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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso almanaque deste e de outros tempos da cultura popular. A arte é desta gente graciosa, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Busch Mendes, que esta semana vão andar à volta das memórias dos anos 90. Vamos aos avisos. Há aqui um lado esquerdíssimo de marketing agressivo. Andámos todos a folhear o novo livro do Pedro Busch Mendes, "Anos 90: a década fabulosa", as palavras são dele.

Mas andaram mesmo?

Claro que andamos, nós somos profissionais. Temos muitas coisas para dizer sobre essa era, que parece que em 2026 está na moda. Há quem diga que talvez esteja mais na moda do que estava realmente nos anos 90. E atenção, vamos fazer aqui um disclaimer, como dizem os profissionais. Apesar de estarmos a falar também de livros, este programa foi gravado antes do anúncio do Prémio Nobel, portanto o Nobel não é do Pedro Busch Mendes. Quando ouvirem este programa, provavelmente já haverá vencedor. Só quero deixar o alerta para não assustar ninguém. Maria Ramos Silva, anos 90. Tu estavas lá.

Estava.

E estavas muito nova.

Não era muito crescida, mas já estava.

Eu desafiei-vos, entre as vossas memórias e a arte do nosso amigo Pedro, que escolhessem uns quantos momentos, personagens ou acontecimentos que para vocês sejam definidores dos anos 90 e que deixaram algum legado. E tu queres começar por-

Uma coisa pouco romântica, aparentemente.

Mas eu percebo. São estradas, obras e outros derivados, talvez, do betão.

Sim, é isso.

Por quê?

Porque recordo-me daquele momento em que começou a ser mais fácil ir para o Algarve e para outros sítios pelo país, e também me lembro de crescer com aquela ideia. Se ouvia muito na altura, o Pedro certamente também se lembra, que o Cavaco era aquele tipo que só tinha feito umas estradas. Como se as estradas fossem uma coisa relegável para segundo plano. Mas a verdade é que, e o Pedro também conta isso neste livro, que é uma grande empreitada. Parabéns, Pedro, prematuro.

Obrigado.

De facto, recordo, por exemplo, um caso que é absolutamente comovente ainda a esta distância, em 98, nem sequer é no início da década, é já no final da década, ali quase naquela viragem para o bug, poucos meses antes de abrir portas. O célebre caso das gémeas, de Mafamudes, que ficam para sempre associadas àquela intervenção e também comoção do presidente Sampaio, quando o país percebe que, de repente, há duas miúdas que vivem numa casa sem sequer a televisão, julgo eu.

Não têm eletricidade.

Não há eletricidade sequer, portanto aquele Portugal também existe naquela altura, estão a 80 km do Porto, parece perto, mas na verdade é muito longe, porque estão na iminência de deixar de ir à escola porque não há transporte. E a verdade é que nós, passado 40 anos, estamos, julgo eu, genericamente infinitamente melhores, mas continuamos a ser o país onde há imensos bebés que nascem em ambulâncias a caminho de hospitais e onde continua a haver uma desigualdade brutal entre litoral e interior, entre um país que parece mais civilizado e de primeiro mundo e um país tantas vezes esquecido, e onde, na verdade, se nasce e se morre, e há aqui uma linha muito ténue que depende do acesso que nós temos, também por estradas, também por caminhos, e também pelo acesso a infraestruturas, nomeadamente os hospitais. E nós sabemos que é, de facto, uma coisa que parece, às vezes, muito terceiro-mundista, mas fundamental. Eu digo isto porque também não me parece que seja possível fruir desse país muito melhor que é hoje, várias décadas depois do fim da ditadura, felizmente, também do ponto de vista cultural, sem essa capacidade de infraestruturas, portanto, sem nós de alguma forma termos as condições mínimas para nos deslocarmos, para chegar aos sítios, até porque sabemos que há muitas pessoas que ainda hoje vivem e estão isoladas do ponto de vista também cultural. Os teatros estão longe, as livrarias estão distantes.

Há um certo sentimento de desterro, às vezes.

Não é um certo, é muitíssimo. Eu dou por mim muitas vezes a sugerir coisas que reconheço que são altamente limitadas do ponto de vista das questões, porque para quem está em Lisboa, perto de Lisboa, fora de Lisboa, a realidade não é essa ainda. E portanto, quando nós vemos esta questão das estradas e depois mais tarde, aquilo que o Pedro chama de já um certo cavaquismo tardio, que no fundo foi colher frutos de algo que terá sido plantado também antes. Parecem-nos coisas, de facto, muito pouco graciosas, mas não imaginamos a nossa vida já sem a Ponte Vasco Gama, sem uma autoestrada concluída até ao Porto, sem ser um inferno passar pela Marateca, e podia continuar aqui de norte a sul.

Boas memórias. A passagem pela Marateca tem este nosso país.

Pronto, depois há essa nostalgia. Mas eu, apesar de tudo, gosto de ser mais fácil ao chegar ao Algarve.

Sim, ainda é um tempo em que havia diretos da Ponte 25 de Abril. Estava sempre o comandante Borrego.

Ainda fazem.

O capitão. Fazem cada vez menos. Aliás, nem sei se fazem ainda. Porque as férias eram semana e quinzena. Tinhas que alugar de sábado a sábado. Agora já não é preciso.

Bruno Vieira Amaral, tu queres falar aqui de uma questão, e Pedro, já vamos passar o microfone, que ele também tem umas coisas a dizer, televisão privada e depois a TV cabo.

Tudo nos anos 90.

Exatamente.

E é inacreditável se nós pensarmos que no início dos anos 90, se pensarmos na realidade hoje, pensarmos que não havia nada disto em Portugal. Eu lembro-me de, em 91 para 92, fazer planos para ir ao Luxemburgo, onde tinha familiares.

Ainda tens?

Ainda tenho, ainda estão lá.

Algum nome?

Tia Joana e tio Manel.

Tia Joana e tio Manel, um grande abraço.

E as minhas primas ficaram lá a viver.

As primas também.

As primas, a Sónia e a Susana. Também são nomes muito 70 e 80.

Votam ou não?

Votam, nas eleições portuguesas.

Não, nas luxemburguesas. Os portugueses não votam.

Isso aí é outra conversa.

Estás apanhado de surpresa.

É uma grande comunidade portuguesa, mas não tem direito a voto.

Ok, muito bem.

Tanto quanto sei.

É o próximo livro do Pedro.

Nas presidenciais portuguesas.

Os portugueses lá fora.

Eu lembro-me de fazer planos nesse ano: "Eu quero ir lá para poder ver os Jogos Olímpicos na Eurosport ou nos canais". Porque aquilo ia ser uma transmissão contínua, ao contrário em Portugal. Claro que eram transmitidos os Jogos Olímpicos.

E foste?

Não fui. Perdi. Ora é precisamente depois dos Jogos Olímpicos que nós temos o primeiro canal em Portugal, a SIC, que trouxe, para além de todas as mudanças que acho que depois ainda se pode falar ao nível do conteúdo, uma grande mudança para mim, e que acho que foi partilhada pelos espetadores, que era a cor. A SIC representou uma mudança cromática na televisão, que era ao mesmo tempo diferente da vida real, mas mais parecido, era mais vívido, era mais vibrante. E tu estavas habituado a ver o mundo por aquela janela única do canal um, da RTP um e da RTP dois, e de repente tens uma coisa que é feita de forma diferente e com uma estética diferente. Eu acho que é até antes ainda de começarem as emissões, lembro-me de andar à procura de sintonizar o canal e de aparecer só o símbolo da SIC e parecia que estavas a entrar de facto num novo mundo.

Só sintonizar o canal era uma aventura.

Não é? Estás ali a procurar. Havia uns que eram com a rodinha e havia outros em que tinhas os botões. E quando aparece o símbolo da SIC, parece que entraste numa nova dimensão, numa nova realidade. Eu acho que isso foi muito transformador de todos nós, sobretudo de quem estava em idades mais impressionáveis, ali na adolescência, em que consumimos muito a televisão, a televisão era muito importante. Eu acho que foi completamente transformador e depois disso também a TV cabo, que chega primeiro, o Pedro poderá confirmar, na zona de Lisboa. Não, Matosinhos primeiro. Há uma coisa experimental ali naquela zona. Em Matosinhos? Mas depois em Lisboa expande-se, em 95. Eu lembro-me, ainda antes de chegar aos subúrbios, onde eu vivia, de ler, por exemplo, uma crônica do Pedro Roelo Duarte na Visão, a falar sobre a TV cabo e a falar sobre os filmes que agora dava para ver. Ainda não tinha chegado a TV cabo.

Isto é a modernidade.

E isto um dia vai chegar. Percebe?

Eu demorei muitos anos a ter TV cabo em casa. Mas a própria década, vocês não sentem que foi a primeira década a cores do país? E gosto que também retratas muito isso no livro. Os 80 ainda estás ali a aquecer os motores.

Porque havia muitas casas.

Mas eu era muito garoto nos anos 80, portanto, é normal que depois nos 90 é que tenha mais consciência.

Mas até o espírito, a própria aura do país. O Pedro lembra isso, é um século que começa com regicídio, de repente parece quase uma fantasia imaginares que chegas aos anos 90 e é um contraste absoluto, e é ali que se sente, de facto, esse contraste. E é porque o teu contacto com o mundo hoje é feito muito através de redes sociais, internet, mas o nosso contacto com o exterior era a televisão. Portanto, toda a nossa perceção do mundo passava pelo consumo de televisão. Deixa-me só dizer em relação à televisão privada, e porque é que destaco a SIC. Não é só por ser a primeira. É porque uns meses depois aparece a TVI, que era, e preparem-se jovens, a emissora, era o canal católico.

Sim.

Que é uma coisa que hoje em dia parece impensável. Tu dizes: "O quê? Entregaram um canal privado à Igreja Católica?"

E demorou muito até conseguir chegar a algum lado, não é?

Sim, depois teve que desligar. Havia o caso de sucesso da Rádio Renascença e esperava-se replicar esse sucesso na televisão.

E só mesmo com o Big Brother, talvez.

Já não era da Igreja, claro.

Pois, claro, já não era.

Já é uma transformação, mas tu olhavas para, por exemplo, os cenários da TVI, eu lembro-me dos programas que havia naquela altura, e estavas sempre com a sensação de que aquilo a qualquer momento ia cair.

Exato.

É verdade, havia essa diferença em relação à SIC. Com todo o respeito por todos os canais, queria fazer essa distinção.

Vamos passar aqui ao Pedro. Aliás, a televisão privada atravessa boa parte do livro, em várias circunstâncias e em várias situações. É definidora de muitas coisas e ilustrativa de muitas coisas. Tu queres falar disso também como arma de protesto das populações, que é outra coisa da qual falas muito no livro em várias circunstâncias. Nomeadamente, o caso Aquaparque, o caso do bloqueio da ponte e dos protestos contra as portagens e a questão das gravuras de Foz Côa.

Sim, o advento da televisão privada, a partir de outubro de 92, e depois a TV, em fevereiro de 93, permite que o povo, deixa-me dizer assim, tenha acesso a mais vozes, diferentes linguagens. A informação era mais assim, mais assado, mais agressiva. A SIC foi um fracasso nos primeiros tempos, exceto na informação e no Portugal Radical. Mas os programas eram muito parecidos com os da RTP, em versões abaixo, eram versões subpar da programação da RTP. Sitcoms, dava o Príncipe de Beverly Hills, por exemplo, e filmes. Mas a informação era mais dinâmica e agressiva, em linha com a da TSF. Aliás, muitos dos profissionais vinham da TSF. E o povo começa a perceber a utilidade da televisão na pressão junto dos políticos. O caso Aquaparque, e há imensas imagens no YouTube

Foram dois jovens que morreram afogados, sugados pelas tobogãs. Aliás, o caso é trágico, obviamente, mas curiosíssimo, porque um miúdo desaparece e o parque no dia seguinte abre na mesma.

Exato.

Pronto.

Parece relativamente estranho.

Tem alguma graça. E depois desaparece outra miúda, que ainda por cima era uma imigrante nos Estados Unidos, que passava férias em Portugal. Lá os políticos fecham aquilo e obrigam a haver uma inspeção nas tobogãs e descobrem os corpos dos miúdos. Mas nessa noite em que finalmente se fazem as buscas e se encontram os corpos, essas imagens estão no YouTube, é a primeira vez que os três canais, portanto, TVI, RTP e SIC estão em direto. Não há uma história dos media em Portugal como deve ser, e esse daria um capítulo por si só, porque pela primeira vez temos a linguagem do direto: "Estamos aqui em direto".

Que hoje continuamos a viver.

Sim, e é interessante porque vemos os seguranças a agredir os jornalistas livremente. Ninguém tapa a cara, ninguém tem a cara tapada. Não havia ainda a cultura da identificação através do audiovisual. E os papéis de cada um, portanto, manifestantes, segurança, jornalistas, ainda estão por definir. Um ano depois, em 94, o bloqueio da ponte e tudo o que aconteceu, e eu conto no livro que não foi apenas uma tarde ou uma manhã, foram semanas disto, é muito instrumentalizado pelas televisões, ou as televisões são instrumentalizadas pelos manifestantes. Isto é cerca de um ano antes das eleições em que o Torres vai ganhar a Cavaco. E há aqui um elemento de luta política, isso é legítimo, eu também digo isso no livro, em que a SIC, sobretudo, faz longas emissões em direto a partir da ponte e acertam as horas para as manifestações dos caminhões serem mais ali ou mais assado, que é para serem mais eficazes nos diretos. São emissões que nós vimos em casa, eu lembro-me perfeitamente de ver, não sei se vocês viam.

Sim.

E eram acontecimentos extraordinários, acho eu, do ponto de vista audiovisual. É engraçado ver como as forças policiais, o equipamento parece meio a brincar, meio que compramos numa loja de máscaras. Não eram aquelas coisas hiperprofissionais que são hoje. Tinham a cara descoberta também, os agentes da polícia, alguns, que também é interessante, porque agora têm a cara tapada. E então a televisão ao serviço de causas, sejam as gravadoras de Foscoa, sejam as portagens, sejam depois outra vez dos estudantes também, é uma das marcas maiores dos anos 90, que depois obviamente continua, vemos agora.

Maria, antes de irmos para intervalo, rapidamente, tu também querias dar aqui uma nota sobre este caso Aquaparque.

Sim, porque me recordo, eu devia ter pra aí 10, 11 anos e deve ter sido provavelmente o grande caso que me amedrontou muito na altura, o do Aquaparque, aquilo, de facto, o Pedro dizia bem, é uma espécie de ponto de partida, isso e depois a cobertura também da Guerra do Golfo, desta informação minuto a minuto e continuada. Ainda não tínhamos os canais de notícias 24 horas por dia, não tínhamos a internet, mas de facto isso abre caminho para isso tudo, porque eu recordo-me dessa cobertura muito folhetinesca. Aquilo dura não sei se semanas mesmo, em que as pessoas vão para a porta, vão para o Restelo. Há ali, de facto, uma movimentação e nós seguimos como uma novela, no pior dos sentidos, obviamente, dramática, mas vamos seguindo. Isto juntado, também aqui é um detalhe importante, porque a ideia do Aquaparque, ao qual eu nunca fui por causa do Aquaparque, atenção, porque lembro-me disso fazer mesmo imenso medo, também estava ligada para mim a uma ideia de fruição e divertimento que os anos 90 também tinham trazido, porque houve essa moda dos aquaparques.

Ondaparque.

Ondaparque, tudo isso. Mas ao mesmo tempo a pensar: "Pá, bolas, agora que nós nos podemos divertir, isto não é seguro." Como é que é possível? Isto é uma coisa tão divertida e parece tão divertida, mas é possível uma criança acabar aqui sugada. E de facto, também te vem pôr ali um pouco em perspetiva as arestas que nós tínhamos para limar ali uma série de coisas também do nosso ainda muito a ser incubado lifestyle.

Muito bem, amigos, chegamos ao final da primeira parte do "Pop Up", voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Boucher de Mendes. Esta semana estamos aqui a falar sobre os anos 90, tendo como desculpa o novo livro do nosso amigo Pedro e o facto de ser uma década que voltou a ser cool, para contentamento de uns e grande infelicidade de outros, digo eu. Vamos continuar a conversa aqui pelo Bruno Vieira Amaral. Bruno, uma das coisas que querias falar é, não sei se podemos dizer crescimento, pode ser? A abrangência do ensino superior e a evocação.

Explosão.

Explosão.

A explosão do ensino superior dá-se significativamente nos anos 90. Eu estive a olhar para os dados, a pesquisar dados. Por acaso no teu livro chegas a falar desses dados? Sim, eu falo desses dados e falei mais no livro dos anos 80.

Nos anos 80, ali em meados da década, havia cerca de 100 mil estudantes no ensino superior.

Entre os novos e os inscritos e os que estavam a acabar o curso.

Sim, e 10 anos depois tens quase 300 mil, praticamente 290 e tal mil.

Tu eras um deles nos anos 90?

Em 97. E isto é uma transformação social que acaba depois também por ser uma revolução de mentalidades, que eu acho que é ímpar na história do país. Ou seja, até aos anos 80, mesmo até ali ao final da década, a experiência do ensino superior é de facto uma experiência de elite, reservada praticamente a uma elite, com algumas exceções

A partir dos anos 90, tens mesmo a democratização do acesso ao ensino superior, por isso é que tens 300 mil estudantes em meados dos anos 90. Também há o fenômeno das universidades privadas. Muita gente que não entrava porque não conseguia, ou porque não tinha aquele curso, ou porque não tinha conseguido entrar para o curso que queria, na universidade que queria, vai para as universidades privadas, o que também não é só um motor da transformação do país, é também já um sintoma da transformação do enriquecimento da classe média, ou diria mais até, da criação de uma classe média com poder econômico suficiente para pôr os filhos no ensino superior e pagar uma mensalidade todos os meses. Portanto, é um espelho das transformações e é também um motor de transformações sociais, porque muda completamente. Eu lembro-me de ler algumas entrevistas daquelas entrevistas de rua de alguns jornais nos anos 80, feitas aos jovens. E é tudo malta com o nono ano e o oitavo ano e alguns com o 12º, que loucura. É nos anos 90 que isso deixa de ser a norma. Começas a ter muito mais gente a ir para o ensino superior e começa a estabelecer-se aquela ideia de que só não vai para o ensino superior quem não quer, se não quiseres mesmo. Se quiseres ir e se tiveres condições para ir, mesmo quem não tinha condições econômicas, passa a ter a oportunidade de ir. Eu acho que isso significa, de facto, uma transformação com reflexos até depois anos mais tarde na sociedade portuguesa. Associado aqui um bocadinho a isto, Pedro.

Desculpa, também não há uma história da juventude portuguesa à seca do 25 de abril, do que é ser jovem em Portugal. E esta questão do ensino superior seria uma larga parte desse livro. O que acontece é que passa a ser não só óbvio e normal, como tu tens quase de explicar porque é que não vais para a universidade quando és jovem.

Inverte-se.

Sim, exatamente. "Não, eu estou a acabar matemática à noite." Havia sempre essa conversa. É muito curioso, também não existe uma história do jornalismo, como já disse, e é muito curioso que todas as manifestações de propinas com cumplicidade do jornalismo, e bem, ninguém se lembra destas pessoas que pagavam as privadas. Portanto, eram as propinas para aqui, propinas para ali, propinas do ensino público, onde não havia vaga para todos. Estavam-se todos marimbando para as propinas do privado, que eram caríssimas. Quem andava no privado tinha que pagar as propinas, e depois para repetir o exame tinha que pagar, depois para a matrícula tinha que pagar, para a inscrição tinha que pagar. E verdadeiramente as famílias portuguesas foram heroicas porque sustentaram essa falha do Estado de não haver vagas para todos, formando uma geração de pessoas que hoje têm 40, 50 e que estão formadas porque as famílias se esforçaram para isso, pagando as privadas.

Então e a Geração Rasca, Pedro?

Geração Rasca acontece em 94, precisamente, muito pouco tempo antes do bloqueio da ponte. Portanto, é um texto escrito pelo Vicente de Jorge Silva no Expresso, antes do bloqueio da ponte, antes dessas confusões, e diz respeito a manifestações junto à Assembleia da República.

No Expresso ou no Público?

No Público, desculpem. Diz respeito a manifestações junto à Assembleia da República, em que viram carros ao contrário, os jovens do 10º ano e famílias, e tinha a ver com as provas de acesso ao ensino superior e não propriamente com as propinas. E o Vicente de Jorge Silva passa-se com aquela confusão toda, mas o seu texto, que hoje é recordado como alusivo aos miúdos, aos jovens, fala também de televisão e de Quim Barreiros, como eu, aliás, recordo no livro e dedico bastante tempo ao texto do Vicente de Jorge Silva, porque me parece, ou seja, ele era um boomer, vamos dizer assim.

Sim.

E a falar, a lamentar a degenerescência da sociedade portuguesa, que agora até tinha o Quim Barreiros, que tinha a ver com a câmara das fitas.

Exato.

Que eram muito ruidosas, as câmaras das fitas e as pragas naquela altura, estamos a falar em 94. Portanto, tudo visto antes sequer do bloqueio da ponte. Imagina como é que o Vicente não ficou depois.

Quando viu a questão da ponte. Maria, tu queres falar sobre moda?

Sim, mas é uma perspectiva mais ampla, que também tem a ver aqui com-

86, 60 e 86.

Também.

A classe.

Também falo.

Também, porque de facto não é moda no sentido estrito, mas, por exemplo, o Pedro falava dos jornais, esta também era a dourada das revistas, a capa, a Volta ao Mundo, mas também as revistas muito de moda, que permitem, de facto, essa contemporaneidade, mas também uma emancipação da mulher, da figura feminina, daquilo que é possível. Até coisas que nós gozamos durante tanto tempo, como a crônica da Maria, o consultório íntimo da Maria.

Sim, também falo disso.

Que eu acho que terá feito mais por muitas famílias e muitas mulheres no país. Exatamente, num país onde isso não existia. E, portanto, aquilo que hoje se nos parece altamente risível, na verdade, terá tido-

Também é a década do Wanda Braz, desculpa.

Exatamente. Há ali uma série de coisas.

É a Sigova?

Pronto, e até pequenas conquistas. Não, porque há de facto muita coisa. A Diana Pereira vencer o Supermodel of the World. O anúncio com Ana Cristina Oliveira da Levis, tudo isso. São assim pequenas lanças que nós vamos colocando. E depois também esta possibilidade De chegar lá fora, que eu acho que é uma coisa que começa nos anos 90.

Até na moda, houve um momento em que nós tínhamos a esperança de que a Sofia Paris e o Paulo Pires entrassem naquele núcleo restrito.

É a década em que é lançado o Portugal Fashion. É a década também da Caras, o nosso tal Instagram da altura, em que há um social que também vai disputar ali mais.

Mas havia uma obsessão com a moda, desculpa. Havia mesmo uma obsessão com a moda. Aliás, é estranhíssimo.

E o consumo também, o grande consumo, que também tem isso.

A televisão portuguesa tinha um magazine de moda, que é uma coisa estranhíssima. Podemos imaginar alguém em Algueiraz de Baixo a ver aquilo. E havia também a convicção de que a nossa moda, sei lá, que em Madrid ou não sei quê, o Tenente iria abrir uma loja algures. Isso nunca aconteceu. A nossa moda nunca se internacionalizou.

Mas é uma pena. Eu continuo à espera desse momento. Acho que estamos a voltar paulatinamente.

A música também funciona naquele circuito da world music, pode funcionar um pouco. O cinema funciona nos festivais, mas o que eu queria dizer em relação à música é que nós tínhamos esperança de que aparecesse uma banda, um cantor, que se tornasse verdadeiramente internacional, não no sentido Mariza ou Madredeus.

Eu aqui quando falo de moda, também falo de uma coisa que eu acho que é importante. É a experiência de consumo que também muda nesta altura. A preocupação com a imagem, desde logo, porque tens fenómenos muito curiosos, como por exemplo, o Pitanguy e o Talon. O Talon é o Ozempic dos anos 90, basicamente. Toda a gente queria, ou ia, ou sonhava com as idas ao Talon para emagrecer. E depois esse advento também, essa consagração da vida e da experiência nos centros comerciais. E o Pedro também falará sobre isso, que também é uma coisa muito mal vista, às vezes.

Ainda bem que falas disso, que está mesmo aqui a pedir.

Não, repara, isto vai entroncar um bocadinho aquela questão da crônica do consultório íntimo da Maria, que é também há muito desprezo pela ida ao centro comercial. Como se fosse uma atividade menor. Eu calculo que em larga medida seja, não é a mesma coisa que ir à ópera. No entanto, eu acho que também diz muito daquilo que é uma sociedade portuguesa que sai, mais uma vez, de uma série de anos de ditadura, em que consumir é quase um ato visto como de culpa. Quer dizer, gastar ainda é uma coisa muito envergonhada. As pessoas ainda hoje, o português olha para as coisas quase: "Vou gastar isso, mas será que devo?" Depois há aquela coisa, será que estou a viver lá está acima das minhas possibilidades e tudo mais. E essa experiência de poderes ir caminhar pelo centro comercial, mesmo que não compres nada, mas saberes que, de repente, há essa, desde logo, abundância, e que podes circular por ali, eu acho que é uma coisa também socialmente muito impactante.

Os anos 80 são a guerra do status.

Também.

Claro.

Tu vinhas aqui, tinhas um casaco não sei quê, eu na próxima vez também teria um casaco não sei quê. E isso faz mexer a economia muito. Esta questão dos centros comerciais, se pensarmos da forma que eu vou expor a seguir e que exponho no livro, para muitos portugueses é a primeira experiência de civilidade.

Exatamente, eu acho que é isso.

Ar-condicionado, arrumar o carro.

Mas era isso que eu queria perguntar ao Bruno. Porque Bruno, tu querias falar sobre duas coisas, que são a civilidade e a falta de civilização, às vezes, depende da hora, que é, por um lado, o Colombo, o grande centro comercial. E o Sudoeste, que é uma espécie de centro comercial de outra forma.

Sem ar-condicionado.

Só tem dois meses, exatamente.

Há um gigantismo no Colombo que eu acho que é quase uma espécie de compensação da falta.

É o Dubai.

É o nosso Dubai.

Não podes ter mais um centro comercial, tem de ser uma coisa gigantesca e que é um pouco aquela compensação de uma privação.

Ainda hoje fico surpreendido com o Colombo.

Que é uma coisa inacreditável e com ótimas lojas. Eu lembro-me que a FNAC era, na altura, uma das lojas âncora do Colombo e havia muitas outras.

Só o supermercado.

Claro.

Fun Center.

Ou os cinemas também. São outras lojas âncora. Mas nós às vezes temos a tendência a desvalorizar estas coisas, porque de facto, muito rapidamente o Colombo se tornou quase que um lugar proscrito. É um lugar para o pessoal.

Era o lugar que tu dizias que não ias.

Fazias questão de dizer: "Eu, ao Colombo?" Chegou uma altura em que ir ver cinema ao Colombo. Não, isso quer dizer não. Pé dos índios, não sei o quê. Mas estavas a falar dos supermercados. Nós não nos podemos esquecer. Eu, e creio que é uma experiência de muitos portugueses, nos anos 80, mesmo nos anos 90, as compras eram feitas nas mercearias no bairro.

Claro.

Eu lembro quando abriu o Feira Nova nos anos 90.

Eu adorava ir a um hipermercado, que era uma coisa que me impactava.

Aquilo dava-te uma sensação de abundância, de acesso.

Passavas lá o dia.

Eu acho que aquilo tem uma interferência na tua conceção mental das coisas, da vida.

Aquilo deve estar estudado psicologicamente.

Deve estar.

As assistentes com patins, lembras-te?

Lembro, sim. Isso tem verdadeiramente um impacto. O Sudoeste, o Festival do Sudoeste, claro, eu tenho uma memória muito pessoal desse acontecimento, porque estive lá, acompanha esta ideia de um Portugal mais afluente e, ao mesmo tempo, aqui a tentativa um pouco nostálgica de reeditar este tipo de festivais, à Woodstock. Portanto, há ali uma mistura de novo dinheiro a aparecer, ou um novo estatuto, uma nova riqueza. Ao mesmo tempo, vamos voltar aqui às raízes.

Às raízes que nunca vivemos.

Que nunca vivemos, mas havia esse lado nostálgico, que até a primeira edição, logisticamente é uma edição um pouco complicada, criou um sentimento.

E uma medalha a quem esteve lá.

Quem esteve lá naquelas circunstâncias, que não foram fáceis.

Exatamente. Vamos fazer, se calhar, aqui uma última ronda, estou a olhar para o relógio. Logo vemos se ainda podemos recuperar algumas coisas que ficaram para trás. Maria Ramos Silva, tu queres fazer aquilo que chamas, vai ter que ser económico, uma espécie de mini quiz Pedro Mocho Mendes.

É muito rápido, é um quizzery, como tu lhe chamas. Um quizzery.

É o quê?

Não, é muito rápido.

Mas ela perguntou e responde.

Parece que estou na rádio.

Não, não é para responder, isto é para quem ainda não leu o livro, imaginar qual poderá. É só uma resposta, é uma coisa muito rápida. Eu vou ler isto como se fosse um comunicado do Ronaldo. Eu vou fazer na primeira pessoa, vou fazer como se fosse Pedro Boucherie a falar e vocês vão adivinhar o que é que disto é verdade. Vamos começar.

Eu não estava à espera disto.

"No dia 11 de setembro, o famoso 11 de setembro, estava no Zoomarine com o meu filho." Isto é a hipótese A.

Se precisamos alguma coisa.

Não, calma, isso é para as pessoas dizerem no final. É para eles dizerem no final.

Qual é a B?

B: "Em 1996, quando fui comprar casa, pedi ajuda a um primo engenheiro para fazer peritagem prévia." C: "Fui a Curaçao em 1997 e levei um colete cáqui Coronel Tapioca."

Não.

Eu diria a segunda.

Calma, ainda não acabei.

Ah, não? Ainda há mais hipóteses. Então espera.

D: "Fumei todos os dias dos anos 90, incluindo quando tive gripe."

Eu sei a resposta.

E vou terminar: "Acho que o século XXI português começou com José Sócrates."

Não. A parte do fumar é verdade.

Eu diria que é-- qual é que eu disse?

Ouça, são todas verdades. E esta do Coronel Tapioca.

São todas verdades.

Havia a mania das viagens.

É que descobriu os anos 90, até descobriu Pedro Boucherie mesmo.

Mas é que eu fiquei com a frase do primo engenheiro.

Desculpa, deixa-me dizer isto: os jornais aconselhavam, é um tempo de crédito à habitação, e as taxas desciam quase todos os dias, e os próprios jornais aconselhavam a levar um engenheiro.

Mas ainda hoje as pessoas levam o engenheiro.

E tu fizeste isso muito bem.

E o meu primo. Não, mas é engraçado.

Como é que se chama o teu primo?

O Guilherme, a quem envio um abraço.

Grande abraço ao Guilherme.

E olhou: "Isto está porreiro." Quer dizer, ele não levou uma peritagem.

Fez o que outro primo qualquer faria, que não fosse engenheiro.

Claro, tanta havia a mania das viagens, que havia uma cadeia de lojas chamada Loja das Viagens, onde tu compravas um jambé e um daqueles tapetes e aquelas coisas de shisha.

Eu acho que o Pedro devia desenvolver a parte em que aterrou em Curaçao com o colete cáqui.

Eu fui a Curaçao e a questão é: tu não tinhas maneira de ir à net ver qual é o weather em Curaçao. Eu levei o meu colete cheio de bolsos, porque achava que ia para a selva, talvez.

Maravilha!

Hoje parece cronismo, mas aquilo era e é muito mais desenvolvido que Portugal, porque é uma colónia holandesa. Mas o raio do colete não serviu para nada. Acho que nunca mais o usei.

Eu lembro-me desta frase, fiquei fixado na frase do "fumei todos os dias dos anos 90, incluindo quando tive gripe."

Era quando se sabia melhor, era uma coisa que se dizia.

Eu quando fumava, também confesso, também fumava.

Bom, agora já não fumas. Bruno Vieira Amaral.

Já não tenho tempo.

1998, o ano de todos os prodígios. É o quê? É a Expo e o Stalin's Ford?

A Expo, o Nobel do Saramago.

A Fnac.

A Fnac. Eu continuo a achar que alguém, não sei quem, vai escrever um grande romance social, um grande fresco social, que se passa no último dia da Expo, porque eu acho que é o apogeu da esperança.

Estiveste lá?

Não estive lá.

Também não estive.

Mas todos os relatos que existem, de facto, dizem que é um dia diferente na história do país, que eu acho que simbolicamente marca o apogeu de um Portugal possível, que a partir daí, ou que desde então, não se concretizou.

Foi o nosso Festival de Altamont?

O pessoal está tudo gilo.

Não correu mal no momento.

Sim, exato.

Ou seja, acaba com uma grande festa.

Porque uma semana depois ganhas o Nobel, não é?

Não, claro que existe, continua a existir.

Temos o Lux a abrir, não é também naquela altura?

E depois, paulatinamente, aquilo vai deslizando e vais perdendo.

Então foi o fim dos anos 90.

O fim dos anos 90 para nós, eu não sei se tu vais até 2001.

Para mim, o fim dos anos 90 é a derrota com a Grécia em 2004.

Lá tu és muito generoso.

O fim dos anos 90 para mim, vou-te dizer aqui em primeira mão, é a queda da Ponte Entre os Rios. Eu acho que para Portugal, simbolicamente, é 2001, março.

E na cobertura televisiva também há aí um ponto importante.

Sim, eu acho que isso marca simbolicamente, eu poria o apogeu no final da Expo e a queda da ponte como o final desse período, em que talvez nunca tenhamos sido tão ricos ou pelo menos nos imaginávamos.

Eu pensei nisso, mas houve pouco tempo, porque depois houve o 9/11. E o 11 de setembro de 2001 também, como que distrai das coisas nacionais. Em 2001, temos a SIC Notícias, pouco tempo depois temos Entre os Rios, pouco tempo depois temos o 11 de setembro, e pouco tempo depois temos a demissão do Guterres. E o Entre os Rios é muito atenuado pela demissão do Jorge Coelho. O foco noticioso passa a ser a demissão honrosa do ministro naquela noite. Depois não sei o quê, a ponte, a jornada autonoma das estradas existe e as fundações aquilo. E aquilo acaba por se diluir depois no 11 de setembro. Depois, Portugal tem que organizar o Euro 2004, já em contexto de 11 de setembro. O Euro 2004 foi o primeiro grande evento onde houve segurança, por causa do 11 de Setembro, e terrorismo.

E tens o atentado em Madrid nesse ano, em 2004.

Sim.

Foi nesse ano.

E só para acabar, se calhar entusiasmam as pessoas, bandeiras à janela e não sei o quê, e depois não sei o quê, final com a Grécia, íamos ganhar.

Eu estou com o Pedro, que é o fim de festa que começa, o grande fim de festa depois desse arranque em 98 é o final do Euro.

E Sócrates está logo ali, em 2004.

Bom, meus amigos, tínhamos muito mais para dizer, mas é o costume, não temos tempo, como dizia o outro. Leiam o livro, é isto que eu tenho a dizer. Final de mais um "PopUp", já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.