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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos do caso dos dois irmãos franceses de três e cinco anos, que foram encontrados sozinhos numa estrada entre Alcácer do Sal e a Comporta. A mãe e o padrasto vendaram-nos, disseram-lhes para procurar um brinquedo no mato e quando as crianças tiraram as vendas, eles já lá não estavam. Uma criança de cinco anos já consegue perceber o que lhe aconteceu? Olá, Eduardo.

Olá, Judite. Uma criança de cinco anos consegue perceber e uma criança de três anos também.

Também?

E, portanto, num contexto destes, claro que há uma diferença aqui. Os irmãos mais velhos acabam sempre por pagar algumas faturas mais, até porque o movimento que fazem em relação à proteção dos mais novos acaba por onerá-los de uma maneira diferente. Mas sim, as crianças sabem identificar com uma clareza fora de lugar aquilo que são maus-tratos e aquilo que estas crianças viveram, e daí o choque que a população portuguesa acabou por ter e o que faz com que todos os serviços noticiosos se dediquem a analisar o que pode ter sucedido. De facto, é de uma violência enorme, e eu não acho que seja só um abandono, porque quando se abandona uma criança pequenina, por maioria de razão, num contexto claramente adverso, nós, em primeiro lugar, temos uma omissão de auxílio, ou seja, é um ato da mais absoluta gravidade destas duas pessoas, da mãe e do padrasto, em relação a elas as duas, e obviamente, que isso põe em risco a vida daquelas crianças e, portanto, é muito importante nós não perdermos de vista que não será só, no meu entendimento, um processo de abandono, mas um processo grave, muito grave, que poderia pôr em perigo a vida destas crianças a qualquer momento e do qual se têm de retirar ilações, parece-me a mim.

Como é que o trauma do abandono se manifesta nestas idades?

Judite, como é que uma criança, num registo destes, vai poder conviver toda a vida com a sensação de que, no fundo, foi deitada fora, ainda por cima, de uma forma verdadeiramente perversa? Não vale a pena nós imaginarmos que qualquer um destes dois meninos, a partir de agora, estendam os braços a qualquer estranho que os queira acarinhar e de alguma forma proteger, porque, como é óbvio, uma coisa é uma reação de sobrevivência quando se está rigorosamente só e abandonado. Não é por terem pessoas da embaixada francesa a falar francês com elas, que se vão sentir mais protegidas com isso. E, portanto, elas vão estar sempre como pessoas muito acossadas, muito desconfiadas, muito assustadas com qualquer pessoa que manifeste qualquer tipo de reação afetiva. Há um pai na história. E esse pai na história pode ser alguém que as venha verdadeiramente a proteger e que lhes dê um contraponto em relação a esta violência indescritível, sendo certo que depois de eles terem sido abandonados pela mãe, vão ficar sempre com um remanescente de desconfiança em relação a qualquer pessoa que goste muito deles, porque, evidentemente, nada lhes faz apagar a ideia de que não há dois sem três.

Estavam juntos, são irmãos. Isso muda alguma coisa no modo como viveram aqueles momentos que devem ter sido de pânico?

Muda significativamente. Nomeadamente, o mais pequenino em relação ao maior, sendo que o maior, é importante não perdermos de vista, tem cinco anos. Mas muda significativamente, porque é evidente que terem-se um ao outro, por mais assustados que possam estar, e estariam, ainda assim, não são abandonados numa espécie de lugar escuro onde não tenham a mínima das mínimas referências em relação a si. Agora, volto a dizer, aquilo que me choca profundamente é que abandonar estas crianças no sítio onde elas foram abandonadas é dar uma oportunidade enorme a que alguma coisa de muito grave pudesse acontecer, nomeadamente, que pudessem morrer. E aqui eu tenho muita esperança que quando chegarmos à altura destes pais ou desta mãe e deste padrasto serem julgados por aquilo que fizeram, que não se perca isso de vista.

Há um detalhe muitoPerturbador que as mochilas tinham água, bolachas, fruta, ou seja, houve aqui uma preparação, o abandono foi premeditado. Do ponto de vista psicológico, isto é muito relevante.

Sim, não vale a pena imaginarmos que houve um conjunto de cuidados no sentido de eles não serem expostos a perigos graves, porque não são duas maçãs, um pacote de bolachas e uma garrafa de água que os protegeria de serem atropelados, de se perderem e de passarem noites rigorosamente sozinhos, etc. Mas, de facto, há uma premeditação. E aquilo que eu acho que nos choca a todos é como é que pode haver alguém que seja calculista a este ponto e suficientemente mau em relação a duas crianças tão pequeninas. Porque eu admito que esta mãe pudesse dizer: "Eu não tenho condições", fosse de que ordem fosse, financeira, psicológica, etc, para ter estas crianças. Ter este registo que faz com que elas atravessem o país até Alcácer do Sal e depois de terem uma vida normal até aquele dia, quando finalmente isto é transposto para uma brincadeira que já de si tem uma premeditação absolutamente inquietante, o que nos choca a todos é como é que há pessoas que conseguem ser más a este ponto em relação a duas crianças muito pequeninas e verdadeiramente indefesas.

É uma situação que não estávamos à espera. E de facto, como dizia no início o Eduardo, chocou claramente o país. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Igualmente para si, Judite. Até amanhã.