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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje falamos sobre saúde mental. Será a saúde mental um luxo ou uma necessidade? Eduardo, boa tarde. Olhando para esta pergunta, queria enquadrar para pensarmos o que é de facto, não o que deveria ser, se a saúde mental deve ser um luxo ou deve ser uma necessidade, mas o que é de facto. Hoje, em Portugal, um país que é o segundo com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas em toda a Europa. A saúde mental, hoje em Portugal, é um luxo ou é uma necessidade que não está a ser atendida?
Olá, Bruno. Eu acho que é uma necessidade absoluta. A pandemia ajudou-nos a perceber duas coisas que parecem quase contraditórias. Ajudou-nos a perceber que nós temos muito mais recursos saudáveis do que pode parecer. Se disséssemos a uma família, e eu conheci tantas, que em 50 metros quadrados estava o pai, a mãe e dois filhos a trabalhar a partir de casa e estiveram fechados num confinamento cerrado durante dias e dias, todos nós enlouquecíamos muito rapidamente. E nós tivéssemos esta capacidade de sobreviver a situações de uma enorme dureza, como temos invariavelmente essa capacidade. Mas depois os custos da pandemia ajudaram-nos a perceber que as pessoas não ficaram mais equilibradas, ficaram um bocadinho mais desequilibradas e ajudam-nos a perceber também que de facto, em Portugal, a saúde mental parece ser um luxo, quando é uma necessidade premente. Nós percebemos que os apelos que as pessoas fazem são cada vez mais claros. A forma como muitas vezes o trabalho está organizado, que é muito pouco atento à capacidade crítica que as pessoas podem trazer a uma organização e ao crescimento de uma organização, e que faz com que sejam, sobretudo, força produtiva e não sejam trazidos para opinar, para viverem relações com intensidade e que nada disso é incompatível com o trabalho e com a capacidade de realizarem coisas, ajuda-nos a perceber que cada vez mais, muito mais de 50% dos trabalhadores portugueses declaram-se muito perto da exaustão física e psicológica, que passou a chamar-se burnout. E tudo isso acaba por trazer custos tão elevados que, juntando aquilo que o trabalho não lhes dá, às vezes lhes tira. Juntando a vida pessoal difícil, crise económica, que acaba por fazer com que muitas famílias tenham garrotes, de facto, em relação a muitas das coisas que fariam de uma outra forma se vivessem com outro desafogo, etc. Tudo isso junto faz com que os portugueses tenham uma necessidade enorme de saúde mental. Só que a saúde mental custa dinheiro e às vezes parece ter se transformado num luxo, quando é uma necessidade absolutamente fundamental, não só para o equilíbrio psíquico, mas para as repercussões que a saúde mental tem na saúde física e das quais nós falamos muito pouco. Aliás, devíamos falar muito mais.
E que repercussões são essas?
A todos os níveis. Comece por ver como, por exemplo, os homens. Outro dia estávamos a falar acerca deste aspecto. Eles choram, falam, agitam-se ou não. Os homens têm muito mais níveis de estresse crónico e de estresse oxidativo do que as mulheres. O que significa que se nós queremos promover a saúde mental, temos que dizer às pessoas: "Por favor, sempre que sinta, fale". Sempre que reprime, tudo se contrai dentro de si. Quando esta contração se vai instalando, como se fosse aparentemente um defeito de fabrico, vai adoecendo. Com isso, em suaves prestações, o que acaba por ter? Mais doenças cardiovasculares, mais hipertensão essencial, mais perturbações gastrointestinais e por aí em diante. E se estas perturbações fizerem com que engula a raiva, que é o melhor estabilizador de humor do mundo, o que acontece? A longo prazo, faz com que tudo isso traga doenças de natureza autoimune e doenças degenerativas. E, portanto, saúde mental não é indispensável. Agora fala-se dela como se ficasse bem.
Parece uma moda.
Completamente. Saúde mental é uma forma de nós nos reconciliarmos conosco. Pensar é sempre o melhor remédio. E às vezes fala-se da saúde mental como se dissesse: "Muita autoajuda, por favor", como se houvesse Autoajuda sem autoconhecimento não deixa de ser uma patetice.
Eduardo, mas de onde é que vem esta pressão? A pressão de que falava e que tem esses efeitos nos homens, nas mulheres. Essa pressão já existia, e estou a falar da pressão a nível profissional, pessoal, das relações, a nível familiar. Essa pressão já existia? É maior? Tem aumentado nos últimos anos? É sentida de outra forma? Ou seja, as exigências no local de trabalho são maiores ou são sentidas de uma outra forma pelas pessoas?
Não. Nós somos um mundo que tem muitas coisas mal feitas, mas que entretanto fez muitas muito bem feitas. As pessoas mais escolarizadas são pessoas muito mais clarividentes e, portanto, nessas circunstâncias, querem para si aquilo que as outras queriam, mas que, de alguma forma, às vezes tinham até dificuldade de identificar. E, portanto, as pessoas têm a noção de que, no fundo, há um conjunto de indicadores que significam qualidade de vida. Qualidade de vida não significa, por inerência, dinheiro. Embora, como os ingleses dizem, entre ser infeliz com dinheiro e ser infeliz sem dinheiro, porque não ser infeliz com dinheiro? Mas a qualidade de vida tem a ver com uma situação de bem-estar com o corpo, tem a ver com uma situação razoavelmente feliz quando se trata de perceber as relações e a saúde mental, e uma relação que, no fundo, implica ter uma ideia de crescimento, de progresso, ou seja, que no dia depois de amanhã nós vamos lá chegar e vamos ter coisas melhores do que no dia de hoje.
Mas é precisamente esse desejo, essa aspiração, Eduardo, não põe mais pressão sobre nós? Não é precisamente o facto de sermos mais clarividentes, de sermos gerações mais instruídas, que nos torna mais exigentes em relação ao nosso desempenho a vários níveis e, por isso mesmo, mais suscetíveis de sermos afetados por essa pressão?
Sim, dá-nos uma sensibilidade mais educada. E uma sensibilidade mais educada torna-nos potencialmente mais frágeis, sempre que nós não a utilizamos de uma forma proativa em relação àquilo que entendemos que é o melhor para nós, sem dúvida nenhuma. Agora, há aqui um pormenor: é que, de facto, Portugal está num crescendo absolutamente inquietante de consumo de psicofármacos e há um indicador que eu às vezes gosto de trazer. É um indicador, vale o que vale, mas nós, neste momento, somos mais de 10 milhões. Descobriram isso entretanto, que bom. Mas somos mais de 10 milhões que consomem quase 30 milhões de embalagens de psicofármacos no ano passado.
Já têm sido conhecidos nos últimos anos vários dados sobre esse consumo. Também é algo, sempre a subir, exatamente. É algo que me intriga e que me leva a pensar: o que se passa aqui, afinal? Estamos aqui perante uma epidemia de doenças mentais? Estamos com uma sobremedicação? O que é que se passa?
Estamos com isso tudo. E com esta particularidade, e que não se passe disto porque eu tenho medo que às vezes se possa interpretar quase como uma cruzada contra os psicofármacos. Não, eu acho que muitas vezes os psicofármacos dão uma solução de recurso em cima de um conjunto de dificuldades que traz o equilíbrio mínimo a uma pessoa que estava ali a escorregar para desequilíbrios significativos, que fique claro. Mas, de facto, as pessoas são cada vez mais instruídas a não pensar. E quanto menos fazem isso, mais ficam doentes. O Bruno estava a perguntar há pouco: "Mas o que se passa?" Já reparou como o tempo, a maneira como nós lidamos com o tempo é tão mais agitada, porque aqueles cafés onde as pessoas iam tomar café e conversavam, deixaram de existir. As tertúlias são uma realidade que tem um distanciamento grande. E o tal númerozinho que eu costumo comparar com os psicofármacos é o número de livros vendidos em Portugal. A discrepância vai cada vez mais no sentido de que, em pouco tempo, os portugueses comprem por ano um terço dos livros das embalagens dos psicofármacos que compram. E isso ajuda-nos a perceber que quanto menos leitura, menos saúde mental, por estranho que possa parecer.
E há essa relação diferente, que se foi alterando com o próprio tempo. Uma relação um pouco mais intensa e agitada, como o Eduardo dizia. Eduardo, chegamos ao fim do nosso programa por hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Enviem-nos questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.
Um grande abraço, Bruno, e até amanhã.