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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje falamos da proibição de telemóveis na escola, que vai ser alargada até ao nono ano, a partir de janeiro. Isto apesar de algumas escolas, cerca de 52% das escolas, terem já adotado essa medida, essa proibição, alargando a proibição que até agora vigorava para o segundo ciclo, quinto e sexto ano, também para o sétimo, oitavo e nono. Boa tarde, Eduardo. Têm surgido, em reação a esta nova medida, opiniões que se manifestam contra a proibição, o alargamento da proibição até ao nono ano. O que a sua sensibilidade lhe diz, Eduardo?

Olá, Bruno. Diz-me que é uma medida sensata, por uma razão simples. Porque, em primeiro lugar, é importante que fique claro que os telemóveis não são permitidos ou não devem estar nos recreios, nos bares e nos refeitórios. Ponto. E não estarem nesses sítios não significa que não possa haver um professor ou outro, se assim o entender, que à boleia de um telemóvel solicite que os alunos façam uma pesquisa, ou seja lá o que for. Portanto, não se trata de fundamentalismo nenhum e eu fico sem jeito com alguns argumentos, Bruno. Primeiro, porque os adolescentes têm a obrigação de se gerir sozinhos, sem haver este tipo de regras. Mas, meu Deus, os pais e os professores de adolescentes são assim tão capacitados para se gerir sozinhos, para darem esse exemplo magnífico de como é facílimo gerirem-se? Não, não são. Por outro lado, sejamos razoáveis, há uma onda que se criou dando a entender que não se pode criar uma proibição aqui ou ali, porque isso não é educar. É educar. Ninguém quer que se passe a vida a proibir tudo e mais alguma coisa, mas há proibições que são só sensatas e que, de um ponto de vista simbólico, significam o quê? Significam, quando uma escola leva isto por diante, que está a dizer: "Nós damos atenção ao que eles sabem, nós queremos que eles tenham bons resultados escolares. Já agora, estamos aqui também para os educar um bocadinho. E desculpem lá, nós entendemos que com isto, eles têm mais oportunidades para conversar, para correr, para jogar. E se calhar estamos a tratar da saúde mental deles mais do que pode parecer". Qual é o drama? Não consigo perceber qual é o drama.

É que o estatuto do telemóvel hoje, dos smartphones, é quase como uma extensão da personalidade, e de uma personalidade que, no caso dos adolescentes, se está a formar. E há quem tenha a ideia de que ao se privar o adolescente desse instrumento, no fundo, o que se está é a limitar a expressão da sua personalidade. Pusemos os telemóveis, e os smartphones e todos esses gadgets, numa espécie de pedestal.

Eu acho que sim, até porque, sejamos razoáveis, a personalidade dos nossos filhos ganha quanto mais versátil for. Quanto mais eles são capazes de consultar o que acabam por consultar numa rede social, mesmo de forma inadvertida, e, ao mesmo tempo, quando são capazes de ter competências para estarem uns com os outros a falar de tudo e de nada ao mesmo tempo. E, portanto, esta ideia de que, no fundo, nós estamos a privá-los da sua liberdade, não é razoável. E já agora, vamos lá mais longe. Muitas vezes, estas redes sociais, que são dadas aos adolescentes muito precocemente, demasiado precocemente, a ponto de, de uma forma que depois ainda vamos ter que perceber como é que se pode regulamentar, haver Estados a dizer assim: "Não, vamos lá com calma, porque as redes sociais entre os 15 aos 16 só lhes fazem mal". Mas, de facto, quando eles vivem consumidos por influenciadores, quando vivem consumidos por pessoas de índole duvidosa, que acabam por ter uma interferência muito enviesante sobre muitos aspetos da sua personalidade, oiça, por favor, nós, se fechamos os olhos a isso, estamos a dizer assim: "Tanto me faz que haja pessoas que com isto tudo magoem e prejudiquem o equilíbrio do meu filho, porque ainda assim é ele que tem que fazer essas escolhas". Não é ele que tem que fazer essas escolhas. Ele tem que fazer essas escolhas e os pais têm que ter opinião sobre as escolhas, senão os pais não são precisos. Vale, meu Deus, então deixemos os adolescentes fazerem aquilo que muitos fazem. Muitos veem filmes pornográficos aos 13, outros jogam adinheiro aos 12, outros circulam pelos sites mais radicais aos 10. Pronto, fechamos os olhos e faz de conta que não se passa nada. Pronto, e não podemos fazer isso com elas.

A aplicação desta medida, Eduardo, do alargamento da proibição dos telemóveis até ao 9º ano, torna-se mais difícil se não houver uma colaboração das famílias. Eu há dias ouvia o presidente da Associação Nacional de Agrupamentos e Escolas Públicas a dizer que isto é apenas uma parte, porque é necessário que as famílias também tenham regras, também colaborem. E nós sabemos que em alguns casos há uma grande discrepância, por exemplo, entre estas regras e aquilo que é o comportamento quando se está no espaço doméstico.

Sim, é verdade que sim, mas sejamos razoáveis também. A educação ambiental começou dentro da escola e despachou da escola para as famílias. Os pais, se calhar, dantes deitavam um papel ao lixo ou pegavam num cigarro e deixavam-no na via pública. E foi com a educação ambiental que a escola trouxe para as famílias que muitas das atitudes das famílias em relação ao ambiente foram mudando. E sejamos razoáveis, a escola não tem que ter milimetricamente as mesmas opiniões em relação aos pais e pode ter opiniões diferentes dentro do que é razoável, quando se trata de as educar para questões cívicas, para as novas tecnologias, por exemplo, ou para outro tipo de assuntos para os quais a escola tem que ser chamada. Que isso provoque conflitos, vai provocar. Agora, há uma questão que é importante. Ao contrário daquilo que muita gente imaginava, não houve levantamentos de rancho quando as escolas começaram a proibir os telemóveis nos espaços comuns. Não houve levantamentos de rancho. E mais, houve muitas escolas, de forma surpreendente, a dizer assim: "Será coincidência ou os episódios de bullying caíram verticalmente?"

E houve pelo menos um estudo sobre o impacto dessa medida que revelou isso mesmo, a diminuição dos casos de indisciplina.

Será coincidência ou de repente os recreios ficaram mais ruidosos e eles passaram a ter que conversar uns com os outros, em vez de estarem todos uns ao lado dos outros a comunicar por WhatsApp. E portanto, criar aqui um equilíbrio entre as novas tecnologias e as necessidades indispensáveis da natureza humana é um desafio muito grande que as escolas têm em mãos. Não é pelo facto de os miúdos terem telefones que ficam mais distraídas, como andam algumas pessoas por aí a dizer. Elas estão distraídas porque têm imensas aulas, poucos recreios, uma exigência tremenda, vivem numa agitação, não têm atividade física e outros tipos de coisas. E as novas tecnologias são mais um aspecto de toda esta agitação, sendo certo que muitas vezes as novas tecnologias funcionam como uma espécie de mata-burrão para toda a agitação e distração que as outras coisas lhes dão. Mas não vale a pena irmos por aí. Ninguém quer, de certeza absoluta, a escola muito menos, que as novas tecnologias não participem no processo de aprendizagem. Ninguém quer. Agora, há uma tentação demagógica nisso tudo que eu não entendo. Trata-se só de compatibilizar um admirável mundo novo, que em muitos aspectos é mesmo um admirável mundo novo, com um conjunto de necessidades inadiáveis ao crescimento dos nossos filhos, que são inadiáveis e com os quais nós temos que estar numa atenção muito grande e intervir, formando sempre que é necessário.

E é preciso encontrar esse equilíbrio e esperemos também que alguns dos comportamentos agora adotados, em consequência desta proibição, possam ser transplantados depois para o ambiente doméstico, como dizia e como dava o exemplo também da educação ambiental, Eduardo. Chegamos ao fim do programa de hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Pode sempre enviar-nos questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Até amanhã.

Até amanhã. Um abraço.