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O que é que queres saber? Eu quero saber se estás numa relação com a Rosalía ou nem por isso. Quero estar. Pronto. Tenho muita vontade de estar. É um bom princípio. Tenho muita vontade de estar. Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop Up", o vosso, e atentem nisto, Bruno Vieira Amaral, o vosso astrolábio para navegar no mar bravo da cultura popular, na companhia destes marujos de água doce. Pois é. Ao menos fosse o farol. Já disse farol aqui há umas semanas. Isto não pode repetir. Mas hoje vamos falar de luz. Vamos. Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes. Esta semana juntámos duas novidades. Estamos muito atuais. Novidades que eram há muito esperadas: o novo disco de Rosalía e a nova série de Vince Gilligan. Vamos começar pelo bailinho. Este bailinho mudou um bocadinho. Vamos começar por "Lux", o álbum que Rosalía editou a 7 de novembro. Uma das grandes perguntas aqui é: será que alguém não deu por Rosalía ter voltado? Já vamos ver. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. O que me tens a dizer sobre este novo álbum da Rosalía? Como é que tens vivido com estas cantigas? Isto que é um bocadinho diferente daquilo que estávamos habituados, vindo da artista catalã.
Eu tenho vivido muito bem com isto.
É uma ótima frase.
Tenho vivido muito bem. Quando sair daqui é possível que vá voltar a ouvir o álbum mais uma vez.
Ouviste assim no primeiro dia?
Eu creio que sim. Não me recordo exatamente. Foi numa sexta-feira, não é?
Foi numa sexta-feira.
Sim, mas eu creio que sim. Não sei se ouvi logo todo de uma assentada, mas creio que sim. Depois no dia a seguir seguramente escutei-o todo. Acho que é um belíssimo álbum. E como vocês sabem, eu sou insuspeita que não sou propriamente uma pessoa da pop.
É verdade.
Só que a Rosalía também não é uma pessoa que venha da pop, vem de uma coisa que eu gosto francamente mais, que é o flamenco.
Pois é.
Aliás, ela começa pela dança muito antes de chegar à canção, o que também é interessante. E aliás, são esses pequenos grandes detalhes que se notam e que já se notavam em álbuns anteriores, com marcações muito claras do flamenco, depois trabalhadas de forma muito urbana. Mas é muito curioso, porque a Rosalía faz parte daquele grupo de pessoas que passaram pelo "Ídolos", terão passado por jurados tipo Pedro Bucher Mendes, e não passaram depois mais adiante, ficaram ali pelo caminho.
Adorei, adorei que estiveste aí. Quem terá sido o Bucher Mendes da Rosalía?
Eu não sei se foi só uma escorta na altura. É curioso, porque a justificação até terá tido algum sentido, algum nexo, porque a Rosalía cantou em inglês na altura. E o que lhe disseram foi: "Tu cantas muito bem, mas precisas de encontrar o teu registo, o teu espaço".
E ela encontrou. Se calhar cantava "The Streets Of Philadelphia".
E ela encontrou. E ela lá foi ao seu caminho. E parece-me que encontrou com o álbum anterior, o "Motomamela", de alguma forma, penso que abriu as portas para o mundo. Ou seja, já tinha posto um pé, mas depois abriu escancrou-o para o mundo.
Mas é notável como com este álbum totalmente diferente, ainda que, atenção, tem muito, sobretudo esse lado de flamenco, apesar dos muitos produtores de renome.
Não, acho que a essência está lá.
De orquestração e tudo isso. Aquilo nota-se, mas esse lado de superpop star que ela conquistou com o "Motomami" mantém-se, porque até agora é um fenómeno mundial.
Não, e até aqui eu acho que ela conseguiu dar um salto extra. Que é sempre esse grande desafio, até onde é que tu podes chegar e como é que esticas essa corda com eficácia e funcionando de facto. A Rosalía, e já iremos lá também, mas é uma autêntica máquina de marketing pessoal. Para ter uma ideia, ela conseguiu, está a desdobrar-se obviamente em entrevistas, ela conseguiu ir a um talk show na TV.
Mas muito selecionadas.
Sim, mas imagina, ela é a miúda, continua a ser a miúda da Terriola catalã que de repente entra num talk show, leva um bolo feito por ela, corta as fatias, distribui aquilo para as pessoas.
Quem me dera que ela aparecesse aqui com um bolo.
As pessoas na plateia completamente perdidas a dizerem: "Isto é extraordinário, a Rosalía está-me a servir uma fatia de bolo feito por ela". E de facto, ela consegue manter esta coisa muito divina, acho eu. E acho que é honesto. E acho que nós já falámos aqui há pouco tempo, porque também é interessante e há um paralelismo. Em termos de conexão, falamos da Carminho, que tem um álbum também muito recente e que tem um tema que partilha com a Rosalía.
Não é um álbum, é um grandessíssimo disco.
Sim, e lá está, e que também trouxe de alguma forma, não é propriamente uma novidade no caminho da Carminho, mas também permite e aplica essa reinvenção ao fado, se quiseres. É uma coisa muito contemporânea, muito urbana, muito global, muito transversal. E eu acho que a Rosalía fez um caminho, de certa forma, muito semelhante nesse aspeto. E tem belíssimas canções. Eu acho que ela para já abre-se ainda mais ao mundo quando ousa cantar, já não sei se são 13, 15 idiomas diferentes. Sempre que fora a um país diferente, puxa da cartada da canção naquela língua e é sucesso instantâneo, calculo eu. Estrondosas, em que se revela não só o poderio vocal dela, mas esse cunho muito pessoal. Todo esse ritual dela, essa vida pessoal. Acho que é também, já agora deixem-me tar, um álbum muito feminino, no melhor dos sentidos. Eu acredito que se calhar muitos homens não gostarão disto, até porque ela vai muito ao osso e toca em coisas muito pessoais e não é propriamente meiga com os trastes que passaram pela vida dela. Esses chacanas. Quem é que ousa fazer mal à Rosalía? Mas acho que terá ali uma identidade, sobretudo muito feminina. Dito isto, também não acho, como vi muita gente a escrever, que seja o novo Bowie ou a reinvenção da pop, ou a invenção da quinta roda. Acho que é um belíssimo álbum, com belíssimos temas. É Rosalía no seu melhor e é escutar, que é o melhor que nós podemos fazer.
Ó Pedro Boucher Mendes. Peço desculpa antecipadamente pelo preconceito, mas em princípio digo que não foste a correr ouvir o novo álbum da Rosalía assim que foi lançado.
Não fui.
Pronto. Queria saber se foste lá parar depois, graças ao zum-zum global.
Não, eu faço parte daquele lugar-comum, que é pessoas que a partir de uma determinada idade já não vão à procura das novidades.
As novidades vêm até nós.
Algumas hão de chegar.
Mas tu achas que isso acontece de facto?
Acho.
Não estou a fazer um juízo.
Estou mais interessado no 50º aniversário do "A Man Lies Down on Broadway", que é editado, um disco não sei o quê, do que na Rosalía. À partida.
Claro, e tens todo o direito, obviamente.
Não sei se é uma questão de direito ou não. A desmaterialização da música fez com que a minha relação com a música se tornasse muito diferente e muito mais distante. Se quiseres, é como uma namorada que se muda para 300 km de distância.
Mas as relações à distância são possíveis.
Hoje há a internet.
Exato, com quem trocamos umas cartas a princípio e depois as cartas ficam mais esparsas e é qualquer coisa que acaba. Eu faço parte de um mundo, e acho que vocês ainda também, em que compravas um álbum, uma coisa física. E depois, enfim, toda aquela relação.
Mas aqui também podes fazer isso.
Podes, as pessoas fizeram.
Este disco é um ótimo exemplo de como podes fazer isso hoje em dia.
Hoje em dia até se pode mudar de sexo. Claro que se pode fazer isso.
Já há algum tempo.
O que eu digo é, muitas vezes essa conversa é entendida como: hoje isto já não se faz ou já não é possível fazer.
Eu não estava a lamentar nem a ser nostálgico. Estava a dizer que hoje em dia é possível que uma Beyoncé de um dia para o outro lance um álbum.
Claro, sim.
Aconteceu.
Acontece muito.
Não sei se a Rosalía para a semana não, na verdade, não sabemos.
Sim. Se não lança um lado B.
Um vlog. Isso faz com que tenhas que ter uma atenção aos fenómenos. Eu não tenho essa disposição. Mas gostei muito do que ouvi. Mas deixa-me só contar uma história.
Mas gostaste muito do que ouviste?
Gostei muito do que eu ouvi.
Isto é bonito.
Acho que estes novos artistas que tiveram a fortuna, do ponto de vista deles, de crescer com a internet e com os YouTubes, porque no fundo está lá tudo. No fundo, imaginemos uma Rosalía com 15 anos e alguém lhe falou de um fenómeno musical qualquer. Ela foi a correr para casa e procurou na internet e pôde ouvir, escutar o que era. Antigamente, lá está, eu sou do tempo em que o Luís Represas ia para Cuba. Para gravar discos e conhecer músicos.
Gravar a Feiticeira.
Hoje não precisaria, tem o YouTube ou tem a net, ou podia fazer por Skype.
E gravou a Feiticeira com quem?
Já não me lembro.
Pablo Milanés. Mas eu gosto que deste exemplo, não estava à espera deste exemplo.
Há um ano e meio. Acho que há um ano e meio. No primeiro Caraban Festival, lá no jantar de inauguração, onde estava o Robert De Niro.
Este Pedro é mesmo malta jovem da nova geração.
Às tantas atuou a Sara Correia. Ou como se diz em Lisboa, a Sara Correia. Não, atuou a Sara Correia ali do nada.
Que vai ter álbum novo em breve.
E foi verdadeiramente espetacular e impressionante ver a força, a confiança, a maneira como ela, a Sara, conseguiu. Normalmente estes momentos musicais são um bocado secos. Normalmente é um tipo a tocar violoncelo.
Como diz o outro, verbo de encher, muitas vezes.
Mas este foi mesmo espetacular. Há certos artistas e certas artistas que são abençoados por uma espécie de capacidade de constante superação e de se imporem, incluindo a um velho como eu, que ouviu o disco da Rosalía e gostei imenso. Gostei tanto que fui ouvir o repertório anterior.
Ora, cá está. Ele são estas difícil. Ele é um coração mole.
Tive isto a tocar durante algum tempo aqui nos meus devices.
Exato.
Acho que ela é uma artista espetacular. Gostei imenso da música com a Carminho. Também gosto imenso da Carminho. Acho que ela, destas novas fadistas, ela já não é muito nova, a Sara Correia é mais recente.
Sim, percebo.
Mas é talvez a minha favorita. E isto coincide com o facto de eu ter ido ver o GNR comemorar os 500 anos de carreira, não sei, no Coliseu na semana passada.
45?
Já não me lembro.
45, não é 80?
Para aí.
50 anos de independência.
Tive esse passeio nostálgico, como ter ido ao 2001. Ou quase.
Sim. Ainda no outro dia falei disso. Continua.
Certo. E gostei mesmo muito do concerto do GNR, por variadíssimas razões. A Rosalía não tem nada a ver com o GNR, mas significa que nós somos pessoas diferentes E que somos capazes de ser encantados por forças diferentes. Seja a vibração nostálgica do GNR e das músicas que eu sei de cor, seja esta inovação que é a Rosalía, que me parece ser uma artista que também beneficia de um goodwill que existe para com a música latina. Existe um goodwill, o flamenco, o tango e o choro.
Mas ela dá razão a isso. Ajuda a dar razão a isso.
E isto também pode ser um desafio para os artistas do fado, que é a nossa música. Não digo que não tenham tentado anteriormente, mas que de facto é possível dar uma dimensão global a músicas diferentes.
Eu volto a reforçar o novo álbum da Carminho. Vou fazer publicidade gratuita a isto sempre que possível.
É o que nós fazemos aqui.
Tens uma filha chamada Carminho? Não, mas se puderes, ouve o disco. Bruno Vieira Amaral, eu agora quero ouvir-te falar sobre a Carminho. Estás a ver como eu estou? Sobre a Rosalía, avisando desde já que provavelmente vou ter que te interromper para ir para intervalo e depois voltas.
Está bem. Então pronto, podemos falar de outra coisa.
Não, começa.
Do estado do tempo, eu vou falar. O que é que queres saber?
Eu quero saber se estás numa relação com a Rosalía ou nem por isso.
Quero estar.
Pronto.
Tenho muita vontade de estar.
É um bom princípio.
Tenho muita vontade de estar. Ouvi o álbum.
Ouviste na medida das suas possibilidades.
Não todas as músicas completas.
Digo-te, por experiência própria, que é um grower e que precisa de tempo, e quanto mais tempo lhe dás, mais aquilo cresce.
Mas para já, me conquistou.
Pronto.
Agora vamos ver qual é que é a reação daqui para frente. Já tinha ouvido essa canção com a Carminho, que eu acho que é genial. É excelente. Há outras também muito boas. E a Maria estava a falar aqui da relação ou de algumas canções, como atacam os homens. Eu acho que uma das melhores é mesmo "La Perla". Acho que é das melhores canções e acho que é o ataque mais estaladão. Não sei se tem a ver com uma relação que ela teve com outro, com aquele Raw Alexander.
Não tem nada bom ar, esse rapaz.
Não sei se depois podemos falar sobre isso. Claro que a Rosalía beneficia deste momento da música hispânica e o interesse pela cultura hispânica, a língua espanhola estar no momento claro de afirmação.
E Espanha está em grande, culturalmente falando.
Sim, e ela beneficia disso e é também um dos motores disso. A atenção às outras línguas, eu não penso que seja um golpe de marketing. Eu acho que é um pouco a captura, o zeitgeist, que é da forma como estes jovens crescem, estes jovens artistas, criadores, que é num mundo muito múltiplo.
Com muito menos fronteiras.
E ela fala disso, aliás, essa vontade de capturar e de ver como é que as pessoas dizem as coisas nos outros países.
Deixa-me então só fazer aqui uma pausa. Bruno Vieira Amaral, não te esqueças do que ias a dizer.
Não, não esqueço.
Eu queria só antes de terminarmos a primeira parte, trazer aqui uma novidade. Está disponível a partir de agora um endereço de e-mail que se chama popup@observador.pt. Palmas para nós.
Uau!
Exato. Queremos que enviem as vossas perguntas e que façam as vossas sugestões sobre televisão, cinema, literatura, música, o que quiserem, coisas que querem ver discutidas aqui.
Perguntas, é isso?
Perguntas também, pode ser.
E também reencaminhamos os e-mails para o doutor Eduardo Sá.
Podem usar-nos como um consultório pop ou podem sugerir temas para fazermos aqui novos episódios. Escrevam, falem conosco, estamos cá para vocês e vamos voltar depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao Popup com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes esta semana. Vamos aqui andar à volta das novidades mais faladas desta reta final de ano, o novo álbum de Rosalía, "Lux", e a nova série de Vince Gilligan, que se chama "Pluribus". Ainda estamos aqui com a Rosalía, ou pelo menos o Bruno está. Ias dizendo. Estávamos a falar das línguas.
Das línguas, e eu dizia que, não tenho forma de aferir isto, mas parece-me que essa utilização é orgânica, é natural, ou seja, é algo sentido que resulta também do ambiente cultural em que tu cresces e também das possibilidades que existem no mundo atual. Parece-me que é resultado mesmo de uma imersão numa cultura em que as influências são múltiplas, vêm de lugares variados. Não parece tanto uma jogada. Vamos aqui agora cantar em italiano.
Aliás, há uma coisa interessante, e a Maria há bocado estava a falar da honestidade, que é: este disco, apesar de ter produtores muito importantes nos últimos anos e de ser trabalhado ao detalhe, ultraproduzido, mantém essa honestidade. Eu acho que tem a ver com isso que estás a dizer.
É muito ela.
Parece-me, não conhecendo a Rosalía.
Calma que a gente vai tratar disso.
Ao ouvir as canções, parece Algo que é do artista. Não é um focus group que se reuniu para dizer: "Agora é bom." Porque cansa um bocadinho nós estarmos sempre a ouvir esta ideia da atualização da tradição, da reinvenção da tradição, que todos dizem isso. Sobre a Beyoncé já ouvimos que ela reinventa isto e aquilo milhares de vezes. Toda a gente está a reinventar sempre a tradição. E isso chega a uma altura que já é apenas jargão do marketing. Aqui não me parece que seja isso. Pode ser um defeito meu e eu não estar a perceber isso.
Eu concordo e acho que aí assenta esse lado eventual da tal revolução. Sobretudo quando vivemos numa altura em que as grandes estrelas pop são mulheres, atualmente, mas existe muito esse funcionamento de focus group.
Ó Tiago, nós há pouco falámos dos latinos. Eu acho que o que a Rosalía também te traz, sendo ela espanhola, não sendo propriamente sul-americana, mas enfim, eu acho que traz uma renda diferente em relação, por exemplo, a nomes que nós conhecemos, como uma Jennifer Lopez, uma Gloria Estefan. Isto é outra coisa.
Sim. Há aqui neste álbum, que talvez seja a par, na questão técnica, da utilização da orquestra, que vai pontuando as diferentes músicas do álbum, é aquilo que dá unidade, porque isto é quase um álbum, em certos aspectos, será um álbum conceptual, é a dimensão religiosa do álbum que está praticamente em todas as canções e uma vez mais. Não me parece nada aquele estilo de provocação fácil. Agora vamos chatear aqui o pessoal.
Vamos ter aqui uma orquestra.
Não, na questão da religião.
Porque ela é mesmo assim, a questão é essa.
Sim, claro.
Não, porque as letras estão carregadas dessa religiosidade. Ela disse que muitas das canções ou quase todas as canções, são homenagens ou inspiradas em aspectos de vidas de mulheres santas de diversas origens. Portanto, há aqui uma dimensão íntima, muito pessoal, que a mim derrubou algum ceticismo que eu poderia ter em relação a estas coisas que me parecem sempre muito pensadas.
Não é aquela coisa iconoclástica da Madonna.
É, não é aquele iconoclasmo, mas só para vender mais.
Também ajuda muito que Rosalía seja muito gostada pelos jornalistas, pela crítica, pelos gatekeepers, pelas pessoas que têm a voz ou o lugar da fala. Eu acho que tu vais falar da série, não é?
Vamos já a seguir.
Posso fazer a ponte, não?
Podes construir o mundo amigo.
Também ajuda a nova série do Vince Gilligan, que é o do "Breaking Bad" e do "Better Call Saul", que ele, Vince Gilligan, também tenha imenso crédito à partida por parte dos críticos.
Muito.
Portanto, o disco é avaliado, de Rosalía, também por causa desse goodwill.
Claro.
E é a vida.
Aliás, deixa-me só interromper. São dois casos em que antes de vermos ou ouvirmos o produto final, se calhar só com uma pista, 80% de nós já adoramos.
Por isso é que estão aqui no mesmo programa.
Exato, claro, obviamente. E por saírem no mesmo dia.
No caso disto da Rosalía, eu gostei imenso. É o tipo de música que se calhar daqui a 15, 20 anos, uma das canções estará num filme de alguém e nós: "Ah, pois é, ela há 15, 20 anos fez este disco".
Ela já entrou num álbum do U2.
Sim, está bem. É um tipo de música que já evoca nostalgia, que já evoca: "Bolas, mas houve alguém que fez uma coisa destas".
E também é um disco muito cinematográfico, agora que falas nisso.
Isso. É uma espécie de disco para guardar na adega, passo aqui a imagem pobre, e que pode ser servido daqui a 15, 20 anos num filme ou num espetáculo, ou o que for, ou num anúncio.
E que contraria um pouco aquilo que se costuma ler. "Épa, já não se faz. A verdadeira música era não sei quando".
De repente aparece um tipo bom.
Eu falei aqui há umas semanas daquele filme com a Elis Regina e houve um anúncio.
Tom Ellis.
Sim, houve um anúncio da Volkswagen no Brasil que precisamente recupera uma das músicas, a música mais conhecida da Elis Regina, cantada em dueto pela filha. Olha, foi uma coisa obviamente feita por computador. Existe música que nós conseguimos, creio eu, ou que defendo eu, nós já conseguimos prever que vai ser usada no futuro.
Certo.
E que depois tudo fará ainda mais sentido.
Maria Ramos Silva, vamos mudar a agulha.
Vamos.
E vamos para "Pluribus", que é a nova série de Vince Gilligan, o criador de "Breaking Bad" e "Better Call Saul", séries muito acarinhadas aqui por este painel de comentadeiros.
Por missão.
E que estreou no dia 7 na Apple TV+, há dois episódios, agora é um por semana. E como é que estamos?
Pois é. Eu vi dois episódios. É o que há.
É o que há para o povo ver.
É o que há para o povo ver. Eu acho que não ia com grandes expectativas no sentido, tirando aquilo que falámos há pouco de: "Ok, é Vince Gilligan". Mas na verdade, eu depois recordei.
O Pedro está: "Como assim não ias com muitas expectativas?"
Não, eu vou-te explicar porquê. Porque as outras duas séries que tu mencionaste, e eu tenho o "Breaking Bad" ali no meu pódio de melhores séries de sempre, mas eu recordo-me que também não foi fácil entrar na série. Ou seja, que gostei do arranque, mas depois fiquei ali um bocado a patinar e depois retomo um pouco mais tarde e depois quando aquilo entra ali de facto já numa velocidade aceitável é que eu percebi: "É pá, bolas, isto de facto é extraordinário".
Deixa-me só fazer aqui um intermezzo.
Para explicar um pouco o que é isto.
Vou dar só a premissa da série muito rapidamente. Há uma escritora de livros que fazem muito sucesso e os quais ela não gosta de escrever, que de repente é uma das poucas pessoas do mundo São 11, parece.
Sobra para 11, sim.
Que não é afetada, e não vou dar detalhes, por uma contaminação que torna as pessoas, além de lhes dar uma consciência coletiva, portanto-
Não há o eu, somos nós
...se eu sofrer, tu também sofres. As pessoas são todas otimistas.
Irritantemente otimistas.
Exatamente. E pelo bem. E ela está em pânico.
Ela não quer. Ela quer resistir.
Fora a origem de tudo isto, que é outra história paralela. Pronto, era só para situar. Daí o nome Pluribus.
Sim. Eu acho a premissa interessante. Confesso que quando comecei a ver aquilo, tive logo umas reminiscências Covid, e pensei: a última coisa que precisávamos era de mais uma pandemia no ecrã. Mas achei o primeiro muito interessante. O segundo já fiquei um pouco: para onde é que isto vai? E eu acho que é subtido isso, ou seja, seguir para onde é que isso vai. Dito isto, acho que apanha ali coisas muito interessantes, dos dois lados da barricada, metidos com muita inteligência, por um lado, explorando o absurdo total, que é esse tal mundo hiperperfeito em que tu queres controlar tudo e não queres defraudar ninguém e queres ser uma pessoa extraordinária e é impossível imaginar vivermos num mundo assim, por mais que pareça apetecível.
Mas há quem tente.
Há quem tente, claro, sim, e também eles brincam muito com isso. E depois o outro lado de tu perceberes como as tuas, às vezes, ações, por mais inconsequentes te pareçam, podem, de facto, ter efeitos que não são agradáveis. Eu acho que há ali muito potencial. Estou muito curiosa e obviamente vou continuar a ver, é o quê, porque quero saber como é que ele vai desembrulhar este-
A protagonista é extraordinária.
Ela é extraordinária.
Cujo nome eu não me recordo.
Também não.
Rhea Seehorn. Cá está.
Começa aquele casaco amarelo da abertura, acho que aquilo vai se tornar uma coisa ali muito icónica.
Vamos estar atentos a essa moda.
Vamos estar atentos. Obviamente, vou ver o resto.
Mas ainda não estás decidida?
Mas é o que te digo, é evidente que há uma coisa que nos faz ir ver que é o Vince Gilligan e a saibro todo.
O crédito que ele tem.
Sim, e nós quando partimos para isto, eu não estou à espera que seja uma má série. Eu acho que nenhum de nós esperava que isto fosse ser uma porcaria. Agora, depois tem que provar mais, não chega só ser. Tu queres saber mais. Dito isto, eu acho que pode correr muito bem ou então pode nos deixar só naquela: "Olha, foi uma ótima ideia que se perdeu aqui um pouco pelo caminho." Não é fácil, acho que aquilo é muito desafiante para quem está a escrever aquilo.
Pedro Boucher Mendes, o que é que tens a dizer sobre esta nova série?
Tanta coisa.
Pois é.
Em primeira lugar, na era do streaming, talvez seja a série mais aguardada pelas pessoas que têm a mania e gostam de séries, das quais eu me incluo.
E o fim do Stranger Things, que eu já vi a 27ª.
Não, mas essa é a continuação.
Mas nós estamos a ver, esta é de jornalistas ou não, Pedro?
Esta é acima.
Está para lá.
Esta é uma zona VIP dentro da zona VIP.
É o ring, como é que se chama aquele ring circle?
Não sei se vocês sabem.
Golden Circle. Não sei se vocês sabem, mas o Rock in Rio tem uma zona VIP, depois há uma zona VIP dentro da zona VIP.
Muito bem. É para essa que costumas ir?
Não.
Não confirmo nem desminto.
Isto é mais importante do que parece, creio eu, para dizer duas outras coisas. É a série mais aguardada desde que estamos na era do streaming. Toda a gente sabe. Já não é novidade. "Ah, tens Netflix? Tenho que assinar." Não, já toda a gente tem. É talvez a mais aguardada. Devido ao crédito que o Vince Gilligan conseguiu com Breaking Bad, que toda a gente gosta, etc. E Better Call Saul, que é uma série, na minha opinião, superior artisticamente.
Isto é uma opinião de jornalista.
Claro que sim.
Só um jornalista diria que o Better Call Saul é melhor que o Breaking Bad.
É artisticamente superior ao Better Call Saul. Esta atriz, a Rhea Seehorn, é coprotagonista da série, onde faz um papelaço. Achava-se que todos os anos ia ganhar o Emmy, nunca ganhou.
Mas o Vince Gilligan está apostado em fazer dela uma superestrela.
E o Vince Gilligan ficou tão cativado pelas suas competências artísticas que jurou, enfim, digamos assim, que iria fazer uma série só para ela. E, isto é importante, creio eu, esta também é a primeira série das séries com muito dinheiro que será liderada por uma mulher. Vamos pôr as coisas assim. Claro que o Homeland, a Claire Danes, mas essa era uma série de televisão que depois foi para o streaming. Esta é uma série de 2025 liderada por uma mulher. Eu vi os dois primeiros episódios e gostei bastante. Obviamente, tem vibes, como vocês dizem, jovens, de Twilight Zone e de Black Mirror.
Mas com muita ironia e humor.
Sim, achei o primeiro episódio extremamente bem realizado.
O primeiro é ótimo. Eu gostei muito.
Eles têm dinheiro que nunca mais acaba. Por exemplo, ela vive numa casa, numa rua com casas, com vivendas, com moradias.
Sim.
Que é tudo construído de raiz.
As ruas do Breaking Bad.
Não, aquela rua foi construída toda de raiz. Só naquelas casas está todo o orçamento de uma série portuguesa. Enfim, vou dizer isto baixinho. Eu gostei imenso da série, mas acho que a atriz não está a conseguir, ou ainda, ou sei eu ainda, como queiram, montar aquele cavalo, porque ela está sempre a mesma expressão. Não lhe foram entregues ainda contracenas ou personagens onde ela possa mostrar outro tipo de recursos, que tem, porque nós sabemos que vimos em Better Call Saul. A história, como tu dizes, no fundo, foi detetado a 600 anos-luz de distância, um sinal
Se calhar é extraterrestre, sintetizado em laboratório. Toda a humanidade é um agente de LLM. É o ChatGPT. Muito simpático, muito disponível, sabe tudo. E ela é a única que é imune, depois perceberemos que se calhar há mais meia dúzia que não são imunes, mas não interessa. Mas na fase em que estamos, já sabemos, e as pessoas que virem o primeiro episódio ao fim de meia hora vão saber, que a única coisa que as pessoas mordidas pelo vírus, ou enfim, inoculadas pelo vírus querem, é que ela seja como eles. E o que é que vão fazer? E essa é que é a parte interessante da série quanto a mim: nada. Vão só esperar que isso aconteça.
É uma inevitabilidade.
Acham eles.
Acham, claro.
E eles são muitos biliões. E então vamos ver agora como é que o argumentista, o Vince Gilligan, vai conseguir escrever, ou conseguiu, porque a série já está gravada a primeira temporada, como é que vai conseguir desenvolver aquilo.
Exato.
Obviamente vou ver todos os episódios. Não sei a que horas é que a Apple os disponibiliza, mas lá estarei eu à hora marcada para ver. É isso.
Muito bem.
Deixa-me só dizer uma coisa muito rápida. É que esta questão da personagem é muito interessante, porque é precisamente esse o grande trunfo, para mim, do "Breaking Bad". É a construção e a metamorfose do Walter White desde o ponto de partida até ao final. E é isso que é o mais extraordinário naquela série. Portanto, eu não sei se aqui...
Vamos ver o que é que vai acontecer com esta personagem.
Se ela conseguirá fazer isso.
Muito bem, Bruno Vieira Amaral, temos tempo para ouvir a tua opinião sobre a "Pluribus", apesar do entusiasmo deste programa nas opiniões. Isto está extraordinário.
Ficou muito aquém do que eu estava à espera. Aliás, nos dias que antecederam o meu visionamento, eu estava entusiasmado e depois de cada vez que lia alguma coisa, parecia que ia rebentar com isto tudo. E não.
E cá estás.
Mesmo no primeiro episódio. Os valores de produção, não sei se é assim que se diz, são extraordinários.
A guita.
É mesmo assim. Até no segundo episódio, acho que é no segundo episódio que aparece logo aquela cena do avião, tudo aquilo é caríssimo.
O avião presidencial, sim.
Tudo aquilo são milhões e milhões despejados.
Mas é aquele tipo que vem no Air Force One.
Ele tem todo o dinheiro para fazer aquilo que lhe apetecer e para nada nesse aspecto falhar e nada falha, porque percebe-se que está a jorrar dinheiro em cada plano. A premissa é muito boa. Muito "Ficheiros Secretos", o Vince Gilligan destacou-se a escrever episódios do "Ficheiros Secretos" e alguns dos melhores episódios. Lembro-me de um que vi há pouco tempo, fui rever, que é com o Bryan Cranston.
O Bruno Vieira Amaral foi rever pela 17ª vez todos os episódios do "Ficheiros Secretos".
Não, todos não, mas houve alguns.
Mas em que valia, justificava-se.
Alguns fui à procura e um dos que fui à procura foi esse com o Bryan Cranston, escrito pelo Vince Gilligan, e aí estava a primeira ligação entre os dois. E esta premissa é muito "Ficheiros Secretos" e aquilo que a Maria estava a dizer em relação à transformação, ao desenvolvimento e transformação da personagem do Walter White, que é a grande âncora de interesse de toda a série, eu não sei muito bem como é que isso vai acontecer aqui.
Mas isso não te ajuda a ficar preso e a querer ver?
Espera, calma. O "Better Call Saul" tinha esse gancho, que era: "Nós já sabíamos onde é que aquilo ia dar, vamos ver como é que ele vai lá chegar."
Exato.
Aqui não tens isso. E logo no primeiro episódio, a transformação está feita. O mundo mudou e agora é ela aqui. E agora? E agora o quê? Eu não sei. O Pedro estava a dizer: como é que ele vai conseguir descalçar esta bota? Porque ele já disse, o Vince Gilligan, que estão previstas quatro temporadas.
Ai, Deus do céu.
Eu imagino que haja aqui qualquer coisa.
Alguma coisa que nós não sabemos.
Um ás na manga que nós não estejamos a ver agora neste momento. E é bom dizer também isto. Vimos até agora dois episódios. Todas as reações de euforia da melhor série de sempre. Nunca um episódio piloto foi tão bom como este. E outras, em sentido contrário, a dizer: "Isto não vale nada." Se calhar são exageradas. Vamos esperar. O homem já provou que é bom.
Vamos aguardar com tranquilidade.
Que é bom. Vamos esperar pelos restantes episódios. Fartos de séries que ao fim do segundo episódio já são a melhor série de sempre, estamos nós, ou estou eu. Vamos ver. Não gostei. Para a expectativa que tinha, não gostei, mas vou continuar a ver. Talvez não assim que os episódios caiam na Apple.
Mas na medida das tuas possibilidades.
Mas um bocadinho depois.
Até que normalmente caem e tu estás no ar.
E eu estou a apanhá-lo.
Estás aqui no ar. Muito bem, meus amigos. Final de mais um "PopUp". Já sabem, fiz esta nota na primeira parte, mas fica aqui outra vez. Escrevam-nos para o e-mail popup@observador.pt com as vossas dúvidas, angústias, partilhas e sugestões. Nós voltamos na segunda-feira em podcast com as sugestões da semana. Até lá.