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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje vamos falar de uma boneca muito famosa que continua a gerar ódios e paixões. É a Barbie, faz 65 anos e a questão, Eduardo, boa tarde, é saber por que este símbolo continua a ser tão amado e tão odiado.

Olá, Bruno.

Não é fácil saber , ou é?

Eu acho que é porque, vamos lá ver, em cima de tudo, acaba por representar um estilo de vida que, em algumas circunstâncias, merece muitas reservas por parte, sobretudo, de muitas mães. Acaba por representar um conjunto de más influências, na opinião delas, a diversos níveis, mesmo quando se trata de se traduzir numa espécie de mulher coquete, superficial, que dá muito pouca atenção aos outros e se centra mais em si própria e, pra além do mais, segundo outras mães, acaba por ter medidas em termos de corpo tão impossíveis que, afinal de contas, parece estar a criar um equívoco às crianças, muitas vezes às raparigas em particular, dando-lhes a ideia de que no fundo, tudo o que elas possam ser nunca será capaz de se assemelhar àquilo que é a Barbie.

Mas não é essa a característica das brincadeiras, sejam elas com a Barbie ou com outros bonecos? É uma idealização, quase uma imagem perfeita e que será sempre, necessariamente, inalcançável, mas que está lá como um ideal.

É, e por isso é que elas são tão importantes. Porque quando não se fala de Barbies, que para todos os efeitos são princesas com uma dimensão mais classe média, falando-se de princesas, estava-se, todavia, também a falar de pessoas que teriam um conjunto de características mais ou menos idealizadas e que seriam, no fundo, uma espécie de referência para o crescimento, neste caso, a priori, das crianças. E quando nós temos idealizações, isso não é obrigatoriamente mau, isso não nos põe obrigatoriamente pra baixo, sobretudo, porque a seguir às Barbies vêm os ídolos, os ídolos do desporto, os ídolos da música, etc.

Exatamente.

Continuam a ser pessoas que têm muito pó de arroz na maneira como nós muitas vezes as idealizamos, como se, no fundo, não tivessem os seus sobressaltos, as suas dores e tudo mais que faz parte das pessoas. Mas é como se estas referências, que são adjacentes às identificações que nós temos com os nossos avós, com os nossos pais em muitos pormenores, não compusessem uma espécie de cardápio de caminhos, que depois nós vamos escolhendo até que finalmente vamos construindo uma identidade. Portanto, estarmos a tirar estes degraus, muitas vezes, é estarmos a criar um problema onde ele não existe. Até por isso, porque eu tenho medo que em muitas circunstâncias, e acho que nunca é demais falarmos disso, que nós separemos os brinquedos didáticos dos outros brinquedos, como se uns fossem os recomendáveis e os outros fossem os supérfluos. E brincar aos bonecos ou às bonecas, brincar às mães e aos filhos, fantasiar, não é, ao contrário, se dá a entender, um brincar de segunda categoria. É tão importante como os jogos mais sofisticados, que têm a ver com aquilo que são raciocínios em torno da matemática e coisas do gênero, quando no fundo, matemática sem fantasia implica um crescimento que fica a coxear mais do que devia.

Eduardo, acha que é desvalorizado o papel da imaginação das crianças que brincam com estas bonecas? Ou seja, nós muitas vezes discutimos, a sociedade discute a Barbie, como se o brinquedo não estivesse nas mãos de uma criança, não estivesse à mercê da imaginação da criança, não fosse um objeto numa fantasia que depois é criada pela criança.

Sim, cria-se a ideia de que a Barbie é um brinquedo com muitas calorias.

É um brinquedo tóxico.

Sim, em absoluto. E portanto, nessas circunstâncias, é um tolice, porque eu acho que os pais fazem tudo tão bem em termos de imaginação, quando contam histórias, quando antes de adormecer conversam e de alguma forma alimentam a capacidade das crianças se perderem Imaginário adentro. E depois quando elas começam a entrar na escola e começam a ter aquelas responsabilidades todas, etc, a imaginação parece um bem de segunda necessidade, quando no fundo, acaba por ser o sal do pensamento. E, portanto, quem não imagina, não é capaz de pensar. Quem não imagina, não é capaz de fazer daquilo que aprende um exercício de sabedoria, não é capaz de transformar a vida em criatividade e, portanto, nessas circunstâncias, com a Barbie, com outros bonecos ou com outros tipos de brincar, eu acho que às vezes nós desvalorizamos a imaginação como se fosse uma coisa de crianças, uma coisa mais ou menos sem grande utilidade, quando é seguramente o maior fator de crescimento que elas podem ter.

É legítimo associarmos a bonecas, a Barbie, a uma ideia de superficialidade, de cultivo de uma certa frivolidade, de preferência pela aparência, em detrimento da substância? Será completamente errado ver as coisas dessa forma? Porque há pessoas que quando pensam na Barbie, pensam nisso, quase como um culto do superficial.

É verdade, mas se reparar, não deixa de ser muito engraçado que as crianças, quando chegam à altura de se mascarar, muitas vezes usem com muito mais orgulho uma fantasia de princesa do que uma fantasia de sem-abrigo. E, portanto, sejamos razoáveis, nós temos inveja do que é bom e do que é bonito. E termos inveja do que é bom e do que é bonito não significa sermos más pessoas, porque quando lidamos com isso, quando brincamos com isso, estamos a transformar a inveja em ambição. E podermos ter a ambição de ser bons, bonitos, termos sucesso e outras coisas do gênero, não significa ficarmos iguais à Barbie. Significa misturarmos a Barbie, que é um condimento quase insignificante, com aquilo que a mãe, avô são, ou do que aquilo que outras referências no nosso crescimento acabam por nos trazer, seja uma professora ou seja outra pessoa qualquer. O que é muito importante é que às vezes nós acabemos a dar à Barbie boneca, a importância que ela não tem, como se no fundo ela pudesse contaminar, pudesse conspurcar o crescimento das crianças com adereços, como se elas não distinguissem o indispensável dos condimentos acessórios que fazem parte do seu crescimento.

Mais do que isso, não estaremos a projetar na Barbie uma série de lutas, de guerras, que não são propriamente as guerras das crianças?

Sim, estamos a baralhar tudo, estamos a confundir e nós somos muito bons a fazer isso. E somos muito bons, sobretudo, porque depois em vez de termos a coragem de dizer: "Sim, somos nós que andamos aqui às cabeçadas com um conjunto de coisas que às vezes não são muito bem digeridas por nós", depois colocamos de uma forma quase inocente: "Não, não é por nós, é pelos nossos filhos". E não é bem isso que está em questão. E, portanto, sim, baralhamos muitas coisas e reclamamos de uma forma que se calhar nem sequer é a mais verdadeira.

Por outro lado, e sem querer ser aqui o advogado do diabo, pode ter algum contributo este hábito de se brincar com a Barbie, pode ter algum contributo para esta visão quase decorativa das mulheres ou isto somos nós já a fazer uma sobreinterpretação das brincadeiras com a Barbie?

Não somos nós. Agora, sejamos razoáveis. Quando nós temos um ídolo ou até uma figura de referência, nós as pessoas crescidas, nós temos muita dificuldade em imaginar estas pessoas chegarem ao fim do mês a fazer contas. Temos muita dificuldade em perceber que elas, de alguma forma, também estão tristes de vez em quando. Nós às vezes ficamos surpreendidos quando de repente vimos uma figura pública ir a um supermercado e entre outras coisas, trazer papel higiênico pra casa, veja bem. E nós temos a ideia que às vezes as pessoas não são só pessoas. Nós temos isto tudo, mas por favor, as crianças e se quiseres, as raparigas em particular, têm uma ideia muito precisa do que é a vida das pessoas e as mulheres de referência. E, portanto, não é por terem esta noção que às vezes é tão cor-de-rosa, literalmente cor-de-rosa, aliás, quando se trata da Barbie, que de repente se colocam como se fossem umas coquetes insignificantes, que não pensam, que não têm opinião sobre as coisas fundamentais da vida, desde a sociedade, à política ou o que quer que seja. E, portanto, calma, quanto mais plural for o crescimento das crianças, mesmo quando têm este tipo de imagens, que às vezes até são mal interpretadas, melhor elas crescem.

Ou seja, não é por terem estas idealizações, que podem ser tanto uma boneca como até uma figura da música ou do espetáculo, do cinema, que as crianças perdem contacto com a realidade e perdem noção da realidade.

Ó Bruno, como não é por elas quando chegam a um restaurante com os pais e o empregado tentando ser simpático, as trata por princesas, que de repente deixam de ser quem são.

E com essa mensagem chegamos ao fim do "Porque sim, não é resposta" de hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Envie-nos as suas questões, as suas dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosá@observador.pt. Eduardo, um grande abraço e até amanhã.

Um grande abraço, Bruno, e até amanhã.