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Ora cá estamos para o momento mais esperado das segundas-feiras, não vale a pena dizerem o contrário. Pedro Boucherie Mendes, por falar em esperado, cá estás tu. Eu não sei se é este o teu plano, mas eu gostava que tu começasses por aqui.

Que é o quê? Eu já nem me lembro.

Vasco Granja, uma exposição.

Sim, eu tenho isso algures. Espera.

Claro. Isto por quê? Porque é um nome muitas vezes referido.

Olá, amiguinhos.

E as pessoas às vezes nem sabem bem por quê. Mas aqui estás tu para falarmos de Vasco Granja.

Vasco Granja, militante do Partido Comunista.

Fica a nota.

Esteve preso, foi um preso político. Isso nunca é dito. E foi, sobretudo, uma personagem muito importante no coming of age da minha geração, das pessoas que eram garotas nos anos 70 e 80. Porque Vasco Granja apresentava um programa na RTP2, sobretudo, chamado "Animação", e depois teve outros nomes. No fundo, era uma espécie de boletim com desenhos animados.

Exato.

Em que Vasco Granja, que tinha um estilo muito peculiar de apresentar, nos levava por cinematografias de animação, de países de Leste. E nós, aborrecidos de morte, esperávamos, porque no fim haveria sempre um filme americano da Warner Brothers ou do Porky Pig, ou daquela malta muito agressiva, cheia de tiros. Os clássicos da Warner Brothers dos anos 50, vão ver na internet. Vasco Granja foi uma figura muitíssimo importante na animação e na banda desenhada em Portugal. Eu acho que ele chegou a ser diretor da revista Tintim, ou se não foi diretor, foi editor, jornalista. Vai haver uma exposição, que já abriu no dia 7, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa: "Olá, Vasco Granja: A Arte dos Amigos do Pai da Pantera Cor-de-Rosa", assim se chama, e que reúne peças e documentos do espólio do próprio Vasco Granja. Eu acho que, sobretudo para a nossa geração e para aqueles que gostam de banda desenhada, continuam a gostar de banda desenhada, que pelos vistos está a subir de vendas. Vi outro dia um artigo no público e fiquei contente com isso. Parece que aquele livro do Asterix vendeu 80 milhões de cópias.

É verdade. Pelo menos.

Em Portugal. Os portugueses, de facto, são muito curiosos com aquilo que dizem a respeito deles.

Mas lá está.

Posso dizer que não li e não conto ler.

Mas há aquela questão de quantas dessas pessoas compraram o livro para ler e quantas compraram para oferecer a alguém que nunca o vai ler. Mas atenção, vendeu.

Estou a ouvir os autores a contar e o dinheiro dos direitos de autor, muito preocupados com essa questão.

Exato.

Eu não duvido. Então, "Olá, Vasco Granja", a exposição está na Sociedade Nacional de Belas Artes e recomendo vivamente. Ainda não vi, conto ver e recomendo vivamente. Vejam na internet onde é a Sociedade Nacional de Belas Artes. Eu acho que é ali na Castilho, ou se não é na Castilho, é numa destas ruas.

É nas imediações da Avenida da Liberdade.

É isso.

Na Barata Salgueiro.

É isso. É na Barata Salgueiro mesmo. É ao pé da Cinemateca.

Quase em frente à Cinemateca.

Pronto, é quase em frente à Cinemateca, exatamente. Nunca sei o nome dessas ruas.

Mas estou a gostar desta coisa de taxista.

Finalmente chegou a uma plataforma o filme que deu muito brado o ano passado, "Eu Estou Aqui" com Fernanda Montenegro.

"Ainda Estou Aqui".

Ou "Ainda Estou Aqui", desculpa. O filme brasileiro com Fernanda Montenegro, que permitiu a muita gente, eu desconhecia.

Fernanda Torres.

Fernanda Torres, bolas.

Filha de Fernanda Montenegro. Fernanda Torres era o pai. Vamos embora.

É a atriz, que até vive em Portugal. Creio eu que é uma coisa assim.

Acho que de vez em quando vive, sim.

Entram as duas no filme. Eu fiquei espantado, porque para mim era evidente que muita gente descobriu que houve uma ditadura militar no Brasil. Para mim era evidente, porque eu tenho aquela idade, aquilo passa nos anos 70 e lembro perfeitamente de haver ditaduras militares no Brasil. O filme está na HBO Max, "Ainda Estou Aqui", com Fernanda Torres. Conta a história de uma família a quem é retirado o pai, marido, pela ditadura militar.

É o Seltman Melo.

Exatamente. No fundo, é a história desse desaparecimento e das implicações que teve na família. E no fim, há uma espécie de explicação para tudo aquilo. Eu gostei menos do filme do que estava à espera. Achei demasiado centrado na figura da mulher, da mãe. Achei um bocado claustrofóbico, achava que aquilo merecia mais. É uma opinião que nem sequer é muito pensada, é mais impressiva, mas vale muito a pena para nós, mais uma vez, e de uma vez por todas, vermos que a vida brasileira e a vida do Brasil não tem nada a ver com Portugal. É muito mais ligada a uma cultura americana do que portuguesa. Eu digo isto porque nos anos 80 os brasileiros vinham muito a Portugal atuar. Vinha a Gal Costa e o Caetano Veloso.

E hoje em dia também vêm.

Sim, mas antigamente vinham mesmo muito e eram sempre recebidos com flores no aeroporto, eram sempre alvo de uma grande reportagem nos telejornais. Só havia um telejornal, lembro. Portanto, o espetador português de Carrazeda de Ansiães ou de Portalegre, ou de Viseu, ou de Cacela Velha, via que o Ney Matogrosso ia tocar nessa noite no Coliseu. E era uma coisa esquisita, porque havia uma grande vontade por parte do jornalismo português de então que o Brasil fosse muito devedor a Portugal. Nós queríamos muito que eles dissessem que adoravam Portugal, Estoril e Cascais, e eles faziam sempre isso, e ainda fazem, e bem. Sempre que cá vêm, há uma enorme vontade dos portugueses de que os brasileiros, intelectuais e culturais, adorem Portugal. Pessoa, Camões. Eu gosto muito. Gostam todos muito de Pessoa e de Camões. Vendo filmes como este é que nós percebemos como o Brasil era muito mais avançado social e culturalmente do que nós. As imagens da praia, os miúdos jogam vôlei de praia, por exemplo, acho que é logo a primeira cena, que são coisas que vão demorar a chegar ao nosso país. O filme passa-se no Rio de Janeiro, pelo menos parte passa-se no Rio de Janeiro, e vale muito a pena para ver esse Brasil dos anos 70, que é bastante diferente do Brasil que era depois vendido pelo jornalismo de Portugal nos anos 80 e 90. Enfim, mas isso já é uma coisa minha e fica aqui a dica. Portanto, Vasco Granja e Fernanda Torrezan.

E ainda tens um livro.

Tenho aqui um livro do Karl Ove Knausgård.

Knausgård. E grande.

Sim, "O Terceiro Reino", da Relógio d'Água. É um autor de que eu gosto muito. Nós falávamos do Lobo Antunes na semana passada. Eu acho que há aqui pontos de contato, porque é também alguém que escreve imenso. E que tem um universo muito particular e também, de certa forma, às vezes, parece que está sempre a escrever o mesmo livro. Este é um romance sobre uma estrela nova, estranha e intensamente brilhante que paira sobre o céu, e depois uma série de personagens a quem acontecem coisas. Este é um escritor que se ainda não leram ou se ainda não conhecem o Knausgård, podem passar por aqui e não vão ficar insatisfeitos. "O Terceiro Reino", pela Relógio d'Água.

Muito bem. Maria Ramos Silva. Vai em frente.

Eu trago duas sugestões. Uma também tem a ver com os Oscars, mas os Oscars, neste caso, deste ano, porque está nomeado para a melhor longa documental. E é o "Mr. Nobody contra Putin", que eu penso que já está nos cinemas, não é?

Sim, estreou esta semana.

Pronto, podem ver isto nas salas de cinema. É interessante. Basicamente, quando a Rússia invade a Ucrânia em 2022, o senhor Putin pediu que, entre outras coisas, obviamente, que as escolas um pouco por todo o país puxassem dos galões do patriotismo, justificassem o ataque aos seus alunos, entre uma série de outras coreografias ajustadas a esta estratégia de propaganda. E há um professor de uma localidade chamada Karabash, ali na zona industrial, perto dos Urais, que se vê forçado a passar dois anos a filmar as suas atividades na escola para fazer prova de que, de facto, a máquina de propaganda estava bem oleada. E acaba por mostrar ali o que é a realidade, o cotidiano daqueles miúdos. Miúdos que acabam por ser também, muitos deles, recrutados para ir para a guerra e, portanto, permite-nos entrar, de facto, ali num braço disto que é do funcionamento da guerra, que é uma coisa um bocadinho assustadora. Mas obviamente que ele não poderia fazer isto e simplesmente depois exibir nas salas de cinema em Moscovo. Portanto, em 24 acabou por sair da Rússia e consegue pôr este registo cá fora com a ajuda na produção de um senhor chamado David Borenstein, que assina também este "Mr. Nobody contra Putin". No fundo, é aqui uma espécie de os pequenos Davids. É o trabalho destes Davids invisíveis enquanto um Golias muito obscuro manda nas tropas todas. Depois, para um pouco de rebeldia, que também faz falta. É uma efeméride que também está associada a isto. Eu comecei a ver, penso que são três ou quatro episódios, uma minissérie na HBO, mas que conseguem ver certamente no Play, que é a história dos primeiros anos da George Sand, a rebelde. Ainda por cima passam 150 anos sobre a morte desta escritora. Há vozes, com largos anos também, mas que diziam que depois de Goethe ela é uma das grandes vozes da literatura europeia. A história dela é pelo menos absolutamente fascinante. Por ser mulher, obviamente, naquele contexto, estamos a falar do século XIX, uma baronesa casada com um tipo absolutamente execrável de quem foge, um casamento abusivo, enfim, uma coisa pavorosa. E ela obviamente vai conseguir desafiar, obviamente não, muito pouco obviamente, mas felizmente consegue desafiar todas as convenções em Paris pela forma como se veste, como se comporta, como escreve nos jornais, como lança publicações e como se atira à literatura com uma produção intensa, obviamente usando o seu nome de plumo, George Sand, que é um nome masculino, que é um subterfúgio de muitas mulheres contemporâneas. Aurora era um dos nomes dela. Absolutamente extraordinária a vida e a obra. Aliás, eu gostava, eu estive a fazer uma breve busca antes de vir para aqui. Eu tenho ideia que há muito pouca coisa publicada cá traduzida, muita dela até esgotada. Portanto, se alguma editora puder tratar disto, por favor.

Fica a dica.

Acho que valia muito a pena.

Cheguem-se à frente. Muito bem. Eu também tenho sugestões para vocês. Primeiro, não sei se viram, eu vi o primeiro episódio da nova série da HBO, o "DTF St. Louis", e gostei muito.

Então, ainda não vi.

Também não.

Gostaste, Pedro?

Gostei imenso.

Gostei muito. Jason Bateman, o David Harbour e a Linda Cardellini são um triângulo. Eles dois são mais ou menos colegas de trabalho, estou a facilitar. E ela é a mulher de um deles. E logo ao fim do primeiro episódio, nós, ao fim ou ao meio, descobrimos que alguém morreu e que alguém anda enrolado com a mulher de outro alguém. Só que aquilo está feito de uma forma, a narrativa vai para frente, depois vem para trás e dá-te um ponto de vista e depois dá-te outro e tu vais juntando as peças e é isso que dá gozo. Parece que estás tu a construir a história ao mesmo tempo que a série te está a mostrar a história. Está muito bem feito, os episódios não são demasiado longos nem demasiado curtos. E depois tem uma coisa que eu gosto cada vez mais, que é um episódio por semana Porque ter os episódios todos disponíveis a mim dá-me a sensação de que sou obrigado a ver, e depois acabo por não ver nada. Para mim é tudo mais fácil. É um episódio por semana.

Isso vai ter quantas temporadas? Eu preciso saber já quando terminar.

É um episódio por semana, então se calhar vou começar a ver.

Esta segunda-feira sai o segundo. Vejam, eu estou a apreciar muito. Acho que vale muito a pena. Segunda coisa, é um livrinho muito pequenino, um dos novos ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Chama-se "Pais Nossos", é escrito pelo Frederico Batista, que escreve muito bem. Ele recolheu uma série de testemunhos de pais. Pais homens, homens pais. Estão a perceber? Em vez de ser a mãe, é o pai, e não o plural. Pais em diferentes circunstâncias, em diferentes contextos, de diferentes origens. Pelo meio vai dando um pouco do seu testemunho pessoal também e traça ali um retrato daquilo que pode ser ser pai hoje em dia. Quando eu digo hoje em dia é num intervalo temporal dos últimos 40 anos, uma coisa assim. Portanto, é um retrato contemporâneo. Gostei muito do livro, é muito curto, lê-se muito rapidamente e lê-se muito bem. Facilmente se vão identificar com muitas coisas, se for o caso, facilmente se vão questionar com várias outras coisas também, se for o caso disso. Outra coisa, na data em que gravamos este programa, ainda não ouvi o novo álbum do Harry Styles.

Mas estás muito curioso.

Estou curioso porque talvez tenha sido das poucas pessoas que à primeira gostou logo da primeira canção que ele lançou, o primeiro single.

Sim, é extraordinário. Qual é que é? Não, é sério!

"Aperture" é o nome da canção.

Não, mas estás a falar deste álbum ou do primeiro?

O novo álbum. Não, o primeiro single deste álbum.

Não, eu estou a falar do primeiro single que ele lançou.

Sendo que é bem menos açucarado do que outras cantigas que ele tem e que eu já gostava muito.

Eu também gosto.

Acho que ele é uma estrela pop notável e de quem é muito saudável ter alguma inveja.

Eu gosto muito daquela do-

Canta.

Não me lembro agora do título da canção. É aquele teledisco em que ele salta e voa.

Ok.

"Sign of the Times", "End of the Times".

Sim.

Acho que é uma das grandes canções pop da última década.

O rapaz é muito talentoso, muito jeitoso e acho que vai muito bem. Eu ainda não ouvi, mas estou muito curioso. E já estou a sugerir às pessoas.

Sugere.

A gente logo vê. Para a semana a gente volta a falar sobre isso, se for o caso disso. Aliás, não voltamos, fica já aqui a dica. Este episódio de podcast está a ser publicado originalmente na segunda-feira, dia 9 de março. Quinta-feira, esta semana, vamos falar sobre os Oscars, que acontecem no domingo. Portanto, vamos falar como costumamos falar sobre os 10 filmes que estão nomeados para melhor filme.

Pronto. Ou nove.

Então?

Então, eu não vou ver o "Bogonia", desculpa. É bom? O Pedro diz que é bom. Pronto, se calhar vou ver.

O Pedro dá a dica. Parece que ele está na regie.

Não, é bom.

Mas ele está aqui. Gostaste?

Gostei. Mas não estava à espera de gostar.

Exato. Eu estava à espera de ter uma crise com esse filme, mas gostei mais do que esperava.

E eu à espera de ter aqui um amparo.

Pois é.

Não, pronto, ok.

Mas se fosse um quatro de um a 10, é um sete. Olha, estás a ver?

Nada mal.

Mas guardem as munições para-

Exato.

Para a próxima edição.

E entretanto, vamos ouvir o que o Bruno Vieira Amaral tem a dizer.

Eu tinha aqui uma série de coisas que queria ver.

Ui!

E acabei por não ver esta semana. Olha, posso recomendar o documentário sobre o Paul McCartney.

Podes. Aliás, eu tinha falado com a Maria.

Sim, acabámos por falar um bocadinho disso.

Que seria bom falar sobre isso.

Gostei muito do documentário sobre o Paul McCartney.

Gostas dos Wings?

Não. É horrível.

Está na Prime Video, sim.

Os Wings vieram ao mundo para-

Já agora, chama-se "Man on the Run".

"Man on the Run", "Band on the Run".

Sim.

É uma brincadeira. Os Wings vieram ao mundo para provar uma coisa.

Ui.

É que os Beatles, de facto, eram de outro planeta.

Mas também não precisamos dos Wings para provar isso. Eles só vieram ajudar.

Ajuda um bocadinho a reforçar o argumento.

Deram-nos o "Live and Let Die".

Aquela primeira parte da canção acho que é a única coisa que se aproxima do que os Beatles fizeram. Honestamente.

E o "My Love Quintaire"? Estou a brincar.

Wings é a banda que Paul McCartney fez com a Linda McCartney.

Exatamente.

Depois as pessoas dizem: "O Paul McCartney quis fazer coisas diferentes do que fazia nos Beatles". Vocês acham mesmo que alguém que escreveu o "Eleanor Rigby", o "Yesterday", o "Let It Be", o "Hey Jude", e depois decidiu-

E depois vai trabalhar com a mulher.

"Eu já não quero fazer isto, vou fazer o 'My Love Quintaire'. O que eu quero agora para marcar diferença". Oh, meus amigos.

Mas, Maria, tu achas que o problema do Paul McCartney foi ter trabalhado com a mulher?

Não, trabalhar em família dá sempre muito trabalho. É complicado. Atenção, não me atirem já calhaus.

Ele depois casou com uma mulher sem uma perna.

Pois foi, foi o segundo casamento.

Sim.

E que ficou com uma boa parte.

Pois foi.

Não, mas reparem, é aquilo que nós falávamos à vontade.

Mas vai saber, ele não ficou pobre.

Eu acho que tu ficas logo no chão quando é aquela parte em que dizem: "Pronto, depois ele tinha"-

Tem um braço maior que a perna.

Ele tem.

Eish! Boom!

Quando é que aquilo acaba? Aquilo dos Beatles. É um tipo de 27 anos. Quer dizer, aos 27 anos, normalmente os miúdos ainda estão a pensar a que horas acordam, quando é que vão sair de casa dos pais.

Ele já devia ter ido à Praia da Luz antes da média.

É verdade.

Há uma foto tua a ser fotografado na Praia da Luz.

É verdade.

E passada na minha terra.

O quê? A tua terra é a Praia da Luz?

Não. Mas o Paul McCartney esteve na Estalagem do Gado Bravo, esteve nas Lezírias.

Aliás, dá uma impressão completamente diferente.

Está abandonada a estalagem?

Estalagem do Gado Bravo é dos melhores nomes da eternidade.

Ele e a Rainha de Inglaterra. Pronto, ficas a saber.

O documentário começa em 1970 e acaba com a morte de John Lennon. Portanto, é o retrato de McCartney na década de 70, logo a seguir aos Beatles, "ai meu Deus, o que é que eu vou fazer da minha vida?" Ele está perdido, bebe que nem um desgraçado. Vai para o campo.

Vai para a Escócia.

E tem uma epifania e faz uma nova banda. Eu acho que demonstra uma coisa que é: gostemos nós mais ou menos do McCartney ou do Lennon, e eu sou um grande fã do McCartney enquanto compositor, de facto, eles separados não conseguiram.

Não vale a pena.

Ainda que McCartney tenha sido, obviamente, o tipo que teve mais sucesso depois dos Beatles.

Claro. Honestamente.

Também viveu mais que os outros.

Não, mas logo no imediato, todos eles fizeram coisas.

Mas não é um sucesso artístico, diria eu.

Claro.

Comercial, porque também foi aquilo que depois é dito no documentário. Já havia uma indústria da nostalgia.

Estava multiões nos Estados Unidos.

As pessoas queriam ver o Beatle. Era a oportunidade de verem o Beatle ao vivo. Eu acho que musicalmente não há comparação possível. É uma desgraça o que vem depois. É mesmo.

Ao contrário de Harry Styles.

Exatamente. Mas aí é porque quem vinha era muito mau.

Harry Styles que termina a sua digressão de 22 meses, Love On Tour, com mais ou menos 27 anos.

E deixa-me dizer uma coisa.

O gajo corre a maratona, que é uma coisa que me parece fantástica.

Isso ainda me deixa mais enervado. Não bastava tudo, ele ainda faz a maratona num tempo extraordinário. Esquece a maratona. Eu gosto muito do McCartney, do vaudeville nos Beatles.

Também eu.

Que é coisa que o Lennon detestava e dizia que era as canções para as grannys e para as aunties.

Estou a imaginar o McCartney a escrever uma dessas e a fumar um grande canhão ao mesmo tempo.

A dos Piggies é de quem? Acho que deve ser do McCartney.

Acho que é.

A dos Piggies deve ser do McCartney.

Vou ver. Vai aparecer Lennon McCartney?

Claro. Mas eu acho que é. De qualquer das formas, ele tem muitas dessas de vaudeville, que depois também fez. Mas mesmo essas, as que são dos Beatles, são muito melhores do que as dele a solo. A solo, com os Wings, era solo.

Não é.

Não é. Os Piggies é do Lennon.

Acho que é do Harrison.

Do Harrison?

Pois é. Que é o teu Beatle favorito.

É. É o pai e a mãe. É a tia.

Mas sabes que o mundo também se divide entre as pessoas que acham que o melhor Beatle é: um, ou o John Lennon ou o McCartney; dois, o George Harrison. O Ringo nunca ninguém diz.

Porque tu ficas com aquela sensação que só deixavam o Harrison escrever ou incluir as músicas dele, quando ele aparecia com uma música que era brutal.

Mas aquele documentário que estreou na Disney+ aqui há poucos anos, do Get Back, com as imagens revistas pelo Peter Jackson, demonstra a forma como aquilo funcionava.

E quem tem cabeça é o McCartney. Atenção. Aliás, eu acho que se aquilo em vez de ser o McCartney, não só pela questão do virtuosismo, tivesse um tipo menos organizado, eu não sei se os Beatles iam durar dois meses. É verdade.

É verdade, sim senhor.

Um bando de chalupas enfiados numa cave. Talentosos.

Mas a verdade é que os dois funcionavam era a dois. O McCartney dá coisas ao Lennon.

É como o divórcio de um casal. O que vem a seguir.

Aquilo é completamente. Aquilo é uma crise conjugal em que o Lennon diz: "Preciso de um espaço". E o McCartney fica com o filho. "E agora o que é que eu faço da minha vida?" Mas acho que musicalmente os dois ganhavam muito um com o outro, apesar dessa tensão. Mas gostei muito do documentário. Só para finalizar em relação ao documentário, como normalmente acontece com os documentários, os primeiros 10, 15 minutos são extraordinários, porque os autores dos documentários parece que têm uma ideia de fazer uma coisa evocativa e com colagens. E depois, a partir de um certo momento do documentário, optam por uma progressão mais linear.

Mais clássica.

Mais clássica, em que vais acompanhando a historinha Eu gostava que ele fosse mais como é naquele arranjo. Parece que no arranque eles fazem o documentário que queriam fazer e depois fazem o documentário que quase têm de fazer.

Sim, até porque nunca se veem os entrevistados.

Não se veem as cabeças falantes. Ouvimos as vozes, mas não vemos.

Entrevistas atuais e antigas, há um cruzamento.

Sim, desde logo a Linda McCartney.

Não ia dar.

Não ia dar agora. Enfim.

Tudo é possível.

Pronto, gostei do documentário, está na Amazon Prime.

Prime Video.

Prime, isso.

Consegues? É isso.

E agora trago uma outra sugestão: a Biblioteca de Alexandria, uma nova coleção da Quetzal, de clássicos. E os dois primeiros livros são: "Robinson Crusoe", do Daniel Defoe, que eu nunca li, mas é daqueles livros clássicos que nós não precisamos ler para conhecer a história e perceber como é. Mas vou ler. Atenção que vou ler. Tem uma tradução, e isto também já se está a tornar um clássico, uma tradução do João Pedro Vale. Não sei se ele está a traduzir todos os livros que são publicados neste momento no grupo Bertrand, mas traduziu os últimos dois a que eu deitei a mão. Não traduziu "A Vida de Lazarilho de Tormes".

Olha, estás a ver?

E suas fortunas e adversidades. Já existem edições deste livro, é de um anônimo do século XVI, espanhol. O livro foi publicado em 1554. A nova tradução é de Maria Amado Acosta. O que é "O Lazarilho de Tormes"? É conhecido mais assim. É um romance picaresco, ou talvez o primeiro romance picaresco, que segue as aventuras narradas na primeira pessoa de um maltrapalho, de um zé-ninguém, um tipo onde não tem onde cair morto. E tudo o que nós vemos é feios, porcos e maus. Uma sociedade em que não há ninguém que sirva de exemplo e que, até por isso mesmo, constitui uma crítica muito severa aos costumes da sociedade daquela época. Mas não temos aqui epopeias, nem heroísmos, nem cavaleiros que inspiram. E também não temos a crítica quase meta literária que o Cervantes faz 50 anos depois aos romances de cavalaria. Aqui é um anti-romance de cavalaria, mas no sentido de mostrar o pior que a sociedade tem, em que não há ninguém que tu possas dizer: "Personagem inspiradora". Porque não é só objetivo. Hoje leio críticas de pessoas a livros contemporâneos. "Porque uma pessoa não gosta das personagens, as personagens não são inspiradoras, não têm qualidades." E então? Não têm que ter qualidades. Se tu andas à procura de modelos para o teu comportamento em personagens de romances, estás a procurar no sítio errado. Aqui é feios, porcos e maus. É o pior do pior, mas com muito humor, com sarcasmo. Mas com muito humor, porque tu vais acompanhando os sucessos da vida deste senhor que se chama Lázaro e não consegues deixar de te rir. Porque depois usa também muitas formulações, o estilo é brilhante. Só para dar uma de início: o pai deste Lazarilho de Tormes tinha um moinho e depois é apanhado a fazer coisas que não devia. Vou citar: "Pois sendo eu um gaiato de oito anos, acusaram o meu pai de certas sangrias mal feitas nas sacas dos que lá iam moer, razão pela qual foi preso e confessou e não negou, e padeceu perseguição da justiça." Acusaram o meu pai de certas sangrias mal feitas nas sacas dos outros.

Não soube roubar como deve ser.

Pois, não precisas dizer que o homem era ladrão. É um clássico. Este eu li na versão que existia, na tradução que existia. Também quero ler nesta nova edição e dou os parabéns, que também é a minha editora, dos meus romances, à Quetzal, por esta belíssima coleção, a Biblioteca de Alexandria. Última notinha muito rápida, porque eu ainda não li, o novo livro de Slavoj Žižek. Tem que dizer assim, não é? Não se pode dizer Žižek, senão é logo excomungado. Chama-se "O Céu em Desordem" e fala deste mundo em que vivemos e que para Žižek, depois da pandemia, destas crises todas que existem, catástrofe climática, refugiados, tensões crescentes, guerras, há aqui uma nova oportunidade para a revolução. Žižek, como um bom comunista, está sempre à espreita do momento ideal para a nova revolução. O que é que acontece? O que nós temos visto é que os movimentos revolucionários nesta época são de direita, ou seja, aqueles movimentos que procuram aproveitar esta instabilidade para trazer um mundo novo, já não é a esquerda, é a direita. E o livro, pelo menos nas intenções, procura refletir sobre isso. O que eu gosto no Žižek? É de facto a mistura de referências que ele faz. É pop, é muito pop. Por vezes, falta-lhe alguma profundidade, apesar de ele ter uma formação sólida, séria, mas às vezes acho que exagera. Embora eu goste desses cruzamentos que ele faz de Hitchcock ou Mickey Mouse, acho que por vezes exagera nessas referências que ele vai buscar. É um pouco como aquele tipo do círculo de giz, que era o tipo que disparava primeiro e depois fazia o círculo à volta do buraco da bala e parecia que acertava sempre no meio. Ou seja, ele escolhe muito as referências em função já do que está a pensar dizer e acho que não deixa de ser interessante. Ainda não li este, "O Céu em Desordem". É sempre pop. Talvez como filosofia pura e dura, haja outras opções melhores.

Muito bem, sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos e não percam nenhum episódio. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.