé do ídolo.

É o Benito.

E tu vês o Bad Bunny em palco e aquilo é outra criatura.

É mais do que isso.

É outro animal.

Eu lembro que o nome do Ricky Martin era um sucesso latino, mas ainda vivido de uma forma muito guetizada. Era uma vergonha dizer que gostava do Ricky Martin.

Olha aí.

Não tem nada a ver.

Não tem nada a ver. O Bad Bunny hoje, é quase um bocado dizeres que não gostas de Bad Bunny. É o oposto.

Como acontece com muitos fenómenos pop, mesmo sem ser latinos.

A Selena, é um sucesso muito localizado na comunidade latina mexicana nos Estados Unidos. Ou seja, não tem a mesma transversalidade que agora o Bad Bunny. Por isso é que eu digo que estamos num ponto completamente diferente da representação.

Mas eu acho que eles, de facto, sempre tiveram uma capacidade de integração, como o Pedro dizia, que apesar de tudo, é bastante mais robusta do que nós temos na Europa. Imagina, tu tens um fenómeno no início dos anos 80, no desporto, com o Fernando Valenzuela, que é um mexicano, dos Dodgers, é uma absoluta loucura e é um tipo que vem do México. Ou seja, apesar de tudo, eu acho que muito mais provavelmente do que nós, vivemos um bocadinho iludidos com essa ideia de que somos uns tipos muito porreiros, é tudo muito fácil.

Tu tens o Scalema a esgotar o estádio da Luz.

Não, já tens. Nem estou a falar em termos culturais. Acho que já passamos essa fase e conseguimos integrar muita coisa. Estou a falar em termos comunitários.

Não, isso claramente.

Estás a falar do dia a dia.

Estou a falar do dia a dia.

Isso claramente. E acho que tem a ver com aquilo que o Pedro estava a falar, também da robustez das instituições norte-americanas e dessa capacidade de integrar, que se calhar a Europa seguiu outros caminhos e a Europa, no geral.

A questão do American Dream. É verdade, não há nenhum European Dream. Não há nenhum Portuguese Dream, mas há uma American Dream. Não, é verdade.

Então não há.

É verdade, é um facto.

Pastel de nata. É o sonho português.

Não gosto do pastel de nata. Nunca.

Deve haver um sonho português, que será o pesadelo de outros países.

Muito bem, nesta tónica positiva, chegamos ao final de mais um "Pop-Up". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Continuem a seguir-nos nas plataformas de podcast. Voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.