Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de como educar uma criança de dois anos. Olá, Eduardo. Um ouvinte escreveu-lhe com dúvidas sobre como estabelecer limites a uma criança tão pequena. Aos dois anos, uma criança já consegue compreender verdadeiramente regras e limites, ou estamos a exigir um controle emocional que ainda não tem?

Olá, Judite. Uma criança de dois anos já é muito crescida e muito sofisticada. Claro que aos olhos de uma mãe e de um pai, uma criança de dois anos é só um bebê de dois anos, mas, em boa verdade, é muito mais que isso. É acutilante, é atenta, é capaz de fazer raciocínios de uma complexidade muito grande. Pode não usar a palavra como se compreende, mas a observação e a capacidade de discernir as soluções corretas para um determinado problema estão lá todas e não é por falta de capacidade que ela não se adapta às regras que as mães, os pais ou eles em conjunto entendam pedir.

Quando uma criança bate ou insiste num comportamento, qual deve ser a reação imediata dos pais?

Judite, uma criança tem esse tipo de comportamento porque se sente a jogar em casa, porque tem uma ideia muito precisa que aquela mãe e aquele pai são topo de gama e que são tão fiáveis que quando ela reage no meio de uma fúria, é como se dissesse: "Eu não entendo como é que pais desta enorme qualidade não me fazem as vontades todas." É uma criança de dois anos a pôr-se em bicos de pés, a mostrar à mãe e ao pai que se houvesse lei no mundo, ela mandaria, coisa que me deixa tranquilo, porque significa que temos uma criança saudável e uns pais magníficos. Seja como for, vamos lá devagar. Eu acho que é muito importante que os pais tenham a noção que não são as crianças que têm que aprender a controlar-se, são os pais que têm que aprender a controlar as crianças. E controlar as crianças não significa domesticá-las, não significa castigá-las a torto e direito, muito menos dar-lhes castigos físicos ou outras coisas do gênero, mas significa fazer um olhar zangado quando é preciso e dizer um "não" equipado com alguns pontos de exclamação, numa voz bem colocada e com o olhar bem fixado nos olhos dela, porque as crianças precisam de semáforos pra perceber o que é que não podem fazer. Eu acho muito importante que os pais percebam que as crianças são muito atentas e vão repetindo muitos dos comportamentos dos pais, mas nalgumas circunstâncias precisam de ter os pais a dizer: "Olha, por aqui não, aquilo não podes fazer, estás a passar dos limites." Porque se não tiverem esse tipo de coordenadas, elas sentem que podem fazer tudo, e quando um pai ou uma mãe, à beira de um ataque de nervos, finalmente diz: "Basta!" Uma criança fica no registro do gênero: "Mas que bicho é que lhe mordeu?" E quando é assim, se não é o bicho que morde a mãe ou o pai, se for preciso, uma criança de dois anos até pode morder, como quem diz: "Olá!" Pais fixes não dizem que não às crianças, e eu gostava que ficasse claro que pais fixes não são bons pais.

Uma boa frase essa. Este pai pergunta se segurar as mãos da criança durante alguns segundos para impedir que bata é uma forma adequada de impor um limite.

Judite, não, porque voltamos um pouquinho à contenção física, vamos ver quem é o mais forte, e uma criança precisa perceber que a mãe e o pai são pessoas crescidas. Com dois anos, quando olha para eles, não estando ao colo de cada um dos pais, olha de baixo para cima, ela percebe que eles são realmente muito grandes e têm mais força e tudo mais. Mas ninguém quer esse exercício de prepotência, quer, porque às vezes pode parecer aos olhos de uma criança, quer sobretudo uma firmeza serena. E uma firmeza serena é mesmo fazer um pouquinho uma cara feia, pôr uma voz colocada e dizer não com todas as letras. É uma coisa que me deixa sempre muito preocupado, porque eu tenho a ideia que cada vez mais os pais parecem ter muita dificuldade de fazer. Eles não estão a censurar de uma forma prepotente, eles não estão a ser autoritários por dar aquela palha. Eles estão em convicção a dizer assim: "Há comportamentos que eu entendo que são protetores para os meus filhos. Eu não posso permitir que eles vão para além desses comportamentos, porque de outra forma não estou a proteger." Dizer que não a um filho é dizer a um filho: "Olha Eu estou tão à vontade para dizer que não, que até te digo isto porque eu percebo que cada vez que digo que não a um filho, estou a dizer que sim àquilo que eu acho que é razoável, sim à capacidade de entendimento de um filho, mesmo quando o filho tem dois anos.

Só para terminar, há também uma dúvida deste pai que é: quando os pais discordam sobre a forma de educar a criança, se torna tudo mais complicado?

Torna um bocadinho, mas também não vale a pena nós termos a ideia que os pais não discordam muitas vezes, porque é natural que discordem, sobretudo quando um faz de polícia bom e outro faz de polícia mau e invariavelmente em todas as famílias saudáveis, destapa a cabeça e destapa os pés conforme as circunstâncias e as tolices que uma criança intenta fazer. Portanto, não é por aí que deixam de ser maus, nem têm que estar sempre afinadinhos. De vez em quando vão estar em contramão uns em relação a outros. Às vezes até fazem umas figuras um bocadinho tristes à frente de um filho, mas quem é que não fez? O que é importante é que tendencialmente comecem a definir quais são as coordenadas daquilo que devem exigir. Se está à mesa, não está à mesa, tem um ecrã quando está à mesa, o que é que pode ou não pode fazer, porque são uma série de coordenadas. E definidas essas coordenadas todas, fazê-lo quando uma criança tem dois anos é uma coisa ótima, porque ela não fica ali ressentido, continua a ser aquele furacão todo, mas um furacão com caixa de velocidades é muito mais simpático do que um furacão sem caixa de velocidades.

Fica por aqui hoje, Eduardo, o "Porque Se Não É Resposta". Amanhã voltamos com mais um tema. Obrigada. Até amanhã e um grande abraço.

Obrigado eu. Um grande abraço pra você também, Aldir.