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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral e hoje o tema deve dizer alguma coisa a muitos dos nossos ouvintes. Estamos na altura das férias escolares e a pergunta que se impõe é: férias de filhos, sim ou não? Eduardo, boa tarde. Os pais que têm aquele desejo de tirar umas feriazinhas dos filhos são maus pais, pais que se devem sentir culpados?
Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Pelo contrário, eu acho que são bons pais. Vamos lá ver. Esta ideia de estarmos em dedicação exclusiva 365 dias por ano, de certa forma, 24 horas por dia, sem direito a férias, fins de semana, feriados, etc, faz com que ao fim de um ano tudo fique muito complicado. Portanto, nessas circunstâncias, é natural e é saudável que os pais, a certa altura, se sintam muito cansados de tantas tarefas. Até porque, verdade se saiba, não há um sindicato de pais a lutar por acordo coletivo e esse tipo de direitos que deviam ser consagrados neste tipo de atividade. E, portanto, nessas circunstâncias, eu acho que os bons pais são aqueles que não passam sem os filhos e adoram estar, de vez em quando, sem eles, porque é uma forma de os pais, certamente, descansarem, não terem que estar perante um sufrágio muito apertado em relação a tudo que têm que fazer, de preferência, durante as férias, evidentemente, logo a partir das 07:00 ou 07:30, e portanto, nessa circunstância, deixá-los aos avós, deixá-los a um tio ou, às vezes, deixá-los ir com os amigos para um período curto de férias, pode ser fundamental.
Uma colônia de férias, por exemplo, um campo de férias.
É fundamental porque os pais respiram e depois, quando finalmente as crianças estão de volta, eles possam cair nos braços dos outros e perceberem que esse bocadinho em que acabam por descansar, e às vezes os pais têm finalmente para conseguirem namorar um com o outro, sem interferências permanentes, pode ser absolutamente fundamental para o equilíbrio dos pais e para que, com isso, se tornem inevitavelmente melhores pais.
E para o equilíbrio da relação pais e filhos. Porque nós damos por nós muitas vezes, já ao fim de um ano, como o Eduardo dizia, cansados, às vezes mais irritadiços, com menos paciência, digamos assim, para os filhos. Isto também é importante para ganharmos um bocadinho de saudades dos nossos filhos?
Sim, é fundamental. Aliás, ao fim de um dia, há sempre um dos pais que começa a suspirar e o outro quase a irritar-se com esse suspiro. O que é muito importante é que nós tenhamos a noção que férias com os filhos, em muitas circunstâncias, não são férias. E há pais que não contentes, ainda dizem aos filhos para cada um deles levar um amigo, o que significa que depois de um período de férias, eles estão tão mais esgotados que de repente começam a ansiar pelo trabalho, porque é talvez uma forma ativa, todavia, de descansarem, como não descansaram dos filhos. E, portanto, sim, ali os buraquinhos com férias de filhos faz muito bem. Os pais não têm que se sentir culpabilizados por quererem ser só melhores pais e com isso tudo, todos ganham. A relação dos pais entre si e a relação dos pais com os filhos.
E por falar na relação dos pais entre si, na relação do casal, quando há a oportunidade de ter essas férias de filhos, Eduardo, esse período deve ser muito programado, muito planeado ou é deixar as coisas correrem? Porque depois há também um estresse que é o da planificação desse tempo, porque tendo a consciência de que é um tempo muito curto, a ideia é depois também de encher esse tempo de atividades a dois, de fazer coisas e se calhar isso acaba por retirar também essa capacidade, essa possibilidade de relaxar.
Não, tempo livre, o mais possível, e essa liberdade que se estenda à maneira, às vezes, quase imprevisível, como essas férias de filhos podem surgir. O que é importante é que as férias sejam isso mesmo: a capacidade fantástica, para a qual é preciso muita sabedoria, de não fazer nada ou pelo menos não fazer tanto quanto os pais fazem em todos os dias, ao longo do ano, sobretudo quando se têm que desdobrar entre o trabalho, entre toda a gestão de uma família e depois as agendas dos filhos, que são, às vezes, verdadeiramente infernais e que às vezes trazem muito mais pontos De compromisso do que propriamente a atividade dos pais.
Uma pergunta mais difícil, Eduardo: e aqueles pais que não têm esta oportunidade de ter férias dos filhos? Seja porque não têm com quem os deixar, seja porque não têm possibilidades económicas, por exemplo, de as crianças fazerem um campo de férias. Como é que podem conseguir ter férias dos filhos sem ter realmente férias dos filhos?
Olhe, Bruno, às vezes dando a si próprios um dia de férias depois de os deixarem na escola. O que é importante é que os pais percebam que isso não é um luxo, é uma coisa que lhes faz particularmente bem e, já agora, que faz particularmente bem à relação dos pais. Os filhos são, provavelmente, aquilo que nos faz crescer mais como pessoas, que é aquilo que faz com que nós atropelemos mais os nossos casamentos. E, portanto, os pais também têm que ter a noção de que poderem ter espaços só para eles é fundamental para que a relação se torne saudável e, obviamente, pais saudáveis, por mais voltas que possamos dar, acabarão sempre por ser melhores pais.
E um casal mais feliz, um casal que esteja mais descontraído, também é um casal que funciona melhor nessa função da parentalidade?
Faz menos curtos-circuitos. As mães levantam menos a voz e entram menos pela gritaria dentro. Os pais não andam naquele desporto favorito do pai, que é, volta não volta, desaparecer de circulação e fazer distraído. E, portanto, mais participativos, tornam-se também pais que, no fundo, acabam por ser muito mais equilibrados na maneira como se relacionam com os filhos. Até porque quando os filhos percebem que os pais estão tensos e cansados, só falta terem um letreiro de néon na testa a acender e apagar. Perigo, alta tensão. E os filhos ficam tão assustados quando veem os pais assim, que muito frequentemente fogem para a frente. Se os pais estavam cansados, depois de uma briga, ficam simplesmente exaustos.
Também acontece nestas férias de filhos, sobretudo ali no início, os filhos fazerem um bocadinho de chantagem. E pergunto-lhe se isso é mesmo sentido, se é um certo receio dos pais os estarem a largar para se livrarem deles, ou é um bocadinho de esperteza dos filhos, aquela chantagenzinha emocional que os filhos tanto gostam de fazer.
Ora bem, Bruno Vieira do Amaral, é a consciência que os pais os estão mesmo a largar. Como é que é possível terem essa ousadia? É isso que os filhos pensam. Se eu fosse muito importante pra minha mãe e pro meu pai, eles nunca me deixavam, como é óbvio. Não se esqueça que os filhos, quando lhes dá para serem demagógicos, dão 10 a zero em qualquer partido político. Repare que depois quando nós voltamos de uma escapadinha e corremos para os nossos filhos, eles só não fazem um ar de estranheza, mas dão a entender qualquer coisa do gênero: "A tua cara não é estranha, mas quem és tu?" Quase como quem diz: "Bom, agora tu vais pagar isto com sobretaxas". Mas o que é importante é que, de facto, os pais tenham a noção que esses custos compensam largamente os ganhos. E, portanto, se os pais querem ser só bonzinhos, mais vale não terem sido pais, porque aí nunca conseguem ser bondosos, e vem sempre equipado com algumas regras, alguns nãos. Enfim, a necessidade de medir forças em determinadas circunstâncias, que faz com que tudo isso traga os condimentos indispensáveis a uma parentalidade saudável.
Começámos o programa com uma pergunta: férias de filhos, sim ou não? A resposta é sim, é porque sim, é mesmo uma resposta. E é sim, sim e sim. E chegamos ao fim de mais um "Porque sim, não é resposta". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e pode sempre enviar-nos questões, dúvidas, partilhas, através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.
Obrigado e um abraço pra si também, Bruno. Até amanhã.