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Quando um pai ou uma mãe tem demência, surge muitas vezes uma pergunta difícil: será que eu também vou ter? Doutora Mariana Sobral, bom dia. Ter demência na família significa que o nosso destino está traçado?
Não. De facto, ter um familiar próximo com demência não significa que a doença seja inevitável. Na grande maioria dos casos, é uma combinação entre eventual predisposição genética, efectivamente, mas idade, saúde vascular, hábitos ao longo da vida.
Antes de falarmos de genética, doutora, o que é afinal a demência?
A demência é uma alteração na memória, no pensamento, no comportamento, na capacidade da autonomia no dia a dia. E não é uma consequência normal de envelhecer. A que mais conhecemos é a doença de Alzheimer, mas existem outras, como a demência de corpos de Lewy, a demência frontotemporal, e muitas vezes há pessoas que têm formas mistas, ou seja, um bocadinho de cada demência. Às vezes começamos a medicar mesmo sem sabermos o diagnóstico final.
Esquecer um nome ou não saber onde deixou as chaves já pode ser um sinal de demência?
Não. É um motivo frequente de consulta e sei que pode ser angustiante, mas esquecermo-nos das chaves de casa, não sabermos onde parámos o carro, muitas vezes está associado à falta de cansaço. Quando é que nos preocupamos mais ou quando é que nos devemos preocupar, nomeadamente com um familiar? Se há alterações progressivas no comportamento, se há comportamentos estranhos ou guardar as chaves no micro-ondas ou no frigorífico, todas essas alterações mais subtis, mais paulatinas, aí sim, é importante haver uma avaliação médica.
Por falar em avaliação, como é que é feito o diagnóstico?
Não há um único teste que faça este diagnóstico. Fazemos a história clínica, testes de memória, vermos se há alguma causa aguda, por exemplo, uma infecção urinária que esteja a justificar estas alterações de comportamento. E depois, claro, existem também exames de imagem que podem complementar este diagnóstico.
E quanto à predisposição genética que falávamos há pouco, doutora, quem é que deve fazer exames mais específicos?
Existe a possibilidade e até existem consultas de risco genético, quer no privado, quer no Sistema Nacional de Saúde. Mas devemos pensar é quando frequentemente temos famílias com muitos casos de demência e demência antes dos 65 anos. Aí sim, não sendo um destino, pode haver um risco e podemos intervir mais cedo.
E podemos fazer alguma coisa? Podemos fazer algo para prevenir?
Podemos. Existem inúmeras medidas que podem atrasar o aparecimento ou evitar, que é isso que nós queremos. E vamos a simples, como controlar a tensão, colesterol, a diabetes, tudo que temos falado aqui ao longo dos dias. Atividade física, dormir adequadamente, manter contato social, que nos esquecemos tantas vezes, e não é preciso fazer tudo de uma forma perfeita. Vamos cuidando disso ao longo da vida, sempre que possível, e isso é importante neste caso das doenças neurológicas.
Então, e as palavras cruzadas e os suplementos?
As palavras cruzadas são uma atividade agradável, tal como o sudoku, por exemplo, mas não substituem caminhadas, relações sociais e controlar os outros fatores que temos vindo sempre a falar. E em relação aos suplementos, não existe ainda nenhum suplemento que demonstre prevenir a demência.
Doutora, para terminar, qual é o conselho, a mensagem que gostaria de deixar para quem vive com este receio?
É importante perceber que a história dos nossos avós, dos nossos pais, merece atenção. Devemos conhecer a história médica, mas não escreve sozinha o nosso destino. E naturalmente, podemos conhecer o risco e o que isso nos dá. Dá-nos as ferramentas para podermos atuar naquilo que conseguimos atuar, já seja cuidarmos da nossa saúde cardiovascular, do sono. E depois outra coisa é não termos medo. Se sentimos nós ou vemos em algum familiar que exista alguma questão, alguma dúvida, devemos procurar ajuda.
Doutora Mariana Sobral, muito obrigada. Até amanhã!
Obrigada!