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Certos programas existem e são feitos de determinada maneira por algum motivo. E este aqui, que é o Price is Right, o Preço Certo, por acaso existe há décadas. As pessoas que fazem o Preço Certo devem estar a fazer bem para um programa ter tanta longevidade.

Sejam muito bem-vindos a mais um Popup, muito mais do que um programa de rádio. Este é um programa de valor cultural acrescentado, graças a estes vultos da intelectualidade.

Consegues sempre superar-me nestas introduções.

Isto dá imenso trabalho, tu não fazes ideia. Eu tenho uma base de dados. Não tenho nada. São eles, caso não saibam: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher de Mendes. E esta semana, além de graçolas, vamos falar sobre concursos na TV e não só. E vamos falar sobre concursos, porque houve polêmica, meus amigos. Mais ou menos.

Houve.

Houve. Estou aqui a tentar tornar isto suave. Aqui há coisa de duas semanas, a escritora Isabel Figueiredo escreveu uma crônica no Expresso sobre o concurso Preço Certo. Não era só, mas sobretudo questionando o valor do programa, a sua inclusão na grelha da RTP e a televisão portuguesa de uma forma mais ou menos geral, em alguns dos seus traços. Seguiram-se réplicas, reações, comentários, críticas, eventuais manifestações de apoio, também. Nós aqui estamos para debater o tema, que é o que nós gostamos de fazer, é para isso que aqui estamos. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. Não sei se o teu historial de espectadora televisiva tem concursos num cantinho bom do coração.

Não tem.

Não tem, pronto. Fica já esclarecido.

E eu a esta hora também é muito raro estar em casa.

Vidas difíceis, as pessoas é que não imaginam. Isabel Figueiredo levantou um tópico em particular, a questão do valor cultural nulo do Preço Certo. A minha pergunta, na verdade, são duas, que é: o que é o valor cultural de um programa de televisão e, neste caso, se te parece que de fato é nulo.

Olha, lendo a crônica toda, que eu acho que muita gente não fez isso, viu aquele quadradinho na rede social.

Como acontece com muitas pessoas.

Viu a cara de uma pessoa, viu uma frase.

Ou a notícia, também acontece com as notícias.

Tirou uma conclusão, chegou e sorveu.

E fez um juízo.

E fez um juízo. Mas já lá vamos. Eu acho que o que tinha muito valor, e aqui uma pequena censura, é chamar Lenca à Lenc e não Leica, como a autora lhe chama. Acho que a Lenc de alguma forma também tem o seu valor cultural. Penso que Vasco Palmeirim também foi visado. Não são indissociáveis, completamente. Também chama Vasco Valentim ao Vasco Palmeirim. Interessante, mas já podiam ter me dado aquilo online, não custava nada, mas se é para bater, ao menos façam algum trabalho de casa. Eu voltava, de fato, àquela questão da partilha nas redes, porque nós vivemos, parece-me, em dois desdobramentos ou subdesdobramentos da democracia. Um é a meteorocracia, porque nós estamos completamente obcecados com alertas, relâmpagos e trovões, e todos os nossos dias são preenchidos com as questões sobre o estado do tempo. A outra, obviamente, é a polemicocracia. Nós vivemos de polêmica em polêmica. Algumas as pessoas nem dão por isso, graças a Deus, é a sorte delas. Estão blindadas.

Em vez de vivermos de reflexão em reflexão.

Quiçá a ver o Preço Certo e, portanto, perfeitamente protegidas desta chuva, que também é muito intensa.

Estás muito poética este início de programa.

Estou a tentar dar valor cultural a este programa, como tu percebes muito bem.

Ora bem.

O que é que há aqui? Há uma opinião de uma pessoa, com a qual eu pessoalmente não concordo, mas acho que é só uma opinião de uma pessoa, que valida aquela pessoa. Ainda por cima, eu creio que a Isabel Figueiredo não está a candidatar-se a nada, nem sequer é candidata a presidente da República, pelo menos por agora.

Mas poderia ser e teria a sua opinião, é a mesma.

Certo, mas aí até admito que as pessoas questionassem, porque há obviamente aqui um julgamento que abrange aquilo que é, e que é perfeitamente debatível, que é aquilo que nós queremos para a televisão, nomeadamente para a televisão pública. O que é que gostamos que passe, o que é que achamos que faz sentido passar.

E todos nós temos as nossas teorias.

E todos nós temos as nossas convicções e, portanto, isso é perfeitamente discutível. Agora, o que eu acho que é, de fato, estrondoso e também é muito sintomático destes tempos, é que alguém tem uma opinião e passado dois segundos já há milhares de reações absolutamente inflamadas a crucificar alguém. Isso também não parece que seja propriamente saudável. Lá está, vivemos de polêmica em polêmica, vivemos nestas inquietações. De fato, mais vale estar em casa a ver o Preço Certo. Sobre o valor cultural, só voltando a isso. Não deixa de ser irônico que a própria autora na crônica diz que tem aquilo ligado, curiosamente, no Preço Certo, mas tira o som, aliás, passa boa parte do seu dia com a televisão com o som desligado. Podia simplesmente fazer zapping para a TV2, onde certamente encontra conteúdos mais próximos daquilo que são as suas preferências, mas prefere ficar a ver o Fernando Mendes e o Preço Certo. Portanto, acho também isso um detalhe delicioso no meio disto tudo. Se calhar, descansarmos, desligarmos um pouco a televisão e ficarmos um pouco mais calmos com tudo, também não seria mau.

Muito bem, Pedro Boucher de Mendes.

Este é um assunto que me interessa bastante.

Acredito, e por isso é que estás aqui.

Em primeiro lugar, há como que uma free pass. Como é que se diz? Uma autorização.

Sim. Livre-trânsito.

Quando nos referimos a nomes que estão abaixo de nós, que são beneath us, podemos nos enganar. O Vasco Valentim Tiago Oliveira.

Tiago Ferreira.

O Bruno Teixeira Amaral. Que é uma forma de desprezar.

Já aconteceu, não o Teixeira.

Tu dizes isso porque no teu nome ninguém se engana.

Não. E depois, o intelectual, seja quem for, virar-se contra a televisão também é um clássico. E é um clássico muito português. Eu ando agora de volta dos anos 90 por razões variadas e houve uma autêntica batalha entre jornais e televisão no tempo da SIC de Emídio Rangel, portanto no princípio dos anos 90 e depois ao longo da década, em que foram escritas laudas e laudas, tomos de crónicas a bater na televisão. Analisando, que é o que faz esta cronista do Expresso, analisando os programas de televisão pelos óculos de alguém que julga que percebe de televisão. Porque a televisão, como o vinho, a aguardente ou o calçado, tem uma sabedoria própria intrínseca. Podemos não gostar de sandálias, mas é preciso saber fazer sandálias. Certos programas existem e são feitos de determinada maneira por algum motivo. E este aqui, que é o "Price is Right", o Preço Certo, por acaso existe há décadas, portanto as pessoas que fazem o Preço Certo devem estar a fazer bem para um programa ter tanta longevidade. E isso escapou por completo à análise da cronista, que no fundo faz um texto, devia estar chateada com a vida, não sei, tem todo o direito. "Arranjei um tema fácil, um alvo fácil, vou aqui bater no Preço Certo" ou no que for. E é isso. Infelizmente, se calhar, esta cronista só tem um canal de televisão. Eu tenho cento e tal canais de televisão, além de ter internet e ter vários streamers, mas ela se calhar só tem um. E provavelmente alguém a amarrou à cadeira e estava obrigada a ver a televisão. A não ser, claro, que ela se tenha outorgado o papel de achar que sabe o que é o melhor para os outros. Que é uma tentação e é uma inclinação que muitos de nós temos, eu incluído, não me ponho de fora. Mas neste caso em particular, é um programa que durou há tanto tempo, o Fernando Mendes é tão popular no nosso país, e eu acho que foi isso que ajudou depois as reações, que talvez a cronista devesse ter refletido, mas será que no fim do texto, ou seja, escreveu aquilo como desabafo, vamos supor, e depois deveria ter lido e pensado: "Mas espera lá, mas não valerá a pena pensar um bocadinho mais sobre isto e pensar que tipo de fenómeno é que é este fenómeno do Preço Certo com o Fernando Mendes?" De facto, é um programa fenomenal. É um líder de audiências naquele horário, quase sempre, há muitos anos. É um programa que as pessoas em Portugal, sobretudo pessoas mais velhas, pessoas menos instruídas, pessoas do interior, têm como companhia e como ritual. Nos meus anos todos de trabalhar na televisão, a coisa que mais me espantou até hoje, e continua a espantar, é como é que os políticos não vêm falar conosco. Porque as pessoas da televisão conhecem o público. Nós conhecemos o comportamento do público. Dando exemplo, as audiências do Preço Certo variam se a hora muda ou não. Quando muda a hora, as audiências variam, porque se há mais luz solar.

Quando dizes muda a hora, é a hora de verão e a hora de inverno. Sim.

As pessoas passam mais tempo no exterior. Tu podes dizer: "Ah, mas isso é óbvio". Sim, é óbvio, mas as pessoas da televisão têm este tipo de noção que as pessoas ditas normais não têm.

Sim, não estão a pensar sobre isso.

Exatamente. Mas nós pensamos sobre isso. E os políticos e, pelos vistos, alguns cronistas, valeria a pena falarem mais com pessoas da televisão pra tentar compreender porque que as coisas são como são. Depois, no limite, podem todos chegar à conclusão que as pessoas da televisão são todas idiotas. Não digo que não. Mas existem motivos pra que as coisas sejam como são. Só pra acabar aqui do Preço Certo, o apresentador é tão idiossincrático que vêm vários países ver gravações do Preço Certo português, pra tentarem perceber de onde vem o fenómeno.

De onde vem o fenómeno.

Sim. Sei que em França era apresentado por um apresentador com um cão. Com um cãozito. O cãozito estava no platô também.

Adoro a expressão cãozito. Bruno Vieira Amaral, outra das questões tem a ver com o serviço público de televisão e até que ponto um concurso como este ou um programa como este faz parte do serviço público de televisão. E eu quero muito saber do teu juízo sobre esta questão.

Do serviço público?

Sim, e da inclusão deste tipo de programas. Se faz sentido, se não faz sentido.

Todos nós, acho que já nos aconteceu estarmos a ver um programa da RTP e dizer: "Epá, mas anda um gajo a pagar impostos para isto?" Já aconteceu com toda a gente. Acontece-me frequentemente quando no domingo à noite vejo aqueles programas de The Voice e similares. Pra que é que ainda se faz isto?

Mas isso é a mesma reação de quando vais pôr o lixo e o lixo ainda está lá.

Eu não quero pagar os meus impostos para isto. Mas isso tornaria virtualmente a discussão sobre o que deve ser ou se deve haver serviço público ou não.

Interminável.

Impossível. Se cada um for dizer: "Eu não quero que os meus impostos paguem isto".

Não havia.

Então não se fazia rigorosamente nada. Por isso é que votamos em partidos que apresentam programas.

E toma uma decisão.

Claro. E outros têm uma visão do serviço público de televisão. Eu acho que faz sentido a existência de um serviço público de televisão. E tenho as minhas ideias sobre o que é que deveria ser uma programação ideal. São ideias muito rudimentares, não são as ideias de alguém que conhece o funcionamento da televisão por dentro, mas sim, acredito que, por exemplo, um canal como a RTP um deve ter um serviço de informação de grande qualidade, deve investir na qualidade da informação. Ponho como prioridade, acima de outras todas, essa. Mas a aposta também na produção de ficção nacional, acho que é outra. Nem sempre vai correr bem, mas tem que se investir. Há um serviço, e eu acho que é o serviço público de televisão, que tem essa missão, deve ter essa missão, e depois também pedagógica no sentido mais amplo Eu acho que um dos problemas em relação ao serviço público de televisão é não se definir muito bem o que se quer do serviço público de televisão. É para competir diretamente com os outros canais, com os canais privados? Eu acho um pouco estranho que nós fazemos o zapping de manhã e os três canais generalistas têm o mesmo tipo de programas. Não estou a contar com a RTP2. O mesmo formato e à tarde também, mais ou menos a mesma coisa. Ora, eu acho que isso não faz sentido. E o contribuinte anda a pagar impostos para ter programas que a concorrência oferece?

Mas especificamente sobre o Preço Certo.

Sobre o Preço Certo. Uma coisa é nós pensarmos idealmente aquilo que deve existir ou não deve existir. E podemos pensar: concursos devem existir na televisão ou não? Tu dizes que sim, está bem. Então, que concursos? Concursos que ensinem as pessoas, sejam pedagógicos.

Que tenham alguma finalidade, exato.

Se for esse o caso, diz: "Então o Preço Certo não teria cabimento". Mas uma vez existindo o Preço Certo, existindo há tanto tempo, então olhas e dizes se aquilo cumpre ou não algum tipo de serviço público. Ora, eu acho que é inegável que um programa com aquela popularidade, em um canal que tem grandes dificuldades nas audiências, a não ser quando transmite futebol, na luta das audiências, da guerra das audiências com os outros canais, significa que há ali qualquer coisa que está a funcionar. Por isso é que eu não percebo. Eu percebo que tenha sido uma reação quase que cutânea, de uma impressão que causou à Isabela Figueiredo, estar a ver o programa naquele momento, e foi um desabafo. Mas eu concordo com o Pedro, se calhar devia ter pensado: por que este programa existe, neste formato, existe há tanto tempo e tem audiências? Bastava fazer uma pequena pesquisa para chegar a essa conclusão. E eu acho que cumpre o serviço público. Agora, não é um programa pedagógico para ensinar a somar as coisas.

Isso também é um pouco preconceito, a ideia de que o entretenimento não é serviço público. Eu acho que também é uma coisa perigosa. Não tem que ser tudo pedagógico, se calhar.

Façam só um favor, guardem esse pensamento, porque temos que ir para intervalo e já vamos recuperar essa ideia. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes, o painel que importa no comentariado português, se não sabiam. Esta semana estamos a falar do Preço Certo, dos concursos na TV, da televisão em geral e da nossa opinião em particular. Claro está. Maria Ramos Silva, tu estavas aqui a interromper. Interromper, não, peço desculpa.

A juntar uma-

A colaborar aqui no raciocínio do Bruno Vieira Amaral. Estamos aqui a discutir isto a partir de uma crônica de Isabela Figueiredo no Expresso, e tu falavas sobre como questionavas até que ponto o entretenimento não faz parte do serviço público.

Não, que as pessoas têm esse preconceito, achar que o entretenimento não deve ter lugar no serviço público. Penso eu que é uma das grandes questões. O Bruno falava deste ponto, que é nós termos quase uma visão, nós, ou seja, muita gente ter quase uma visão de que então a televisão pública deve ser um pouco papá, mamã, orientadora, pedagógica, formativa, e só faz sentido existir se souber como guiar e orientar os portugueses.

Se ensinar de alguma forma.

Isso parece uma ideia muito de Estado Novo, para ser sincera. Não me parece que possa tudo residir nesse ponto.

Mais do que de Estado Novo, parece de um tempo anterior, quando tu tinhas só dois canais de televisão, e eram os dois públicos, e não havendo outra escolha, era natural que houvesse essa missão pedagógica. Só para dar o exemplo da BBC. O John Reith, que acho que foi o primeiro presidente ou diretor do serviço da BBC, de mídia da BBC, tinha esta visão da televisão e do serviço, e também da rádio, deste serviço pedagógico, de os programas servirem para cultivar as pessoas, para levar cultura, conhecimento às pessoas. É uma visão que se calhar hoje já não faz tanto sentido ou não exatamente naqueles moldes.

Esta questão da BBC, por exemplo, quando começou a BBC televisão, eles não tinham notícias, porque se temia que a combinação de estarmos a olhar para a pessoa e ouvirmos a sua voz, pudéssemos, através das inflexões faciais e da voz, sermos levados a pensar que devíamos interpretar certos factos de uma maneira ou de outra. Ou seja, quem mandava na BBC tinha medo.

Parece ser um exercício muito complexo.

Tinha receio que o apresentador não fosse suficientemente neutro.

E curiosamente, já que falamos da BBC, e sim, é o tipo de coisa que me preocupa em estações públicas. Ainda há muito pouco tempo, não sei se foi semana passada, acho que ninguém quase deu por isto. Na BBC há uns dossiês que dizem que afinal, pasme-se, tem tido um viés de esquerda absolutamente brutal na cobertura do Médio Oriente, que também nem sempre trata a informação em relação ao Trump de uma forma absolutamente neutra. Portanto, eu acho que estas, de fato, são as questões relevantes quando nós falamos do serviço público.

A questão do que é o serviço público ou deixa de ser, também é interessante analisar porque reflete a qualidade cultural e artística, e até debatente de um determinado país. Eu acho que nós vamos falar também das perguntas dos concursos Quanto mais um país for rico em discursos que circulam e houver mais debate e mais generosidade, que é uma coisa que me parece que não existe em Portugal, melhor será o serviço público. É tão simples quanto isso.

Não puseste a bola, Pedro Mexia Mendes. Eu queria saber, tu que sabes umas coisas sobre isto. Falamos aqui de concursos, no caso o "Preço Certo", que é um fenômeno da televisão há várias décadas da televisão portuguesa, não só, mas aqui da televisão portuguesa. Que peso têm os concursos na televisão portuguesa? Antes do programa, dizias que já houve mais concursos. Quer dizer que têm menos peso? Por que há menos concursos?

As respostas em televisão são quase sempre: há menos concursos, porque tem havido menos concursos.

É tautológico.

Tem a ver com fluxos, tradições. Depois podes ir ao ovo e à galinha. Mas, por exemplo, em Portugal, os prêmios pagam imposto. Estamos aqui a decidir um concurso de televisão em que o prêmio maior são 100 mil euros, imagina. A esses 100 mil euros têm que ser adicionados, julgo que 35% de taxa liberatória de IRS.

Mas quando tu dizes o prêmio, é aquilo que a pessoa vai ganhar?

Tem que te dar 100 mil euros a ti e mais. Não vamos fazer isso.

Custa dinheiro.

Porque é preferível gastar esse dinheiro do imposto, se calhar, noutra coisa. Também não estou com isto a dizer que deveria ser de outra maneira.

São factos.

Pronto, são factos. Depois, os concursos atraem alguns tipos de concorrentes, antigamente conhecidos por papa concursos.

Exato.

Porque num programa de televisão, os protagonistas, o apresentador, que é alguém bastante bem pago, com treino e com provas dadas, tem que conviver com alguém que se calhar nunca viu uma câmera de televisão. E nem sempre essas pessoas, e eu acho que as pessoas em Portugal, e em geral, são pessoas contidas, arriscam pouco, são pouco divertidas, são tímidas. Nós não damos, em geral, grandes concorrentes de televisão.

Não somos boa televisão.

Tanto que quando temos às vezes aqueles que têm a mania que são engraçados, não sei se já alguma vez pensaste sobre isso.

Isto é uma indireta?

Não, também são um problema. Esses concorrentes que têm a mania que são engraçados, são problema, porque depois entram em uma espécie de espiral de engraçadismo, porque secretamente sempre acharam que deviam trabalhar na televisão ou são comunicadores.

E de repente têm um palco.

E a namorada disse, e a mãe disse, "tu devias era estar na televisão", não sei o quê. Isso são temas que perturbam-

O funcionamento do programa.

Ou seja, eu posso querer fazer um programa de televisão em Portugal sobre tipos que fazem espadas, como há na América. Uns tipos que fazem espadas, tipo ferreiros.

Sim, é verdade.

Mas se não existirem ferreiros em Portugal, se eu não tiver concorrentes, não dá para fazer o programa. E nos concursos existe um pouco isto. O concorrente médio português tem que querer participar, tem que enviar o cupom, não sei se ainda se envia cupons ou se são recrutados de outra maneira. E depois tem que dar uma televisão razoável, ou seja, tem que ser um concorrente que as pessoas em casa, com os quais se identifiquem, com o qual empatizem.

Por isso é que se calhar agora um dos grandes sucessos da televisão portuguesa é um concurso com famosos, porque é previsível o que vai acontecer?

Os concursos tendem a ser com famosos, porque os espectadores os conhecem.

Claro.

Portanto, a adesão existe. Hoje é, não sei, um famoso qualquer, o Jorge Corrula, imagina. Vou usar o exemplo de um ator. E então eu agora quero vê-lo. Este Jorge Corrula, se calhar, não é assim tão esperto.

Vamos lá ver o que ele faz.

O que é que ele vale nas provas, o que é que ele vale nas perguntas. Como é que ele é ao levar com um ovo na cabeça. Esse valor de ridículo também faz parte e neste momento há uma espécie de jogo coletivo entre famosos e público, em que os famosos se predispõem a fazer certas figuras, para usar uma expressão popular que eu não costumo usar, a troco de popularidade e de cachê, de dinheiro.

Claro.

São bem pagos. Tens o exemplo do Cândido Costa, que era um antigo futebolista, que ascendeu a figura pública, porque de fato é um tipo engraçado. Não é só engraçadismo.

Funciona bem em televisão.

Pronto, em resumo. Obrigado.

Bruno Vieira Amaral.

E agora as marcas, desculpa, e fazem imensas publicidades com marcas, porque curiosamente, ou talvez não, as pessoas das marcas também veem a televisão. Apesar de ninguém ver televisão em Portugal.

Exato. Bruno Vieira Amaral, tinha aqui esta pergunta pra te fazer mais pro fim, mas estou muito curioso, portanto vou avançar com ela, que é: fizesse tu um top de concursos da televisão portuguesa mais marcantes e que títulos é que tinha esse ranking?

Não queres fazer a outra pergunta? Mas se for outra eu respondo até esta. Eu respondo com todo o gosto. Há vários programas de concursos que marcaram e que têm a ver muito com a infância. Eu acho que concursos como "Um, Dois, Três", o "Palavra Puxa Palavra", o "Casa Cheia", a "Arca de Noé", "Família Contra Família", não sei se chamava assim, também era apresentado pelo Fialho Gouveia, que punha famílias umas contra as outras. Houve uma série de concursos.

Olha a pedagogia.

E houve o "A Visita da Cornélia", mas vocês não sabem.

Esse é mais antigo, mas daqueles de que eu me lembro. Até havia um com uma grande personagem hoje esquecida, o Júlio Montenegro, não sei se lembram dele, que era da RTP Porto, que era um concurso que aquilo era uma coisa meio já virtual, em que andavas com umas setinhas. Não se lembram disso?

Ah, tem razão.

O "Jogo das Cartas" também, com o Nicolau Breyner.

Sim, o "Jogo das Cartas", com o Nicolau Breyner, um com o Rui Mendes, mas isso não era bem um concurso.

O próprio Luís de Matos apresentou concursos, creio eu.

Sim, também acho que sim.

No fundo, era responder a perguntas.

Houve uma série de concursos.

De facto, havia muitos concursos.

Eram muito presentes na programação. Ou seja, na programação havia as telenovelas, a informação e havia os concursos.

E destacar conhecimentos também era uma coisa da época. Era uma coisa muito marcante que se perdeu.

Não havia zapping. Porque o problema dos concursos é o zapping.

As pessoas não tinham o telemóvel pra ir ver se estava certo.

O problema actual dos concursos é o zapping.

Mudar de canal e depois voltar.

"Quem é que escreveu O Deus das Pequenas Coisas? Arundhati Roy, Zadie Smith, Bruno Vieira Amaral ou Tiago Pereira?" O espectador médio português-

Vai dizer Tiago Pereira.

O espectador médio português, perante esta pergunta, fica 10 segundos?

Sim.

E depois: "Sabe lá quem é que é".

E muda.

Mas os concursos têm essa particularidade e por ser que funcionam tão bem, é que facilmente o espectador se põe na pele do concorrente.

Mas há um limite de tempo pra isso.

Não digo só nesses. Se fosse eu, eu ponho-me facilmente na pele do concorrente, mesmo que seja daqueles concursos para fazer alguma coisa, não para responder uma pergunta.

Quantas bolas consegues pôr no...

O que eu faria, eu seria capaz de fazer isto. E isto é televisão relatable. Não sei se existe relatable TV.

Passa a existir.

Passa a existir. Tu pôs-te facilmente no lugar daquele concorrente e é por isso que os concursos têm esse apelo. É inevitável. Experimentem ver. Eu de vez em quando vejo, não sou espectador frequente, mas às vezes estou em casa, até estou com os miúdos, está a dar o Preço Certo, nós pomos a adivinhar os preços.

Claro.

É inevitável.

Então não há aí pedagogia?

A pedagogia até é familiar, até de um ponto de vista de gestão.

Foi como mistério surpresa.

Houve uma altura que o Preço Certo era o preço certo em euros.

Começou por aí.

Já tinha existido antes e depois voltou como forma de introduzir os portugueses nos preços.

Exato.

Mas da mesma forma que o Um Dois Três ensinou muita gente a negociar, talvez não necessariamente tenha tido efeitos positivos na vida portuguesa.

Quando havia aquela parte com o Carlos Cruz e os concorrentes.

Então quer isto ou quer aquilo.

Eu quando comprei casa, cerca de 10 anos depois do programa ter estreado, em meados dos anos 90, e outras pessoas, nunca se aceitava o preço. Tínhamos sempre que negociar. Havia uma mania da negociação em Portugal. Não sei se vocês quando compraram a casa foi assim ou não. Eles estão a pedir 10, eu vou oferecer três.

Para depois chegarmos aos cinco.

Chegarmos aos sete, no máximo.

E o Preço Certo ensina, creio eu, sem ter esta intenção exposta, que se calhar uma varinha mágica vale entre 15 e 35 €. Se vão tentar vender a uma senhora uma varinha mágica por 70 €, ela lembrar-se-á do Preço Certo. O Preço Certo era 15. Eu acho que isso tem valor.

Bruno Vieira Amaral, não te vás embora. Queria fazer a outra pergunta já a seguir, que é a questão do Fernando Mendes. Se o Preço Certo não fosse apresentado por Fernando Mendes, como não foi em tempos, se ainda estaria no ar. Qual é o valor que o Fernando Mendes tem neste caso? Isso também não explica o facto de o programa continuar e de encontrar nele uma espécie de, não sei se dizer que há serviço público, não sei se não estamos a ir longe demais, mas se não ajuda a fazer sentido essa inclusão.

O valor é total. O valor, o peso do Fernando Mendes.

Agora é menos.

É o Preço Certo.

Agora é o Preço Certo. O Fernando Mendes é fundamental, não se consegue imaginar, isso é um mérito totalmente dele. Este formato, que é um formato que não é português, não foi inventado por-

É inglês ou americano.

É americano. Isto está no ar desde 62, isso que eu acho que é extraordinário. As pessoas pensam que isto é uma coisa que nós inventamos e que os outros não têm.

E o Fernando Mendes conseguiu personalizar isto, e esse é o segredo também do sucesso das adaptações dos concursos a outros países. A Roda da Sorte não é o mesmo concurso, ou não foi o mesmo concurso em Portugal, que era nos Estados Unidos, porque é o concurso do Herman José. O Herman José, aquilo era quase como um pretexto, dava-lhe ali uma forma.

Eu via a Roda da Sorte, era garoto, por causa do Herman José.

Para aparecer o Herman José. Era o que ele dizia.

E da Ruth Rita e do Cândido.

Sim, mas era uma equipa.

Eram personagens muito fortes.

Herman José.

E há uma outra questão, para além da questão dos apresentadores, e que eu acho que era muito mais válido no início, aqui há uns 30 ou 40 anos, que era a presença em televisão das pessoas comuns. Não havia muito. Hoje não, hoje até depois com os Big Brothers. Hoje as pessoas comuns e nas redes sociais dominam quase o espaço.

Desculpa só interromper. Neste texto, nesta crônica, há uma referência a isso, das pessoas, o país real, não estou certo agora das palavras.

Pessoas da terrinha.

Eu não percebi bem o tom, se é só uma constatação, se era uma crítica, fiquei um bocadinho na dúvida.

Eu não gosto muito da ideia de o povinho gosta, então temos que ser condescendentes com o povinho. Não gosto dessa ideia. Agora, percebe-se que aquilo funciona, aquele programa funciona, por também trazer essas pessoas, essa experiência, essa realidade pra televisão e aquilo ter ali uns códigos. Aquelas coisas das ofertas não nasceram com-

Da junta de freguesia.

Não nasceram, pelo contrário, e era um dos grandes momentos dos programas, por exemplo, do Um Dois Três.

Do Um Dois Três também acontecia.

Vão a Viseu e levam Os presentes, comida e uns azulejos. E isso faz parte também do que é específico do programa e que justifica o sucesso.

Acreditem que eu sei do que estou a falar.

Melhor frase.

Mas as pessoas fora da chamada grande Lisboa não convivem com pessoas da televisão. Como se calhar nós aqui vamos às Amoreiras ou vimos aquele, vimos aquela. Mas sentem-se muito próximas dela. Sendo eu uma pequena celebridade.

Ele é humilde.

Várias vezes fui a Coimbra e a primeira coisa que eu tenho que fazer é tirar uma foto com o tipo e eu não sou o Tony Carreira, portanto imaginem um apresentador famoso.

E és o Fernando Mendes.

Tanta coisa que podíamos comentar aqui, mas não temos tempo, como diria o Hérman.

Ou seja, a proximidade, o que eu estou a dizer é a proximidade das pessoas. As pessoas à televisão é uma coisa muito forte. E às vezes, eu concordo com o Bruno, claro que só porque o povo gosta, isso não é validação suficiente, mas nós vivemos, creio que concordam, num país muito desigual. Uma coisa é aqui a região de Lisboa, onde temos tudo, outra coisa é irem lá para Vilar Formoso.

É um acontecimento. As pessoas irem à televisão, para aquelas pessoas ir à televisão, é um acontecimento.

Pedro, dois minutos antes de irmos embora. Eu senti isso também no texto e às vezes é uma coisa que acontece muito, que é: a televisão portuguesa não vale nada lá fora é que é bom. Até que ponto a televisão de português é diferente daquela que se vê lá fora? Eu estou a falar de televisão linear, os canais principais, aquilo que as pessoas têm na televisão, em casa, normalmente.

É assustador.

Outra coisa que eu poderia dizer aos políticos que nunca quiseram falar comigo ou com outro, é que a qualidade de uma televisão está indexada ao tamanho da economia de um país. A nossa economia não é muito pujante, nunca foi, não é há décadas, portanto é difícil fazer séries com episódios a valer 200, 300, 400 ou, como acontece até na televisão da Rússia, com 1 milhão de dólares por episódio. Nós aqui gastamos francamente menos e portanto isso reflete-se na qualidade.

Isso é sobretudo do lado da ficção, mas por exemplo, quando falamos de entretenimento, deste tipo de programas, somos assim tão diferentes de outras televisões?

Não. Algumas versões portuguesas até são melhores, mais bem feitas. Mas há sempre a questão dos custos. Por exemplo, estamos no "Idolos" e há um número de abertura. Se tiver oito bailarinos custa uma coisa, se tiver 16 custa outra. E é nessas coisas-

Que se vê a diferença

...que se vê. O espetador não sabe que são essas coisas que fazem a diferença, mas são essas coisas que fazem a diferença. Ou luzes. Temos dinheiro para 80. Era bom era ter 160, mas só temos dinheiro para 80.

Uma coisa que eu gosto de fazer quando vou ao estrangeiro-

Mas rapidamente

...rapidamente.

Ver a televisão.

É ver a televisão.

É como ir ao supermercado estrangeiro.

Mesmo quando não percebes a língua, vês o formato e acho que genericamente não haverá assim grandes diferenças.

Muito bem, meus amigos, final de mais um "POP UP". Voltamos na segunda-feira em podcast com as sugestões da semana, que são sempre ótimas para quem fica e para quem vai para longe, e vocês sabem quem são. Sigam-nos nas vossas plataformas favoritas e não percam nenhum episódio. Até lá.