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O futebol, do ponto de vista narrativo, tem tudo para ser absolutamente extraordinário.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", a melhor equipa do campeonato da cultura popular, graças a estes pontas de lança: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e, na ausência do Pedro Mexer Mendes, temos conosco a Susana Romana, que é uma mestre da revinha radiofónica, faz ali uma fintinha.
As pessoas olham e eu estou sempre lá.
Exato.
Não conseguem fugir.
A correr o campo todo. Deve haver um termo técnico para isso que eu não conheço. Esta semana não temos qualquer hipótese e portanto temos Campeonato do Mundo de Futebol. A bola começou a rolar há coisa de uma semana.
O esférico.
O esférico. Para quem não sabe, Portugal estreou-se esta quarta-feira contra o Congo. Não correu bem.
Depende da perspectiva.
Da perspectiva do Congo, correu bastante bem. Marcaram pela primeira vez.
É verdade. E nós aqui estamos reunidos para falarmos sobre a quantidade de cultura pop que há no meio disto tudo. Há muita. Susana Romana, vamos começar por ti. Eu estou a contar, e é por isso que estás neste programa, que tu viste o jogo da seleção. Eu não sei, quero saber: tu vês estas coisas como se fosse o regresso da nova temporada da série favorita e tu estás ansiosamente à espera?
Quatro anos à espera.
Ainda que depois não acabe bem cada episódio.
Pois, que foi o que aconteceu. Foi um episódio, por acaso, um bocadinho aborrecido.
Pois, isso é verdade.
Eu tenho uma questão em relação ao futebol que irrita muito as pessoas, mas cada um é como é.
Mas olha, faz bem, porque como estás no lugar do Pedro Mexer Mendes.
É isso, são os vapores do Pedro Mexer Mendes. Eu adoro histórias à roda de futebol, o que às vezes dá às pessoas a ilusão de que eu percebo do desporto, porque eu sei quem é quem, sei as histórias, histórias antigas, sei coisas de Saltillo, aliás, ótimo podcast do Observador, essas coisas todas eu devoro.
Tu aprecias essas coisas.
Aprecio essas coisas. O jogo em si, eu acho relativamente aborrecido.
Ok.
Mas eu também admito que eu não tenho um conhecimento futebolístico que me permita perceber algumas subtilezas do jogo. Eu consigo perceber um jogo de futebol que está a ser obviamente muito bom ou obviamente muito mau. Alguém que veja futebol ao meu lado consegue topar bem que eu não percebo assim tanto do jogo quanto isso. Por isso eu vi o jogo como eu vejo os jogos quase todos, que é enquanto faço outras coisas. E quando ouço o relato acelerar, levanto a cara. Ontem não acelerou muito o relato.
Mas essa é uma perspectiva pessoal. E tu achas que a seleção nacional, quando chega a esta altura de europeus e campeonatos do mundo, há uma relação especial, quase como o fã da estrela pop, que é muito dedicado e depois tem a camisola. Sentes essa vibração no ar?
Sim.
Como se Taylor Swift viesse outra vez ao Estádio da Luz.
É um bocado isso. Há muitas pessoas que comparam, quando as pessoas gozam com ir ao concerto da Taylor Swift com uma roupa específica e a fazer determinados rituais específicos, nós fazemos isso com o futebol desde sempre.
O metro, para quem não sabe, esta quarta-feira, à hora de ponta em Lisboa, estava à pinha com gente em direção ao Terreiro do Paço.
E mesmo pessoas que se calhar não ligam muito a futebol, que se calhar não percebem muito de futebol. O jogo entre Cabo Verde e Espanha, eu estava em viagem, por isso estive a ouvir o relato na RDP África.
Olha que eu te digo uma coisa, para quem não liga muito a futebol, estavas-
Não era eu que ia conduzir. E durante o intervalo entrevistaram algumas personalidades que estavam a assistir ao jogo, incluindo uma cantora cabo-verdiana que eu não decorei o nome porque, vou ser muito honesta, não sabia quem era. E ela falou muito entusiasmada: "Estou a adorar" e já agora: "Está quanto?", perguntou ela. Portanto, há muitas pessoas que estão a ver os jogos, mas não estão bem a ver os jogos, estão nesta festa e isso a mim pessoalmente não me incomoda. Eu acho isso bonito, estes momentos de comunhão e de algazarra.
Com derrotas da seleção, resultados menos positivos, etc, também não te vais abaixo como quando nós vemos o último episódio dos "Sopranos" e de repente não há mais.
Mas isso é uma questão pessoal. O futebol não consegue impactar em mim, com o do bem e do mal que isso tem. Há pessoas que têm recordações incríveis de quando ganhámos a Euro 2016. Eu fiquei contente, fui ao Marquês. Não está no top 10 de dias mais importantes da minha vida, sequer. Portanto, para o boi e para o mau, eu não tenho essa relação assim tão entusiástica.
Eu agora ia perguntar-te qual é o top 10. Não, não vou perguntar.
Tenho aqui um papel.
Exato. Maria Ramos Silva, não sei como é que estás depois do jogo desta quarta-feira.
Cá estou, estamos todos, não é?
Existindo.
A Maria tem a sua crença muito particular na seleção, vive as coisas de uma forma muito particular. O que te parece? Vivemos a seleção nestas provas, como vivemos um Bad Bunny no Estádio da Luz?
Olha, eu neste caso de arranque, na verdade, não vi nem um nem outro.
Foste capaz de-
Não, porque estava ali a trabalhar e portanto também não quis depositar lá o grande-
Maria, tu sabes que, querendo, nós temos trabalho para 27 horas por dia.
Certo. Não, mas por acaso quis seguir com mais distanciamento, porque de facto há aqui uma-
Também já não vais para a "Nova" e depois acampas cá.
Sim, a pessoa não se pode enervar muito com isto. É só o primeiro, vamos lá ter alguma calma. Basta lembrar aquela campanha de 2016, que a Susana lembrava, que foi um histórico de empates, até à vitória final.
É verdade.
Who knows? O futebol tem esta coisa histórica de ser o chamado ópio do povo. Acho que é mais ou menos um dado comum. E depois a seleção, se quiseres, até pode ser aquele estupefaciente má qualidade que nos estão a vender e que nós vamos consumir à mesma. Porque a realidade é essa. Há ali uma assinatura quase por decreto que faz parte. Portanto, mesmo que tu queiras afastar-te, às tantas é um vírus que está muito entranhado e só tens ali uma alternativa, que também existe muito por cá, que é o antisseleção extremo. E também há essa personagem. E acho que isto vai para além até de criticar individualmente.
E é uma personagem que muitas vezes faz questão de se manifestar.
Sim, isso é vivido também com a mesma intensidade e brio. Portanto, há ali quase um extremar de posições que também faz parte deste jogo entre apoiar e desapoiar.
Isso é interessante, porque pegando outra vez no exemplo do Bad Bunny, também foi uma coisa que aconteceu com esse caso específico e acontece noutros, que é: há 60 mil pessoas, vezes duas noites a ver um artista, ao que se segue depois uma série de comentários a dizer: "Este tipo não canta nada, isto não presta". Portanto, há esse tipo de hate que é um bocadinho semelhante.
Sim, são os grandes acontecimentos. Os grandes eventos que de facto têm essa capacidade polarizadora. Eu pessoalmente acho que seria extraordinário tu poderes ter um grande encontro de um jogo de futebol com um Bad Bunny no intervalo, no final ou antes, o que seja. Acho que isso seria interessante. E aliás, ele esteve numa grande prova desportiva este ano.
É a americana.
É grande. Eu pessoalmente, na relação com a seleção, eu acho que provavelmente também tombei, sou vítima deste vírus que nós acolhemos com até algum carinho. Nunca estou muito interessada até estar muito interessada, se é que me entendes. Ou seja, começo sempre com este distanciamento precoce. Depois, se a coisa vai avançando, vou ficando- Aí já ninguém para. E portanto, em 2016, ao contrário da Susana, eu que comecei, como sempre, com uma descrença moderada, acabei completamente histérica para acompanhar o autocarro no seu trajeto infindável, desde não sei de onde é que vieram, sei que acabaram na Alameda e portanto, às tantas, de facto, és criança de novo e achas aquilo uma coisa espetacular e na verdade é só um triunfo futebolístico e o mundo no dia a seguir vai ficar igual. E vamos continuar a ter guerras e pessoas em zaragata, mas de facto há ali um momento de comunhão, que já vai sendo muito raro, em tempos completamente fragmentados. E portanto, nós, na verdade, se calhar estamos resumidos à droga, mas olha, é a droga que temos e assim vamos estando.
Bruno Vieira Amaral, queria saber da tua vivência. Qual é o teu espírito face à seleção, face a estes eventos, face a estes momentos?
Eu vou distinguir o meu espírito em relação à seleção e a estes eventos. São duas coisas diferentes.
Imensa desculpa.
Porque eu cresci, apesar do primeiro mundial de que me lembro ser o de 86, em que Portugal participou, depois de ter participado apenas 20 anos antes, em 66.
Não precisava ter Portugal à mistura.
Eu não ligo o mundial à seleção portuguesa. E aliás, quando a seleção portuguesa está presente, e nos últimos anos tem estado sempre presente, até atrapalha um pouco.
É porque tu és obrigado a apoiá-la.
Estás, parece que o mundial é a seleção e depois quando a seleção sai, já não é.
E não podes estar a torcer por Marrocos descansada.
Ou pelo bom futebol, simplesmente, quem joga melhor.
Eu vou vos contar, isto é uma confissão que tenho de fazer. Ontem, depois do jogo que Portugal empatou contra o Congo, houve um grande jogo, que foi o Inglaterra x Croácia.
É verdade.
E eu estava a ver aquilo, eu estava a pensar para mim: "Epa, agora finalmente-
Porque aquilo não são ingleses.
Isso foi o segundo pensamento. Não, agora estou a ver aqui um grande jogo, mas ainda estava aziado com o resultado de Portugal. Ou seja, um jogo de que eu teria desfrutado enormemente se Portugal ainda não tivesse chegado, por exemplo, ou não estivesse no mundial, ficou completamente manchado por aquela sombra do empate de Portugal. Ou seja, um 4 x 2 entre a Inglaterra e a Croácia, duas boas equipas. A Inglaterra jogou muito bem. A Croácia jogou menos bem, mas também deu boa réplica, como se costuma dizer. A verdade é que eu estava a ver aquilo e disse: "Epa, empatámos com o Congo".
É porque calçamos o teu jogo e o jogo dos outros.
É isso, percebes? Então eu refugio-me nas minhas memórias do mundial de 90, do mundial de 94.
De 88 também.
O de 88 ainda. Mas aqueles dois-
Estas provas também têm esse lado muito pop, que é: são muito nostálgicas.
São muito nostálgicas.
Memória.
T-shirts com os logotipos antigos. Até a Zara Kids tem agora uma linha toda, eu quero uma com o Naranjito.
Dá aqui, dá aqui a dica.
O meu filho, eu agora quando há uns meses estive no México, trouxe uma t-shirt do México 86 para o meu filho, que ele usa, não sei se com muito orgulho.
Que ele usa todos os dias.
Por sentido de dever para com o pai, com a nostalgia do pai.
Mas olha, se for a segunda hipótese, também é muito bem. Fica bem.
Eu espero que seja a segunda hipótese. Mas a verdade é que a presença da seleção portuguesa corta aqui um bocado a fruição plena do que é um mundial.
Muito bem. Diz-me uma coisa que eu queria saber de ti, que é personalizando e falando em estrelas pop, que as seleções também têm, o futebol também tem, como é óbvio, algumas das maiores do mundo. Uma delas, Cristiano Ronaldo. Futebolismos à parte, críticas técnico-táticas, não contem comigo.
Não vamos fazer isso.
Quando o Ronaldo decidir, ou alguém decidir por ele, que ele já não tem lugar, ou ele sai da seleção, ou seja o que for. Isto por quê? Porque eu olho para ele como a grande estrela pop, ou talvez a única. Nós vamos ficar sem uma grande estrela pop, um grande protagonista nesta grande narrativa que é a seleção nacional. Isso depois vai influenciar não só a seleção, mas a nossa relação com a equipa?
Vai influenciar, sobretudo, a forma como os adeptos, os fãs de futebol Do resto do mundo olham para a seleção portuguesa.
Para o bem ou para o mal?
Para o mal. Eu não vou fazer aqui uma análise desportiva.
Há outros programas.
Das atuais capacidades do Cristiano Ronaldo. O facto é que o Cristiano Ronaldo é um fenómeno como nunca tivemos no nosso desporto e na nossa sociedade.
Sim.
Nunca tivemos um português tão famoso em todo o mundo, uma verdadeira estrela.
E dificilmente teremos outro deste nível.
Muito dificilmente.
Mais famoso que o seu próprio país. Uma pessoa quando viaja e diz que é de Portugal, dizem: "Ah!"
Sim, ele é mais famoso que a Madeira. É uma brincadeira.
Ainda ontem, antes do jogo, entrevistaram diversos adeptos de outros países latino-americanos, vindos de outros lugares, da Austrália, que foram ver o jogo.
Sim, e muitos latinos até, porque o jogo foi no Texas.
Para ver o Ronaldo. Era o que eles queriam ver. Viram.
Viram?
Até foi fácil vê-lo, porque ele esteve quase sempre no mesmo sítio. Era fácil perceber onde é que ele estava. Mas é um fenómeno como nunca houve no desporto. Acho que nem o Beckham, na altura dele. Como é que se diz? Cross-
Transversal.
Transversal, é isso. Em português funciona melhor.
Aquilo que eles chamam no Reino Unido de um tesouro nacional.
É património. Acho que se tornou património da humanidade. Toda a gente conhece, reconhece.
E continua muito bem parecido.
Mesmo quem não conhece o futebol, de países que não ligam ao futebol, sabe quem é o Cristiano Ronaldo. Portanto, sem o Ronaldo, nós não vamos ter isso, acho eu, durante muitos anos.
E faz falta, faz diferença? Não quero dizer que tenha de ter este nível de estrelato, porque isto é estratosférico. Mas alguém que se destaque, evidentemente.
Faz diferença, desde logo para a própria visibilidade, o cachê da Seleção Nacional, da Federação Portuguesa de Futebol.
É como um festival em que há cabeças de cartaz.
Quando tu falas em estrelas, nós temos outras estrelas pop. Comparar o Ronaldo com qualquer outro jogador da seleção portuguesa, por muito que alguns tenham estilo e que alguns até façam publicidade, é comparar o sol com uma lâmpada de 40 watts.
Como é que se chama aquele moço que agora está aí nos mupes?
O Vitinha.
O Vitinha.
E isto não tem nada a ver com a qualidade futebolística, com o reconhecimento. Provavelmente, muitos adeptos ou quase todos os adeptos de futebol sabem quem é o Vitinha, mas o Ronaldo está em um planeta à parte.
Tanto quanto eu sei, de informação que me foi dita ontem, a diferença de cachê que a seleção portuguesa cobra para um jogo amigável em relação ao Cristiano Ronaldo jogar ou não jogar é de 1 milhão de euros.
Meus amigos, ficamos com esta informação milionária no final da primeira parte do "POP UP". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "POP UP" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e esta semana com a número 10 da Linha de Sintra, Susana Romana.
Exatamente.
Estamos a falar de bola, do Mundial e de cultura pop. Susana Romana, disseste-me tu, antes deste programa, que é como sempre extraordinariamente bem preparado, que foste groupie do Mundial no Itália 90.
É o primeiro que eu me lembro de acompanhar com um bocadinho mais noção do que é.
Entretanto, nem por isso. E o que gostas é as tais histórias em volta do futebol.
Sim, quem me tira um bom documentário de futebol, um bom "Welcome to Wrexham", quem me tira essas coisas, tira-me tudo. É isso que me interessa.
Mas o que é que tem o futebol?
O futebol, do ponto de vista narrativo, tem tudo para ser absolutamente extraordinário. Mesmo o à volta. Há personagens muito marcantes, há estes jogos, sobretudo nestas fases finais de mundiais, em que é o tudo ou nada, cada jogo é o fim do mundo a acontecer.
É um drama de uma intensidade.
É um desporto coletivo, ou seja, há várias personagens. Eu gosto muito de, nos Jogos Olímpicos, ver desportos individuais, mas o tipo de storytelling é um bocadinho diferente, porque é um homem ou uma mulher contra tudo. Ali é um desporto de equipe, ou seja, há subtilezas depois de quem é que desempenha que papel. Tem sempre que haver um vilão, de alguma maneira. Aliás, o Cristiano Ronaldo, em termos de meme de internet, é muito comparado pelos nossos adversários a Homelander, o vilão do "The Boys". Há muitos memes a tecer comparações entre o Cristiano Ronaldo e o Homelander.
Isso também é interessante, porque no futebol o herói pode ser o vilão em muito pouco tempo. Pode virar completamente.
E depende, obviamente, da perspectiva para a qual tu estás a olhar.
Se o Cristiano Ronaldo marcar dois gols no próximo jogo, vai voltar a ser o herói.
Claro, e já vimos isso acontecer n vezes e se calhar vamos ver mais, porque eu continuo a ter para mim que este não é o último mundial do Ronaldo.
Achas?
Acho que enquanto não lhe partirem as duas pernas, acho que ele lá estará, porque basta ele querer ir, que vai. Portanto, eu não ponho as mãos no fogo que este seja o último mundial do Ronaldo. E do ponto de vista de contar uma história, o futebol é incrível. O que se passa dentro do campo, o que se passa fora, o que tem consequências de um lado para o outro. Mesmo a própria final do Euro 2016, do ponto de vista de se eu tivesse que criar um guião, é absolutamente extraordinário. O nosso jogador estrela sai lesionado, pôs ali uma traça barra borboleta, depende de como quiserem interpretar. Quem marca o gol da vitória é um jogador que quando entrou em campo, o meu marido adepto do Sporting Braga, clube no qual o Éder jogava na altura, diz: "Entrou o bidon" e de repente é o bidon que marca.
E não tinha jogado ainda, não tinha jogado um minuto nesse Europeu.
Tudo enquanto isso.
Aquilo é incrível.
Tu enquanto argumentista, não serias capaz de escrever.
Não, porque ia achar demasiado espertinho também.
Teria sido ridicularizado.
Sim, a tipo: "Isso é demasiado A mais B igual a C". E o futebol pode-se dar esse luxo. Aliás, o que às vezes povos que não ligam tanto a futebol, como por exemplo os americanos, que é o exemplo clássico, não seja porque agora é lá que está a ser o mundial E que há aquela velha história de que eles não percebem o encanto de um zero a zero, de um jogo que pode ficar zero a zero. É porque eles não cresceram com aquele desporto, eu compreendo, eles não são capazes de olhar para o drama que aquilo tem. O que eu gosto no futebol é o quão injusto o futebol pode ser. Às vezes tu seres a melhor equipa, ótimo, mas às vezes não. Às vezes não quer dizer nada.
O Andrés Escobar que foi assassinado em 94 por ceder uma FIFA no jogo. Quando chegou a medalha: "O que é isto de perder para os Estados Unidos? Lá está, com aqueles tipos que não ligam nada a futebol." Nós temos histórias dos anos 90, à margem dos relvados, que são absolutamente estonteantes.
E parte do carisma à volta. O Maradona era um jogador extraordinário, ninguém põe isso em causa, mas parte do carisma à volta do Maradona vem dele ser uma personagem incrível. Tudo à volta daquele homem é uma história maravilhosa.
Essa questão do mundial de 90, o Itália 90, não terá tanto a ver com o mundial em si, mas com a idade que tu tinhas?
Com a idade que eu tinha. O meu pai não liga extraordinariamente a futebol, portanto, eu nunca tive a coisa de ver futebol com o meu pai. E o primeiro que eu me lembro de estar sozinha em casa, a não perceber grande parte do que se estava a passar. De eu estar sozinha em casa a ver jogos de futebol e de repente perceber o encanto que está em ver duas seleções que eu não sabia que existiam até há um quarto de hora, vem disso. O futebol e o storytelling em torno do futebol põe-te muito depressa a torcer por alguém. Eu não sou capaz de ver um jogo de futebol sem estar a torcer por uma equipa, mesmo que, quando eu começo a ver o jogo, eu não tenha um preferido, mas algures acontece qualquer coisa que me faz olhar para um como um vilão. Eu não consigo ver futebol de outra maneira, acho eu.
Acho que isso acontece. Aliás, acontece até mais nos desportos aos quais eu não ligo nenhuma e dou por mim a ver, por exemplo, golfe. Não ligo grande coisa, mas às vezes vejo quando é aqueles torneios mais importantes.
E ficas a ver?
Fico a ver.
Muito bem.
E depois acabo por estar a torcer por algum. Escolho um, porque de outra forma, como é que tu vais assistir àquele jogo?
E a maneira como tu escolhes é muito humana, muitas vezes.
É porque gostas da pinta daquele tipo.
Exatamente. O carisma continua a ter muito impacto em quem é que tu vais escolher e quem é que não vais escolher. Eu adoro ver um jogo de futebol em que ganhe o underdog. E perguntas: "Contra Portugal?" Às vezes também. Eu adoro um jogo em que ganhe o underdog.
Mariana Ramos Silva, por falar em calças. O mundial. Eu não sei se o mundial aqui está num nível superior. Aliás, e fica aqui para os nossos ouvintes a recomendação, tu falaste sobre este aspeto que vamos discutir aqui num teu outro extraordinário programa, que se chama "Do Avesso", portanto vão lá procurar.
Sobre roupas, não é?
Sobre jogadores de futebol e moda.
Não só futebol. Neste caso, não nos interessa o futebol.
Especificamente, que ditam cada vez mais tendências e as marcas trabalham com os jogadores, porque são estrelas pop. O mundial é um desses momentos em que pode influenciar modas e ditar tendências?
Sim, porque há aqui uma camada extra. Os atletas, de facto, hoje são ícones de estilo absoluto, por variadíssimas razões. Uma delas é porque têm, à partida, uma folha de serviço extraordinária, que é essa virtude atlética.
Têm o corpo.
É o corpo. E esse físico e essa capacidade técnica, desportiva, é, à partida, logo uma vantagem em relação a outras celebridades, que depois podem entrar em terrenos mais controlados.
Há bocado falavam do Beckham, terá sido ele o ponto de viragem desta coisa?
Também, mas é muito interessante, porque, por exemplo, o Beckham e até a sua mulher, que é uma presença, aquele grupo das famosas WAGs, que há 20 anos marcava o mundial, é uma figura que vem do tempo em que os jogadores eram também já, de facto, grandes estrelas, mas o momento que tu tinhas de análise, observação, até de convivência com aquelas pessoas em termos de ecrã, era quando as vias entrar, a sair do treino, dos jogos, a caçar um autógrafo. Não havia muito mais momentos. Vias nos jornais quando apareciam no dia a seguir. Mas tu hoje tens uma coisa chamada redes sociais, em que estas pessoas controlam a história, conseguem identificar em tempo real o que é que vestiram, o que é que não vestiram, o que é que calçaram. E, portanto, abre-se aqui, obviamente, uma porta.
E com milhões e milhões de seguidores.
O Mourinho esgotou há pouco tempo uma camisola da Adidas com a qual ele estava.
E acabou de fazer uma campanha para uma marca italiana. Quer dizer, estas pessoas são ícones absolutos.
Atenção, que não é o maior exemplo.
Sim, mas há ali qualquer coisa. Seja o número de seguidores, seja porque procuras uma personalidade mais carismática. Isto é transversal. De facto, desde o golfe, a Fórmula 1, o ténis, a forma como a máquina hoje está montada e como tem várias categorias, é muito extraordinária. E depois aqui tens um outro plano. Falávamos da moda, nós hoje temos uma tendência absoluta da moda em segunda mão e vintage. Há esse garimpo de peças antigas, de camisolas que foram usadas, a camisola do Maradona, a camisola do Beckham.
E tenho a ideia que a camisola de futebol nunca esteve tanto na moda.
Estão na moda e se usa hoje incorporado no estilo do dia a dia, sem o preconceito que havia anteriormente. E depois tens ainda um outro campeonato que é muito interessante, que permite teres grandes nomes da moda a criarem, neste caso, para as seleções. Por exemplo, a equipa francesa tem o equipamento assinado pelo Jacquemus, que é só um dos tipos com mais hype da grande moda dos nossos dias e portanto, de facto, atingiu um nível de sofisticação e de interesse extraordinário. Não é por acaso que quando o Cristiano Ronaldo aparece na praia com uns óculos XPTO, nós queremos saber que marca é, quanto é que custa, onde é que se compra. E tudo isso faz parte deste campo, obviamente.
Bruno Vieira Amaral, por falar em estilo. Tu usas esta expressão que eu gosto muito, que é one hit wonders, e que um campeonato do mundo pode ser um palco de one hit wonders, mas aqui não estamos a falar de canções.
Não estamos a falar de canções, estamos a falar de jogadores.
E de momentos também. Nós lembramos de coisas, por exemplo, há pouco estavam a falar de 90, em 94, tu vais sempre lembrar-te do penalti falhado do Baggio. Não te lembras de mais nada, mas lembras-te disso.
São momentos e por vezes são jogadores. Eu fico emocionado quando me lembro Estava aqui a pensar na equipa dos Estados Unidos de 1990. Em 90 os Estados Unidos participaram, já não iam para uns 40 anos.
Não, foi aquele Alex Lalas.
Calma, isso é em 94.
Eu estava a tentar.
Eu estive a fazer a minha pesquisa e encontro nomes como Paul Caligiuri, o Tony Meola, o Marcelo Balboa, o Tab Ramos.
Parece um elenco dos Sopranos. Um mundial.
Sobretudo o Tony Meola, que era o guarda-redes. Parecia um tipo do futebol americano.
Vou pesquisar.
Sabes por quê? Porque eu lembro-me dos cromos da coleção que fiz nessa altura.
É este com o rabo de cavalo?
Isso.
Já não há guarda-redes nos Estados Unidos.
Sair o Erik Wynalda. Claro que eles foram logo eliminados, perderam os três jogos, mas há aqui qualquer coisa que fica. Como o Conejo. Conejo era o guarda-redes da Costa Rica em 1990. Costa Rica que conseguiu passar da fase de grupos.
Este homem é problemático.
Tudo isto me emociona quase até às lágrimas. E incluo nisto o Alexi Lalas. Em 1994.
Muito ruivo?
Era americano. Por que um americano vai jogar futebol? O que se passa com um americano para ir jogar futebol?
O que eles têm na cabeça?
É um marginal, é um outcast. É um tipo que não foi aceito pelo resto da sociedade.
Gozado na escola.
Há ali qualquer coisa. Para um tipo branco, nos Estados Unidos, que não é descendente de latinos, se meter no futebol. Ele estava lá, era uma das figuras do mundial de 94. Aliás, ele agora é comentador, dizem que faz umas tristes figuras enquanto comentador, imagino que sim. Mas há estes jogadores que depois ficam, porque os viste no mundial.
O Higuita.
As exibições do Higuita. Depois há uns que só brilharam nos mundiais. Por exemplo, o Schillaci é talvez o maior exemplo. O Paolo Rossi um bocadinho menos, apesar de ter sido campeão do mundo e melhor marcador em 82, mas o Schillaci foi o melhor marcador do Campeonato do Mundo em 90 e ninguém sabia quem ele era e depois disso também nunca mais ninguém voltou a saber dele. Ele, entretanto, já morreu, mas foram jogadores que nós associamos a um mundial. Lembras-te do penalti do Baggio, o penalti falhado, mas a carreira do Baggio foi muito mais do que isso. Mas depois também há jogadores que foram muito bons e em clubes, mas que tiveram o momento deles no mundial, por exemplo, o Romário. O Romário participa em dois mundiais: em 90, onde joga apenas 45 minutos, num dos jogos, porque acho que tinha tido uma lesão, e depois em 94, que é o mundial dele.
É decisivo.
É a estrela do mundial e depois não volta a jogar mais nenhum mundial. Com muita polémica à mistura, se ele devia ter sido ou não chamado em 98. E essas exibições, esses momentos ficam para sempre e os jogadores têm noção disso. Jogadores como o Al Owairan, que é um jogador da Arábia Saudita, que marca um golo em 94, creio que contra a Bélgica, um golo à Maradona, em que finta ou passa por metade da equipa da Bélgica e marca um golo. Quem é o Al Owairan? Não interessa. Marcou aquele golo. O Negrete, Manuel Negrete marca um dos melhores golos da história dos campeonatos do mundo, pontapé de moinho no mundial de 86 e vem para o Sporting. As coisas não correram bem, mas toda a gente se lembra do golo do Negrete e toda a gente tentava, eu lembro-me, éramos miúdos e toda a gente tentava marcar golos de pontapé de moinho, saltos, às vezes até no alcatrão.
Se calhar já nem o próprio conseguia reproduzir o seu próprio golo que fará.
É daquelas coisas que acontece e se acontecer num campeonato, mesmo da Primeira Liga, num jogo troféu, é bom, um bom golo. Acontece no mundial, ficas eternizado.
Faz história, claro. Susana Romano, que também faz história. Depois são momentos, às vezes há estas figuras que se destacam por outras razões. Nós já tivemos aqui uma este mundial, ainda agora isto começou, que é o Vozinha.
Aí está.
O guarda-redes de Cabo Verde, que fez um jogo extraordinário.
Fez provavelmente o jogo da sua vida. Eu acho que se calhar ele pedia para não jogar mais nenhum jogo do mundial. Está ótimo.
Ele já pode ter feito exibições melhores na vida dele, mas não interessa.
Mas já marcou.
Mas não fez nenhuma exibição tão importante, num palco tão importante como este.
Num palco em que eu calculo que também o próprio estresse dos jogadores, para o bom e para o mau, o grau de nervosinho que está ali é muito diferente, calculo eu.
Isto transcende o futebol, é a tal história da narrativa. Porque há aqui um lado inspirador nisto.
Sim, a história do Vozinha é incrível. Ele chama-se Vozinha porque em miúdo estava sempre a chamar a avó para fazer queixas.
Ele parece que foi escrito por um argumentista.
Pois é, ele tem 40 anos, é mais novo do que eu, quatro anos, por isso eu não lhe estou a chamar velho, mas ele tem 40 anos e tem ar de ter 40 anos. Há jogadores de futebol, o Cristiano Ronaldo não parece ter 40 anos olhando para ele. O Messi não parece ter praticamente 39.
Mas sabes que o Vozinha joga em Chaves. Em Chaves uma pessoa parece a idade que tem.
E toda a história é maravilhosa. Ele, pelos vistos, durante o verão vai sempre dar aulas de vólei a miúdos em Cabo Verde. E saiu um comunicado da Associação de Aveiro a dizer: "Olha, este verão não vai haver porque o Vozinha não pode, porque está no Mundial." Toda a história dele é absolutamente incrível. E mais uma vez, eu acho que às vezes os anticorpos que muitas pessoas têm com o Cristiano Ronaldo, é o Cristiano Ronaldo ser uma pessoa muito confiante ou muito convencida, depende de como é que tu queres construir a tua frase. O Vozinha é o oposto disso, é o tipo humilde que está ali um bocadinho quase sem saber o que é que lhe aconteceu.
É o underdog, é o Rocky Balboa a ter a oportunidade da vida.
Sim, e há um momento em que uma jornalista brasileira lhe pergunta: "Sabe quantos seguidores é que tinha no Instagram e quantos é que tem agora?" E na altura, ele tinha passado de, acho que foi 50 mil para 1,5 milhão. Eu fui ver, mesmo antes de começarmos este "POP UP", ele estava com mais de 13 milhões de seguidores. Para termos uma noção de escala, o Tom Brady tem 15,4. O Tom Brady é o maior jogador de futebol americano de sempre. Já está reformado, mas foram 20 e tal anos de carreira. É o maior jogador de futebol americano de sempre. O Tom Brady tem só menos 2 milhões. O Bruno Fernandes tem 11,2 milhões, estrela do Manchester United. O Vitinha, que está no PSG, tem 5,1 milhões. O Cristiano Ronaldo tem 666 milhões. Vamos colocar isto fora.
666? Que número!
Sim, é um número, de facto. De repente, ele tem mais seguidores do que jogadores estrela da seleção portuguesa, excetuando Cristiano Ronaldo. Tem quase tantos seguidores como a maior estrela de sempre de um desporto em específico. Não sei o que é que vai acontecer depois disto. Eu acho que isto parece um fogacho, mas espero que ele aproveite.
Aliás, já foi convidado. Ele chama-se Josimar Dias. Josimar por quê? O pai queria pôr-lhe o nome de Valdano. O Valdano tinha marcado o golo no Mundial 86. Estás a ver? Esta história não acaba. O Valdano tinha marcado dois golos no dia antes, na véspera de o Vozinha nascer, e o pai queria pôr-lhe o nome, em Cabo Verde, de Valdano, não deixaram no registo, e então ele escolheu Josimar, que era o lateral direito da seleção brasileira. O Josimar ainda está vivo. É um critério como outro qualquer. Apareceu nas redes sociais a convidar o Vozinha e a família do Vozinha para irem ao aniversário dele em setembro. Então, está convidado. Ele disse que faria, seria um grande gosto. Nós temos muito pouco tempo. Queria só terminar com uma coisa. Esta questão do Vozinha e das redes sociais e do sucesso tem muito a ver com uma questão, foi um apelo que foi feito em direto na LiveModeTV, que tem a ligação com a Cazé TV, do Brasil, e que tem transmitido muitos jogos de forma gratuita no YouTube, com apresentadores portugueses, relatos portugueses, tem gente nos Estados Unidos. Esta parte da televisão nos mundiais é das mais importantes em relação à parte da cultura pop e como isto é consumido.
E reforça essa liga até ainda mais.
Mas está aqui a fazer alguma diferença esta LiveModeTV, não é?
Sim, porque para mim está quase em tempo real que surge o convite do outro lado do mundo. Sendo que eu acho que isto é uma altura, estas grandes alturas de mundiais, em que de facto o ecrã, até pode ser a televisão, tem a ser feito agregador. Eu acho que deve ser dos poucos momentos em que tu deixas o telefone e vês uma multidão na rua a olhar para o mesmo sítio, ou nem sequer está a olhar, mas está ali concentrada com um propósito único. Faz-me lembrar o momento em 98, precisamente num desses mundiais que nos permitiu o alívio de estar a ver descansadamente porque Portugal não estava lá. E de facto eu percebo essa ideia, porque tu consegues estar simplesmente a desfrutar o jogo de futebol sem aquela preocupação.
Acho que foi o mundial em que vi mais jogos.
Mas eu lembro-me perfeitamente. É engraçado, porque eu acho que o mundial também tem esse fator, que é tu te lembrares depois de momentos paralelos da tua vida que estão associados àquilo que aconteceu. E eu lembro-me perfeitamente que foi um ano em que eu ainda vivia com os meus pais, obviamente, e a casa estava toda a ser pintada e criou-se uma espécie de dispositivo em que a televisão estava no centro da operação e portanto tinha que estar devidamente protegida para tudo poder ir sendo pintado à volta, mas tu conseguias ver os jogos. Portanto, aquilo foi uma logística absolutamente de loucos, como podes imaginar, mas acho que consegui ver todo e deve ter sido um daqueles que mais segui do princípio ao fim. Mas sim, acho que este método que é interessante da LiveMode, porque te permite estar sozinha. Podes estar nos transportes a caminho de chegar a algum lado e vais seguindo e de facto é aquilo que disseste, não há tempos mortos. Eu acho que é aquilo que te queria.
Tem o comentário dos espetadores.
Sim, não há sequer a ideia de intervalo.
E tem uma postura muito mais de café.
Muito descontraída. Acho que o registo é o mesmo.
Amigos na pereceta a falar.
E isso cria, de facto, um grau de proximidade, sobretudo para as novas gerações.
A questão é se terá futuro, se fará tendência. Enfim, não sei. Não sei bem o que vai acontecer. Bruno, rapidamente, 30 segundos. Porque tu tens, quais são as melhores canções dos mundiais? A melhor é de 1990, de Gianna Nannini, "Un'estate italiana", um verão italiano. E quem é que compôs?
Mas tem letra ou é só instrumental?
Não, tem letra. "Un'estate italiana", um verão italiano. Quem é que compôs? Quem é que compôs? Giorgio Moroder. Pumbas! Pronto, não vou falar das outras, falo só dessa.
Isso é melhor que vuvuzelas.
Mas claro, o meu coração está no México 86. É "El mundo unido por un balón". Muito bom de ouvir. Sim senhor. Voltamos sempre ao México. Muito bem, final de mais um "POP UP". Já sabem que podem inscrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.