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Se eu passar por um televisor e está a dar uma prova dos Jogos Olímpicos de Inverno, eu de certeza que fico a ver.

Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", a vossa medalha de ouro da cultura popular, todas as semanas na telefonia. Olha a Joana! Joana, estou que te riço. Joana, diz olá às pessoas.

Olá.

Olá, Joana.

Olá, Joana.

A Joana está aqui, como nós todos, na telefonia e em podcast, com o Bruno Vieira Amaral e com o Pedro Bush Gimenez. E por que a Joana Stickini Vilela está cá? Porque a Maria Ramos Silva teve mais que fazer. Nós respeitamos e aceitamos. Joana, bom ano. Ainda não tínhamos falado aqui este ano.

Bom mês, bom dia.

Bem-vinda de volta. É bom termos aqui estes grandes atletas reunidos para um programa que vamos dedicar à alta competição na neve, porque vamos falar sobre Jogos Olímpicos de Inverno. Começaram no dia 6 de fevereiro, continuam até o dia 22 e acontecem em Itália, nas cidades de Milão e uma cidade que tem um nome interessante que é Cortina d'Ampezzo. Gosto muito de dizer palavras em italiano.

E dizes muito bem.

Achas?

Sim. Acontecem de quatro em quatro anos estes jogos, tal como a sua competição irmã mais velha, mas neste caso as modalidades são praticadas sobre a neve ou sobre o gelo. E neste século XXI, como acontece com quase tudo, também estes jogos estão transformados num espetáculo mediático, viral e muito pop. E é por isso que aqui estamos. Joana Stickini Vilela, não sei se tu és pessoa da neve. Abominável pessoa da neve.

Não é isso.

Pessoas que vão à neve.

Isso!

Eu nunca fui à neve.

Pronto.

Mas o Pedro de certeza que já foi.

Ele não se está a comprometer.

Mas já estive na neve, que há diferença.

Já fui à neve em Aspen.

Isso é mais do que ir à neve. Isso é ser a neve. É um com a neve.

Mas eu assim não vou acrescentar as minhas experiências com neve e com gelo, só para deixar o Pedro aqui com a-

O que eu quero saber é se tu gostas. Eu tenho vindo a descobrir que há mais gente interessada e a gostar e a ver, mesmo que seja pontualmente ou esporadicamente, estes jogos de inverno, do que eu pensava. Julgava que isto passava mais anónima pelo que as pessoas veem, mas afinal não. Tu és curiosa, gostas de ver, vês alguma coisa, tens algum tipo de relação com estes jogos?

Se eu passar por um televisor e está a dar uma prova dos Jogos Olímpicos de Inverno, eu de certeza que fico a ver.

Independentemente da modalidade?

Qualquer coisa.

Sim, senhora.

Algumas prendem-me a atenção durante mais tempo do que outras.

Claro.

A minha relação com aquelas modalidades, com quase todas, é um bocadinho como quem vai ao circo e está ali a ver um número exótico.

Sim.

Eu estou a ver trapezistas sem rede. Eu estou constantemente com medo que aquelas pessoas morram.

É verdade.

Naquele momento, eu acho que aquela pessoa vai se aleijar. Aquela coisa dos saltos.

Eu outro dia vi aqueles saltos que eles vão nos esquis, aquelas rampas gigantes. E eu primeiro estava a ver aquilo, como ao longo dos anos já vi imagens daquilo muitas vezes na televisão. Primeiro há um lado de: isto é normal. Já montes de pessoas fizeram isto. Mas depois eu parei pra pensar: eles vão muito alto e muito depressa.

Olha, eu estive a ver e o recorde do mundo, nas mulheres-

Tu estudaste para este programa.

Estudei. Eu estudo sempre.

Ok.

Exceto quando não estudo.

Claro.

Mas fui ver isso, porque estava muito curiosa. Até porque estavas a perguntar-me. Voltando, dando um passinho atrás, isto é uma coisa exótica pra nós.

Sim.

Ao contrário do Pedro, eu nunca fui à neve. Já estive em países onde naquela altura havia neve.

Por acaso estava lá neve.

Ouviste relatos da existência de neve.

Caminhei sobre neve, mas porque estava lá naquela altura. Nunca fiz aquela coisa de ir fazer esqui, por exemplo, nunca fiz esqui. E isto é uma coisa exótica, distante, mas sei o suficiente sobre neve pra saber que aquilo é gelo.

Da física do material.

Ou seja, nós achamos que a neve é sempre fofinha, não é?

Claro.

A neve é fofinha, mas depois aquilo tem gelo. Mas é uma coisa estranha, é uma coisa de hemisfério norte, bastante norte, ou pelo menos geografias diferentes das nossas. Associas a uma certa afluência, é preciso mais dinheiro pra fazer aqueles esportes. Embora imagine que alguém de um país, imagina, da Alemanha, olhe pro surf também como uma coisa super exótica.

Também há surf na Alemanha.

Há surf em todo o lado.

Não há praia na Alemanha.

Sim, mas estava a pensar na Alemanha.

Na Alemanha interior.

Um parêntesis pra minha vida privada. Tive duas amigas alemãs a ficar lá em casa que nunca tinham visto o mar, que moravam junto à Chéquia.

Estás a ver, Pedro.

E agora estava a pensar nisso. Mas quem mora na Chéquia, para uma pessoa que mora na Chéquia.

Podes dizer Suíça ou Áustria, que não têm mar.

Vamos dizer todos os países que não têm mar. República Centro-Africana.

Exato.

Agora és tu.

Lesoto.

Ui, está bonito.

Onde é que eu ia? Fui ver esta coisa dos saltos em comprimento, porque ia te dizer: este ano, e como tu bem dizias, estes jogos tornaram-se uma coisa muito pop por várias razões. Aliás, eu percebi que os Jogos Olímpicos de Inverno estavam a acontecer porque um amigo me mandou uma mensagem a dizer: "Já estás a par do assunto do dia?" E eu: "Não." Mandou-me um link para uma notícia sobre o penis skate, que é um rumor, mas que correu com grande intensidade nestes Jogos Olímpicos e que continua a ser acompanhado e já encontraram especialistas que dizem ter levado a cabo este procedimento em atletas, que é injetarem ácido hialurónico nos pênis dos atletas. Para alguém que não percebe nada da modalidade, isso parece tudo estranhíssimo.

Aerodinâmica.

É mais peso e estabilidade, não é? Uma coisa assim.

Sim. No fundo, tu percebes que naquele espaço, porque depois aquilo vai desinchar também, eles medem os fatos, fazem os fatos e aquilo é tudo medido ao milímetro. Este ano houve um atleta que foi desqualificado e que estava muito bem posicionado para ganhar a medalha de ouro porque tinha umas botas que tinham mais 4 mm do que o permitido.

Se há regras, é para cumprir.

Aquilo é uma mistura de vento com body mass index, índice de massa corporal, e por aí fora. E daí ter ido ver os recordes, muito rapidamente: nas mulheres, 230 e tal metros de distância.

Sim, de extensão do salto.

E nos homens quase 300. Há um japonês que esteve quase 10 segundos a voar. Imagina!

Por falar em homens que voam, Pedro Bochinimens, diz-me lá, tu vês estes jogos na televisão, isto é boa TV? Agora há um, não é novo, mas julgo que ainda não tinha acontecido com os Jogos de Inverno, que é, se vês HBO, podes escolher a modalidade que vês em direto, em diferido.

Tal como aconteceu com os Jogos Olímpicos de verão. Não sei bem como é que hei de responder a isso. Uma palavra que vocês jovens usam, que é o "shitex".

Vocês jovens. Sim. Obrigado.

Para aí nos anos 90, era capaz.

Acho que nunca usei a palavra shitex.

Estás num grande shitex.

Todas as modalidades desportivas e todos os grandes eventos desportivos, de torneio de Wimbledon, agora os Olímpicos de Inverno, estão a transformar em entretenimento.

É, não é? Não é só impressão minha.

O que não é bom, nem é mau. E deve-se muito ao facto de as mulheres, do público feminino, podemos dizer assim, se sentirem também envolvidas, engaged.

Achas?

Acho. Não só acho, como sei.

E é por isso que este programa anda para a frente.

O não sei quê, o Alcaraz é mais bonito que o não sei quem. Isto estou a falar de tenistas. Os Jogos Olímpicos de Inverno é mais fácil de assistir, porque temos uma espécie de complemento permanente nas redes sociais. E isso é um problema grave, que mais dia, menos dia vai ter que se resolver, não sei bem como, que é tu de alguma forma já não precisas de ver os eventos, as provas, porque sabes que tens os melhores momentos nas redes sociais. No outro dia, aquele acidente da esquiadora Lindsey Vonn. Eu vi, obviamente, no Instagram, não andei à procura na HBO, o que for. Qual é o problema dos Jogos Olímpicos de Inverno vis-à-vis os Jogos Olímpicos de Verão? Há menos rostos, porque eles têm sempre um capacete, uns óculos e não sei quê.

É por causa desses detalhes que este senhor está a me perguntar.

E há menos skin.

Claro, está frio.

Há muito menos corpo. Estava a pensar nisso.

Há menos pele.

Corpo à vista.

Pele, tatuagens, músculos.

Mas quando dizes problema, em que sentido?

São muito parecidos.

A gerar audiências?

Tu não consegues criar relações emocionais tão facilmente com a viseira de um capacete como consegues com o rosto.

Em princípio.

Certo?

Certo.

E vocês não comentam, desculpem interromper, nos Jogos Olímpicos de verão, não comentam: "Olha-me este levantador de pesos, olha para o corpo dele, olha esta tão magrinha." São tudo comentários, aqui.

Sim. A Fórmula 1 é uma curiosa exceção, acho eu, porque eles também estão de capacete. Mas tu não consegues bem ter a ligação emocional com o atleta enquanto ele está com aqueles óculos e capacetes.

Mas isso depois também depende da modalidade.

Na patinagem artística vês perfeitamente os rostos.

Na patinagem e no curling.

E os garotos. No outro dia até estava a ver com os miúdos e parávamos quando eles estavam a rodopiar, porque fazem umas caretas quando estão no ar, os patinadores. E aí vê-se perfeitamente o rosto.

Certo, mas espera, eu ia completar. Há os Jogos Olímpicos de Inverno, de capacete e viseiras e óculos. E depois há outras modalidades, que são em menor quantidade, que são nomeadamente o curling e a patinagem artística, em que tu de facto consegues ter um envolvimento diferente com as figuras. Com as pessoas que são figuras. Mas eu acho que na nossa cabeça, na nossa mente, são coisas diferentes. Ou seja, é como se as provas de curling e de patinagem artística não pertencessem bem à mesma ordem de sentido.

Percebo. E já vamos falar do curling daqui a nada. Bruno Vieira Amaral.

Felizmente.

Sim, claro. Isto não é uma ideia geral, é só uma coisa que eu penso. Por haver estas modalidades, teres ali pessoas no meio da neve e gelo e no outro dia aquela coisa os shows tiveram que parar tudo, porque não parava de nevar, terrível. Ou seja, estas pessoas estão a lutar contra os elementos.

Estão, mas nos Jogos Olímpicos de verão também estão.

Mas achas que é contra o ar da mesma maneira? Dá-me a ideia que aqui são mais guerreiros.

Não, eu não concordo.

Não achas?

Eu vejo aquilo, parecem uns vikings.

Linhadores. Eu penso em linhadores e caçadores que vivem

São o Robert Redford naquele filme "As Brancas Montanhas da Morte", depois tem que sair para caçar alces.

Ok.

Tem o biatlo.

O biatlo é isso.

Qual é o biatlo?

Biatlo é esqui e depois tiro.

E o tiro, que vão com a espingarda às costas.

Às costas.

Se chamava patrulha militar.

Era o nome original?

Era, porque tinha a ver, de facto, os tipos vão patrulhar.

Claro.

Sim. Certo, estou contigo.

E depois transformaram aquilo num desporto. Aproveitaram.

Já que temos estas informações.

"Faz-nos falta aqui um desporto para completar o programa dos Jogos Olímpicos de Inverno." Há uma questão que é muito importante: os Jogos Olímpicos de Inverno são muito menos universais do que os Jogos Olímpicos de Verão. Têm muito menos variedade, para além de menos corpo à mostra, mas muito menos variedade geográfica e cultural.

De modalidades também.

E de modalidades. O número necessariamente mais limitado. Mas a tua pergunta era?

A questão é: fico com a sensação que talvez estes jogos sejam mais épicos. E depois não se passam num estádio. Não é aquela coisa fechada com uma bancada. Quer dizer, algumas coisas acontecem em recintos fechados.

Isso torna mais épico.

Os Jogos Olímpicos de Verão são muito mais espetaculares.

E são muito mais épicos, até pela questão do estádio.

Mas eu percebo o que o Tiago diz. Estás no meio da floresta.

Eu não, obrigado Joana.

Mas eu também sinto isso, se calhar por ser um ambiente tão estranho.

É que não parece jogos que se passam na natureza, é isso.

Desculpa, parece, acho que foi o Bruno que disse que parecem jogos sem fronteiras. Aquilo parece meio parvoíce. Não escreveste isso?

Sim. Mas é.

Os Jogos de Inverno é o que?

Tu escreveste que são uma parvoíce?

Não, eu é que digo. Tem um lado de parvoíce.

Mas tem um lado de: "Olha este desporto aqui, carregar baldes de neve." Imagina.

Mas então como é que explicas que haja interesse e um interesse cada vez mais crescente?

Porque tudo, vamos lá ver.

Porque há mais interesse sobretudo-

Qualquer desporto que exista em que tu tenhas alta competição, vais ter sempre excelência. Para fazer aquilo é preciso seres excelente. E às vezes nós só nos apercebemos do que é necessário para atingir essa excelência quando somos confrontados com ela. No outro dia estava a ver a prova de slalom gigante feminina e aquilo é decidido por milésimos.

Sim.

E eu disse: "Quase todas conseguem o mesmo resultado, é porque aquilo é relativamente igual para toda a gente." Mas depois mostraram as esquiadoras que ficaram abaixo do lugar 30, onde estava uma portuguesa, que acabou em 41º, e depois vês que a diferença para algumas era 12 segundos, ou seja, a descer é uma coisa de dois minutos. E depois a veres como elas executam aquelas manobras, aquilo é preciso seres extraordinário. E isso é válido para os desportos de inverno e para os desportos dos Jogos Olímpicos.

E assim sendo, tu vês? Ou vês se tiver-

Vejo. No outro dia fiz questão de ver mesmo aquela prova de patinagem artística com o Ilia Malinin, que era a grande figura dos Jogos Olímpicos, o autodenominado Quad God, ou Deus dos Quádruplos. Vi e estive a ver do princípio ao fim essa-

Quad God é um grande nome.

Quad God. Ele próprio diz que é. E vi outras competições e dei por mim a estar à noite e a pôr na Eurosport, que está a transmitir também para Portugal, e a ver competições com total desconhecimento, quer dos atletas, quer das regras, em muitos casos, e isso também é interessante.

Mas tem havido uma grande preocupação de gerar emoção. Parece que os atletas que interessam são aqueles a quem o pai morreu ou tiveram uma lesão grave.

Isso faz parte muito do dispositivo televisivo, não é? Como aqueles concursos de talentos, por exemplo.

Sim, mas faz parte na medida em que nós precisamos, pelos vistos, nós precisamos e não sabíamos, nós humanidade, precisamos que tudo tenha uma história, tudo implique uma história. Não basta saber esquiar, é preciso também ter tido um pai que morreu.

E para te identificares com os atletas e para estares a torcer por algum. A minha regra é muito simples: eu estou sempre a torcer por aquele que está a competir no momento, que é para ultrapassar os outros. Normalmente aquilo são por secções: vai primeiro um, 10, para ver quem é que faz o melhor tempo. Eu estou sempre a torcer por aquele que está a competir naquele momento, que é para ultrapassar. O tempo todo isso é uma história.

Olha, eu sigo a conta da Giorgia Meloni, que é a primeira-ministra italiana. Aquela que o jornalismo português disse que era fascista, não sei se te lembras. Eu sigo sempre essa conta porque ela festeja muito as vitórias dos italianos e tem imensa graça e imenso jeito para o fazer. Portanto, aconselho vivamente.

E fica aqui a dica, meus amigos. Final da primeira parte do "Pop-Up", nós voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop-Up" com Bruno Vieira Amaral, Pedro Boucho de Mendes e esta semana também com a Joana Stichini Vilela. Estamos aqui a conversar sobre os Jogos Olímpicos de Inverno, evento que também faz parte da cultura popular, caso não tenham reparado. Joana, há bocado começámos aqui a falar de algumas modalidades mais especificamente. Será a patinagem artística a modalidade mais dramática, a mais espetacular?

Não sei se é a mais dramática ou a mais espetacular, mas é a única que eu me lembro de ver desde miúda, porque também no segundo canal, na RTP 2 ou no Canal 2, foi mudando de denominação, passavam sempre os Europeus e os Mundiais e eu sempre adorei ver aquilo.

Daquelas coisas que o Pedro dizia que eram muito irritantes, não é?

Como o hipismo.

Não, a patinagem artística.

Eu adorava ver aquilo, ainda hoje gosto muito. E depois irritavam-me muito os comentários das duas senhoras, que eu acho que ainda são as mesmas e que estão na Eurosport, mas que eram antes do segundo canal, e eu fui ver se encontrava os nomes. E eu peço imensa desculpa se não forem as mesmas, porque elas sabem imenso, que é a Fernanda Fernandes e a Helena Gouveia. Porém, os comentários eram, por exemplo, tu estás a ver aquilo, tens sete anos, oito anos, 12 anos, estás a ver um par de patinadores da Bielorrússia a fazerem aqueles tríplos disto e daquilo e fazem coisas extraordinárias. E ela assim: “Uma prova razoável da dupla da Bielorrússia, subiu com alguma elegância, mas esta música é muito usada, não há originalidade na escolha do tema musical e não sei se reparaste, aquela aterragem, ela pousa no chão.”

Eu ia dizer, tu viste aquilo e achaste que é uma coisa sobre-humana.

Eu acho. Eu sou muito impressionável.

Joana, diz-me uma coisa, tu consegues perceber quando estás a ver uma dessas provas, se aquele salto foi bem executado? A não ser quando eles caem e aí percebe-se que não foi. Consegues perceber?

Algumas coisas dá para perceber, sobretudo se vires um logo a seguir ao outro. Agora outros não, claro que não percebo nada daquilo e acho aquilo tudo extraordinário. E às vezes, aliás, gosto por causa da música, mas é a mesma coisa se estiveres nos Jogos Olímpicos de Verão.

Os figurinos.

Os figurinos.

Sim, a ver a ginástica.

A ver a ginástica, aquilo parece tudo também, quando estão a fazer o solo e saltam quatro metros e tu ficas: “Como é que estas pessoas saltam quatro metros de altura?” Portanto, eu acho isto tudo uma coisa que mexe muito. Este ano houve, como o Bruno disse, este fenómeno, não lhe vou chamar fenómeno, mas esta situação do Ilia Malinin, que se tornou o primeiro atleta a fazer o primeiro quádruplo Axel, como fez aquele mortal.

O backflip à retaguarda.

O mortal à retaguarda, que antes era proibido, e ele aterra só num pé e ali torna-se um semideus. E que depois tem o epílogo perfeito para a ficção, que é: o tipo vai-se completamente abaixo. Ou seja, ele num dia está lá em cima, no outro está lá embaixo.

Foi uma grande história.

É uma grande história.

É uma grande história, era o super favorito.

Ele depois fala de uma forma bastante cândida sobre aquilo, ele diz: “Eu não aguentei a pressão, eu não estava em mim, eu perdi o controle.” E eu acho que aquilo de que nós nos esquecemos, e tirando o curling, que de facto é uma modalidade que eu acho muito curiosa.

Já vamos a isso.

Não entendo, mas acho que tem a ver, se calhar, com uma falha cultural minha. Prefiro pôr-me nessa posição. Tudo aquilo me parece extraordinário. E eu estou contigo, ver aquelas pessoas a esquiar, a força que aquilo deve fazer naquelas pernas a descer.

Eu acho aquilo fantástico.

A velocidade, o impacto. Acho aquilo tudo incrível. E depois está frio.

Pois é, imenso frio.

Não é o nosso ambiente.

Não faz sentido.

Para mim, eles são sobre-humanos. E faz-me lembrar: estas são pessoas que treinam muito, levam atrás equipas que dependem delas financeiramente também, e não só emocionalmente, estão ali todas a torcer por elas, e depois hoje em dia o mundo inteiro. E depois chega ali naquele instante e isto, que é um exercício acima de tudo de controle, como o Bruno dizia também, quem está no topo, eles são muito parecidos, não têm grande diferença em termos de performance, é o momento que tens de te controlar naquela altura.

É a precisão.

E o tipo falha.

Claro.

E isto faz-me lembrar outra história, e estas imagens são imagens de filme, de um que estava a fazer num slalom, que era também o favorito, e tinha uma história destas que o Pedro fala, é a única que me chegou, que era o avô dele tinha morrido fazia anos no dia em que tinham começado os Jogos Olímpicos. Ele estava super bem posicionado para ganhar o ouro. E ele está a descer e faz um erro que é aquelas estacas.

Sim.

E ele pisa uma estaca. Pronto, e é desqualificado.

E bastou.

E a reação dele é: ele atira os bâtons pelo ar, tira os esquis e começa a caminhar na neve, a sair da pista, e tu vês, ele cai e depois levanta-se, ele quase não consegue andar, porque tu vês quão pouco natural é aquele ambiente.

Exato, aquele ambiente.

E ele só queria sair dali e deita-se no chão ao pé do bosque. Ele diz: “Eu só queria estar sozinho, mas de repente era só polícia à minha volta e fotógrafos à minha volta, e eu só queria estar sossegado, porque eu queria sair daquela coisa.” E tu vês ao lado dele, ele não consegue escalar porque há uma vedação, mas é só árvores e uma floresta. E ele pôs-se ali deitado no chão a pensar na vida, a pensar: “Falhei.”

E vou caçar um alce.

Porém, Pedro Boucherie Mendes, a esta questão do curling. Tu tens algum fascínio?

Só dizer que o país dominador dos Jogos Olímpicos de Inverno desde sempre é a Noruega, que é um pequeno país.

E este ano também.

Sim, este ano também.

E este era norueguês, este jovem.

Portanto, a Noruega tem infinitamente mais medalhas de ouro ou de ouro

Do que qualquer outro país, incluindo os Estados Unidos ou a China. O que é interessante. Parece que os Jogos Olímpicos de Inverno têm a ver com os jogos de inverno que havia, militares, uma coisa assim.

Não será muito a cultura deles? Isto faz parte da cultura deles. Como os miúdos aqui jogam à bola, eles vão com a família.

Lá imensa neve têm.

Sim, mas a verdade é que-

E também têm muito dinheiro.

Sim, mas a verdade é que outros países, também com uma cultura própria, não são tão dominantes. O curling tem um lado muito cômico.

Para já explicar às pessoas que o curling é aquela modalidade em que alguém atira uma pedra circular muito pesada e há umas pessoas que parece que estão a varrer à frente para aquilo deslizar.

Deslizar ou não deslizar.

Ou não deslizar, claro. Para controlar.

Tem aquele lado cômico e cria uma enorme ilusão de competência, de que nós também seríamos capazes de agarrar num daqueles negócios.

Seria possível.

Há sempre aquela fantasia. Imagina que nós estávamos ali a assistir e lesionam alguns jogadores, eles chamam alguém, um de nós vai.

Não, eu concordo. Eu já vi imagens daquilo e já pensei várias vezes: "Uau, adorava experimentar fazer isto".

E provavelmente convenço-te que serias bom. Há sempre aquela estatística, não sei se vocês apanham de vez em quando, eu apanho muito, que é mais de metade dos homens da população americana acham que conseguiriam aterrar um Boeing.

Essa é a narcisia.

É a ilusão da competência.

Muito bom.

Aliás, eu não sou homem, mas tu escapas a esta estatística.

Eu não tenho essa ilusão.

E o curling cria também uma dimensão humorística associada à ignorância. Nós, pessoas, quando não compreendemos um fenômeno ou queimamos, como se queimavam as bruxas, ou então desatamos a rir, a gozar, que é uma coisa própria da ignorância, obviamente, irrita-me que o curling seja tão abordado pelo lado divertido e menos pelo lado eventualmente sério que possa ter.

O que é que te irrita?

Seria a mesma coisa que a Noruega, imagina, gozar com o nosso hóquei em patins.

E até é muito provável que gozem. Não achas que os outros países, por exemplo, os americanos, olham para o nosso hóquei patins e não achas que eles acham aquilo perfeitamente ridículo?

Não, eles também têm.

Têm o hóquei?

Não, não acho.

O Kaká também não acha.

Sinceramente.

Eu acho. Basta ver como eles olham para o soccer. Para já é uma coisa de miúdos pra eles.

Quem, desculpa?

Os americanos.

Agora, isso já passou.

Discordo.

O quê? Como é que isso já passou?

Só acabar o curling. Aquilo deve exigir, digo eu...

Não passou.

Eles já gostam de futebol.

Vamos ouvir o final da argumentação.

Não, só o Bad Bunny.

Vamos ouvir o final da argumentação do Pedro sobre o curling.

Sim, Pedro. O curling.

Que nojento! Está muito nojento.

O curling deve obrigar a ter um nível de skill, de preparação semelhante.

Como qualquer outro, claro.

Irrita-me que em Portugal esteja sempre a usar o curling como refúgio cômico. Ou seja, como eu não percebo nada daquilo, então eu vou gozar com o curling. É só isso que me irrita.

É só porque, e aqui faço a ligação para-

Mas não quer dizer que tenhas de acertar

...para a pergunta seguinte, que é: é daqueles momentos que têm um lado meio exótico, porque só vemos nestes momentos que é um tipo atira um calhau e depois há dois tipos a varrer uma coisa à frente e aquilo é assim meio esquisito.

Mas claramente o tipo não atira um calhau. Claramente tu percebes ao olhar para eles que eles sabem o que estão a fazer.

Obviamente, mas isto é uma análise preguiçosa e lamentável.

Precisamente.

Mas temos aqui o representante da Federação Portuguesa de Curling.

Olha, devo dizer que o Campeonato Nacional de Curling se realiza no Canadá, onde há as comunidades portuguesas e existe um campeonato nacional de curling.

Ora, cá está. Muito bem.

Mas a origem do curling, já agora, é da Escócia.

Portanto, faz isso aquilo que saia. Bruno Vieira Amaral, vamos lá ver.

Vamos.

Escreveste um texto, foi publicado aqui há poucos dias, foi publicado no Expresso.

Na Tribuna.

Na Tribuna, que causou alguma agitação. Uma agitação que terá começado pelo título.

Claro.

E que não sabemos se prosseguiu pelo texto.

Pois, eu creio que não. O título do artigo era: "Brancos a praticar desportos esquisitos". Não teria gerado tanta agitação se tivesse posto ricos a praticar desportos esquisitos. Mas eu já lá vou, qual é que era a tese central do artigo. Ele tinha uma tese.

Como, aliás, tudo aquilo que tu pensas.

Claro, obviamente.

Exato.

Deixa-me dizer, antes de tu me teres alertado para a agitação.

Eu senti alguma agitação on-line.

Pronto. Eu só tinha uma ideia do que se estava a passar.

Não, e não foi só isso, foi também um ouvinte chamado Pedro Tavares, que nos mandou um e-mail a falar sobre os jogos de inverno e para esta questão de que estaria a ser abordado um texto teu e que seria interessante também ouvir a tua opinião.

Claro. Certamente, não só por isso, não só pelo texto, mas porque é sempre importante ouvir a minha opinião.

Ora bem.

Eu só tive conhecimento desta agitação porque houve um simpático leitor que mandou uma mensagem a chamar-me racista, a dizer que vou perder o meu tacho no "Isk té", coisa que eu não sabia que tinha, um tacho no "Isk té", tenho que descobrir. E porque um amigo mandou um print.

Não foi o Ruben?

Não foi o Ruben, foi outro. Eu tenho mais do que um amigo. Mandou-me um print de uma publicação de alguém ligado a um partido político, que explicava o racismo do meu artigo com o meu fenótipo. E então dizer: "Este gajo tem aspecto de não sei o quê. E então é por ser que ele é racista contra os brancos". Quanto à substância do artigo, a tese central é de que os Jogos Olímpicos de Inverno É um daqueles raros momentos em que nós podemos fazer uma espécie de inversão do orientalismo. Daquele olhar que normalmente os ocidentais lançam sobre outras culturas.

Lá está, consideradas exóticas.

Exóticas, aquilo que a Joana estava a dizer na primeira parte. Nós, e eu estou a falar de nós, portugueses. Eu estava a falar de países brancos e desenvolvidos. Os Jogos Olímpicos de Inverno não têm só brancos, também têm muitos asiáticos e cada vez mais, sobretudo a China é uma potência, mas há uma homogeneidade racial que não existe, por exemplo, nos Jogos Olímpicos de Verão. Existe também uma associação entre países muito desenvolvidos e a prática destes desportos. Portanto, eu não estava a incluir os portugueses em nenhuma das categorias, nem na dos brancos, nem na dos países desenvolvidos, só para deixar isto bem claro. Mas nós, que estamos um bocadinho afastados, fazemos parte do Ocidente, mas somos um pouco periféricos e nesta coisa dos Jogos de Inverno somos completamente periféricos, olhamos, de facto, para isto como coisas exóticas. Não só no curling, do biatlo que estávamos a falar, mas mesmo os restantes desportos são coisas que nos são estranhas. Mas olhando para o curling: o curling é uma espécie de petanca. Imagina que a petanca ou a malha, a nossa portuguesa malha, imagina que isso era um desporto olímpico. Claro que há pessoas que seriam extraordinários atletas de malha, mas nós, é inevitável, como não estamos familiarizados, não temos o clima, não temos as temperaturas negativas e não temos também os rendimentos para praticar a maior parte destes desportos, é normal que olhemos com alguma distância que por vezes adquire esse, não sei se chamaria cômico ou irônico, é uma distanciação: "Não percebo nada disto". Mas esse também é um dos bons motivos para ver os Jogos Olímpicos de Inverno. É, de facto, tu não estares bem por dentro daquilo. E tudo é novo. Há uma grande carga de subjetividade na patinagem artística, não nas questões de velocidade, mas na patinagem artística, em que há uma nota artística para aquilo que eles estão a fazer. Portanto, tu ficas sempre sem perceber bem o que é que se está a passar. Mas muitas das regras da maior parte destes desportos, como os próprios desportos em si, são-nos desconhecidas. Então nós estamos sempre a olhar para aquilo com uma perspectiva do exótico, olhar para algo que é completamente alheio.

Tal como aquela modalidade cujo nome eu não me recordo, que eles se atiram para cima daquele trenó que eles escorregam.

Os bobsleigh.

Há um que é o luge. Luge é sinônimo?

Bobsleigh.

Luge.

Luge e há um que é o skeleton. No skeleton eles vão de barriga para baixo e cabeça para frente e o outro vão deitados para trás.

Acho extraordinário.

Que é o luge. Nesse em que eles vão deitados com a cabeça para trás, atingem os 150 km/h de velocidade.

Extraordinário. Aquilo é fascinante.

Por falar destas coisas exóticas e das histórias, há mais do que um filme sobre essas questões.

Da equipa jamaicana.

Dos jamaicanos e há aquele do Eddie the Eagle, que era o tipo que fazia os saltos de esqui. Portanto, há aqui um lado, de facto, de estranheza, de exotismo. Basta comparar o hóquei no gelo.

Sim, mas se fosse durante um minuto ou dois, tudo bem.

É constante.

Mas isto é prolongado. Isso é só ignorância, é só isso, mais nada. É como: "Os americanos são todos gordos". Não, os americanos são a nação mais incrível que alguma vez existiu. Não são todos gordos. Acontece muito em Portugal.

Qual das tuas duas afirmações não é subjetiva?

Espera, não sei se nos outros países. Deixa-me só acabar. Não sei se nos outros países é a mesma coisa, mas nós em Portugal somos muito apressados em ver um lado em que nós podemos ficar por cima e gozar. E isso é fruto do nosso imenso complexo de inferioridade em relação aos outros e da nossa ignorância. É só isso. E o curling é só mais uma ilustração disso.

Bem, meus amigos. Joana.

Sim? Não sei o que é que tu me estás a contar ainda.

É o tema polémico, o curling.

Não, sabes que, na verdade, o que eu queria saber mesmo é uma coisa que não tem nada a ver contigo. Queria saber, Pedro, tu já fizeste esqui?

Já.

Como é que é?

É o que é, tens que te equilibrar para não cair.

Mas é difícil?

Ao fim de algum tempo vais aprender.

É que eu nunca fiz. Não sei se vocês já fizeram.

No fundo, aquilo é descer, como já deves ter reparado. E, portanto, tens que aprender primeiro a travar, não é? Caso ganhes velocidade, embalo, podes ir contra um pinheiro e morrer.

Pois.

Como vemos nos filmes do James Bond. Há um, aliás, que é passado em Cortina d'Ampezzo, com o George Lazenby.

Ah, é?

Sim. Que tem umas cenas ótimas de esqui. No fundo, o esqui é manteres-te equilibrado e saber parar.

Mas é difícil?

Para o Pedro, nada. Não é fácil nem é difícil.

Tiveste medo? Aquilo mete medo?

Assusta? Não.

Tu consegues andar de patins? Não sei se alguma vez tive a oportunidade.

Sabes que há vários tipos de pistas. Há pistas mais fáceis, pistas mais difíceis.

Elas têm cores consoante a inclinação.

Eu só usei um trenó. De criança.

Mas eu não sou muito fã da neve. Faz frio. É chato.

Sim.

Pronto.

Olha, eu posso dizer-te, não tendo esquiado, desculpa.

Não.

Mas ia só dizer, eu ando de patins de rodas em linha. A última vez que andei dei um tralho tão grande que nunca mais andei. Fiquei com o joelho do tamanho de uma papaia e tinha joelheiras, atenção.

Mas é difícil?

O que eu ia dizer só é: eu só andei uma vez de patins no gelo E achei até um bocadinho mais fácil que os outros.

Com as lâminas.

Porque tem mais-

Schladming é em Lisboa

Havia no CascaiShopping, por exemplo. Isto por acaso não foi em Portugal, mas era um lugar onde toda a gente ia, era o divertimento do fim de semana.

Foi no Rockefeller Center, não é?

Este por acaso foi na Áustria, foi em Viena de Áustria, versus Viana do Castelo.

Muito bem.

Mas tinha mais atrito, fazia mais atrito, que faz com que escorregue menos. Mas ia só dizer, daí eu ficar tão impressionada com isto, porque lá está, eu numa rampazinha de nada.

Não é só isso, é porque este país nunca vai ser nada nem ninguém nos jogos destes. Não temos qualquer tipo de desporto.

Eu não penso nada isso.

Achas?

Eu não tenho nada essa coisa.

Não, mas é questão da neve, é uma questão prática.

Mas olha, por exemplo, a Austrália investiu muito nos desportos de inverno e eles não têm quase sítios para praticar desportos de inverno. Investiram muito e este é o melhor ano da Austrália.

E estão a ter alguns resultados.

Estão a ter ótimos resultados. Tiveram três medalhas de ouro até agora, duas de prata e uma de bronze.

Porque nem todos os desportos necessitam mesmo de neve. Basta teres uma boa pista, por exemplo, para a patinagem de velocidade.

Isto foi o que aconteceu-

Ou a patinagem artística

...com o ciclismo de velocidade.

Exatamente, sim. Uma pista de Sangalhos.

Há uma pista de Sangalhos e o Iúri ganhou duas medalhas de ouro nos últimos-

O Iúri e o Leitão

O Iúri e o Leitão e os irmãos Oliveira.

Sim, basta investir. Não há razão para ter complexo de inferioridade.

Basta investir, meus amigos. É este o ensinamento que levamos daqui. Chegamos ao fim de mais um "PopUp". Já sabem, inscrevam-se para popup@observador.pt, mesmo que seja para pedir explicações ao Bruno Vieira Amaral. E continuem a seguir-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.