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Mais um episódio do "Porque Senão é Resposta". Eu sou a Ana Filipa Rosa, conosco em estúdio está o Ricardo Conceição e também o Eduardo Sá. Olá.
Olá.
Olá, Ana Filipa, olá, Ricardo.
E em pleno período de férias, vale a pena olhar para os dados do Instituto Nacional de Estatística, segundo os quais, no ano passado, entre abril e setembro, 38% dos portugueses disseram que viviam em agregados incapazes de pagar uma semana de férias fora de casa, suportando a despesa relacionada com o alojamento e a viagem para todos os elementos da família. Ou seja, quase quatro em cada 10 portugueses não pode passar uma semana de férias fora de casa. A média europeia é de 28%. Eduardo, vamos olhar para estes números. Há pessoas que passam a vida inteira sem ter esta experiência de ter uma semana fora de casa neste período das férias e portanto, imagino que estar a ser lembrado desta impossibilidade neste período é absolutamente massacrante.
Ana Filipa, é massacrante, é injusto. É tudo aquilo que nós entendemos como indispensável e que outras pessoas parecem não ter de modo nenhum direito a viver. E portanto, nessas circunstâncias, de que outra forma é que podem olhar para as semanas de férias, para as reportagens no Algarve, para o jantar fora, aquelas coisas todas que fazem parte do pacote, sem sentirem inveja, sem sentirem uma grande injustiça e sem se sentirem um bocadinho encurralados numa espécie de vida que, no final de contas, foi aquela que foi possível terem até agora, mas que se calhar depois também não lhes dá outras perspectivas, pensando num dia destes depois de amanhã. É triste, é sobretudo muito triste, sobretudo quando as férias têm tudo para ser a antítese disso. Um momento de alegria, solarengas, com tudo aquilo que tem de bom estarmos com a família e estarmos descontraídos a viver o sol.
Eduardo, esta privação desta possibilidade de sair de casa, de sair do local onde passamos a vida, isto pode ter alguma consequência ou é uma espécie de capricho esta coisa de sair, nem que seja uma semana, daquele sítio?
Não. Quando nós temos uma vida demasiado normal, o que significa demasiado igual, tomando em consideração todos os dias, isso acaba por dar cabo de nós, Ricardo, porque nós temos sempre a ideia quando temos uma vida agitada, andamos com índices de angústia fora do lugar, com a ansiedade sempre a bater no vermelho, sempre à beira de um ataque de nervos. Mas a verdade é que quando a vida é demasiado igual todos os dias, ela não tem tanta graça, porque de repente isso nos angustia devagarinho, mas angustia-nos mais fundo. E portanto, numa circunstância dessas, não é suposto que estas pessoas tenham mais determinação quando se trata de trabalharem, não é suposto que vistam a camisola com grande paixão quando se trata de pegarem num desafio novo. Precisam dos argumentos para se apaixonarem pela vida. E quando a vida é demasiado igual todos os anos da mesma forma, não há paixão que eles queiram ter que possa existir.
Certo, e Eduardo, esta questão de ter direito a não fazer absolutamente nada ou ter um período de puro descanso é, de facto, um luxo para muita gente. Estes dados revelam isso. Nem toda a gente tem possibilidade de o fazer. Deveríamos olhar para estes dados com outro tipo de perspectiva, outro tipo de preocupação? Devia ser quase obrigatório dar direito a estas pessoas de ter esse descanso também?
Eu tiraria o quase, Ana Filipa, até porque há muitas pessoas, e nós estamos só a falar de pessoas com profissões mais ou menos indiferenciadas, chamemos-lhes assim. Há pessoas que têm profissões diferenciadas e que estão no setor público de uma forma quase absurda, há mais de um ano, há mais de dois, às vezes há muito mais de dois, a recibo verde, como se diz por aí, que no fundo, para terem direito a uma semana de férias, têm que trabalhar mais nas outras semanas todas para terem direito a um buraquinho, porque, no fundo, as férias não são um direito, é uma conquista que se faz com trabalho extra, o que é manifestamente injusto. E portanto, numa circunstância destas, sim, devia ser um direito. Com esta certeza: o índice de felicidade das pessoas é um contributo tão importante para a produtividade e para tudo o que é proatividade, que menos felicidade, menos proatividade, menos produtividade. O que nós ganhamos com isso?
Porque esse é um ponto muito interessante, Eduardo. Quando nós falamos de férias, damos quase as férias como adquiridas, mas as férias pagas não são universais, nem todos os países têm férias pagas. E nós aqui temos esses exemplos das pessoas que trabalham a recibos verdes e que recebem 11 meses ou 12 meses, mas nalguns casos 11 meses, nem férias, nem subsídio de férias ou de Natal têm. Nestes casos, Eduardo, até que ponto é que isto prejudica depois esse ponto que o Eduardo estava a falar? Até que ponto é que isso prejudica a produtividade, a criatividade, o empenho, o querer fazer mais e melhor?
Ricardo, eu acho que prejudica, sinceramente, porque cria condições desiguais para trabalhos que são Mesmo que não sejam iguais, em muitas circunstâncias são idênticos. Nessas circunstâncias, as pessoas trabalham sempre na perspectiva de poderem ter um vínculo e poderem ter outra segurança e outras regalias quando trabalham. Mas no fundo é sempre um trabalho sob alguma coação, porque têm a noção de que sempre que é preciso fazer um trabalho extra que mais ninguém quer, sobra para os mesmos. Sempre que é preciso alterar, seja o que for, numa rotina, deslocar de um serviço para o outro, sobra para os mesmos. E isto tudo introduz tanta insegurança e tanta revolta ao mesmo tempo. Porque se no setor privado se tem uma atenção particular aos falsos recibos verdes, no setor público, o dono da bola, o Estado, muitas vezes é o infrator principal. E isto dá-nos a ideia de que vivemos num Estado de direito com linhas de exceção que não são compreensíveis, não são justas e obviamente, qual é o Estado que tem a autoridade moral para exigir de um cidadão que quer que seja, quando os maus exemplos chegam de quem define as regras? Não é razoável.
Eduardo, quando estamos aqui a falar de famílias, existem miúdos, quais são as consequências também para os miúdos? Porque depois chegam à escola, há sempre aquela partilha do que foram as férias e para estas crianças que não têm essa possibilidade de sair, às vezes de fazer coisas um bocadinho fora do comum, quais são as consequências de tudo isto?
São aquelas pequenas humilhações que todas juntas criam um sentimento de inferioridade de uns em relação aos outros. Nós não temos que ter um mundo milimetricamente igual, mas podíamos ter um mundo que fosse significativamente menos assimétrico, porque estar de férias com os pais, por exemplo, ou com um dos pais, estar de férias em família, faz com que tudo aquilo que são essas experiências, em histórias. Histórias que são muito importantes, que nos ancoram uns aos outros e que depois nos ligam, porque a seguir às histórias vêm as historietas, os episódios de Pateta e tudo mais que faz parte das férias. E isso tudo faz com que nós nos possamos usufruir uns aos outros, quando aqui há muitas pessoas que aproveitam as férias para ter trabalhos suplementares, para terem um bocadinho mais de dinheiro quando o seu dia a dia é tão depauperado que nós devíamos ter isso em atenção. Menos assimetria é mais justiça, mais justiça são mais ganhos para todos. Eu sublinho o todos. E isso é uma coisa tão mais sensata que às vezes devíamos levar mais a sério estas questões.
E já que muitas vezes olhámos para este ponto também, que quem vai de férias deve, na medida do possível, desligar. Em casa, isso é ainda mais difícil, porque a vida continua ali, não é?
É, a distribuição das tarefas continua mais ou menos igual. E mais uma vez, o que é que se pode ter nas grandes cidades? O privilégio de as filas serem um bocadinho mais pequenas, das pessoas não andarem tão zangadas a correr para os transportes públicos, porque eles andam um bocadinho mais aliviados de pessoas. Mas tirando isso, é tudo tão igual sempre, que é de facto muito desconcertante uns parecerem ter direito aos prazeres da vida e outros, mesmo que às vezes essa ilação seja demasiado linear, pareçam trabalhar para que os outros tenham esse direito, o que não é muito razoável de todo. E nos devia obrigar a perceber como é que podemos balizar o mundo para que ele tenha menos assimetrias e possa, em consequência disso, ser mais justo. Às vezes temos a noção que o mundo fica, olhando para norte e para sul, fica estranhamente mais injusto quando estamos no século XXI e era de esperar que não fosse exatamente assim.
Bom, voltamos à conversa no "Porque Senão é Resposta" amanhã, quarta-feira, comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Até amanhã.
Até amanhã.
Até amanhã.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.