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Sempre que se sentirem tristes à segunda-feira, lembrem-se de nós e ouçam as nossas sugestões da semana. Não é brincadeira. Meus amigos, estamos cá, estamos de regresso para mais uma dose. E por falar em dose, vamos começar pelo Pedro Buchinho Mendes. Pedro, aproveito esta oportunidade para dizer ao nosso vasto auditório que eu não faço ideia o que é que trazes para sugerir esta semana.
Uma sugestão de ouvintes. Já na semana passada perguntei isso.
Sinto alguma provocação e prometo que na próxima semana terás resposta.
Criaste um e-mail e não te calavas com isso e nunca mais falaste.
Não, e não me calo e digo todas as semanas: popup@observador.pt.
Na semana passada, na quinta-feira passada-
Tu tens graça
...abriu a nova exposição longa no Museu Bordalo Pinheiro, ou como nós dizemos em Lisboa, Bordalo Pinheiro.
Bordalo Pinheiro.
Sim.
É só uma palavra.
Que é ali no Campo Grande, mais ou menos em frente ao Museu da Cidade, que também recomendo vivamente.
Pensava que ias dizer que era mais ou menos em frente ao Estádio de Alvalade.
Não sei se ajudaste muito. É ao lado da universidade.
Pensava que ias dizer que era ao pé do Estádio de Alvalade.
Lusófona?
Sim, acho que era a Lusófona.
A Lusófona é do outro lado.
Hã?
Sim.
É ali naquela zona, não é muito longe da churrasqueira do Campo Grande.
Tem até uma estátua do artista.
Se calhar é melhor irem ao Google.
Tem até uma estátua do artista.
Várias pessoas.
Exatamente, do Jardim do Campo Grande. Onde eu ia muito com a minha mãe, havia ali um centro comercial, Caleidoscópio, onde agora é o McDonald's.
É muito "Alice no País das Maravilhas" esse nome. É verdade.
Eu ia lá muito com a mamãe nos anos 80. Havia lá uma pizzaria ótima.
Como é que se chamava a pizzaria?
Não sei. Isto vai ser um cantinho nostálgico.
Gosto disso.
Mas manda isso depois por e-mail.
Está bem. Porque o queijo ficava assim.
Tipo Tartarugas Ninja.
E onde é que eu conheci esse queijo? Da Airede, porque o avô da Airede fazia qualquer coisa com queijo, e então o queijo também se espalhava.
Avôzinho, diz-me tu.
Fios de queijo.
Também há aqui um lado de sangue do norte da Europa.
Não, há aqui um lado proustiano. Aqui temos o queijo na pizza. Eu acho que se o Bordalo Pinheiro-
Era o queijo na pizza
...eu gosto muito da loiça atual.
Um abraço para as caldas.
Está bem. Mesmo das coleções atuais do Bordalo Pinheiro.
Costumas ir lá à loja, à fábrica?
Sim, a minha mulher gosta imenso de lá ir.
Gosta imenso.
Tem que ser.
E bem?
Isto vai falar de mulheres.
Não, e bem.
Isto não é para ganhar eleições.
Espera.
Uma das minhas mulheres gosta imenso de lá ir.
Como se alguém acreditasse.
No Museu da Cidade, existe no jardim, para já tem pavões, que é uma coisa que eu não gosto muito.
Não gostas?
Mas depois, há uma parte do jardim que tem estátuas enormes do Bordalo Pinheiro.
Em locais diferentes.
Sim, que é uma coisa muito interessante. Só para dizer que se o Bordalo Pinheiro fosse americano ou fosse inglês, eu não sei se não seria mais gostado e mais apreciado aqui pela elite portuguesa. Ele foi, de facto, um criador extraordinário, como outros foram. Eu já vi a outra exposição longa do museu. Como qualquer museu português, é pequeno e nunca tem ninguém. Portanto, esperemos que este, quando eu lá for, também não tenha ninguém, pelo menos para eu ver à vontade a coleção, depois pode ter. Ainda não fui ver. Mas no Campo Grande, o Museu Bordalo Pinheiro está aberto de terça a domingo, entre às 10:00 e às 18:00. Consultem na internet mais informações. Eu estou ansioso por ir ver. Lá estarei, pagarei bilhete como qualquer pessoa. Os museus portugueses têm sempre umas pessoas a atender com ar cansado e triste, não sei se já repararam.
Em várias situações, sim, já reparei.
Não, nos museus. E estão sempre abaixo de ti, estão sempre sentados e nunca se levantam e têm sempre assim um ar meio burocrático, meio triste.
É verdade.
Parece que sempre morreu um familiar.
Não é em todos.
É em 97%.
Já há alguns casos em que-
É em 97% dos museus portugueses.
Mas entendo que-
Mas felizmente nunca há ninguém. No YouTube está um filme chamado "The Thinking Game", gratuito, e que está francamente bem feito. É sobre essas coisas da inteligência artificial, mas não é aquelas secas do costume, que isto vai mudar tudo, que as profissões vão acabar, que carregamos num botão e vem um tipo fazer-nos a cama à casa, um tipo um robô. É uma coisa bastante bem feita. Recomendo "The Thinking Game" no YouTube, completamente grátis. Vejam que vale a pena.
E de borla.
Exatamente. Ou grátis, como nós dizemos. Fui ao cinema.
Olha, parabéns. O que é que foste ver?
Gostei muito. Fui ver o filme do Jim Jarmusch, o filho, pai, mãe, Espírito Santo.
Não é nada conceptual esse filme. Mãe, pai, irmão, irmã? Ou era mãe e irmão?
Sim, mas é do Jim Jarmusch. É um daqueles filmes que-
Sei que tem o Tom Waits
...se víssemos em casa numa plataforma, estaríamos-
Ias parar sete vezes.
Ou não paravas.
Se fosse no telemóvel, fazer scroll.
90% do tempo no telemóvel a fazer scroll e nem perceberíamos bem o que estava a acontecer. E no cinema, é um dos filmes que eu mais gostei de ver nos últimos anos.
Ora, cá está.
É chamado tríptico, são três histórias. Uma é com o Tom Waits e com o Adam Driver, de quem eu gosto imenso.
Do Tom Waits ou do Adam Driver?
Gosto muito da música do Tom Waits e gosto muito do Adam Driver como ator. Tom Waits como ator é menos relevante. A outra, que é a minha história favorita, é uma história do meio, que é com a Charlotte Rampling, que eu acho uma mulher lindíssima e ótima atriz Tem sempre um lado evil que me atrai. Seduz-me das mulheres, um lado mau.
Para quem quer saber, aqui fica.
Qual é o e-mail?
Se quiserem depois ir com o Pedro à fábrica
E depois tem finalmente uma terceira história com dois irmãos. Uma decorre em Dublin, uma decorre em Paris, outra decorre nos Estados Unidos, não me lembro agora onde, mas no interior americano, onde se passam aquelas séries tipo "Task". Com neve, estradas.
Imensos problemas.
Isso. As três histórias têm alguns pontinhos de contacto. Eu não vou desenvolver muito mais. Mas é um filme para adultos, portanto não levem a petizada. E é um daqueles filmes, para usar uma expressão que se usava muito no meu tempo, que dá que pensar. Usava-se ou não usava?
Sim, no teu, no nosso tempo, acho que sim. Se calhar hoje já ninguém diz: "Isto dá que pensar".
Mas não é um dá que pensar.
Dá que pensar na vida.
Pensa sobre as relações.
No outro dia falámos disso.
Relações de pais com os filhos. Será que eu quero ter este tipo de relação? Ou vir a ter? Ou será que eu tenho esta relação com os meus filhos?
Eu ouvi esse comentário de algumas pessoas que viram o filme, de não acharem o filme particularmente brilhante, mas terem saído de lá com essa coisa. Então pessoas que viram com alguém da família.
Eu fui com o meu filho mais velho.
Eu senti isso ao ver aquele filme há uns anos com o Viggo Mortensen, "O Capitão", como é que é?
Com o puto.
Que vive com os miúdos.
Um pai rebelde. Um pai indie.
Aí está um filme que dá que pensar.
Finalmente.
Mas quantas?
Deixa estar. Isto não tem limite, isto é áudio. Isto não é FM.
Mas eu tenho.
Finalmente, chegou à Prime. Lá está, se fosse na Netflix, não se falaria outra coisa, como se o Bordalo Pinheiro fosse americano, não se falaria de outra coisa. Chegou "The Night Manager", season two, segunda temporada de "The Night Manager" com Tom Hiddleston.
Eu nunca vi a primeira.
Pronto, 10 anos depois.
Achas que devia?
Acho. Eu já vi dois episódios e gostei bastante. A série tem muito dinheiro e passa-se em Londres, e depois vai até à Colômbia e depois tem, obviamente, muitos atores ótimos e muitos planos ótimos. É uma série meia Bond, meia White Lotus, tem uma vibe Narcos também. Estou a gostar, mas chegou à Prime, "The Night Manager", segunda temporada. "Night Manager", o original baseado em John le Carré, que entretanto, como a Maria dizia na semana passada, depois morreu. Os atores morrem. Lá calha, os autores morrem. Esta história já não é do John le Carré, mas segue o mesmo espírito. Maria Ramos Silva, tu tens um livro e um filme, pelo menos isto.
Sim, eu vou só ficar por aí.
E chega.
Não vou me alongar muito mais. Primeiro, o livro. À medida que eu envelheço, não sei se acontece convosco também, mas eu vou dando cada vez mais importância à longevidade.
Pensei que fosses dizer os pequenos nadas.
Mas isto não é um pequeno nada, isto é um imenso nada.
Isto podia ser um título de um livro do Alçada Baptista. Tu disseste: dá cada vez mais valor à longevidade. Isso é o mesmo que dizer: tens cada vez mais medo.
Não, não tenho mais medo. Eu acho que nós quando vivemos a 100%.
Eu tenho.
Não, não é isso. Eu tenho medo de envelhecer mal no sentido, e era aí que queria chegar, de perdermos as capacidades, de estarmos dependentes. Isso tenho pavor. Acho que não é propriamente a questão da finitude, é mais de nós chegarmos, em que forma é que chegamos a esse momento.
Certo. Depois deste momento confessional.
Mas é de facto maravilhoso quando nós vemos pessoas que chegam aos 90 e muitos, 100, há cada vez mais centenários, a viverem com qualidade, obviamente, dentro das limitações naturais da idade, e conservarem a sua cabeça, a sua lucidez e capacidade de produção e talento. Eu, por exemplo, li há muito pouco tempo, era esse que queria sugerir, mais um livro da Eduarda Chiotti, que é uma senhora que começou a publicar nos anos 70, tem 95 anos. Lançou este livro em novembro pela Companhia das Ilhas. E é extraordinário, porque ela não é obviamente boa escritora porque tem a idade que tem, mas ajuda a imaginar que maravilha consegue conservar isto e continua a produzir e nós temos a sorte de poder continuar a ler. Portanto, se procurarem, chama-se "Vira-Bicho: Divagações", é uma prosa, é um livro curtinho, se lê bem, uma prosa sobre a escrita, a sociedade, com uma série de personagens, o mundo, enfim, muito no registo dela. Ela que fez boa parte também do seu caminho na poesia e aqui também tem muito essa prosa poética, muito ao seu estilo. Recomendo. Depois, para algo um pouco diferente, um filme que estreou na quinta-feira, salvo erro, chama-se "O Bolo do Presidente", é um filme iraquiano. E é um daqueles filmes que também nos faz ter algum, por um lado, desconforto pela situação daquelas pessoas e alguma sorte por pensarmos que não estamos só a envelhecer, conseguimos, apesar de tudo, envelhecer num país com democracia e liberdade. Nem sempre está assim nos pinkers. Há muitas falhas, como é evidente, mas apesar de tudo, não estamos no Iraque nos anos 90, como é o caso, não estamos a ser invadidos pelos Estados Unidos. Isto agora também foi um pouco: vamos ver. Mas sobretudo, não somos liderados por um senhor chamado Saddam Hussein, que imagina bem, entre 78 e 2003, que é basicamente o período do seu consulado, adorava fazer anos, celebrar o seu aniversário e obrigar toda a gente a celebrar o aniversário com ele. Fazendo bolos estrondosos. E numa altura de grande escassez, particularmente, crianças, que podiam ser os filhos de qualquer um de nós, estão na escola, mas têm a obrigação de fazer, de encontrar para já ingredientes naquele cenário de grande escassez, precisamente, coisas como açúcar, que se transformam depois num luxo, entre miséria, e fazer um bolo para celebrar aquele 28 de abril, salvo erro, que era a data de aniversário do senhor, com toda a história que vai sendo contada através disso. Parece uma premissa muito pequena e limitativa, mas de facto o filme é absolutamente extraordinário. Tem uma fotografia incrível. A miúda protagonista é ótima e eu penso que ele está na corrida nos filmes internacionais dos Oscars, na shortlist. Não tenho a certeza, mas eu penso que sim. Isto é realizado por um senhor chamado Hassan Adi, é a sua primeira longa-metragem, uma espécie de fábula moral que mexe com o país e eu recomendo vivamente, como diria o Pedro.
Muito bem. Eu vou falar de três coisas muito rápidas. Primeiro, descobri que há um livro de Mike Joyce, que foi o baterista dos Smiths, uma espécie de autobiografia, e que se chama "The Drums". Estou muito curioso, porque pelo menos se estiver ao nível da autobiografia do Morrissey, já vai valer a pena. Normalmente, quando falamos dos Smiths, falamos muito do Morrissey, inevitavelmente, para o bem e para o mal. Falamos muito do Johnny Marr, porque ele fazia bruxaria com a guitarra.
E chega.
Nós devíamos fazer um programa sobre os esquecidos.
E depois há os outros dois.
Sobre os bateristas.
Não, os outros.
O Andy Rourke e o Mike Joyce. O Andy Rourke entretanto morreu.
Os outros. Os spares.
E devo lembrar que Mike Joyce, fundamental para o som dos Smiths.
Como o Charlie Watts, como todos.
Fiquei muito curioso com isto. Depois, dia 23, sexta-feira, estreia-se em Portugal uma série que tem dado que falar lá fora.
E que pensar.
Que se chama "Heated Rivalry".
Sim. Ainda agora estava a ler um artigo sobre isso.
E estreia-se numa sexta-feira na HBO, dia 23.
Na HBO.
E que é uma história.
Não tenhas problemas em dizer.
Não, acho que aquilo é a adaptação de um livro.
É a adaptação de um livro.
E é a história de um amor, paixão carnal ou caliente, suadíssima, entre dois jogadores de equipas diferentes de hóquei. Hóquei no gelo.
Hóquei no gelo. Não é hóquei em patins. Mas seria interessante.
E portanto, parece que a série tem dado que falar por todas as razões e mais algumas. E eu estou muito curioso.
Eu também, depois de ler este artigo, que fala sobre o fascínio de senhoras, mulheres mais velhas pela série, fiquei com muita curiosidade.
Para terminar, também na HBO, eu acho que estava disponível em algumas plataformas, mas não necessariamente em streaming, ou seja, seria preciso alugar ou comprar, mas está em streaming "Os Goonies".
Já está?
Mas acho que pelo menos na HBO acho que não estava. Só se houve uma mudança de plataforma.
Às vezes coincidem, às vezes chegam a estar ao mesmo tempo.
Neste momento, acho que não estão. Mas lembrei-me porque acabou agora há pouco tempo o "Stranger Things". Pedro, por acaso não te disse, lembrei-me de ti. É uma coisa que me acontece muitas vezes. E porque vi um pedaço do documentário sobre a última temporada de "Stranger Things".
Não contes, eu ainda não vi o último.
Mas há um documentário sobre o making of. E de facto, aquilo é muito dinheiro, Pedro. Aquilo é absurdo. Eles falam ali, é uma estrutura em termos de recursos humanos, de cenários e tecnologia.
Eu vi um vídeo muito engraçado algures na internet, que mostra como seria o "Stranger Things" se não houvesse os recursos que tu tens hoje. Se fosse uma série feita nos anos 80, com aquele grão todo e sem aquela tecnologia toda. Engraçado.
Uma das tragédias da nossa indústria do audiovisual, deixa-me dizer isto desta forma.
Quando dizes nossa?
Nossa, portuguesa. Mas não só da indústria audiovisual, de outras coisas. É o voluntarismo dos portugueses, ou seja, pessoas que fazem mais do que uma coisa e acham isso normalíssimo. E depois fazem uma terceira, e uma quarta, e uma quinta, e uma sexta coisa. Vocês foram contratados para um jornal online e agora fazem também rádio, não é?
Pedro, então, mas que é isso.
E nós em Portugal aceitamos isto facilmente. Para te dizer o quê? O meu filho trabalha em Inglaterra numa empresa de efeitos especiais, fazem acabamento.
Vamos conseguir falar sobre a família toda do Pedro.
Faz acabamento.
Acabamento?
Ele lidera uma pequena equipa em que outras pessoas apagam, imagina, postes de eletricidade.
Digitalmente.
São o filtro manual das redes.
Isso é uma coisa.
Sim, mas só fazem, imagina, um candeeiro que estava apagado, eles põem a luz e o clarão. Nós em Portugal seria o realizador, que depois, quando chegava a casa, dava um beijinho ao filho, ia fazer isso e depois no dia a seguir ia ter mais uma reunião com outro cliente.
Como os jornais que têm não sei quantos jornalistas só para fazer obituários, por exemplo.
Ou como vimos a New Yorker.
Sim.
E portanto, quando dizes isso, já tínhamos visto na "Guerra dos Tronos". Há um ou dois documentários na HBO, há um só sobre o armazém das roupas, não sei se viram.
Não.
Que é uma coisa que parece a Macro. Só com roupa dos personagens.
Exato.
E imensa gente que só guarda a roupa. Além das pessoas que a foram comprar, ou escolher, ou o que for.
E estas indústrias do audiovisual, e nós em Portugal somos consumidores de produto de altíssimo nível, como "Stranger Things", que depois naturalmente comparamos com as novelas portuguesas. A vida é mesmo assim.
Sim, mas aquilo é um nível de investimento absurdo.
Mas quando o espectador português de 13 anos ou 17 anos ou 27 anos está a ver, não pensa, nem deve pensar.
Não faz essa associação.
"Coitados dos portugueses, têm pouco dinheiro, deixa-me cá gostar mais disso". E eu acho, não, tenho a certeza e tenho a convicção de que estou certo, que este voluntarismo que nós temos em Portugal de fazer várias coisas.
É o nosso autodumping.
Sim, acaba por prejudicar não só as coisas, seja qual for a atividade, como a nós próprios. Fazemos tanta coisa, depois não fazemos nada muito bem, com algumas exceções. Nem sequer estava a pensar em mim. Nós achamos esta normalização.
É o desenrasca, isso também é muito essencial.
Sim, mas não só. É: "Thiago, tu és a pessoa certa também para escrever o livro do aniversário do Observador. Então on top of that ainda vais fazer." Isso nota-se nestas coisas. Depois, quando vemos estes comentários sobre o "Stranger Things", em que eles têm dinheiro que nunca mais acaba.
Viste o último episódio? Viste a última temporada?
Não. Vi só um bocadinho. Vi uma cena em que estava a música dos Iron Maiden, porque meu filho estava a ver.
Muito bem. "Goonies", é isso. Vejam, vale a pena, é um belíssimo filme. Bruno Vieira Amaral.
Pois, eu quero trazer o filme do melhor realizador cazaque do momento, "A Vagarosa Solidão Desses Estepes", de Oleg Souleimanov.
Cá está, não sei se alguém esperava isso.
Não, isso é completamente inventado. Isso está inventado, não existe. Mas achei que estava na altura de falarmos do cinema do Cazaquistão.
E bem.
E muito bem. Não vou falar do livro.
É um país grande.
A entrevista completa da Rolling Stone, é uma entrevista feita a Susan Sontag por Jonathan Cott. A entrevista é de 79, mas na altura, na revista, só foi publicado um terço da entrevista. Ele entrevistou em dois momentos diferentes nesse ano, mas só um terço da entrevista é que foi publicado e agora sai em livro, a entrevista completa. Sempre que leio coisas da Susan Sontag, sobre a Susan Sontag, até uma entrevista da Susan Sontag.
Ficas com pena de nunca a teres conhecido.
Fico com uma inveja.
Ela era muito alta, não era? Desculpa. Mas era, não era?
Não esperava, foi só isso.
Não sei.
Fui apanhado na curva.
Não sei.
Vou ver aqui.
Height. Desculpa.
E a cabeça dela, o funcionamento da cabeça dela.
O Pedro a dizer como é que se escreve altura em inglês. Eu gostei dele.
Tudo aquilo.
1,75 não é baixa.
E aquilo que o Pedro está a dizer, da especialização que existe. Haver tipos que estão a pagar ali uma coisinha e que a única tarefa deles é aquela, é fazer aquilo e fazer bem, e são pagos, e bem pagos por isso. A um outro nível.
Porque o fazem bem.
Porque o fazem bem. A Susan Sontag lia, escrevia sobre o que lia.
Mas lia bem.
Claro, óbvio que lia muito bem, mas ela diz coisas nesta entrevista que são muito interessantes. Ela diz que, a dada altura, o entrevistador pergunta: "Aquilo que escreveu naquele ensaio." "Está bem, mas isso era o que eu pensava naquele momento. E eu escrevo o que estou a sentir e a pensar naquele momento, porque acabei de ler o livro e vou buscar referências que também têm a ver com as aulas que dei e de ter estudado essas coisas durante muito tempo, então são coisas que me vêm naturalmente, mas daqui a uns tempos, se calhar, já não penso o mesmo. Eu escrevo aquilo que estou a sentir sobre aquele livro e a pensar sobre aquele livro naquele momento." E esta ideia de uma dispersão virtuosa, de uma certa incapacidade de fazer uma obra de fundo, como aqueles filósofos que passam 20 anos a investigar o mesmo tema, é muito apetecível, porque eu acho que corresponde muito à nossa cultura, que é uma cultura de expressão, de curiosidade.
É muito contemporâneo.
E de não te concentrares, mas ao mesmo tempo, claro que ela tem uma diferença, é que ela lia e tinha tempo para ler.
Ela tinha tempo, era isso que eu ia dizer.
Claro que isso é um luxo que nem todos temos, mas quando eu leio os ensaios dela, as referências que têm, as leituras que ela cruza, tudo aquilo, para mim, é fascinante. E mesmo que, isso é o menos importante, se concordares ou não exatamente com as perspectivas que ela abre quando escreve no "Contra a Interpretação", as perspectivas que ela abre, por exemplo, sobre autores que podes gostar mais ou menos, como o Albert Camus. Tudo aquilo é um mundo novo para mim, na minha perspectiva, que resulta de uma fome intelectual que nunca é verdadeiramente saciada. Podes continuar a fazer aquilo sempre. E neste livro, nesta entrevista, tens acesso aqui a uma Susan Sontag múltipla, com vários interesses, que fala sobre vários assuntos, sem nunca deixar de ser interessante. E então é um livro que se lê bem e que dá que pensar. Dá mesmo, literalmente, dá mesmo matéria para pensar, porque ela toca muitos instrumentos.
Mas tens outro livro breve e pequeno para referir, não era?
Era? Qual é que era?
Não querias falar do...
Um pequenino. "A Montanha Mágica". Deve ter entrado agora no Domínio público do Thomas Mann. E então começam a aparecer novas edições. A Livros do Brasil está a republicar, a reeditar a tradução que publicou originalmente aqui há uma data de anos, mas há também uma nova edição de "Dom Quixote", uma capa, pelo que vi, belíssima. E eu comecei a ler "A Montanha Mágica". Eu nunca li "A Montanha Mágica", é daqueles livros que precisamos mesmo de partir uma perna ou estar convalescentes para termos tempo para ler.
Olha, isso também dava um programa: livros que nunca lemos e queremos ler.
Mas isso fica aqui o desafio para os nossos ouvintes, não sei se vou conseguir fazer, mas quero mesmo, esta vai ser a empreitada do início do ano.
Tu metes-te em cada uma.
Ler um daqueles clássicos que nós, ok, já ouvimos falar muito, conhecemos até a história, sabemos até o nome das personagens, mas nunca lemos do princípio ao fim.
Ou vais estando. Eu, por exemplo, tenho essa relação com "A Montanha Mágica". Eu nunca acabei verdadeiramente o livro, mas deliberadamente, e tenho isso com "A Montanha Mágica", com "Os Cadernos de Pickwick", porque vou andando. Uso aquilo quase como se fosse uma leitura da Bíblia.
Eu tenho "Os Irmãos Karamazov", por exemplo, já comecei a ler várias vezes. Ainda nunca comecei o segundo volume, pelo menos na edição que tenho.
Mas, Bruno, vamos assumir aqui um compromisso.
Bora lá.
Quando acabares de ler.
Venho cá dizer.
Vens cá dizer e vamos falar sobre isso.
Só uma última sugestão. Já tínhamos sugerido aqui aquele documentário sobre a New Yorker.
Já.
Já.
Pronto, mas eu quero falar desse documentário.
Já sei. Nós falámos sobre isso quando tu andavas no México.
Pronto. Eu quero falar disso. Por quê? Porque isso também tem muito a ver com o universo da Susan Sontag. A New Yorker é, de facto, um objecto, é uma publicação fascinante. E tu tens ali matéria para ler quando compras, podes ficar três semanas a ler aquilo. Ou seja, estás sempre atrasado em relação àquilo.
Claro, faz parte do charme.
Eu comecei a ver aquilo, o documentário, e pensei: "Epá, eu detestava conhecer esta gente, porque esta gente é horrível. São uma cambada de pedantes nova-iorquinos."
Mas há gente lá que não é horrível.
Não, mas o que fazem é maravilhoso. É, de facto, maravilhoso.
Não fiques cheio de inveja.
Claro, óbvio. Mas depois ouves a pessoa que é responsável pelas capas a falar e tu dizes: "Bem, eu detestava estar num jantar com esta gente. Devem ser uns pedantes."
Por falar em trabalhos específicos, a New Yorker também tem uma série de gente que só faz certas coisas.
Aquela coisa do fact-checking. "Mas tem aqui que os cães se chamam, os gatos se chamam." Merda, quer dizer, também não exageremos. Mas claro, aquilo é fascinante.
Mas faz parte.
É fascinante, mas toda aquela gente deve viver numa bolha, de facto, numa bolha que é insuportável para quem é de fora da bolha.
Mas depois a pergunta que tens a fazer é: se não fosse uma bolha, o produto final era aquele?
Não era o mesmo. Ou seja, é preciso que haja pessoas-
É preciso bolhas, precisamos de bolhas
...detestáveis, que tu dizes: "Epá, detestava estar 30 minutos num cocktail com estas pessoas, porque aquilo que fazem é, de facto, maravilhoso."
Pois é, muito bem.
Olha, pumba!
Rapaziada, sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos e não percam nenhum episódio. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.