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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos falar de trabalhos de casa que nos lembram provavelmente memórias menos agradáveis e que hoje em dia são uma carga de trabalhos para os mais novos. Estamos a falar de trabalhos de casa porque o presidente irlandês quer abolir os trabalhos de casa na Irlanda. Eduardo Sá, olá, boa tarde. Isto é uma boa ideia, acabar com os trabalhos de casa? O presidente irlandês diz: "A escola deve ficar na escola".
Olá. Olá, Eduardo. Olá, Judite e Bruno. Há uns anos, a Isabel Steele, eu, Mário Cordeiro e outras pessoas, num sábado em que se comemorava a Convenção Internacional dos Direitos das Crianças, decidimos, no contexto de um sindicato das crianças que nós criámos, decretar um dia de greve nacional aos trabalhos de casa. Foi uma brincadeira para trazer a discussão dos trabalhos de casa para o centro das atenções, mas foi uma brincadeira que de repente ganhou uma dimensão que se tornou assustadora. E aconteceu que eu um dia estava a passear por Lisboa e senti um carro a buzinar atrás de mim e da janela de trás do automóvel vi um punho fechado de uma criança a virar-se para mim, quase como quem diz: "Unidos venceremos". E eu fiquei um bocadinho embaraçado e pensei: "Calma, nós só queríamos pôr isto à discussão". Eu acho que os trabalhos de casa há uma geração atrás não podem valer o mesmo que os trabalhos de casa hoje. Há uma geração atrás era razoavelmente comum que o período de aulas fosse unicamente de manhã, portanto, as crianças tinham uma tarde inteira para poderem brincar, fazerem atividades extracurriculares, etc. E talvez fizesse sentido, apesar de tudo, que houvesse ali um bocadinho de escola trazida para casa no sentido de se discutir aquilo que entretanto se aprendeu. Eu acho importante, todavia, que fique claro que os pais estejam por dentro do que é que se está a dar e acho sinceramente que às vezes os trabalhos de casa são mais importantes ainda para os pais do que propriamente para os filhos. Mas hoje, com a carga horária que as crianças têm, muitas delas a trabalharem das 08h às 20h, parece-me muito pouco razoável que haja trabalhos de casa, muitos deles feitos a correr entre o banho e o jantar, com a mãe e com o pai à beira de um ataque de nervos, porque é evidente que a mais-valia que daí decorresse fica completamente comprometida. E o que se ganha com isso? Muitas vezes não se ganha nada. As crianças que têm sucesso escolar, feitas as contas, têm sempre a ideia que mais um trabalhinho e sobem mais uns degraus, e isso dá-lhes um grande entusiasmo. As crianças que vivem a escola com algumas dificuldades têm a ideia que mais trabalhos de casa corre o risco de se tornar num exercício um bocadinho torturante. E nessas circunstâncias, é normal que elas engenharem por completo o nariz e respirem fundo e gostem de tudo, menos de trabalhos de casa.
Então aqui o problema é a carga horária?
Bruno, muitas vezes é, porque se nós fizermos as contas entre a atividade escolar, a atividade extracurricular, que nalgumas circunstâncias, estou-me a lembrar, por exemplo, de centros de estudo e coisas desse género, e a atividade escolar parte dois e parte três. De facto, as crianças chegam a trabalhar 12 horas por dia e num contexto desses, não me parece que faça sentido nenhum estarmos a falar de trabalhos de casa. Mais, é evidente que a escola pode sempre dizer: "Mas ouça, eles saíram às 16h, 16h30". É verdade que sim, mas eles saíram às 16h30 e tiveram um dia preenchido. Eu acho que a determinada altura nós temos que ter a coragem de perguntar: eles aprendem mais fazendo trabalhos de casa ou pelo contrário? E eu receio que a relação custo-benefício dos trabalhos de casa, quando as crianças têm muitas horas de escola já e muitas horas de atividades extracurriculares, acabe por não ser nenhuma. Eu percebo que as entidades políticas, a certa altura, digam assim: "Vamos ter que perceber o que é que nós queremos das crianças, o que é que é útil e o que é que não é útil". E eu não queria que se discutisse só os trabalhos de casa, eu queria que se discutisse a escola toda, a forma como se ensina, etc. E pode ser que em Portugal se vá à boleia do exemplo irlandês e estejamos não tarda nada a discutir coisas tão importantes como o que queremos das crianças, o que queremos da relação com a escola e já agora, onde é que entram os professores nesta equação, porque não deixa de ser importante.
E isso deveria estar de forma discricionária na mão dos professores? Há professores que entendem que mais trabalhos de casa é bom, há professores que entendem que menos trabalhos de casa é bom. Ou é preciso que venha uma regra de cima, como esta do presidente irlandês, que quer pura e simplesmente abolir os trabalhos de casa?
Noutros países também há regras, neste momento, para abolir os videojogos. Eu percebo que os responsáveis políticos vão se dando conta que há coisas que não podem estar assim tão ao desgoverno como se calhar estarão. Eu gosto muito que os professores tenham a liberdade para fazerem aquilo que muito bem entendem, mas eu também acho que há muitos professores que por eles até nem recomendariam trabalhos de casa, mas são pressionados pelas escolas, às vezes de uma forma um bocadinho implacável, e pelos pais, que é o mais grave. E, portanto, às vezes, era importante, sobretudo, que se discutisse muito esse tipo de coisas para que os pais, com a sua sensatez, quando se trata de insistirem mais, às vezes quase repreenderem os professores quando não passam trabalhos de casa, os pais percebessem que não é por terem mais trabalhos de casa que as crianças aprendem melhor. Muitas vezes é rigorosamente ao contrário.
Mas não é importante para as crianças terem hábitos de estudo fora do tempo na escola?
É, por isso, está a ver, Bruno, por isso é que eu gostava que em vez de discutir só os trabalhos de casa, nós discutíssemos mais, disséssemos assim: "Bom, a que horas é que terminam as aulas?" Vamos dizer assim, tendencialmente para todas as crianças, e o que é que nós achamos recomendável que elas tenham? Uma atividade desportiva? Eu acho que sim. Uma atividade como teatro ou música, eu acho que sim. Tudo o que vá para além disto, eu já acho um exagero, porque de facto, se elas tiverem uma tarde de tempo um bocadinho livre. Veja bem, duas horas de tempo livre. Quantas crianças em Portugal têm duas horas de tempo efetivamente livre numa tarde? Se calhar, quase nenhuma. Se elas tiverem duas horas de tempo livre numa tarde, se tiverem ali 20 minutinhos ao fim da tarde, antes de jantar, para hoje, independentemente de haver trabalhos de casa, que fique claro, hoje passarem pelo português, amanhã pela matemática, depois pela biologia ou pelas ciências, etc, nós estamos a ajudá-las a aprender a aprender. Só que isto é uma engrenagem que não para e que nós achamos que elas têm que ter tantas atividades, que neste momento, o fim de semana já é um local onde se tem explicações e onde se tem outras atividades extracurriculares. E, portanto, num contexto destes, o problema não é se são só os trabalhos de casa, é esta engrenagem tremenda, porque é verdade isso, Bruno. Eu adoraria que nós perdêssemos tempo, como compreende, com muitas aspas, mas perdêssemos tempo a ensinar as crianças a aprender, porque a maneira como muitas vezes a escola, nessa engrenagem soberba, e aquilo que no fundo as crianças fazem, são comprimentos de onda diferente. A escola muitas vezes não se adapta à maneira das crianças aprenderem, impõe-lhe uma certa forma de aprendizagem que, aliás, não tem nada a ver com elas. Elas não aprendem da parte pro todo, aprendem do todo pra parte, etc. Elas são intuitivas. A escola, às vezes, parece não se dar conta disso. Portanto, num contexto destes, eu achava ótimo que elas tivessem tempo para brincar, duas horas. Eu às vezes até digo no início dos anos letivos: "Olhe, quando estiverem ali a fazer aqueles horários que os pais põem nos frigoríficos lá de casa, duas horas a vermelho de tempo livre todos os dias, por favor. E depois se houver ali 20 minutinhos para que os pais cheguem os livros, percebam como as crianças estão a fazer os raciocínios, as ajudem a pensar e a aprender." Oiça, Bruno, é brutal. Com menos explicações, com menos atividades extracurriculares, atendendo ateliês de tempos livres, que muitas vezes servem para fazer os trabalhos de casa, etc. Nós conseguiríamos pôr as crianças com menos trabalho a aprender mais e melhor. Mas nós às vezes teimamos em não ouvir e fugimos pra frente.
Nós estamos aqui a falar de realidades também muito diferentes. Atividades extracurriculares, uma sobrecarga que afeta também muito crianças da classe média, em que os pais têm essa disponibilidade financeira para inscrever numa série de atividades, mesmo ao fim de semana, mas estamos a falar também de uma outra realidade em que as crianças muitas vezes estão quase por sua conta. Não precisam, essas crianças, de uma orientação desses trabalhos de casa que lhes deem essas balizas também para a aprendizagem, porque essas crianças certamente não têm explicadores, não têm o tempo que outras têm para aprender.
Claro. Mas absolutamente de acordo. Aliás, um dos indicadores que passa a vida a ser trazido à discussão, quer em relação à aprendizagem, quer em relação à leitura, que é uma coisa da qual nós falamos infelizmente muito pouco, é que quanto mais as mães têm formação escolar, mais as crianças têm oportunidades de aprendizagem, mal, digo eu, porque devia ser partido, mas pronto, às vezes é o possível. Essa tarefa está mais sobre as mães. E é aqui que eu acho que, sinceramente, as juntas de freguesia e as autarquias deviam ter um papel muito importante a este nível, porque lá está, não vale a pena nós passarmos a vida a imaginar que as crianças de meios socioeconômicos desfavorecidos, desculpem o lado grosseiro da expressão, são burras e as outras são inteligentes. Valha-me Deus, não é assim. São igualmente inteligentes. Aliás, muitas vezes essas crianças têm uma escola de vida que é absolutamente preciosa e que muitas vezes a escola nem sequer considera. Quando estas crianças não têm alternativas, não como se fosse uma espécie de linha de montagem de compromissos, devíamos lhe dar um suporte, porque muitos pais, infelizmente, em Portugal, não têm como ajudar os filhos em relação aos conteúdos escolares. Note, Bruno, às vezes, desde logo, no primeiro ano de escolaridade, onde, por exemplo, os conteúdos da matemática já são de uma complexidade a roçar o exorbitante, que muitos pais não conseguem acompanhar. Às vezes, quando nós falamos das dificuldades de matemática, devíamos também falar da maneira como ela se expõe, da forma como a formação dos professores de matemática é feita, etc. Mas, de facto, muitos pais não reúnem competências indispensáveis para ajudar. Alguém o devia fazer, não como se fosse uma obrigação, todas as crianças terem que ter explicação, mas a própria escola, porventura, tomando em consideração que há crianças que se não têm suporte de retaguarda, alguém, nomeadamente a escola, com o apoio de uma autarquia, lho deve dar, porque senão nós passamos a vida a dizer que elas têm igualdade de oportunidades, mas é mentira. Desde o primeiro minuto, quando entram no ensino obrigatório, essa igualdade de oportunidades está tão enviesada que se torna impossível.
É esse elevador que está avariado, não é?
Sim.
Eduardo, voltamos amanhã. Até lá estamos disponíveis sempre em podcast, também no site do Observador e em eduardosa@observador.pt. Eduardo, um abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã.