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Antes que cheguem os feriados, que vêm aí muitos etcéteras, aqui estamos com as sugestões da semana, das melhores que pode haver. Maria Ramos, vamos começar por ti. O que nos trazes? Olha eu a perguntar-te diretamente, porque não tenho no guião.

Pois não, foi tudo um pouco freestyle. Nós tivemos uma semana de Bad Bunny. Está toda a gente a falar de Bad Bunny.

O quê? Como assim?

Mas eu não trago Bad Bunny.

Acho que devias trazer.

Não, trago uma coisa que nem sequer é nova. Os poemas não são novos, certamente. A edição também não é nova, no sentido em que não saiu no mês passado. Mas eu também me vou esforçar nos próximos tempos para trazer mais coisas boas, que não saíram necessariamente na semana passada, porque eu acho que também precisamos disso.

Claro.

Trago uma antologia poética, "A Árvore Tocada pelo Raio", do José Emílio Pacheco, um grandessíssimo e enormíssimo escritor mexicano. Isto é uma edição muito bonita da Maldoror, muito cuidada. O José Emílio Pacheco morreu em 2014, no mesmo ano, curiosamente, de um companheiro de escrita, neste caso argentino, o Juan Gelman, que ele dizia que era muito superior a ele. Ele não gostava muito de elogios, apesar de ter conseguido juntar o currículo Rainha Sofia e o Cervantes, uma espécie de taça e campeonato da poesia e das letras. Mas de facto foi uma figura extraordinária. Teve uma daquelas mortes que parece só estar reservada aos poetas. Caiu em casa num acidente, aqueles acidentes absolutamente ridículos que nós nunca pensamos que vão acontecer e depois acontecem. Acabou por não sobreviver um dia depois. Deixa-nos coisas absolutamente extraordinárias. Esta antologia, para quem não conhece a obra, vale muitíssimo a pena. Ele deu-nos coisas como: "Só a árvore tocada pelo raio guarda o poder do fogo na madeira", que é uma frase que só por si acho que vale o livro todo. Ele escreveu isto para o Rubén Darío, outro poeta, neste caso da Nicarágua. Se puderem descobrir esta edição, ela é de 2024, mas anda por aí ao vosso dispor.

O que é isto?

Mais do que atual, até porque os poemas são bem mais antigos que isso. É de atacar. Depois trago uma coisa que já terei visto na altura em que isto for pro ar, que é o Rafa, o documentário sobre o Rafael Nadal na Netflix. São quatro partes. Há de ser alguma coisa como quatro horas ou uma coisa do gênero, mas eu acho que vale a pena.

És fã do Nadal?

Nós falámos semana passada de cromos, de futebol e dos últimos cromos, daqueles cromos raros que entretanto vão começar a desaparecer das cadernetas. O Nadal, goste-se mais ou menos do estilo, vai estar sempre ligado aqui a um ecossistema em que está Nadal, esteve Federer, esteve Djokovic, que ainda está, mas também já numa fase tardia da sua carreira. Também representa uma era absolutamente fascinante para quem gosta de ténis, como eu, para quem seguiu estes duelos, estas rivalidades, que estão, aliás, enfiadas neste documentário e que trazem também outras coisas. Daquilo que vi, é isso que me entusiasma. Daquilo que li, aliás. Não ser uma coisa totalmente hagiográfica, terá obviamente aqui o agremado do Nadal e terá coisas mais simpáticas, é daquelas coisas combinadas pra Netflix.

Se falarem do cabelo dele, vais ver.

Exato.

Verás se é hagiográfico ou não.

Mas parece que também vai ali aos-

Já podia ter ido à Turquia

...aos pontos. Isso também é verdade.

Se falarem disso.

Vai aos pontos mais complicados da vida do Nadal. Estou muito curiosa e quero ver isto, e já tenho muita saudade. Apesar de termos ótimos sucessores neste momento nos cortes por aí. Ainda por cima estamos em semana de final de Roland-Garros e vão ser mais umas horas frente aos ecrãs.

Muito bem. Bruno Vieira Amaral, antes de mais quero perguntar-te se na última semana conseguiste arranjar mais cromos da coleção do mundial.

Muito difícil, está esgotado.

Isto é uma coisa que realmente anda a atormentar a humanidade.

É muito difícil, esgotado em quase todo o lado. Entretanto, reapareceram já carteirinhas em alguns pontos de venda.

Tu agora quando puderes compra uma caixa.

Uma caixa, mas parece que também vão impor limites para não haver açambarcamento.

Senhas de racionamento.

Papel higiênico na pandemia.

Há uma caixa à venda por, creio, €75. Portanto, €75, calculo que não tenha nenhum desconto, corresponda a 50 carteirinhas. €75 é um excelente presente de aniversário para alguns.

Não sei se estás aí a lançar alguma...

Não, é porque já vi. Por acaso até foi o meu filho que falou, porque acho que um amigo recebeu como presente de aniversário.

Quando é que é o teu aniversário?

É só em fevereiro.

Ainda falta. Pode ser no Dia da Criança.

Hoje não é Dia da Criança, ou quando é que foi?

É sim senhor, dia 1.

É hoje?

É sim senhor.

Então pronto. Muitos parabéns.

Mas o teu objetivo é acabar a coleção antes de começar o mundial ou não passa por isso?

Não.

Até porque tu sabes que não vais acabar a coleção.

Claro, isso não são objetivos.

Que jogadores portugueses é que já tens?

Não sei. O Gonçalo Ramos já saiu. O meu filho é que tem isso bem presente. Já temos alguns, mas agora assim de cabeça não sei todos. Sei que me saiu o Gonçalo Ramos.

Mas o Nelson Semedo está aí, não?

Está.

Então não está a dizer. Muito bem.

Vamos lá.

Vamos ao que interessa.

Vou começar aqui.

"Yogurt".

"Yogurt Shop Murders", um documentário que está na HBO, que creio que estreou no ano passado, mas agora há um novo episódio, um quinto episódio, porque entretanto houve desenvolvimentos na investigação. Trata-se de um homicídio.

Tiveram que fazer uma atualização.

Um quádruplo homicídio, o homicídio de quatro jovens numa loja de iogurte em Austin, no Texas, em 1991E que nunca se soube quem, na verdade, tinha sido o autor ou os autores destas mortes. Entretanto, em 1999, tinham sido detidos quatro rapazes que já eram suspeitos praticamente desde o início, porque um deles foi encontrado com uma arma num centro comercial poucos dias após os homicídios, mas na altura não tinham sido acusados. Em 1999 foram acusados, porque houve confissões de dois deles e, afinal de contas, depois isso veio se perceber que estava ali envolto numa série de erros judiciais. De qualquer das formas, um deles foi condenado à prisão perpétua e outro à pena de morte. Apenas essas que foram revertidas. Não vou adiantar mais, acho que até já adiantei demais. É true crime, do melhor. E tem este extra. Eu não tinha visto na altura, no ano passado, o documentário, mas agora tem o extra do quinto episódio e que vai trazer revelações muito importantes. Também na HBO, e já mencionado e aqui referido pelo Pedro.

Queres reforçar?

Quero reforçar, porque vi. Não tinha visto. "The Dark Wizard", a história de Dean Potter, um escalador de montanhas. Seria um funâmbulo.

É um highliner.

Sim.

Highwire, é assim que se diz?

Highliner. Não o eyeliner dos olhos, mas o que ele fazia era andar na corda bamba, mas em lugares muito impróprios para a prática dessa atividade, como por exemplo, umas montanhas chinesas onde ele foi. E aqui o que me fascinou? Ele o grande rival, mentor e inspirador do Alex Honnold, e que depois se vê ultrapassado por esse, de alguma forma, seu discípulo. O que me interessa aqui? Deixe-me dizer, para já, o Dean Potter tem traços fisionômicos que me fazem lembrar o Novak Djokovic e o Thibaut Courtois. Não sei porque quando estava a ver as imagens, estou-me sempre a lembrar destes dois. E aquilo que mais me interessou neste documentário, claro que é uma história individual extraordinária, é uma questão que se põe sempre quando tu estás a falar de figuras de excelência nas suas respectivas áreas e que é essa busca maníaca pela perfeição, muitas vezes indo para lá dos seus próprios limites ou mesmo no limite dos limites. E isso é muito interessante ver, porque tu nesse processo de alcançares a excelência, parece que é quase obrigatório abdicares de uma parte da tua humanidade. Ou seja, tem de haver ali uma espécie de amputação emocional que te permita canalizar todas as tuas energias, todo o teu foco.

E desligares-te de tudo o resto.

E desligares-te e de alguma forma alienares-te ou separares-te do resto do mundo. Aqui ele leva isso ao extremo, porque acabou por se afastar praticamente de todos os amigos e de forma muito dolorosa para os amigos. E é muito interessante ver como esses amigos se referem a ele tantos anos depois, com amor, com verdadeiro amor, comovidos ao lembrarem-se de Dean Potter. Só que, mesmo olhando para a participação que o Alex Honnold tem neste documentário, e como o Pedro também disse na altura, é apresentado com umas cores de vilão. Mesmo o próprio Alex Honnold tem ali um perfecionismo, uma mania qualquer que explica, de facto, o nível de excelência que ele atingiu na sua atividade. Tens de, de facto, te separar de uma parte da tua humanidade para entrares nessa procura maníaca pela perfeição ou pelo máximo, pela excelência, pelo menos. É um documentário muito interessante, em quatro partes, que está na HBO e que eu venho aqui reforçar. Por último, queria apenas referir aqui uma reedição, uma nova edição em Portugal do livro de Juan Gabriel Vásquez, autor colombiano, que vai estar -- temos sempre este problema quando fazemos o programa com antecedência -- na Feira do Livro de Lisboa. Aliás, eu vou falar, já falei com ele.

Ora, cá está.

Ontem.

Portanto, não pode ser acusado de publicidade.

Não pode ser acusado de publicidade. O Pedro Boucher Mendes tem aqui, como é que eu posso explicar isto em relação à tua relação com os autores latino-americanos?

Preconceito.

Algum preconceito?

É fácil. É muito fácil. Tenho mesmo.

Não queria ir mais longe do que isso, mas o Juan Gabriel Vásquez eu acho que é um daqueles autores que se o Pedro Boucher estivesse disposto a abdicar dos seus preconceitos.

Tentar ultrapassar o preconceito.

Não, é porque corresponde, eu não diria que é a antítese da maior parte dos escritores latino-americanos que nós imaginamos ou que cabem dentro deste preconceito, de um clichê do que é e sobre o que escreve o escritor latino-americano, mas o seu estilo é, de facto, diferente.

Não há morenas transpiradas, lustrosas.

E papagaios. Se calhar há papagaios. Deve haver papagaios. Mas é um registo realista, político no sentido amplo.O que também se relaciona com muitos outros autores latino-americanos. Nós às vezes achamos que os escritores latino-americanos são ou García Márquez ou Isabel Allende ou Luis Sepúlveda, em Portugal, e esquecemos de toda a grande diversidade que existe.

Não achas que há um pouco de paternalismo na Europa para com os escritores latino-americanos?

Sim, porque de alguma forma-

Eles escreveram em ditaduras e depois havia muito calor.

Aquilo se transformou num produto, sobretudo na altura do boom e do realismo mágico, e pegavas naquilo que era mais vendável, que era uma espécie de exotismo. Poderia haver, mas eu acho que eles aproveitaram bem esse paternalismo. Aliás, conseguiram contornar esse paternalismo e afirmar-se por direito próprio. E muitos que nunca teriam sido conhecidos acabaram também por beneficiar dessa onda e de se meter tudo no mesmo saco, sabendo nós que há muitas e grandes diferenças entre estes narradores. O Juan Gabriel Vázquez eu diria que é, e se calhar aqui também estou a ser paternalista nalguns aspectos, tem uma voz muito reconhecidamente europeia, se quiseres pôr as coisas nesses termos. Se calhar aqui também estou a prestar um mau serviço a essa diversidade da literatura latino-americana. Fica a recomendação, "As Reputações", de Juan Gabriel Vázquez, que é um romance sobre um caricaturista colombiano que, a dada altura da sua carreira, quando já está consagrado e é uma das grandes figuras daquele meio intelectual, acaba por pôr em causa tudo aquilo que fez devido a um acontecimento que depois quem lê perceberá.

Muito bem, eu quero só deixar aqui sugestões enviadas por dois ouvintes. A primeira, que são três, é do João Francisco Silvestre Martins, que sugere aqui duas séries. A primeira chama-se "Spider Noir", não sei se já estão a par.

É com o Nicolas Cage?

Exato, e que anda à volta do universo do Homem-Aranha. E a outra, eu acho que alguém já falou aqui, que é uma série que se chama "Rooster", com o Steve Carell, na HBO Max. Sendo que o "Spider Noir" acho que estreou agora na semana passada, portanto é mais recente.

Essa é o Steve Carell a fazer de Steve Carell.

É, não é?

Eu acho que já trouxe isso.

Muito bem. Pronto. Ora bem.

Enfim, é a minha opinião.

Ora bem. E depois tivemos aqui uma mensagem do Sérgio Martins, que fez questão de nos dizer que nos ouve todas as semanas religiosamente, o que faz imenso sentido, porque isto a gente se agrada. Enviou-nos uma mensagem em áudio, que ficou muito contente, porque finalmente viu alguém a falar sobre a série "Northern Exposure". Foi uma coisa que nós fizemos aqui, julgo que na semana passada, porque foi uma série que o marcou muito nos anos 90, e diz ele que não conhecia ninguém que se lembrasse da série.

Eu não vi tantos episódios, tanto que já nem me lembrava do nome da série em português. Achava que metia Alasca no título e afinal de contas era apenas no fim do mundo.

Pronto, é triste.

Uma outra forma de dizer.

Pedro, tu viste esta série?

Fui eu que falei da série.

Foste tu, não foste? Pois. As pessoas muito inteligentes não se esquecem destas coisas.

Era uma das séries cool do nosso tempo.

E tu gostavas?

Dos inícios, dos primórdios, sim.

Sim. Gostava, claro. Então, mas não havia cabo, não havia Netflix.

De um a cinco, davas-lhe um três.

Não, dava um 4,6.

Quatro, muito sólido. Muito bem. É pá, muito sólido, é bom. Muito bem. E portanto, fica aqui um abraço também pro Sérgio Martins e um agradecimento.

Se bem que a grande série dos anos 90, para nós, no fundo é elite.

Claro.

Fosse o "X-Files" e o "ER".

Sim.

São ali da mesma altura. O "X-Files" estreou em Portugal, aliás, em 93, 94, na TVI, primeira às quintas-feiras, se não estou em erro.

Eu lembro de ver às sextas-feiras à noite.

Depois.

Depois.

Aliás, eu creio que começa até a ser exibida às quartas-feiras à noite. E lembro-me de um primo meu me falar: "Epá, agora há uma série incrível na TV.".

Quem era o primo?

O meu primo Paulo.

Paulo.

Ainda não tinha falado do meu primo Paulo.

Não, não é isso. Um abraço pro Paulo, mas não é isso.

Têm imensos primos.

Tinha alcunha? Do mesmo primo?

Percebes o nome de família?

É meu primo. É primo direto da minha mãe.

Não era o Paulão ou o Paulinho?

Não. Muita gente chamava Paulinho. Sim, Paulinho.

Paulinho.

Que era loirinho e bonitinho.

Pois é, grande abraço pro Paulinho. Pedro Boucherie Mendes, vamos então finalizar com as tuas propostas.

As tuas propostas são só de-

Não, eu esta semana estive muito ocupado. Posso dizer que comecei a ver uma série nova que está na Netflix, que se chama "The Burrows", com o Alfred Molina.

Que é intragável, sim.

Eu não achei intragável.

Mas é intragável.

Pronto.

Aquele filme com o Sacha Baron Cohen.

Também é intragável.

E com a Rosamund Pike, que eu adoro.

Tem um cast fabuloso, sim.

É pá, e é tão mau aquilo, que é inacreditável como é que aquilo é feito.

Mas é uma comédia romântica?

É pá, imagina "O Que as Mulheres Querem". Lembras-se desse filme com o Mel Gibson, que até tinha piada, uma comédia. Já não sabem fazer essas comédias middle brow. Já não sabem fazer. Fazem uma coisa completamente intragável.

O Sacha Baron Cohen bate com a cabeça e quando acorda o mundo é diferente, são os homens que mandam piadas sexuais aos homens. No fundo é isso.

E apalpam os homens e assediam os homens.

Eu acho que tenho lá livros melhores. Esta série do "The Burrows", eu gostei do primeiro episódio

Também tem um cast excelente. Tem o Molina, tem a Geena Davis.

Gostei do primeiro episódio e depois, daquilo que vi a seguir, nunca mais conseguem corresponder ao primeiro episódio.

É dos Duffer Brothers, não é?

Não, é produzido, mas não escrito por eles.

Tem lá o carimbo deles e tem muito dinheiro.

E o dinheiro.

Muito dinheiro, mas é um desperdício.

Por isso que é um pouco sci-fi, não é?

Tem ali um ser. Imagina, é um lar de luxo. É um lar que, na verdade, é uma pequena cidade, onde tu te vais reformar no meio do deserto do Arizona.

Onde nada é o que parece.

E alguém encontra uma orelha.

E parece que há um ser estranho que anda a fazer coisas estranhas. E, portanto, Alfred Molina claramente é o tipo que vai-

Na semana passada estreou uma série bem melhor.

Cala-te, Tiago.

Bem melhor, chamada "Bad Thoughts", do humorista Tom Segura, que é completamente chanfrado. É um sketch show, não é a primeira temporada, acho que é a terceira.

Não está na tua lista, estou a gostar.

Pronto. Aconselho vivamente a ver, porque é um humor muito radical.

Disseste "Bad Thoughts", maus pensamentos, é isso?

Sim, do Tom Segura, na Netflix. Aconselho a verem, não vejam com crianças. É um humor muito exagerado, mas alguns dos sketches são francamente bons. Na Gulbenkian, a primeira exposição em Portugal de Todd Webb, um fotógrafo americano que morreu em 2000. A fundação que gere a obra doou os pólios portugueses do fotógrafo à Fundação Gulbenkian. Estão expostas e retrata o Portugal dos anos 70 e 80. É um pouco como Gerardo Castello-Lopes, é um Portugal, eu diria, instantâneo, uma certa banalidade do país. Podia ser aqui, podia ser noutro sítio qualquer. Pessoalmente, eu sou muito sensível a esse tipo de estética, ou seja, gosto muito. E recomendo vivamente, com curadoria do Jorge Escalada, Todd Webb, na Gulbenkian, até o fim de julho. Depois, dois livros, um do meu camarada Rodrigo Guedes de Carvalho.

Camarada?

Não é assim que se diz quando...

É, sim, senhor, eu estou só a reforçar.

Trabalhamos nos mesmos sítios.

Exato, bem sei. Sou uma pessoa informada.

Cruzamo-nos de vez em quando. Eu discuto muitas séries com a Teresa Dimas, que é a mulher do Rodrigo. E pergunto sempre o que é que o Rodrigo está a ver.

E têm um gosto parecido ou não?

Sim, não vou comentar.

Muito bem, é a tua vida privada. Sim, senhor.

Claro que sim. Tendemos a ver as mesmas coisas, de qualidade, obviamente. O Rodrigo tem um novo livro, "O Meu Primeiro Apocalipse". E aqui o que é interessante, acho eu, vou aproveitar aqui o Rodrigo Guedes de Carvalho para puxar a brasa à sardinha da ficção científica, porque é um livro que decorre no futuro, é em Portugal em 2066.

É uma distopia, portanto.

Sim. Mas é interessante que escritores com obra e escritores sérios e respeitados pelo público, e que têm público, que têm pessoas que compram os seus livros, é interessante que se aventurem nestes territórios. A ficção científica costuma ser vista como um género secundário e há aqui uma oportunidade de entrar no livro do Rodrigo, obviamente, e depois noutros clássicos de ficção científica, que eu acho que as editoras portuguesas não acreditam muito neste género, e provavelmente com razão, saberão melhor do que eu, porque as pessoas não compram os livros. "O Meu Primeiro Apocalipse", do Rodrigo Guedes de Carvalho. E depois, um tipo de livro que eu gosto muito, "1001 Histórias do Futebol Português", de uma dupla, Filipe Alexandre Dias, jornalista do Record, e o Tiago Beato. E são, de facto, histórias, historietas sobre o futebol português. Não te dizem muito, Tiago, tu não gostas muito.

Não, isso não é verdade. Eu gosto. São histórias. Eu gosto de tudo que são histórias.

Para quem, como eu, e provavelmente o Bruno Vieira Amaral, lia os jornais desportivos e sabia tudo.

Ainda bem que não nos incluíste nessa conversa.

E a Maria.

Eu, obviamente, nem sei o que é um golo.

Exato.

Era uma coisa sobretudo de rapazes no nosso tempo. Eu ia incluir-te noutra área.

Noutro departamento. Eu estou ansiosa para saber em que departamento.

O Programas da Teresa Guilherme, o interno.

No meu tempo, as miúdas, raparigas não gostavam de futebol.

Não, tens que ver que nós temos um certo gap geracional.

Se calhar tinha tido mais sorte.

Disseste o caso quê? Desculpa.

O caso do José Guimarães.

Então, se calhar vou ler o livro.

Ou o Fortunato Azevedo, ou o Alder Dante.

Ou o Francisco Silva.

Ou o Veiga Trigo.

Veiga Trigo? Espera aí, Veiga Trigo era um árbitro.

Ou o José Pratas.

Não era?

Ou o Carlos Valente.

Ou aquela vez em que o sistema obrigou o Sporting a ir a Chaves jogar dois minutos de um jogo.

Lembro-me tão bem disso. Isso em 1990 e quê?

Nem sei, está aqui.

Dois minutos? Para jogar dois minutos?

Tinha faltado luz.

Sim, o futebol português sempre foi transparente como piche. Sabes o que é piche?

Está a ficar muito elaborado para mim.

Não sabes o que é alcatrão? Sempre foi transparente. O futebol português sempre foi muito transparente. E houve um jogo, o Sporting ia jogar com o Porto, mas para ser feita justiça, teve que ir de Lisboa à Chaves para jogar dois minutos na antevéspera do jogo.

E depois ficou como?

Depois perdeu com o Porto.

Depois ficou traumatizado.

Ficou traumatizado.

Naquela altura?

Naquela altura, estamos a falar em 1700.

Não, mas não havia a rede viária, não havia os túneis do Marão.

Vamos lá ter um desconto.

Isso eu conheço.

Está aqui uma expressão que eu nunca tinha ouvido, que era aquele período em que o Benfica esteve 11 anos sem ganhar.

O Vietname?

É que o Vietname, eu não conhecia a expressão Vietname.

Mas isso é uma expressão dos benfiquistas.

Mas eles já estavam habituados, nós não. Para nós obviamente foi o Vietname.

Não sabia.

O nosso Vietname foi a vossa normalidade.

Exato.

É o The Penguin. Tem uma capa que eu gosto.

Eu estou a ver que tu estás a fazer festinha, estás a apreciar esse tato.

E é daqueles livros que dá para abrir e ler uns episódios, foi o que eu fiz ontem ao jantar.

É isso.

Procurando não sujar com cerejas. Algumas histórias eram sujas com umas cerejas, mas consegui não sujar.

Este homem é um poeta.

Tem as transferências do-

Tem, do Paul Sosa e do Pacheco, essas coisas. Tem

O Vermelha, o Canídia.

Tem aqui uma história do Rui Esteves.

O Rui Esteves. Tenho uma fotografia com o Rui Esteves.

Claro que tens. Quem é o Rui Esteves?

Rui Esteves, grande jogador do Vitória de Setúbal.

Havia um jogo do Torriense.

Olha, parabéns ao Torriense.

Parabéns ao Torriense. Uma história Torriense-Setúbal e o Rui Esteves pede para falar com o presidente e com o treinador do Torriense na altura e disse: "Eu não posso jogar este jogo, porque eu já assinei pelo Setúbal e eu quero que o Setúbal ganhe". Ele era jogador do Torriense. "Eu quero que o Setúbal ganhe e peço para não jogar o jogo".

Pois claro. Então ele fez bem, foi honesto.

Foi, e depois foi para o Setúbal.

Ainda tu dizes que o futebol português não é transparente.

Exato. Não era.

Parabéns ao Rui Esteves.

Esse cara era transparente como few.

Grande Rui Esteves. Olha, ele está nessa primeira época do Vietname, do Benfica.

Está sim, senhor.

94, 95.

Está aqui a contratação do Prudhomme também.

94, 95. Olha, está. Início do Vietname.

Já me está a dar dor de cabeça.

Eu percebo a quantidade de informação que vocês conseguiram.

Eu tenho uma fotografia com o Prudhomme.

Tens?

À porta do carro dele, que acho que era um Citroën.

Gosto que tiravas fotografias com os jogadores.

Porque fui uma vez.

Um Citroën?

Fui uma vez. Foi o meu presente de aniversário. A minha tia levou-me ao estádio.

Espera. Como é que te chamas?

Eles treinavam no estádio.

Qual é o nome da tia?

É Cinda. A tia Cinda. A tia Cinda levou-me ao estádio e nesse dia eles autografaram uma camisola que eu levei, uma camisola que não era do Benfica, era uma t-shirt branca.

Triste. Que triste.

Não, eu tinha uma camisola do Benfica, mas levei.

Andava sujada.

Obviamente, não ia estragar com a assinatura daqueles analfabetos. Desculpa. E tenho fotografias com o Eusébio, com o Isaías, com o Paulo Pereira, com o Rui Esteves, com o Prudhomme. E até acho que tenho uma com o Artur Jorge, em que ele está a olhar para o lado.

Ainda tens isso?

Tenho as fotografias.

Mas o Rui Esteves jogou no Benfica?

O Rui Esteves jogou.

Desculpa.

Era russo.

Era russo de mau pelo.

Pronto.

Tu também devias ser russo, ó Tiago.

Não. Isto dava.

Não sei se podemos continuar.

É disto que os nossos ouvintes gostam.

Depois vem o mundial. A gente depois fala sobre isso. Muito bem. Sugestões entregues e estão em podcast, tal como todas as outras. Sigam-nos e não percam nenhuma destas fantásticas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.