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Muito bem, arranjem espaço na agenda, seguem-se as sugestões da semana, é para aproveitar. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti.
Eu acho que me cheguei, trouxe imensa coisa, mas vou ser super rápida.
Que entusiasmo.
Porque à tantas comecei a pensar nisto e afinal são mais coisas do que aquelas que tinha pensado.
Abri-se a caixa.
Abri a caixa e pronto.
E vamos embora. E queres começar por onde?
Vou começar por um livro.
Vai em frente.
Vou começar por um livro, a nova edição do Mathias Énard, "Melancolia dos Confins, Norte", de Dom Quixote. Eu digo norte, porque isto é o primeiro volume que há a ser publicado uma série de quatro. Estou a contar agora com a chegada dos próximos, vamos ver. É uma espécie de cartografia pessoal do autor. Ele parte de um sanatório de Belitz para visitar uma amiga que sofreu um AVC e tem assim uma experiência, vai caminhando, vai pensando, vai vagueando pelo outono berlinense e por uma série de referências literárias. É muito difícil de resumir, porque de facto é uma riqueza de prosa e de coisas que o autor vai convocando. Absolutamente prodigioso e portanto recomendo vivamente. Estou também muito curiosa, porque supostamente o segundo volume é focado na Europa do Sul, incluindo Portugal e Espanha. E depois acho que é Trieste e Istambul e depois Américas do Norte e do Sul. Portanto, aproveitar. Depois, duas sugestões para quem estiver em Lisboa. Uma delas não só em Lisboa, mas também passa por Lima. A retrospectiva do Michael Haneke até 7 de Outubro. Também na Figueira da Foz, no Porto, em Braga, em Coimbra, nos Cinemas Medea. Podem ver coisas, eu acho que pela agenda. Hoje, segunda, creio que podem ver "O Amor". Terça-feira, "O Laço Branco". São só assim, de repente, dois filmes altamente recomendáveis do Michael Haneke, portanto é imposto a ir. E depois, na Baixa, no Mude, tem duas belíssimas posições para verem até janeiro.
Na Baixa de Lisboa.
Na Baixa de Lisboa, sim, vale a pena retificar. Uma que reúne o acervo da joalheira Teresa Seabra, que é um dos nossos nomes grandes da joalharia contemporânea, cujo espólio foi incorporado no museu recentemente, e outra que também foi inaugurada, mesmo ao lado, no âmbito da terceira Bienal de Joalharia de Lisboa, chama-se Coexistências. No total são mais de 500 peças incríveis, que nos fazem repensar o papel do corpo, do homem, da sociedade. Se pensam que vão só ver anéis e brincos e coisas altamente femininas e de nicho, esqueçam, porque é uma proposta absolutamente interessante, muito desafiante. Acho que tem essa capacidade de nós sairmos lá espantados, que já é uma coisa rara num tempo de IA, em que o gesto humano está sempre tão em dilema. Portanto, acho que vale muito a pena passarem por lá. Depois, uma série que estou a ver na Netflix. Não é que seja especialmente incrível, mas tem a vantagem de projetar uma figura que é absolutamente fascinante. O Bruno certamente conhece, que é um clássico do true crime, a Lizzie Borden, que é uma senhora que, como é que eu posso resumir isto? Passou à história, supostamente, porque depois isto é uma história que tem imensas pontas soltas, literalmente, por ter assassinado violentamente o pai e a madrasta com golpes de machados na sua casa. Isto uma história com mais de um século, imaginem. Mas ela transformou-se numa personagem de Fall River, nos Estados Unidos, absolutamente fascinante pelos contornos do julgamento. E de certa forma, pode parecer um pouco bizarro, mas também diz muito dos tempos, uma mulher que era vista como incapaz para cometer aquele crime e de certa forma terá contribuído em seu benefício próprio, porque as pessoas achavam: "Uma mulher jamais seria capaz de fazer uma coisa destas, portanto, a senhora quase de certeza deve ser inocente". As mulheres até nisso eram espoleadas, digamos assim, não eram sequer competentes para cometer um crime de grande empreitada. A Lizzie Borden já deu origem a uma série de outros conteúdos. Há visitas guiadas a casas assombradas, enfim, é toda uma figura pop, que passado este tempo todo chega aqui a mais um formato da Netflix. Vê-se. Eu acho que vale sobretudo para recuperar esta personagem, porque é de facto uma personagem absolutamente intrigante e até hoje, de facto, há muita coisa que não se sabe da Lizzie Borden.
Deixa-me só acrescentar uma coisa, porque tu falaste em Fall River. Fall River, que é no Massachusetts.
Massachusetts, exatamente.
Tem uma gigantesca comunidade portuguesa.
Verdade.
Nessa comunidade faz parte um ícone da cultura popular portuguesa chamado Jorge Ferreira, cantor açoriano, que entre outros gravou o grande sucesso "Autocarro do Amor".
Ora bem.
Não sei se se lembram.
Sim. E um para a mãe também.
Para a mãe. Sim.
Qualquer coisa assim.
"Tu Partiste e Não Voltaste", etc.
Eu tinha uma cassete do Jorge Ferreira. Comprei uma vez uma cassete do Jorge Ferreira, tinha para aí nove ou 10 anos.
Também acho que é de Fall River, que há um filme com a Jodie Foster chamado "Os Acusados" ou alguma coisa assim.
Claro.
Ah, pois é.
E é de portugueses.
Se não ganhou o Oscar.
Sim.
"Envolvidos".
E que é sobre um filme, uma violação.
Sim.
E há documentários sobre?
Sim, e é um filme e foi feito por imigrantes portugueses, alegadamente, sempre tudo alegadamente. Evidentemente, também era alegadamente, mas isso nunca se fala aqui quando se fala nas coisas portuguesas.
Pois é.
Fica a referência.
Pois é, Bruno.
Sempre a estragar o ambiente.
Maria.
Só para fechar. Aqui dois apontamentos musicais.
Não, foi em New Bedford. Desculpa, Maria.
Não, só dois apontamentos musicais para fechar. O novo álbum do Beck. Está longe de ser o melhor álbum do Beck, mas pronto, é Beck, eu vou sempre ouvir. "Ride Lonesome".
Beck está Beck.
Beck está Beck. E depois, outro que eu estou mais entusiasmada, acho que eles voltaram muito bem. São uns senhores também não são propriamente novos, os Echo and the Bunnymen. Não faziam nada há 12 anos. Eu até pensava que já não andassem sequer por imagina. Mas este "Echoes For Isaac" é um belo álbum. E portanto, se vos interessar, vão escutar também.
Muito bem. Além disso, tem a voz do Ian McCullick. Essa é a grande questão. Pedro Bueschi Mendes, "Howard Stern" na HBO, por que nós devemos ver? O que é isso? O que se passa?
Não temos necessariamente que ver, mas só pra dizer que o programa que ele faz na rádio, que faz há muitos anos e que até foi transmitido na SIC Radical umas décadas ago.
Não por acaso.
Sim. Está na HBO, quem quiser ver. O Howard Stern está disponível na HBO em Portugal, pra quem estiver interessado em ver o Howard Stern, continua mais ou menos igual a ele próprio. Na filminha, pensei numa série da Arte: "Le peintre, la pizza et le corbeau". Está dito por O Mistério Ruffini, que é sobre um falsificador de arte. Falsificador de arte é sempre tudo alegado.
Claro!
Mas no fundo, são umas tramoias no mundo da arte dos velhos mestres. Há quem compra uns quadros, depois se calhar não são verdadeiros, porque tem um pigmento, não sei o quê. É muito interessante a série. Os episódios são cerca de meia hora, portanto, são duas horinhas.
Bem passadas.
O Mistério Ruffini, francamente bom.
Olha, eu vi aquele que tu recomendaste aqui há umas semanas.
"As Papas da Aveia"?
Não, o do Martin Parr.
Não vi "As Papas da Aveia" ainda.
Não. E apreciei muito aquela dinâmica toda. É um tipo normal.
Sim. Já morreu.
Sim.
Eu gosto cada vez mais de documentários, que é uma fase.
Achas que quer dizer qualquer coisa?
Não, e se forem não americanos, ainda gosto mais. Uma notícia: um dos ídolos do jornalismo lusitano vem ao Coliseu. Patti Smith. 20, 27. Apressem-se a ir comprar bilhete.
Eu vi 20, já não sei qual é.
Há tantos.
Antes que o jornalismo português esgote os bilhetes.
Já viste a Patti Smith ao vivo?
Nunca vi. Sobe ao palco do Coliseu dos Recreios a 15 de junho de 2027.
É verdade.
Apressem-se a comprar os bilhetes se quiserem conviver com o jornalismo português.
É um privilégio.
Pagar pra conviver com o jornalismo português.
É um privilégio.
É mais pra ir ver velhos amigos.
Os jornalistas portugueses estão constantemente a ler os livros da Patti Smith. Ou reler.
Ai, meu Deus!
Tu já leste, claro.
É verdade, sim.
Não li todos.
São muito considerados.
Não li todos.
Mas musicalmente, isso é que me espanta. A obra da Patti Smith não é assim tão...
Não podes dizer isso, Pedro.
Não sei!
Claro que pode.
Não, é uma perplexidade. Mas eu confesso que não conheço a fundo.
Então é por causa disso, senão és preso dizendo isso.
Não, mas parece que as pessoas gostam mesmo da música dela.
Não, quer dizer, acredito que algumas pessoas gostem. Agora, acredito que muita gente vá ver a Patti Smith, porque é um símbolo de qualquer coisa.
A sério?
Mas não é a única.
Tá bom, mas ela é-
Com o livro na mão.
Os livros são bons, Pedro.
Eu não estou a dizer que não são, estou sempre a lê-los.
Maria, tu na tua qualidade de jornalista não podes dizer isso ao Pedro.
Não, imagina. Não acho que seja Nossa Senhora na Terra, mas já fui ver. Patti Smith é um bom concerto.
Claro que é, ótimo.
Mas conhecias as músicas?
Sim.
Quase todas. São sucessos. Basicamente o alinhamento é quase tudo sucessos.
Eu gosto muito de ir a concertos, não é o caso da Patti Smith, mas quando não conheço rigorosamente nada.
Nesse caso é fácil.
Há um documentário sobre IA na Netflix. Acho que o título é mesmo "Um Documentário sobre IA" ou AI ou IA, como queiram. Está francamente bem feito plasticamente, portanto o autor, que é ilustrador, e a mulher.
Mas esse é americano?
É, tem uns bonequinhos, mas está bem feito. Pra quem anda assustado com a IA, e acho que é muita gente, é uma sugestão. Eu vi com um olho aberto e um olho fechado, mas tem alguns entrevistados de renome, por exemplo, o Sam Altman vai lá e fala. E agora está pra sair pela Dom Quixote, "Se Alguém Criar a IA, Morremos Todos: Por que uma IA Sobre-Humana nos Mataria a Todos". Um dos autores deste livro, o Eliezer Yudkowsky, participa neste documentário na Netflix, e o outro autor é o Nate Soares, não sei se tem origem portuguesa ou brasileira.
Deve ser Fall River.
Sim.
New Bedford.
Mas este livro está escrito de uma forma de fácil acesso. Se me perguntarem a opinião sobre IA, não tenho ainda, não uso, não sou daquelas pessoas que usa, mas eu descubro que muita gente usa como se fosse o Google. Ainda há pouco falava, estávamos a ter uma conversa: "Fomos não sei onde, fomos a" já não me lembro, "Portalegre, depois perguntei ao ChatGPT quais são os melhores restaurantes". Eu fiquei a pensar.
Ele faz um agregado e simplifica.
Tu também usas, já percebi.
Não, estou só a explicar, estou fazendo um pouco de mansplaining, a dizer como é que aquilo funciona.
Essa pessoa que estava a dizer isso.
Tem cada vez mais pessoas a fazer isso. Eu tenho amigos que no outro dia me falaram disso.
Porque em vez de estares a ver não sei quantos sites de listas.
Mas essas pessoas estão sempre com a ecologia, com o planeta, e não sei o quê. Usar a IA consome muita água. Essa parte irrita-me um bocado.
Mas o ser humano é cheio de contradições.
Pronto! Eu também sou cheio de contradições, mas eu não uso a IA pra restaurantes.
Mas não é só restaurantes, estas pessoas diziam que já não saem de casa. Imagina, vão fazer uma viagem e planeiam tudo, levam tudo na IA. O quê? Como é que eu vou daqui pra ali? Onde é que fico? Quando é que vou comer?
É verdade. O Bruno também faz isso.
Não me parece.
Não, porque o Bruno não sabe fazer.
Já percebi que faz.
Não, faço pesquisas e agora aparecem automaticamente respostas.
É verdade, no Google a primeira coisa é o-
Restaurantes, não sei o quê. E aparece uma resposta de IA.
Bom, então este livro é sobre os perigos da IA. Até tem uma capa assim
Quando escolhe restaurante.
Tem uma capa meio fúnebre.
Qual é a editora?
Don Quixote. Ou como se diz em Lisboa: "Dookshot". Esta conversa da IA, espero ansiosamente nunca vinhamos a ter um programa sobre IA. Ou então eu posso faltar nessa altura.
Eu vou fazer um teste que é: vou perguntar à IA quais são os tópicos.
Para um programa sobre IA.
E se fizéssemos um pop-up sobre IA? Vou só perguntar o que a IA diz. Muito bem.
Já se usa bastante IA na televisão em Portugal.
Estás a ver? Temos temas para falar.
Sim, mockups, sobretudo. Fazer aqui uma coisa, uma promo de uma novela ou uma coisa qualquer. Pode ser um sizzle, como nós dizemos, pode ser feito com o recurso à IA.
Sizzle parece o Snoop Dogg a falar.
Sizzle.
Sizzle Vieira.
Mas não me parece, posso estar enganado, que vá ser muito usado em televisão convencional. Já era usada, claro, a recriar multidões nas séries, mas vamos ver.
Muito bem. Tenho três coisas para vos sugerir. Uma, que são duas. Esta semana os Radio Macau começam os seus concertos em Lisboa e no Porto. O primeiro é 30 de setembro.
Estão esgotados, acho eu.
Julgo que sim. Não sei se estão todos esgotados, mas se não estão, a caminho disso e vão lá e esgotem, porque vale a pena. Dia 1 de outubro começa o Outfest no Barreiro, que é um evento, é outra coisa, é outro mundo, é outro planeta, como eles dizem, música exploratória. É ótimo para pessoas como a Maria, que querem ir a um sítio.
Onde não conhecem nada.
Não conhecem nada.
Atenção, pode não acontecer. Há coisas que as pessoas não conhecem.
Eu gosto realmente de música, eu estou disponível.
As pessoas estão a elogiar.
Voltando à questão da IA.
Além disso, isto é na terra do Bruno. O Bruno já deve ter ido ao Outfest mil vezes.
As pessoas querem um mundo almofadado, em que tudo está previsto, e esquecem-se que a vida é o que acontece quando nós não estamos à espera.
A vida é o que acontece nos intervalos dos teus planos, já dizia o John Lennon.
Há quem viva escondido da vida inteira.
O John Lennon, não sei se sabes, acerca da Yoko Ono.
Não. E então?
Depois contas.
O festival acontece até dia 4 de outubro. Ide para descobrirem, para ficarem espantados ou para ficarem apaixonados ou para eventualmente não gostarem de algumas coisas, pode ser, mas a vossa vida vai mudar. Recomendo. Depois, um livro que eu ainda não li, mas estou muito curioso. É um livro que se chama "Are They Dead Yet?" Ou seja, "Eles já estão mortos?"
Já morreram.
E é escrito por um senhor chamado Sam Roberts, que é sobretudo conhecido por escrever obituários no New York Times. E este livro é um livro sobre obituários. Como é que se fazem, quais são as regras, como é que se seleciona o alvo do obituário, por exemplo, num jornal mundial e que aborda estas questões de forma não local. O que deve ser feito, o que não deve ser feito, etc. Isto parece-me fascinante.
É muito interessante.
Fascinante.
Também é fascinante, porque tu vês abordagens muito idiossincráticas aos obituários. Vais alternando entre uma postura mais solene e mais institucional e depois quase uma espécie de brincadeira se o morto for uma figura um pouco fora do habitual.
Sim.
Então os obituários também revelam um pouco o ângulo que os jornais têm, o olhar que eles têm sobre a própria realidade. Ou seja, tu podes optar por um obituário-
E muitas vezes até a ideologia.
Exato.
Os mortos polêmicos. Os mortos mais divisivos, o que é que se faz.
António de Rui faz isso bem no Público. Faz dessa forma.
No Público, sim, fazia antes no Expresso e tem essa particularidade de nem sempre escolher o morto mais óbvio, o que também permite uma maior dose de liberdade. Mas é muito interessante, até porque nós sabemos que os obituários, grande parte deles já está escrito.
E havia aqueles famosos obituários do Expresso, cujo primeiro parágrafo era cerca de coluna e meia, era do José Cutileiro, se não estou enganado.
Sim, era que sim.
E eu achava aquilo um exercício de estilo notável.
E é preciso saber fazer.
Claro. E depois, esta semana, quinta-feira, que é dia um, certo?
Dia um, dois, três.
Estreia "Digger", o filme do Alejandro Iñárritu, protagonizado por Tom Cruise. Eu estou muito curioso. Estamos a gravar isto, ainda não vimos o filme, ninguém viu. Eu estou muito curioso. É a história de um super rico cujas atividades industriais colocam em risco todo o planeta e toda a humanidade e ele vai arranjar maneira de tentar ser ele próprio a salvar a humanidade. Isto com muito nonsense e humor macabro à mistura, mas sobretudo interessa-me perceber onde é que está o Tom Cruise agora. Acabou a "Missão Impossível", supostamente.
Vai correr atrás de um Oscar?
Vai correr atrás do Oscar que nunca ganhou. Essa é que é a grande questão. Ele só tem o Oscar honorário. Já foi nomeado três vezes.
Eu sugiro que vocês pesquisem no YouTube "Tom Cruise running" e veem uma compilação de todos os momentos.
E não veem o Oscar a correr atrás dele. E outra coisa, o Tom Cruise voltou a dar entrevistas, que também é uma coisa muito interessante. Com o seu ar muito particular e a forma de abordar as respostas. Ele está sempre a representar qualquer coisa E eu também gosto muito de Tom Cruise. Atenção.
Eu também.
No outro dia a vida encontrou-me a ver o "Missão Impossível 2".
Parabéns.
É mau ou não é? Qual é a tua opinião sobre o dois?
O dois é mau.
O dois é mau.
O dois é mau.
Não consegui.
Mas esse não foi o que nós vimos no cinema?
Não, o 17.
Nós vimos o 32.
Não, o dois.
Não, a maneira como ele mudou.
Vimos o dois do último capítulo.
Do décimo sétimo.
A maneira como o jovem mudou, parece um boneco. Enfim, não consegui avançar muito.
Porque a vida também o achou ele.
Dito isso, sempre que aparece um "Missão Impossível" num Hollywood, a minha vida para, eu fico a ver.
Ficas a ver?
Claro.
Quer dizer.
O "Bourne" não.
O "Bourne" eu vi todos.
Adoro o "Bourne".
Menos o último, que é outra vez com o Matt Damon.
O terceiro do Matt Damon é extraordinário.
Todos são muito bons. Eu gosto muito do "Bourne" com o Jeremy Renner.
É, não é mau.
Eu gosto muito destes filmes do Bourne. Para certas pessoas, pelo visto como nós, é como os livros da Patty Smith para os jornalistas. Estamos sempre a encher o cão de estimação.
Dito isso, Bruno Vieira Amaral, o que é que tens para nós?
Eu tenho um reality show na Netflix, que é um formato sul-coreano que está na Netflix, mas eu vi a versão mexicana, que é um concurso para ver quem é que tem mais resistência física. São 100 concorrentes, competidores, que se juntam. Temos os crossfiteiros, temos tipos do exército.
O nome é mesmo esse? Crossfiteiros?
Crossfiteiros. No México, são crossfiteiros. Tens atletas do Iron Rocks, tens ex-atletas olímpicos, tens influencers, tens músicos.
Militares.
Militares, pedreiros, que a minha personagem preferida deste reality show era o Albañil Legendario, ou seja, o Pedreiro Lendário, eu estava a torcer por ele. E eu acho que essa é uma crítica que eu faço. O programa tem nove episódios e o que funciona muito bem em qualquer tipo de reality show é a capacidade de tu impores a história das personagens, ou seja, selecionares, que eles são 100, não vais ter 100 histórias. Alguns são passados rapidamente, mas tu tens que criar uma narrativa à volta de cinco, seis, sete personagens, que te permita identificar e relacionar com essas personagens e no fundo, estar a torcer por essas personagens. É isso que funciona num reality show. E aqui eu acho que há demasiado tempo com as provas em si, que são provas interessantes, e menos tempo para desenvolver a ligação do espetador com os concorrentes, com as personagens. E é a única coisa que falha, mas aquilo é muito bem produzido. Eu estive a ver o início agora da versão italiana do formato. Não gostei tanto, acho que a do México está melhor, mas falta ali um bocadinho dessa ligação, que é o ingrediente essencial do sucesso, para mim, dos reality shows. Mas gostei.
E uma das partes mais difíceis de fazer, porque tu tens que os escolher previamente. E se o tipo que tem uma grande história, backstory, é eliminado na primeira. No fundo, talvez deva estar a adiantar algo.
Claro.
Pois, além disso, eles todos têm físicos e aptidões muito diferentes. E se tens uma prova a eliminar logo no início, que não seja de acordo com as características daquele tipo, já sabes que ele vai à vida. Acredito que haja aqui também uma gestão por parte da produção para alguns dos mais populares não serem rapidamente eliminados, ou do que eles preveem que possam ser os mais populares, não sejam rapidamente eliminados, mas mesmo assim, como aquilo é feito previamente, poderia haver uma maior exploração dessa vertente pessoal para criar essa empatia. Por falar em empatia.
Tens um livro novo?
Tenho um livro novo recente, um autor muito promissor, Dostoiévski, "Os Irmãos Karamazov". Eu quero dizer aos nossos ouvintes que tinha feito uma promessa no início do ano de ler "A Montanha Mágica". Li "A Montanha Mágica".
Neste momento devemos aplaudir.
Parabéns.
Ao fim de nove meses e meio.
Chegaste ao cume.
Cheguei ao cume da montanha.
Mas agora ainda te falta descer.
Agora ainda tenho que descer.
E continuas a saber do meu, vê bem.
Vê lá. E agora pus-me nesta outra empreitada de ler "Os Irmãos Karamazov", do Dostoiévski. Eu já li o primeiro na edição da Presença, com tradução do Felipe Guerra e da Nina Guerra. Aquilo está dividido em dois volumes, o primeiro com as duas primeiras partes do livro e o segundo volume com as duas segundas partes do livro. Eu já tinha lido o primeiro volume, mas como sou uma pessoa muito séria, comecei a ler do início novamente. Vou mais ou menos a meio desse primeiro volume. "Os Irmãos Karamazov" é uma das obras fundamentais da literatura ocidental.
É verdade.
É bom perceber porquê. Há aqui uma questão: o Tolstói não gostava muito do estilo do Dostoiévski. E essa é uma das questões que volta sempre. Quer dizer, será que as questões filosóficas no Dostoiévski se sobrepõem às questões mais puramente literárias, do estilo, artísticas? É verdade, parece que ele dá primazia à discussão dos temas em si e a pôr as personagens em conflito, mais do que estar preocupado com o estilo. Os próprios tradutores do Dostoiévski para várias línguas o dizem. Só que ele consegue pôr ali tanta coisa, nomeadamente em questões de fé, de livre-arbítrio, até de ideologia, que também está no "Crime e Castigo". Ele põe as grandes questões, quase todas, não há nenhuma que falhe nos livros dele, e "Os Irmãos Karamazov" é quase um caldo de todas essas grandes questões, que também estão, de uma outra forma, na "Montanha Mágica" do Thomas Mann. São livros-montanha, cujos temas podem escapar, mas estão sempre presentes. E mesmo para quem não os leu, eles de alguma forma fazem parte da discussão, fazem parte do substrato da discussão intelectual e literária, mesmo que não os tenhas lido ou lido aprofundadamente. A experiência de ler um destes livros, independentemente da tua opinião, eles não vão sair do cânone. Tu podes dizer: "Que livro chato, que livro horrível". Mas eles vão continuar aí, e perceber por que eles se instalaram nesse cânone, por que não saem de lá, por que de alguma forma continua a ser importante ir a esses livros, nem que seja para formares a tua opinião muito pessoal e idiossincrática. Tenho mais sugestões, não tinha falado, mas tenho. Eu sou um obcecado com o 11 de setembro, não com teorias da conspiração.
José Figueres.
Não tenho nenhuma ligação com os atentados, mas sempre que há estas efemérides eu procuro ver. Aliás, já tinha sugerido aqui um documentário que está na National Geographic, na Disney+. Mas encontrei no YouTube um documentário de 20 episódios, cada um com uma hora, em que são só imagens de arquivo, captadas no dia dos atentados, transcrições, áudios de comunicações entre as autoridades de aviação naquele dia, dos bombeiros. Não há nenhum comentário, não há talking heads, é só a reprodução, quase minuto a minuto, mas de uma forma muito distendida, do que aconteceu no 11 de setembro. É verdadeiramente impressionante. Aquilo é uma experiência imersiva.
E depois admiras que demores tanto tempo a ler a "Montanha Mágica". Vinte episódios?
São 20 episódios.
Não dá pra tudo.
Não tem nenhum comentário, nenhum enquadramento, é apenas estares a reviver com o máximo de detalhe possível, com imagens de cameramen que filmaram, pessoas que estavam de férias em Nova York e filmaram. Por exemplo, para o momento da queda de uma das torres, tu tens praticamente todos os ângulos possíveis que foram filmados. A questão é que tu chegas ao fim, continuas a rever e rever aquelas imagens e a pensar: "Como isso aconteceu? Como isso foi possível?" Nós vivemos, testemunhámos aquilo, mas continua a parecer.
E há muitas imagens muito inocentes, pessoas que até estavam de turismo do outro lado e que se vêem a fazerem fotos lá atrás, sem saber, provavelmente, o que estava a passar ainda. Mas são assim registros muito curiosos da coisa.
Mais uma vez, quando vês este tipo de documentários, voltas a entrar na cabeça perplexa das testemunhas daquele dia, dos jornalistas que estavam a comentar e estavam a olhar para o que estava a acontecer sem perceber o que estava a acontecer, até que chega aquele momento: "Espera aí, que isto é um ataque terrorista, isto não é um acidente".
Tem um livro ótimo do Martin Amis, que é sobre o segundo avião.
Que é o momento em que tu percebes: "Isto não é um acidente". São pancadas minhas. Acabamos? Acho que chegamos ao fim.
Sim, senhor. É que temos que ir embora. A vida não é isto. Muito bem. Sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhuma dose. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.