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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso menu de degustação de cultura popular, servido todas as semanas por estes chefes sem estrelas, mas com muita categoria: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana temos dois ingredientes principais na ementa. Havemos de servir mais tarde algum terror, mas antes avançamos com erotismo. Estreia-se esta semana o filme "Emmanuelle", para grande confusão na cabeça da Maria Ramos Silva, já falámos sobre isso antes do programa. Mas afinal, "Emmanuelle", esse filme não é antigo?
Sim, explica exatamente de onde veio a confusão, da ideia que eu não sabia o que era.
Exato, não me dês má fama.
Eu não estava a par desta nova encarnação.
É a mais recente, como podemos dizer, entrada na série, é assim que se diz profissionalmente, de filmes iniciada em 1974. É verdade, data redonda. É o oitavo filme a chegar aos cinemas, inspirado pelo romance de Emmanuelle Arsan. A história da protagonista com o mesmo nome do filme, que aqui é interpretada por Noémie Merlant. A profissão desta protagonista tem muito interesse. Ela faz controle de qualidade em hotéis de luxo. Não me importava nada. Ela viaja até Hong Kong e depois acontece o que acontece sempre nestes filmes, esta foi a frase que eu encontrei para descrever: é um processo de autodescoberta através de experiências sexuais. Não sei se vocês estão de acordo.
Quem nunca?
Exatamente. E por falar em quem nunca, vamos começar pelo Pedro Buchinho Mendes. Pedro, eu começo por ti também, porque a lei da probabilidade diz que tu és aquele que provavelmente se lembra melhor dos primeiros filmes da saga "Emmanuelle", ou eventualmente do efeito que os filmes tiveram na sociedade portuguesa, da qual tu és um analista posicionado.
Os efeitos de "Emmanuelle" na sociedade portuguesa.
Subtil, este rapaz.
Nunca vi nenhum dos filmes.
Nunca viste nenhum?
Não.
Nunca, nem na SIC?
Não.
Eu lembro-me de ver na SIC.
Nem na SIC?
Por que raio de razão o Pedro haveria de ter visto na SIC?
Se calhar passaram na SIC. Ressoa qualquer coisa. Como é que é? Ressoa? Não.
Pode ser. Não sei o que vais dizer a seguir.
Faz eco. Na minha memória, aquele cadeirão de verga enorme onde ela está sentada, numa das minhas casas.
Também falámos sobre a cadeira, eu e a Maria, antes do programa.
Pick up, exatamente.
Numa das casas da minha vida havia um cadeirão desses.
O que é uma casa da tua vida?
Ou de uma tia.
De memória. Ok.
Sim, isso. Memória olfativa.
Pensei que estavas a falar dos teus latifúndios, estava aqui um pouco confuso.
Naquela altura, eu não tinha idade para ver os filmes. E aqueles filmes não eram emitidos pelas televisões. Aliás, houve um grande escândalo em 83 quando transmitiram "Pato com Laranja", em que se vê vagamente um derrière de uma atriz.
Quando dizes escândalo, isso é interessante.
Foram telefonemas para a RTP e o filme foi cortado ao meio.
Ok.
Sim.
Portanto, alguém estava a ver o filme e quando estavam a ver, protestaram e houve censura.
Foi literalmente cortado, não foi transmitido o resto. Chamava-se "Pato com Laranja", com a Mónica Vitti, mas a cena de nudez é com outro personagem. É comprares um livro que saiu sobre os anos 80 recentemente e logo verás. Nós não tínhamos direito a erotismo evidente. Os nossos pontos de fuga eram normalmente os filmes franceses, que nós espreitávamos no Canal 2.
Porque era mais safadoso.
Quase sempre, o filme francês tinha alguma parte do corpo feminino à mostra, que nós não estaríamos habituados no cinema americano ou nas séries inglesas. Então lá tínhamos que gramar aqueles filmes franceses à espera do momento.
Exato, em que se visse alguma coisa.
Erótico, exatamente.
Um momento que marcasse a diferença no teu dia.
Nós líamos muitos jornais naquela altura. Ou líamos muitos mais jornais do que agora, ou infinitamente mais jornais do que agora. E havia sempre imensa publicidade aos filmes pornográficos que estavam em exibição nos cinemas de Lisboa, e eventualmente do Porto, mas de Lisboa lembro-me. E tinham sempre uns títulos sugestivos. As imagens não eram tão sugestivas, mas depois tinha sempre: "Contém cenas eventualmente chocantes".
Avisos.
Exato. Umas coisas assim. E aquilo fazia-me um bocado de impressão, o que seria uma cena eventualmente chocante. Eu desconhecia as potencialidades da dinâmica interpessoal.
Exato.
Quando uma pessoa está em busca de si mesma.
Um processo de autodescoberta.
Como aqui a nossa amiga Emmanuelle, ela era uma atriz, já morreu, holandesa, correto?
Holandesa.
Sylvia Kristel.
Sylvia Kristel.
Exatamente.
Parece um nome de travesti ou de atriz porno.
Não, isso é porque estamos a associar à Débora Cristal.
Não.
É fácil. Percebe-se que se lembram desse.
Não, Sylvia Kristel, desculpem.
Sim, é um nome.
Quer dizer.
Sim.
Mesmo que não conhecesses ninguém, não tivesses referências.
Tem sonoridade de nome artístico, não de batismo.
Pronto, mas então, a "Emmanuelle", que eu nunca vi, eu suspeito que seja um filme em que ela se mete com pelo menos um bad boy, certo? É isso.
Acontecem muitas coisas, sim.
Já viste o filme, é isso?
O primeiro, não. Por acaso não vi o primeiro.
Vês para aí o oitavo.
Não, o oitavo é este. Não vi.
Eu não vi nenhum e em princípio, se tudo correr bem, não vou ver. Mas pronto, nunca se sabe.
Claro, obviamente. Maria Ramos Silva Eu ando aqui às voltas com a nomenclatura deste tipo de filmes, porque há quem lhes chame filmes eróticos. Há uma expressão que eu gosto muito que é softcore, que é uma espécie de não compromisso, não me vou comprometer com nada.
Ou soft.
Descafeinado. É uma expressão mais descafeinada.
Ou soft porn.
Não, mas isso são definições técnicas.
Claro. Não, mas a minha questão é: às vezes usa-se isto para falar do filme tipo Orquídea Selvagem.
Não, mas desculpa, os filmes hardcore estão catalogados em Portugal.
Mas hardcore não é isto.
Sim, e o softcore também está. Ou seja, podem ser mostrados genitais masculinos, mas não em estado de arousal.
É isso que faz a diferença?
É o soft e o hard, exatamente.
Muito bem.
Pronto, agora já sabes.
Afinal, para quem nunca viu Emmanuel.
Não, mas sério.
Devíamos ter escolhido outro tema.
Não sei por quê.
Não, é porque nós somos demasiado infantis para resistir a piadas fáceis.
Mas a minha questão aqui é: esta coisa de como é que vamos catalogar o filme, isto que o Pedro estava a dizer dos avisos, que havia nesses anúncios antigos. Nestes filmes, realmente o que importa é o sexo ou há aqui um lado, de facto, cinematográfico, há algo mais à volta que tem que ser tido em conta?
Eu penso que é difícil generalizar. Para já, porque segundo os relatos daquela altura, é preciso perceber que o filme, eu penso que estreia em pleno verão quente, em dois cinemas de Lisboa, com essa promessa toda. Aliás, eu não sei, mas eu até penso que a revisão da classificação etária nos cinemas também é dessa altura e, portanto, o maiores de 18 de repente aparece também naquela altura e acrescenta esse extra de açúcar. De repente, é uma coisa proibida e há ali uma nota de interdito que de repente tens nessa experiência. Agora, aquilo que é também entendido pelo espectador como erotismo, é uma coisa que tem sofrido enormes evoluções. Já houve um tempo em que conseguir ver o tornozelo de uma senhora era motivo para alta excitação, porque se calhar que não vias.
Era um festim.
Era um festim, exatamente.
Sim.
Portanto, certamente, não só no contexto doméstico, mas também internacional, imaginares o que é uma estreia da Emmanuel. Sendo que eu penso que a personagem da Emmanuel até aparece antes desse filme, em 74, num filme qualquer italiano. A personagem, sim, com outro nome. Mas tem pelo menos 50 anos e obviamente terá provocado um estrondo muito maior. Ainda que as pessoas digam na altura, penso eu, que na verdade não tinha muito sexo. Aquilo acabava por ser mais a exposição, aquelas imagens, uma coisa muito estilo luz, com aquele tom, aquela paleta cromática. Depois aquilo era mais aquela vida entediada ali do núcleo da burguesia, ali num ambiente exótico, aquilo depois tudo é passado, a tal cadeira, o pavão.
Ao lado da sugestão também, não é?
Sim, e lá está, o que é ver uma imagem, um simples nu naquela altura, do que é hoje em que isso se generalizou.
Mais do que isso, banalizou.
Banalizou até à exaustão e, portanto, o que é que um filme destes hoje traz? Não sei. As críticas não são as melhores. Podemos ver e depois dar a opinião.
Sim, banalizou, mas continua a haver legislação. Na televisão não pode passar antes das 22h30.
Estamos a falar da perceção pública de vários casos. Como tens, por exemplo, no início da carreira da Madonna, quando ela aparece em palco, às vezes simplesmente a mostrar a barriga. E tudo aquilo era muito complicado.
Sim.
E hoje pensamos nisso e parece-nos ridículo.
Não, mas aliás, e voltando à questão do gênero, tu falavas de como definir isto. Para mim, há um aspecto que é muito interessante, e nós depois falaremos do outro gênero na segunda parte, mas que eu penso que tem tudo muito a ver, que é, na verdade, aquele intervalo do não dito e do não mostrado. E é esse suspense que de facto faz a diferença, e que a mim me interessa pessoalmente enquanto espectadora, e que provavelmente também fará essa diferença.
E que pode ser uma ótima ferramenta cinematográfica. O Bruno continua a rir. Deves estar a receber mensagens.
Uma ótima ferramenta cinematográfica.
Estou aí a falar em ferramentas.
Estás a ser subtil.
Bruno Vera Amaral. E isto tem a ver com aquilo que a Maria estava a dizer. Se este tipo de filmes perde relevância, não só com a idade do espectador, à medida que vai envelhecendo, mas com o passar do tempo. Se tivermos em conta que o sexo é um ponto fundamental do filme e da relação do filme com o espectador, se à medida que o espectador vai envelhecendo ou o tempo vai passando. Portanto, dos anos 70 até 2024.
Eu penso que é mais desafiante hoje tu filmares o erotismo com interesse. Precisamente por esse excesso de imagens, eu acho que é muitíssimo interessante que se faça isso.
Fazer um filme em que o sexo seja o centro. Mas isso é como qualquer outro gênero, tanto podes fazer uma obra-prima, como podes fazer uma pessegada de todo o tamanho. Não é preciso esperar muitos anos para que aquilo já não tenha qualquer valor. É preciso, de facto, enquadrar estes filmes no tempo em que apareceram, porque estamos a falar de um período em que começa a ser possível mostrar certas coisas no cinema que até aí não se podia mostrar. E também no cinema americano, sobretudo a partir dos anos 80. O cinema americano sempre foi muito púdico.
Por razões legais.
Não só por questões legais, o código Hays impunha certas normas, mas depois disso havia sempre um certo pudor, um puritanismo daquilo que se pode ou não mostrar no Nos filmes americanos. E nos anos 80, talvez seja o período em que o cinema mainstream e os filmes sobre sexo e com nudez quase explícita se aproximam mais, até o início dos anos 90, e depois voltam a divergir e a afastar-se completamente. E tens filmes que, quanto a mim, resistem ou resistiram, de alguma forma, bem ao tempo, e outros que não resistiram. Mas houve filmes em que o sexo tinha um lugar fundamental. Estou a pensar, por exemplo, no "Harry e June", do Philip Kaufman. "A Insustentável Leveza do Ser", que é a adaptação de um livro célebre do Milan Kundera. E outros que tinham, de facto, propósitos artísticos e que aproveitavam também essa nova tendência e essas novas possibilidades de se poder mostrar, para refletirem sobre o tema do sexo e não que o sexo estivesse ali apenas como acessório. Depois há uma outra questão que explica essa tendência dos anos 80, é que tu tens o VHS, o cinema pornográfico muda-se da sala de cinema para o vídeo, para as pessoas verem em casa, e abre-se um espaço para que este cinema, naquele limiar, ocupe salas de cinema. Tens o "Noites Caldantes", o "Body Heat", tens "Corpos Caldantes", "Orquídea Selvagem" e "Nove Semanas e Meia", que uns com atores série B, mas outros com atores já de algum nome, e que o público também queria ver nestes preparos. Se pensarmos no "Instinto Fatal", no início dos anos 90, com o Michael Douglas. Portanto, estes filmes aproveitam uma circunstância histórica, cultural e comercial também. Os produtores perceberam que havia ali um filão a explorar. E, por outro lado, também houve artistas, realizadores, que tentaram aproveitar esse maior liberalismo daquela época para fazer filmes que não poderiam ter sido feitos antes e que se calhar também já não poderiam ser feitos agora.
A verdade é que a nudez feminina levava sempre espetadores ao cinema, não é?
Sim. Hoje eu não sei se isso-
Hoje não é preciso, mas nós em miúdos, um tipo com 19, 20 anos, se acha que vai ver a atriz nua no filme, em princípio, vai mais depressa ao filme.
Não, e por isso é que eu estava a referir a questão de não ser apenas atores desconhecidos.
Certo.
Da mesma forma que as estrelas de prestígio começaram a fazer televisão ou séries a partir de uma certa altura, ali nos anos 80 e 90, parece que também tinhas que fazer um thriller erótico.
Fazia parte do processo.
Era. Agora, este é o momento, se a carreira está um bocadinho estagnada, tens que enveredar por aí. Até a Madonna fez um thriller erótico. Não sei se se lembram disso.
Com velas.
Era com o Willem Dafoe. Agora não me lembro quem é que era o realizador, mas era o "Body of Evidence", o corpo de delito, uma coisa assim. É péssimo.
Deixa-me só dizer isto, Tiago.
Era péssimo.
Era. Deixa-me só dizer isto. E também aconteceu o contrário. Na primeira temporada da "Guerra dos Tronos", que é 2011, a atriz inglesa Emily Clarke, que é a Rainha dos Dragões, aceita fazer várias cenas de nu. E portanto, ela aparece nua no filme, na primeira temporada, e depois recusou-se a voltar a despir-se nas temporadas seguintes. Aliás, a carga erótica, sexual e sensual da "Guerra dos Tronos" parece-me que é uma das chaves do sucesso da série.
Sim, muito provavelmente.
Quase de certeza.
Aquela violência toda.
Violência e sexo, tudo no mesmo coquetel. Já agora, o realizador do "Body of Evidence", Ulrich Edel.
É um dos piores realizadores de sempre. Não, é sério, eu acho que ele tem um filme que está no ranking, que é uma adaptação de um jogo de vídeo. Vê lá, hás de procurar isso.
Sim, talvez, mas agora não, até porque estamos a chegar ao final da primeira parte e vamos começar aqui a lançar as sugestões da semana. Com Pedro Boucherie Mendes, que quer falar de fotografia. Uma exposição com a obra de Nicholas Nixon.
Fotógrafo americano, Nicholas Nixon, no Centro Cultural de Cascais. Já está patente uma grande retrospetiva, acho que é assim que se diz. O fotógrafo americano, de retrato, sobretudo, preto e branco, aquelas coisas todas. Pessoalmente, eu gosto imenso desse tipo de fotografia. No fundo, humanos a fotografar humanos. Ele é conhecido pela série "The Brown Sisters". Ele é casado com uma Brown e tem fotografado a mulher e as irmãs ao longo dos anos. Há mais de 40 fotografias. Podemos ver esse processo e essas obras que estão no Centro Cultural de Cascais. Aconselho vivamente. Nicholas Nixon.
Muito bem, Maria, ainda temos tempo para a tua sugestão.
São duas.
São duas, peço imensa desculpa. Mas vamos a isso.
Mas são rápidas. Um livro, "O Sodomita", do Alexandre Vidal Porto, da Tinta da China. É um belo livrinho, parte de figuras reais, neste caso, um violeiro português, natural de Évora, que chegou em 1669 ao Brasil. Quer dizer, chegou ele, foi enviado para o degredo, porque andava envolvido numas práticas que infelizmente, na altura, não eram muito aceitáveis. E por fim, banda sonora, Kim Deal, uma senhora que esperámos também 40 anos para ver a sol, mas por razões que se entendem. Ela foi uma das baixistas originais dos Pixies, depois esteve nos Breeders. E este álbum chama-se "Nobody Loves You More". Eu penso que saiu ou sai esta semana e é absolutamente genial e recomendável e, portanto, forçai.
Sim, senhora. Bruno Vieira Amaral, já voltamos a ti, até porque agora há tradições que convém recuperar de vez em quando. Fazemos aqui uma pausa no "PopUp" e voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao Pop Up com Maria Ramos Silva, Bruno Vera-Amaral e Pedro Bush Mendes. Esta semana estamos reunidos em volta de dois gêneros cinematográficos muito particulares. Já passamos pelos filmes eróticos. Avançamos agora sem medo em direção ao terror.
Só falta a minha sugestão, não é?
Pois é, muito bem. Por isso é que tu estavas a olhar pra mim com esse ar.
Era pra ver se tu estavas atento.
Olha, mas foi um olhar que mete medo. Perceberam?
Ainda bem.
Pois é. Muito bem. Bruno Vera-Amaral.
Olha, a minha sugestão é um documentário sobre Elvis Presley.
Que está vivo.
Continua vivo. É um documentário muito bom.
É o Comeback Special, não é?
É, o especial que ele fez pra CBS?
Acho que sim. Foi uma dessas cadeias.
Um dos canais televisivos dos Estados Unidos, em 1968, e nós perdemos um pouco a noção de que nessa altura o Elvis Presley estava completamente ultrapassado.
Já era zero, menos que zero.
E isto é incrível, ainda estamos nos anos 60 e o período áureo do Presley é ali no final dos anos 50, meados dos anos 50, final dos anos 50, início dos anos 60. Depois aparecem os Beatles.
E acabou a história.
E o Presley desaparece.
Depois vai pra tropa.
O pessoal esquece de todas as virtudes do que fez do Elvis Presley o Rei. E ele provavelmente também se tinha esquecido, toda a gente já se tinha esquecido, nós já nos tínhamos esquecido agora.
Eis-se não quando.
Este documentário ajuda-nos a perceber como é que ele próprio decidiu voltar, mas mostrando uma parte dele ou que estava esquecida, ou que nunca tinha sido mostrada ao público daquela forma, porque ele estava um bocadinho sob o controle demasiado apertado-
Um bocadinho.
Do coronel, do agente.
Manager dele.
Do manager que tratava de tudo e que definia, no fundo, todos os passos da carreira do Elvis Presley. E este documentário mostra-nos esse especial televisivo e vemos ali talvez o Elvis Presley como muitos de nós nunca o vimos, e provavelmente também como ele nunca voltou a estar.
E com canções e interpretações inacreditáveis.
Extraordinárias.
É verdade.
Aquilo dá vontade de continuar a ver, ou seja, que o documentário fosse mais longo, mas por outro lado, tem a duração certa.
E é ótimo pra perceber, de facto, porque o homem é o rei do rock and roll.
Porque aquele é tão bom.
Exato.
Não era só uma construção.
Não era uma produção.
Não era só. De facto, tem ali qualidades vocais, de interpretação, de carisma, que é verdadeiramente extraordinário. Quem não conhece bem a personagem de Elvis Presley, não percebe porque ele foi endeusado.
Vá ver.
Tem de ver este documentário, muito recomendável.
Muito bem. Agora sim, vamos falar de terror. Tudo por culpa de Hugh Grant, que protagoniza o filme Herege, que se estreia esta semana e conta a história do senhor Reed e de duas jovens mórmons que o querem converter. Ora, este processo de conversão religiosa vai levar uma reviravolta, porque ao que parece, o senhor Reed não é quem parece ser e é um grande sacana e faz coisas que não deve. O que eu quero perguntar ao nosso amigo Pedro Bush Mendes?
Já não sabes.
Sei.
Eu posso perguntar.
A questão é: o Hugh Grant protagoniza um filme de terror.
Repara como essa premissa lida podia ser também uma sinopse de um filme erótico. Constante a leitura.
Também é verdade. Por isso é que eu disse terror logo no início. Mas é verdade.
Deixa-me só lembrar que tivemos o nosso erotismo nos anos 80 também. Não muito longe dos filmes Emmanuel. O filme Lugado Morto, do António Pedro Vasconcelos, que é de 84, que foi durante muitos anos o filme português mais visto sempre, ficou conhecido por uma cena forte, erótica. Com uma grande carga erótica entre a atriz Ana Zanatti, o ator Pedro Oliveira, que era jornalista, no Guincho.
E também a Balada da Praia dos Cães, do José Fonseca e Costa.
E o Killers, o Mau da Fita também tinha nudez.
Tinham algumas cenas que até foram promovidas no trailer.
Chamei de padre, digamos assim.
Cá está.
Portanto, tivemos também o nosso erotismo português. Sobre o Hugh Grant, é um ator de que eu gosto imenso, porque ele deixa sempre claro que está ali a ganhar o dele. Eu acho isso bom.
Mas isso quer dizer que ele não engana o público suficientemente?
Pra mim é sempre, e palavra de honra que eu estou a falar sério, é sempre convincente nos papéis que faz. Faz sempre papéis mais ou menos de classe alta. Aquele inglês meio educado, meio tonto, mas depois com um bocadinho de sal. Não conto ver este filme porque eu não gosto de filmes de terror.
Por que não gostas de filme de terror?
Não sei bem.
Pronto.
Não gosto.
Tens medo da resposta.
Não gosto do chamado jump scare.
Ah, ok. Não gostas desse feeling, desse sentimento.
Os filmes de terror são dos mais fáceis de fazer, porque basta pôr os efeitos sonoros ou de câmera.
A questão é depois se ficam bons ou não.
Pronto. Mas é relativamente simples. Podemos até filmar aqui um destes nossos programas e se puseres os sons certos ou os planos certos, exatamente. Mas não gosto de me assustar.
Pronto. Ô Pedro, está tudo bem.
Não vejo filmes de terror. E muito menos vejo tipos a serem serrados ao meio com pacas e não sei o quê.
Body horror não é a tua cena.
Literalmente fecho os olhos ou mudo o canal.
Ou vais-te embora, pronto, vais à tua vida.
E nem se eu consigo perceber muito bem as pessoas que conseguem ver. Tipos a serrar braços e não sei o quê. Obviamente, nunca vi nenhum saw, nunca vi nada disso.
Ok. Obviamente. Maria Ramos Silva, não sei se és fã de filmes de terror.
Não, eu estou com o Pedro. Até porque eu não consigo depois-
Custa-te dormir? É uma pergunta porque eu conheço pessoas que gostam de determinado tipo de filme, mas não os veem à noite.
Se eu conseguiria não dormir, porque eu já não durmo.
Não dormirias.
As pessoas com a minha idade já têm insónias naturalmente.
Exato.
De facto, eu gosto daquele filme de terror, eu peço-te também a eles falar disso, que já conseguiu ascender uma dignidade estilística, artística.
Exato.
E depois aquilo é tudo muito higienizado, porque eu não vejo de facto nada excessivamente gráfico. Portanto, um bom Nosferatu, um Bela Lugosi, já é gente com estatuto para a pessoa ver aquilo com alguma atenção. Mas não, eu sou uma pessoa que uma vez andou obrigada na Casa Fantasma e aquilo parecia-
Ok
...tornou-se mais num episódio cómico do que propriamente-
Porque um filme de terror, para funcionar, tem que meter medo, tem que assustar. E tu não gostas de estar nesse papel, é isso?
Não, eu não gosto. Não sou de todo uma espectadora de terror. O meu terror começa-
Quando o banho fica perto.
Não, isso é uma semana sem dormir. Não, por exemplo, gosto de um filme tipo "The Shining", em que há alguma-
Certo
...mas aqueles filmes em que de repente tens um banho. A não ser que seja absolutamente caricatural, ou seja, que se torne aquele terror cómico.
Mas isso já é humor.
Mas também tens, eu gosto dessa subcategoria.
Tipo "Scooby-Doo", não é?
Bem, agora não.
Não, mas tipo o "Scream".
Não é o "Scream", é o "Scary Movie".
Não, é o "Scream". O "Scary Movie" é-
Já é paródia
É um crossover.
Não, é um filme meta.
Pois.
Em relação aos clássicos de terror, alguns dos quais realizados pelo realizador do "Scream", o Wes Craven. Mas uma pessoa quando tem de ir buscar o Kubrick para dizer um filme de terror que gosta, é porque não gosta de filmes de terror.
Não, não gosto. De facto, não gosto.
Eu gosto. É muito fácil fazer maus filmes de terror, sobretudo estes que não têm uma ideia.
Era o que o Pedro estava a dizer.
E se baseiam um bocadinho no jump scare. Eu no outro dia comecei a ver um filme que está nas plataformas, eu acho que estreou nos cinemas com o Russell Crowe, "O Exorcista do Vaticano" ou do Papa, uma coisa assim.
Só faltar ser o exorcista de Auschwitz.
É, quase. E vi 10 minutos. E fui ver "O Exorcista", o original, o do William Friedkin.
Já que estou aqui.
Alguém devia mostrar aquilo ao realizador. As duas coisas. Meu amigo, estás a fazer tudo mal. Deixa isso, porque é mau, tu percebes porque aquilo é mau. Para já, conta muito a questão da crença. E "O Exorcista", o livro e depois o filme, teve a presença muito forte, não do demónio, mas do William Peter Blatty, que é o autor do livro, e ele acompanhou a produção. Tanto que o filme se chama "O Exorcista" do William Peter Blatty. E ele era de facto um crente e estas coisas eram importantes para ele. Não tens de ser um crente, nem tens de acreditar em monstros para fazer um bom filme de terror.
Exato.
Mas é preciso que os mecanismos do que te provoca medo sejam importantes para quem está a fazer aquilo.
E tem que haver uma ligação com o real.
Ora, o que eles fizeram n'"O Exorcista"-
Para teres mais medo
...eles foram buscar um tipo que tinha experiência, que era o William Friedkin, tinha experiência em documentário. E isso é extraordinário. Eu estava a rever o filme, já vi umas 30 vezes, estava a ver o filme e estava a dizer: "De facto, aqui a sensibilidade do William Friedkin para o real, esta experiência de documentarista, cruzado com o tema sobrenatural do filme, é que o torna inquietante. É isto que dá. Ele não tem muitos jump scares, tem alguns, mas quase não tem. É o ambiente criado por este jogo entre o sobrenatural e uma coisa quase com aquele grão dos anos 70, com a câmera ao ombro.
Sim, há momentos que parecem reportagem.
Parece quase uma reportagem sobre um tema sobrenatural. E há outra coisa. As protagonistas do filme, ou a protagonista, a mãe, é uma atriz, portanto é liberal, é progressista, liberal no sentido norte-americano do termo, tal como muitos espetadores do filme seriam, apesar de ter sido um sucesso também entre os crentes. Mas os muitos ateus que terão ido ver ou que não acreditam nessas coisas e que terão ido ver o filme, tinham a possibilidade de se identificar com aquela personagem, com aquela protagonista, porque aquilo não é numa comunidade religiosa fechada.
Exato.
Não, são pessoas aparentemente normais que não acreditam naquelas coisas em que aquilo acontece. Mas só para concluir esta ideia de como tu não precisas de estar constantemente a assustar com efeitos especiais muito descarados o espetador. É preciso é conseguir encontrar o ambiente, e isso vale quase para todos os filmes, desde "O Tubarão", que pode ser considerado um filme de terror, "O Silêncio dos Inocentes", o primeiro do "Alien", do Ridley Scott, é um extraordinário filme na gestão do medo, mas porque os realizadores perceberam o que mete medo às pessoas. É jogar com os medos primordiais, porque é isso que os bons filmes de terror fazem. Não é para te assustar com um salto na cadeira, é para jogar com aquilo que mete medo às pessoas. O medo do escuro, o medo de tu ires tomar banho e alguém, como no "Psycho"-
Com os medos que já temos antes de ver o filme
...que já temos antes de ver o filme, o medo de estares a nadar em águas abertas e seres atacado.
Olha, o Spielberg, por exemplo, um dos primeiros filmes, o "Assassino pelas Costas", tu estás um contínuo a ser perseguido e foi uma experiência muito boa.
Ou Pedro, os teus seriam quais? Diz-me uma coisa, meu amigo. Tu que não gostas de estar a ver este tipo de coisa e estás a ver um filme e de repente tens medo.
Eu não disse isso.
Ok.
Isto que o Bruno estava a dizer, nós quando éramos mais novos, chamávamos de filmes de suspense. Filmes como o Tubarão, etc, não metem medo nenhum. Eu gosto do Tubarão, deste tipo de filmes, em que nós sabemos que qualquer coisa está na iminência de acontecer e não sabemos bem como é que vai acontecer.
Exato. Como os filmes do Hitchcock, por exemplo.
Sim. Agora, quando eu digo que não gosto de filmes de terror, é que não gosto de filmes de tortura, em que sai um tipo da parede. Não gosto de me assustar, é só por causa disso.
Mas é interessante tentar perceber qual é a fronteira entre, por exemplo, um filme como O Predador.
Sim, ou Alien.
E um filme de terror. O Predador não pode ser um filme de terror, por exemplo?
É também um filme de terror.
Quando eu o vi, era muito pequeno, eu não dormi durante dois meses, como deve ser.
Até o primeiro Terminator é um filme que tem algumas coisas de terror. E o que aqui joga, eu acho que era uma pergunta que tu tinhas para fazer acerca de monstros ou assassinos humanos. Há uma coisa que nos mete medo desde criança, tanto pode ser um monstro humano como um monstro sobrenatural. É o medo dos monstros, de haver uma força que nós não conseguimos controlar e que existe para nos fazer mal. O Predador funciona, tal como o Alien, num espaço que não é controlado, num caso numa selva, noutro numa nave espacial, que não é controlado pelos protagonistas.
E com um ser que nós desconhecemos.
E que te pode fazer mal. A mesma coisa para o Tubarão.
E que é aparentemente imbatível.
E que parece que não consegue ser derrotado. E a mesma coisa para o Terminator, que é a máquina que não vai parar enquanto não conseguir os seus objetivos. E isto mexe com os nossos medos, que é o de não controlarmos, estarmos em situações em que não controlamos, sob a ameaça de uma força que é poderosíssima. Com estas premissas, podes fazer péssimos filmes. Eu acho que todos estes de que estava a falar são ótimos. E há outra coisa, só para concluir.
Não sei se já perceberam, mas o Bruno gosta deste tema.
Gosto deste tema. O Psycho, por exemplo. Isto tem a ver com a técnica e com técnicas narrativas. O Psycho joga com outros medos ainda, que têm a ver também com a nossa experiência de espetador, porque o Hitchcock eliminou a protagonista, a personagem com que nós construímos a identificação na primeira meia hora de filme. Peço desculpa a quem nunca viu o Psycho.
Tudo estragado.
Mas ela vai à vida logo. E isso cria um medo que não é um medo primordial, não é um medo primitivo, humano, mas é quase um medo do espetador. Ou seja, ele tira-te o ponto de apoio que te deu e isso também te desestabiliza.
Claro, aí tu ficas em dúvida.
O que é que sobra?
O que é que há aqui? Isso também funciona numa outra perspectiva.
Maria Remesido, há pouco referiste estes nomes, mas já agora, um Nosferatu ou um Drácula com o Bela Lugosi como protagonista, ainda mete medo, ainda assusta?
Não, acho que nós já elencamos aqui uma série de categorias ou de subcategorias. Há, obviamente, fronteiras mais fechadas em termos de género. O que é terror, puro e duro, mas o terror para nós pode assumir, de facto, muitas caras.
Claro.
Eu quero acreditar que qualquer pai que está a ver um filme em que se perde uma criança, uma criança desaparece, isto é um absoluto terror e pode passar ali duas horas e meia de agonia a ver aquilo. E obviamente que ele não vai para a categoria terror, vai ser arrumado noutro sítio qualquer. Agora, há de facto aqui filmes que conseguem, por um lado, conjugar as duas coisas, mas eu não acredito que as pessoas estejam a ver filmes dos anos 20. Ou seja, da mesma maneira que tu tiveste aquela experiência fundadora do cinema, da sala a ver o comboio a entrar. Há ali um espanto inicial, fundador, que nós hoje não conseguimos repetir e certamente temos mais dificuldade em repetir com esses títulos dos primórdios do cinema. Não me parece que as pessoas fiquem propriamente assustadas e não consigam dormir por causa do Bela Lugosi.
Mas se assim fosse, então está à vontade.
Claro.
Há um filme que eu vi há pouco tempo, por obrigações conjugais. Vi o filme do O Médico e o Monstro, a adaptação do conto do Robert Louis Stevenson, creio que pelo Rouben Mamoulian, um grande realizador. É um filme que, claro, com toda a salvaguarda das distâncias de tempo e dos efeitos especiais, é um filme que ainda funciona. Não mete medo, não terá o medo que meteu aos primeiros espetadores do filme, mas ainda funciona ao fim de quase 100 anos.
Mas serão as décadas de 70 e 80 o melhor período deste tipo de filmes?
Também por aquilo que falámos do thriller erótico, é muito mais aquilo que começaste a poder mostrar. Não sei se em benefício de todos os filmes, que alguns filmes teriam ganhado mais se não mostrassem tanto. Mas também por isso. E claro, por haver, uma vez mais, também a questão do VHS. Há muitos filmes desta época, filmes de terror, ou seja, filmes de baixo orçamento, que noutra época não teriam sido produzidos.
E que naquela altura puderam ser.
E que naquela altura conseguiram, porque tinham esse canal, esse mercado do VHS. E muitos filmes começaram por aí e até adquiriram prestígio.
Sim, esta questão do tempo é interessante, porque eu acho que aquilo que prevalece como mais assustador sempre, e isso tu vais, continuas a ir buscar aos primeiros filmes, não são os efeitos especiais, é o lado humano. Eu vou-me lembrar, por exemplo, do Robert Mitchum na Sombra do Caçador. É uma coisa dos anos 50 e tu olhas para aquele desempenho e vais sempre revalidar aquele susto. E não precisas de mais efeitos especiais, não precisas de artifícios nenhuns. Portanto, sim, há sempre essa capacidade também de assustar.
Pedro Basteiro Mendes, só para terminar e com uma pergunta que não estava de todo no roteiro: tens ideia se o filme de terror funciona em televisão?
O filme de terror tem o problema de só poder ser emitido depois das 22h30.
Logo por aí.
Portanto, diminui logo algum público, que já se foi deitar ou não quer apanhar a manhã.
Não o podes exibir na manhã de Natal. É uma pena.
Exatamente. Mas funciona no chamado público mais novo. Há pessoas que gostam mesmo muito de filmes de terror, sobretudo os mais novos. Tem um efeito de servir para aproximar casais.
Certo.
Em princípio, a rapariga tem medo e agarra-se ao rapaz. Pelo menos é o que eles acham, em princípio, quando vêem filmes de terror. Mas há imensa produção de filmes de terror para adolescentes, provavelmente por causa destas dinâmicas, pois vão ao cinema, compram pipocas. Mas sim, funcionam. Não podemos saber muito se funcionam em televisão, porque só podem ser emitidos depois das 22h30. E depois há uma outra coisa que é: em princípio, os fãs dos filmes de terror já viram, seja qual for o filme.
Porque são fãs, de facto, já não estão à espera.
Eles já viram "Saw 44" e ainda nem o "Saw" foi feito.
Ainda não serraram o homem.
Olha, eu agora tenho vivido-
Logo o que vais dizer.
Tenho vivido uma experiência muito interessante.
Mas tem que ser rápido, que temos que ir embora.
O meu filho mais novo tem nove anos e quer ver filmes de terror. Atenção CPCJ.
E tu estás preocupado?
Não sei.
Olha, vê lá.
Nós já vimos alguns e é interessante ver esta tensão entre: "Eu sei que vou ter medo, mas eu quero ver à mesma." Porque os filmes de terror, se têm algum efeito terapêutico, é esse, de nos confrontar com os nossos medos. E de nós sentirmos, e por isso talvez o sucesso também com os adolescentes, é de nos confrontarmos com o medo, aquilo que nós aguentamos ver.
Muito bem. Olha, foi um programa muito pedagógico. Quero agradecer-vos a todos, especialmente por serem quem são. Final de mais um "Pop-Up". Voltamos na próxima semana. Até lá.