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Hoje no "Porque Sim Não É Resposta", vamos falar do caso de uma mãe que vai emigrar e que se questiona como será a reação da filha, que vai ficar longe do pai. Olá, Eduardo, boa tarde.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

É uma situação muito complicada quando os pais estão separados, no caso, um dos progenitores vai emigrar e a verdade é que vai levar a filha e o outro pai fica sem ela. Ainda por cima, estamos a falar de um caso em que vai mudar para um país longe. É uma situação complicada, mas não há como dar a volta.

Olá, Judite. É um drama pra criança, porque por mais que lhe expliquem os motivos pelos quais isto vai ter que acontecer, nós nunca podemos perder de vista que os nossos filhos têm sempre tantas expectativas em relação a nós, que acham sempre que com mais ou menos dificuldade, seja o que for que aconteça, nós resolvemos, e resolvemos, de preferência, tomando em consideração os seus próprios interesses. É um dilema tremendo para os pais, porque eu imagino que tenham ponderado inúmeras vezes se deviam fazer ou não, e a determinada altura chegarem à conclusão que não têm outra alternativa é tremendo, porque ser um pai de videochamada, ser um pai de férias, não é, de facto, a mesma coisa que ser um pai, e estas coisas pagam-se. Aliás, todos nós conhecemos à nossa volta, amigos nossos, colegas, etc., que tiveram pais emigrados e que, portanto, tiveram durante muito tempo um contacto muito fortuito, muito distante com estes pais. E nós temos todos a noção de quanto, por mais racional que seja a explicação, por mais que se tente entender e se perceba o quão de coração partido estes pais acabam por ficar quando tomam estas decisões, a verdade é que depois uma pessoa se sente sozinha, desamparada, nem sempre tão importante assim, porque nós temos sempre a noção de que haveria uma solução qualquer a que os pais poderiam deitar a mão para que nada disso acontecesse. E, portanto, é terrível. E obviamente que nós não podemos esperar que, independentemente de tudo o resto, uma criança não reaja mal quando vai, porque mesmo quando mata saudades do pai, matar saudades é uma expressão incrível, a determinada altura, vai precisar de sangar com ele, de o desafiar, de o pôr à prova, quase como quem diz: "Recapitulando, vamos lá ver se tu continuas a ser capaz de ser meu pai e já agora, se mereces continuar a sê-lo". Portanto, são custos muito grandes que eu compreendo que em determinadas circunstâncias tenham de se fazer e se façam de coração completamente partido.

Em nenhum momento se pode pôr em causa a legitimidade da decisão desta mãe ou de outra mãe, de outro pai, nas mesmas circunstâncias. Até porque podemos imaginar uma situação em que fosse o pai, que não vive habitualmente com a criança, a tomar a decisão de ir para o estrangeiro à procura de uma vida melhor, de melhores condições de vida. E acreditamos que a decisão a ser tomada é já tomada depois de muita ponderação, mas torna especialmente necessária aqui uma relação saudável, adulta, entre os dois pais. Isso é fundamental para que a separação não signifique um corte abrupto.

Sim. Muito adulta, Bruno, porque inevitavelmente, chegar a uma conciliação de pontos de vista é muito difícil. Eu imagino que nestas circunstâncias, só mesmo em consequência de condições de trabalho, condições de vida muito favoráveis, é que se tenha de tomar uma decisão como esta. E todos nós já vimos que isto muitas vezes se dá em contexto de casais que acabam por estar a coabitar e a conviver, mas também é verdade que às vezes se dá em contextos em que são casais divorciados e que ainda torna tudo muito mais difícil. A verdade é que um pai quando cede às regras da realidade, tem a noção do quanto é absolutamente dilacerante pra ele perder o contato diário com o filho, ir aconchegar a roupa, "Olá, dormiste bem?" e outras coisas do gênero, e tem a noção do que faz de diferença não contactar com ele a não ser através de uma videochamada, que de início é muito difícil pra uma criança, porque não percebe. Se for pequenina, menos perceberá ainda Se o pai está disponível para uma videochamada, por que não estar todos os dias ao pé dela? Mas em consequências normais, faz com que a determinada altura uma criança comece até a rejeitar as videochamadas, porque no fundo tem a noção do quanto isso a magoa e numa circunstância destas, acaba por se tentar poupar. Contudo, aquilo que às vezes negar-se a falar com o pai, acaba por ter um impacto duríssimo para ele. Portanto, implica uma maturidade absolutamente fora de lugar quando se está afastado, quando se retoma a relação, quando há um regresso, por mais que seja episódico, e obviamente, que por mais que estes pais não queiram, passa a haver um dos pais que é um dos pais de primeira e um outro dos pais que é de segunda, porque obviamente aquele que está sempre mais presente perante todas as circunstâncias de vida de uma criança, acaba por ser inevitavelmente aquele por quem se chama todos os dias e é como se uma pessoa fosse deixando de ser progressivamente pai. Isto tolera-se durante um bocadinho, não se tolera durante toda a infância, até porque depois os custos acabam por ser, em muitos momentos, um bocadinho irreparáveis.

Além disso, a mãe é bastante consciente da decisão que tem que tomar, mas também da culpa que essa decisão acarreta, sabendo que o pai vai ficar longe da filha. Mas há uma altura neste e-mail que esta mãe diz: "É uma oportunidade de uma vida", e fica perante esta quase inevitabilidade de levar a filha consigo e deixar este pai sem a criança. Mas como é que esta mãe lida com esta culpa?

Estite, eu acho que a culpa dos pais, e eu acho que um destes dias, se calhar, nós devíamos falar disso num programa só. A culpa dos pais é qualquer coisa que faz parte do nosso dia a dia e que em muitas circunstâncias foi muito mal usada, por exemplo, por muitos especialistas da psicopatologia infantil, que achavam que na asma, nisto ou naquilo, havia sempre uma mãe que era, no fundo, quem dava um empurrãozinho para que as coisas fossem num determinado sentido. Felizmente, abandonou-se isso, mas entretanto, as redes sociais acabaram por trazer de novo isso, sempre com o dedo muito apontado em relação aos pais, em relação às mães em particular, como se, no fundo, elas fossem invariavelmente responsáveis e quase tivessem a culpa de uma coisa que acaba por resultar de muitas decisões que tomam, mas que tomam em circunstâncias que não se podem controlar. Agora, a culpa nunca desaparece. Esta é que é a questão que é mais sensível. A culpa nunca desaparece. Está sempre ali a latejar um bocadinho e depois quando os pais, ainda por cima, têm a bondade, como todos nós sabemos que eles têm. Bom, constipe-se uma criança, faça isto ou faça aquilo, tenha uma gracinha nova, uma aquisição, nomeadamente saber andar, etc. Faça o que fizer, os pais têm sempre a sensação de que podiam ter feito melhor, podiam ter sempre feito um bocadinho melhor, por mais que em muitas circunstâncias façam sempre o melhor que conseguem. E num contexto destes, é como dizes, às vezes há oportunidades de uma vida. E estas oportunidades de uma vida podem permitir que esta família se reagrupe daqui a um tempo, num contexto absolutamente mais favorável para esta criança, podem permitir um encaixe financeiro que faça com que esta família passe a ter o desafogo, que dê outras oportunidades a estas crianças, etc. São situações que se compreendem, mas aquilo que eu acho que é muito importante não é tanto que nós fujamos à culpa, porque ela está sempre ali a bater, volta não volta. Agora, o que nós não podemos fazer é estar sempre na maneira como repreendemos ou evitamos repreender, na forma como permitimos um pequeno desaforo ou não permitimos, seja o que for. Nós não podemos estar sempre nas entrelinhas do que fazemos com um pedido de desculpa permanente, como se no fundo nos estivéssemos sempre a encolher um bocadinho de ser pais. E quando é assim, por mais que nós possamos perceber a culpa que às vezes amarfanha o coração de uma mãe ou de um pai, quando os pais estão sempre tacitamente a pedir desculpa, na prática, não estão a ajudar uma criança, porque é quase como se estivessem a ser pais a medo. E quando são pais a medo, em vez de uma criança se sentir mais segura, mais confortável, mais aconchegada, sente que há ali meia dúzia de nuvens negras mais ou menos enigmáticas, que estão a afastar aquela mãe ou aquele pai daquele filho ou daquela filha. E tudo isto acaba por complicar muito as relações e sentir culpa, sim. Passar a vida a pedir desculpa, seja em relação ao que for, por favor, não, porque prejudica um filho e obviamente prejudicará esta mãe, como não podia deixar de ser.

Tomar uma decisão e dar o corpo às balas.

É mais ou menos isso. Quantas vezes não fazemos isso, não é, Estite?

Sim. Eduardo, muito obrigada. Nós voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt e ouvir-nos, seja em podcast, seja no site do Observador. Eduardo, obrigada, um grande abraço e até amanhã.

Eu é que agradeço. Um abraço para os dois.

Até amanhã, Eduardo. Um abraço.