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Mais uma segunda-feira, mais uma dose de sugestões da semana aqui do "PopUp". Pedro Mexer Mendes, vamos começar por ti, até porque fizeste questão de ser o primeiro e, portanto, vamos a isso. Queres começar por Mel Brooks? Pode ser?

Não íamos começar pelos e-mails que recebemos?

Não, porque os e-mails ficam guardados pra outro programa.

Muito bem. Qual é o nosso e-mail?

popup@observador.pt.

Muito bem.

Podíamos fazer uma peça de teatro algum dia.

Achas que sim?

Claro, temos potencial.

Com o Diogo Infante.

Pode ser.

Todas as peças de teatro são com o Diogo Infante.

Pode ser.

Com o encenador.

Ou com o actor ou encenador, são sempre cenas com o Diogo Infante. Eu tentei que o Mel Brooks fosse o tema deste programa.

Sim.

Não consegui. Não, da semana passada, de quinta-feira.

Sabes por quê? Porque íamos estar todos de acordo.

Não sei.

Depois não havia dinâmica.

Chegou à HBO um documentário em duas partes. Cada parte eu acho que tem, não sei, 26 horas. É muito longo. Realizado pelo Judd Apatow, é um daqueles documentários que agora têm saído. No fundo, a única perspectiva crítica que há sobre a obra do Mel Brooks é não haver nenhuma perspectiva crítica sobre a obra do Mel Brooks. Eu gosto imenso do Mel Brooks, faz parte da minha infância, minha juventude. Aliás, eu associo-o a cópias de VHS, nomeadamente o filme "Blazing Saddle".

"Balburdia no Oeste".

Exato. O "High Anxiety" e os "The Producers". E há um outro filme agora que já me vou lembrar, aquele com o Gene Wilder, que é um psiquiatra. É o "High Anxiety". Sim, acho que é. Bom, os filmes do Mel Brooks faziam-nos rir imensíssimo. O único que eu não gostava era o próprio Mel Brooks quando entrava nos filmes. O Mel Brooks é um daqueles comediantes americanos que faz muito barulho, muito excessivo.

E o Pedro a gente já sabe.

"I'm feeling".

Muita confusão, não.

Eu via, não sendo o Mel Brooks, mas irritava-me muito, tinha essa sensação quando aparecia o Will Ferrell.

Pronto, é assim.

Quando aparecia aquilo.

É, dá vibe.

Mas, entretanto, retrocedi.

Calma, Will.

Não, gosto muito do Will Ferrell.

Mas vale a pena.

Mas na altura provocava-me essa sensação: "Ipa, este tipo é esquisito. Para que é isto tudo? Para quê?"

Vale a pena ver, obviamente, o Mel Brooks. Ou seja, parte do que eu disse é meio a brincar. Vale a pena ver o documentário do Mel Brooks, que se chama "O Homem de 99 Anos", "The 99-Year-Old Man". Duas partes. Ele foi casado com a Anne Bancroft. Eu não sabia, também porque não tenho que saber tudo. Ele combateu na Segunda Guerra Mundial, o Mel Brooks, que eu acho uma coisa incrível.

A cuidado que ele tem, pedindo desculpa.

Na Primeira Guerra.

Não, mas o facto de ter combateu. Há imensos insertos, isto os americanos de facto são ótimos. Vemos o Mel Brooks em imensos talk shows, sempre a interromper os outros convidados, diga-se de passagem, sempre a fumar. Estas pessoas parecem ter tido a consciência de que iriam ser famosas, pois há imensos home videos. Home video nos anos 40.

Como é que já estavam a gravar vídeos essa pessoa?

Na praia, todos musculados, com umas miúdas giras.

Os filmes do Mel Brooks, que agora vão estar em fevereiro, muitos deles.

Era isso que eu ia dizer.

Eu peço imensa desculpa, Pedro.

Vai haver um ciclo na nossa Cinemateca. Falávamos de cinema na semana passada. Muito difícil de saber a programação da Cinemateca, porque o site é assim meio Cinemateca.

Está alinhado com o tempo.

Mas começa dia 2 de fevereiro, precisamente com o "Blazing Saddles", que é um filme sobre racismo. O Mel Brooks depois teve este mérito, sendo ele judeu/muito judeu, portanto, afirmativamente judeu, soube fazer humor com o Hitler, com os nazistas. O "The Producers" é isso. E aqui com o racismo, este filme, o "Balburdia no Oeste", que é um filme chamado, como nós dizíamos no nosso tempo, um fartote.

É uma reinação.

Nós dizíamos mais um fartote.

É de partir o coco a rir.

É de rir a bandeiras despregadas.

Isso era mais nos livros dos cinco.

Pois era.

Era, sim.

Vamos aos livros.

Em boa hora.

É como se diz nos programas sérios. Vamos aos livros.

A Presença está a repor a obra de Patricia Cornwell, uma escritora de livros policiais, digamos assim, pré-internet, essa parte é importante, pré-metes as coisas num computador e tens a resposta. Neste caso, o "Post Mortem", que é o primeiro caso da "Kay Scarpetta". Eu li estes livros todos nos anos 90, tenho as edições originais em hardback.

Eles não se preocupam com o facto de o Pedro ler tantos policiais e crimes e thrillers?

Depois fartei-me.

Sim, mas imagine, pode contaminar a tua vida pessoal e real.

Não, minha vida não é grande coisa. E vai haver uma série em que a mulher do Tom Cruise, estava a faltar o nome.

Nicole Kidman.

Disse, bolas. A Nicole Kidman vai interpretar a protagonista. Portanto, por isso é que provavelmente a Presença se lembrou de colocar os livros no mercado. E em boa hora, são ótimos livros, ótimas histórias, muito bem contado. Enfim, Patricia Cornwell, "Post Mortem" da Presença. E depois, aqui na oficina de livros, um livro que eu ainda não li, mas que vou ler, do Ângelo Delgado, um escritor português, que se chama "Foi o Preto". É exatamente o que estão a pensar, ou seja, quem é que foi o culpado? Quem é que fez? Quem é que assaltou? Foi o preto. O Ângelo Delgado é cabo-verdiano e, portanto, tem mais consciência do que significa foi o preto do que propriamente uma pessoa como eu. Este livro, para já o protagonista é sportinguista, o que eu acho que é bem apanhado.

Um grande abraço para o protagonista.

O livro decorre nos anos 90. Eu li só a parte inicial e tenho já pontos de contacto, porque de facto estas histórias têm que ser contadas. Grande parte do Portugal cavaquista foi, de facto, construído por cabo-verdianos. E que é uma coisa que também não faz muito parte das nossas narrativas, não faz nada parte, que eu saiba, não há nenhuma peça de teatro sobre isso no Dona Maria, mas talvez haja um dia. Pode ser este livro do Ângelo Delgado, não sei. Mas da oficina do livro, o livro não tem demasiadas páginas, que é uma coisa que eu tenho visto ultimamente. Não sei, Bruno, se me podes ajudar nisto. Romances, novelas de 100 e tal páginas. O teu também não tinha muitos. O " Toda a gente tem um plano". Não tinha 300, não tinha 400.

Não, tinha 200 e poucas.

Que eu acho uma coisa boa.

Ou seja, os livros não serem muito longos.

Eu escrevi um com 600 e tal.

Quem és tu?

Não é isso.

Mas agora estamos a falar de romance ficção.

Não sei se um dia não podemos até falar sobre isso, e aqui o Bruno pode ajudar, com certeza, que é: quantas páginas deve ter um livro ou quantas páginas é de supor que o livro venha a ter?

Os leitores, mesmo leitores de ficção literária pesada, costumam gostar de livros-

Que tenham mão.

Que se aguentem em pé sozinhos, como dizia o João Ubaldo Ribeiro.

Ora, cá está.

É pena não teres sido tu.

Chamado "good value for money".

Ok, vou me entreter aqui durante algum tempo.

É pena não teres sido tu a criar essa frase.

Não, porque ele dizia que o pai dele só media os livros, avaliava os livros, se eles se aguentavam sozinhos. Então ele quando escreveu o "Viva o Povo Brasileiro", ficou muito contente, porque era um livro-

Porque conseguiu.

Que se aguentava sozinho. E uns são magrinhos, mas eu acho que é uma tendência mista. Tens desde, por exemplo, o Nausgaard, que gosta muito de calhamaço, aquela coisa que já vem. E depois há outros autores que vão por aquela coisa um pouco minimalista. Há uma grande discussão.

Ou tens os Bolanhos e os Foster Wallace, com livros de mil páginas.

O Jonathan Franzen, mas depois os Palahniuk já eram mais curtos. Eu acho que é precisamente num dos livros do Bolano que ele reflete sobre qual é a melhor obra de alguns grandes escritores. Por exemplo, do Melville, é o "Billy Budd" ou é o "Moby Dick"? No Tolstói, é a "Morte de Ivan Ilitch" ou é o "Guerra e Paz" ou "Anna Karenina"? Onde é que estará a essência dos escritores? Está meio.

Só para acabar. Do Ângelo Delgado, que foi jornalista e hoje é publicitário, "Foi o Preto", um romance na Oficina de Livro, sobre precisamente a circunstância de nós muitas vezes partirmos do princípio que o culpado é de facto alguém só porque tem a pele mais escura. O estereótipo racial, obviamente, é um tema que é abordado por todo o mundo, mas não muito abordado na cultura portuguesa, creio eu. Ainda só li uma parte do livro, as primeiras páginas. Gosto do ritmo, gosto do estilo. Vou obviamente ler, também porque tem cento e poucas páginas e eu acho isso uma qualidade nos tempos que correm.

Muito bem, Bruno Vieira Amaral. Também tens aqui um livro, mas eu quero que tu comeces pelo outro tema, citando-te. Vamos falar sobre, abre aspas, "O bacano que trepou o edifício em Taiwan".

Que foi um acontecimento na Netflix.

Em direto.

Em direto. E agora está a versão reduzida na Netflix.

E em pedaços que viralizam pela internet.

Exatamente. Eu agora não me lembro do nome dele. Alex Honnold.

Honnold, esse.

Honnold é em espera?

Mais ou menos.

Teve graça.

Que era o protagonista do documentário "Free Solo", ganhou um Oscar.

Está na Disney Plus.

E que é fantástico.

Obrigado, Pedro.

Que eu acho que já recomendei aqui.

Já.

E que é um feito extraordinário, é um filme extraordinário. E o senhor gosta de subir às coisas.

Eu vi umas imagens.

Aquilo é arrepia.

Eu vou fazer aqui uma partilha, uma coisa que é de facto muito importante. Eu tenho muitas vertigens. E eu vejo aquilo, mesmo na televisão, eu não fico confortável, aquilo é muito complicado. Eu não percebo. Este Alex sobe sem cordas.

É sim.

Eu vi uma vez, na ponte D. Luís I.

Mas a tranquilidade com que ele faz aquilo.

Eu estava a almoçar nas docas e olhei para cima, olhámos para cima e havia um jovem, ele não saltou, mas a polícia tirou-o horas depois. A sensação de absoluto incômodo, por não haver nada que possas fazer. Eu fiquei a pensar, não sei se vais falar disso. Não sei se à Netflix devia ter sido isso permitido, mas pronto.

Sim, eles fizeram o aviso.

É que uma pessoa pode morrer em direto.

Se acontecer alguma coisa, é.

Exatamente.

Claro. É que tu estás a ver aquilo.

Eu acho isso é eticamente muito problemático.

Mas vou conspirar. E se aquilo não aconteceu em direto? E se nós fomos todos enganados?

Está bem, mas está a ser vendido.

Foi anunciado previamente.

Pois, não sei.

Só gostei, só achei que era uma boa.

Mas também tem muito a ver com a cultura do país.

Eles fizeram lá o aviso, claro, porque aquilo é como o parkour. Qualquer miúdo vê aquilo e acha: "Epá, que cena gira para fazer".

Atenção, nós estamos a dizer isto também, ninguém nos impede estar a ver, como já aconteceu num jogo de futebol e alguém cair fulminado.

Mas aqui estamos a falar de uma actividade de alto risco, ainda que sendo aquela pessoa a fazer aquilo, o risco é muito reduzido. Eles explicaram a certa altura que aquilo foi preparado, mas acho que houve na transmissão uma espécie de vontade de passar a ideia de que era mais ou menos improvisado. Claro que depois há acertos que ele mostra do treino dele, o treino físico, a preparação física, mas aquilo é estudado ao pormenor. Isso também é dito, mas não é, quanto a mim, suficientemente realçado. Aquilo é muito estudado. Ele tinha perfeita noção das características.

Como é que ia fazer, qual o percurso, onde pôr o pé, onde pôr a mão.

Há uma parte que eu acho que havemos de descobrir, desculpa estar a meter na tua, que é: ele sobe um edifício em Taiwan, uma torre de não sei quantas.

Taipei 101, que é o número de andares.

Mas a verdade é que alguém, talvez ele, mas provavelmente não ele, deve ter verificado se nenhuma daquelas partes estava solta.

Óbvio. Mas é isso.

Isto não é dito.

Isso não é dito. Aliás, ele quando está a subir, a certa altura diz: "Bem, esta foi a parte de onde limparam a porcaria dos pombos". Ou seja, houve um trabalho.

Foi preparado, houve produção.

Obviamente.

E ainda bem.

Claro, não se esperava outra coisa, mas cria-se ao mesmo tempo a ideia de que aquilo é um pouco espontâneo. "Pronto, vou subir agora aqui um prédio." Claro que depois tu podes falar da escolha daquele prédio. Ele diz que já tinha o sonho de subir aquilo há muito tempo e que até faria de borla. Ganhou também, teve um cachê.

Que eu envergonha.

Que eu envergonha, mas que segundo o New York Times terá andado à volta dos 400 e tal mil euros. O que para fazer aquilo, quanto a mim, não é muito.

Exacto.

Porque para já deve ter dado um grande retorno financeiro à própria Netflix. Aquilo que eu queria também sublinhar aqui é as maiores possibilidades que cada vez se abrem mais para os conteúdos das plataformas. Ou seja, teres eventos. Este pode considerar-se um evento desportivo, mas é mais do que isso. É uma performance, quase. E nós já temos transmissão de competições desportivas, concertos também, mas não completamente generalizado, e cada vez mais, eu acho, vais ter uma maior variedade nas plataformas. Da mesma forma que tu tinhas os DVDs à venda nas FNACs desta vida e foram desaparecendo e sendo substituídos por outras coisas. Eu acho que um dos caminhos das plataformas vai ser esse. Ou seja, hoje tu pensas em plataformas e pensas em séries, sobretudo, também filmes, mas eu acho que vais começar aqui a descobrir outras apostas.

A Netflix vai apostar a força nos podcasts, por exemplo.

Já tens imenso desporto também.

Cada vez tens mais desporto e eu acho que vais ter uma maior variedade. Ou seja, o supermercado vai começar a ter muito mais prateleiras, porque de início a ideia era: "Por que as pessoas não vão ao cinema?"

Pode ser que assim voltem ao cinema. Deixa de haver cinema nas televisões.

Olha, aí está uma hipótese.

Por que não mandam e-mails aqui para o papel?

Olha, por exemplo.

A sugerir coisas.

Por falar nisso, Bruno Vieira Amaral. "A Cortina".

"A Cortina", de Milan Kundera.

Nome novo na literatura.

É. E desconhecido. Milan Kundera, o Lloyd Cole da literatura muito popular em Portugal.

Vocês lembram-se de uma altura, era nos anos 90.

Fez o papel de redes sociais na minha vida a dada altura.

É verdade. Falámos sobre ele.

Tenho lá o livro do Kundera que achei emprestado.

E eles citavam, meu Deus, citavam Kundera.

Lembras quando vinham?

Não sei se ele era o Lloyd Cole ou os James.

Não, eu ia dizer, lembras quando vinham duas vezes por ano a Portugal os Gin Loves Jezebel?

Duas?

Ou mais.

Com os The Mission.

E depois não davam cinco concertos em sítios improváveis?

Sim, ao topo da Sé.

Só para cantar o Break the Chain.

Break the Chain.

Estava sempre a dar no Jamaica.

Em todo lado.

Como é que não houve uma tragédia no Jamaica é uma pergunta que se devia fazer.

Eu podia te contar uma tragédia.

Fui eu ao Jamaica.

Não, mas isso é uma tragédia pessoal.

Houve várias tragédias pessoais a acontecer no Jamaica. Bem, "A Cortina: Ensaio em Sete Partes" é um ensaio, e em sete partes, do Kundera. No fundo, é sobre a arte do romance. Ele tem um livro cujo título é precisamente "A Arte do Romance", e este aprofunda e desenvolve as ideias dele sobre o romance, muito inspirado, por exemplo, naqueles que são considerados os primeiros romancistas modernos, o Cervantes, o Fielding, o Lawrence Sterne, e que abriram espaço para o romance se tornar o gênero hegemônico que hoje ainda continua a ser em literatura. E o livro, através de uma análise pessoal, é um ensaio, permite-nos ver o que o romance enquanto gênero faz que outros gêneros não fazem, não podem fazer, o que foi buscar aos gêneros que o precederam, como é que continua a influenciar quase as possibilidades da escrita de ficção e também muito como é que A cada momento, em cada período histórico, o romance consegue, daí o título, rasgar a cortina de ideias pré-concebidas que nos impedem de ver a realidade. Isto é como se cada época histórica e cada período histórico tivesse uma cortina, que é a cortina dos hábitos, das ideias estabelecidas. Como é que o romance consegue rasgar essa cortina e permitir-nos aceder a zonas, aspectos da existência humana e daquelas épocas em particular, que até aí estavam na obscuridade. Que é uma ideia que me é muito cara, porque eu acho que é precisamente para isso que o romance serve. Se pensarmos na utilidade do romance, para mim é essa: é usar como que um bisturi ou uma lanterna para iluminar zonas da existência humana, da experiência humana, mesmo em termos históricos, que até aí não tinhas acesso, quer através de outros géneros literários, quer através de outras expressões artísticas, quer até, por exemplo, ao nível das ciências, do estudo, da história, de ciências sociais e não só. Tudo isso, de alguma forma, está neste livro do Milan Kundera, "A Cortina", publicado pela Dom Quixote.

Muito bem, eu tenho duas sugestões muito rápidas para vocês todos. Primeiro: estamos na época de ver os filmes nomeados para os Oscars, que são entregues dia 15 de março, portanto as nomeações são muito recentes. E eu vi, ainda não tinha visto, acho que alguém já falou disto aqui o ano passado, que é um dos documentários nomeados para o Oscar de melhor documentário, que está na Netflix, que se chama "A Vizinha Perfeita".

Fui eu. Também vi.

Não.

Falamos.

Quem é que falou?

Eu lembro-me de ter falado.

Eu falei.

Eu é que falei. Eu ainda não tinha visto. Vi. Gostei muito.

Dizem que é um dos mais fortes candidatos.

Sim, senhor.

É extraordinário.

Para quem não viu, vou contar muito pouco. É a história de uma área residencial suburbana na Flórida, em que há uma senhora que vive sozinha e que é muito incomodada, mostra-se muito incomodada pelos garotos dos vizinhos, os filhos dos vizinhos brincarem constantemente ali na relva ao lado da casa dela. E ela não tem paciência, não aguenta aquilo. Chama muitas vezes a polícia. Isto parece tudo muito banal e parece um enredo muito curto. Porém, há duas coisas que marcam a diferença. Um, há desenvolvimentos na história inesperados e eventualmente muito surpreendentes, que eu não vou contar, obviamente. E depois é o formato.

Ora essa.

90% do filme são imagens de bodycams da polícia.

Pronto.

E eu comecei a ver aquilo um bocado pé atrás. "Então, mas agora?"

Parece o "Cops". Parece o "Cops".

Mas aquilo está muito bem feito.

Ainda está? Onde é que está?

Netflix.

A montagem, claro. O facto de serem imagens quase todas das bodycams ou dos carros da polícia, ou então imagens de vigilância das casas.

Sim, mas acho que bodycams é para aí 80, 90%.

Mas já tinha acontecido naquele documentário também sobre a família, "The Family Next Door".

Sim.

Em que o homem que mata a mulher e as filhas. Quase todo o documentário é feito com imagens das redes sociais ou de câmaras de vigilância. E eu acho, e na altura também tinha falado disso, são as novas possibilidades narrativas, únicas em relação ao nosso tempo.

Sim, mas depois é aquilo que tu dizes, que é a seleção de imagens, a montagem.

E a forma como a história está contada.

E a forma como eles escolhem para contar a história.

Isso é que transforma aquilo noutra coisa.

Extraordinário. O filme não é muito longo, uma hora e meia, para aí. Vê-se num fôlego.

Que é uma maravilha. Vê-se como um romance.

Apesar de que ele não terminar muito bem.

Não, o filme é complicado, de facto.

Muito complicado.

Mas eu gostei muito, fiquei muito surpreendido. E depois, outra sugestão: há um álbum que faz agora 30 anos, que é o álbum "If You're Feeling Sinister", dos Belle and Sebastian. Eu sou um shauninho dos anos 90 e há pouca Shaunice.

Esse é o pinnacle das Shaunices.

Há pouca Shaunice melhor do que esta. E à hora que gravamos isto, há muito poucas horas foi anunciado que eles vão tocar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, dia 21 de julho.

Já compraste bilhete?

Não.

Vou comprar.

Palmas para os Belle and Sebastian.

O Ruca gravou-me.

O teu amigo Ruca.

O meu amigo Ruca gravou-me um dos CDs deles, aquela do Peasant, como é que é o título, agora não me lembro.

Ruca, Rui Manuel?

"Fold Your Hands".

Rui Manuel?

Rui Carlos. Rui De Niro.

Rui De Niro?

Rui De Niro.

Ruca, então o "ca" é só de Rui.

Não é Rui Carlos, eram os Ruiz, os Ruiz eram Rucas.

Enfim.

Mas pensei Dani também.

Ruca Dani.

Rui De Niro.

Rudani.

Eu aposto que vocês não conhecem mais ninguém com o nome De Niro.

Não.

Nem ele.

Nem ele, provavelmente também não. Não vou dizer o nome completo, já disse demais.

Já disse o que tinha a dizer. Vão ouvir Belle and Sebastian.

Violei aqui a proteção de dados.

Vistam uma camiseta às riscas.

É para menos.

E chorem enquanto são felizes. É esta a minha sugestão para esta semana Maria Ramos Silva.

Eu tenho que repor aqui alguma dignidade. Salvem-me. Trago um documentário também. Este é de 2024, mas chega agora à filme, estreia-se na filme e eu acho que vale muito a pena. Ele esteve nomeado para os Oscars do ano passado, portanto, 2025.

Para quem não esteja a par da data.

As pessoas podem estar a ouvir-nos daqui a 10 anos.

Não, a 20!

A 20, enfim, temos que encerrar.

Ou em Marte, vamos numa cápsula.

Por exemplo.

A não ser que façam como o Sapo e eliminem tudo.

É verdade.

Pois é.

O Observador um dia, daqui a 100 anos. Nunca se sabe.

Pois é. Chama-se "Banda Sonora para um Golpe de Estado", é realizado por um senhor belga chamado Johan Grimonprez.

Belga?

É belga. E belga por quê? Porque isto tem a ver com o Congo e com o golpe de Estado. O Congo nos anos 60, e que acaba com o assassinato do antigo primeiro-ministro Patrice Lumumba.

O Pedro já está aqui muito interessado.

Não, para quem gosta deste período, quem gosta de Guerra Fria e quem gosta de jazz, isto é uma maravilha.

Só está a falar de Belgrino e de Murta de Naves.

E de Murta. Não, mas acho que é uma espécie de ensaio visual e sonoro, que eu acho que é altamente recomendável, e que sobretudo conta estas histórias, este algo sempre permanente entre este momento particular da Guerra Fria e do jazz. Jazz esse que serve como instrumento com diferentes funções. Por um lado, foi fundamental na afirmação dos movimentos civis. Mas também enquanto jogo político, o Departamento de Estado dos Estados Unidos levava embaixadores do jazz para estes países africanos em grande ebulição anticolonialista, como o Louis Armstrong, o Duke Ellington, para servirem de armas de propaganda. Eu acho que é um belíssimo documentário, está muito bem feito, está muito bem montado. Tem episódios maravilhosos, como aquele episódio em que o Khruschev vai para as Nações Unidas bater com os sapatos. Tem coisas mesmo muito boas e se gostam deste período, é altamente recomendável. Depois, trago um livro também. Estava a ouvir o Bruno sobre o Kundera, e achei que isto, na verdade, não foi jogado, mas tem tudo a ver, porque é mais um livro também sobre livros e sobre a escrita, do Henrique Vilamatas. "Cânon da Câmara Escura", este também tem o selo da Dom Quixote. Se gostaram do "Bartleby e Companhia", como é o meu caso, que também é um livro sobre livros absolutamente extraordinário, acho que também vão gostar disto, porque é Vilamatas na sua melhor forma, como habitual. E é o quê? É a história de um narrador, uma personagem, que vai reunindo um cânon. Nós já falámos aqui, também disso, é curioso, o cânon dos livros que fariam parte deste essencial, mas de 71 livros que são absolutamente incidentes. Ou seja, não são os títulos que nós estamos à espera, são uma série de outros títulos, sendo que o narrador também suspeita que possa ser não propriamente um humano, mas um androide. E nós andamos ali enfiados e vamos andando ali completamente embrulhados na teia que ele vai arquitetando e que vai dando sentido a toda a vida, através da literatura, como habitual. E no fundo ficamos com a ideia, que eu acho que é o mais extraordinário disto tudo, sobretudo em tempos de inteligência artificial, mais uma vez, que eu acredito que tenham aqui obviamente algum fundo. Esta ideia de que a literatura e os livros é muito bom não só para humanos, mas até para androides poderia funcionar. E portanto, eu acho que é absolutamente extraordinário. Recomendo. Também li assim, um tiro, um avião, acho que duas horas chega perfeitamente para despacharem isto e ficarem a suspirar por mais.

Ora muito bem, sugestões entregues estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhum episódio e nós voltamos na quinta-feira. Até lá.