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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de clientes tensos, hostis e até mal-educados. Estamos a falar de funcionários que atendem pessoas que estão cada vez mais hostis, talvez até mais doentes desde a pandemia. Olá, Eduardo.
Olá.
Olá, Eduardo. Será mesmo assim? As pessoas estão mais hostis desde a pandemia?
E olá, Bruno, claro. É estranho, não é? Porque não é uma, nem duas pessoas ligadas à restauração, ao comércio, etc, a serviços, que se queixam invariavelmente de tudo isto. E nós também sabemos que, às vezes, estas coisas pegam como se fosse uma ideia que se repete, mas eu não sinto que realmente seja assim. E de facto, são pessoas tão diferentes, em contextos tão distintos, que chamam a atenção disso, que eu acho que era a altura de nós talvez pararmos um bocadinho e dizermos assim: "Uau, o que é que está a acontecer?" Eu não acho que as pessoas tenham ficado mais doentes com a pandemia, que fique claro. Claro que é verdade que durante a pandemia, e em função do recolhimento obrigatório que nós todos fomos levados a fazer, numa primeira vez, acho que ficamos todos mais ou menos surpreendidos. Surpreendidos até com a nossa capacidade de reagir a tudo aquilo e surpreendidos, sobretudo perplexos, com tudo o que estava a acontecer. No segundo confinamento já foi diferente. Os adolescentes falam melhor e disseram aquilo que se calhar as pessoas crescidas, todas as pessoas crescidas iam sentindo, que estava a ser insuportável, que estava a ser irrespirável e, de facto, com esta distância, sente-se que hoje as pessoas têm coragem, talvez não fosse precisa coragem, mas pelo menos têm coragem de assumir que sim, se deprimiram imenso nessa altura. E eu não me canso de chamar a atenção que: calma, deprimirem-se num contexto tão violento, tão absurdo, em que foram colocadas tantas questões e, sobretudo, em que se viram confrontados com limitações tão graves e com mortes ao lado delas, pessoas preciosíssimas. Tudo isso é uma reação saudável a uma catástrofe que estava a acontecer, mas as pessoas assumem. Agora, o que eu acho é que todos nós, não é tanto por se falar mais de saúde mental, o que é uma coisa boa, mas todos nós ficamos a perceber qualquer coisa que pra quem mexe nestas situações todos os dias, não é inevitavelmente uma surpresa, porque as pessoas que estão adoentadas, vamos dizer assim, Judite, não são aquelas pessoas que andam numa agitação psicomotora que nunca mais acaba, não são aquelas pessoas que arrancam cabelos e que parecem desorganizadas de uma ponta à outra. Somos nós, qualquer um de nós os três pode ser assim. Conseguem trabalhar, mas ao mesmo tempo, esta pandemia avivou aquilo que são as pequenas distorções de personalidade, os pequenos distúrbios e às vezes uns um bocadinho maiores, avivou-os, acentuou-os e é natural que as pessoas aí tenham ficado um bocadinho com a criança nos braços e isso se manifeste mais. De facto, quando é assim e quando nós sentimos tantas pessoas, também nestes contextos de crise, etc, mas tantas pessoas a queixarem-se da forma áspera, agreste, rude, sobretudo rude, como vão falando, significa que há cada vez pessoas mais adoentadas, continuando com o termo, e que nos obrigam a perceber que mobilizarmos saúde mental não é tanto dizermos: "Respire fundo" e essas ondas do mar e outras coisas do gênero, mas é acima de tudo as pessoas reconhecerem, aprenderem a perceber estes sintomas, não ficarem assustadas com eles, aprenderem, terem a ajuda de alguém que vá pondo legendas nestes sintomas, de maneira que as pessoas, à medida que os gerem, mobilizem tudo o que são recursos saudáveis e têm sempre imensos. É importante que fique claro para que isto se inverta, porque senão, se for assim, veja bem, Judite, hoje as pessoas andam pra qui a zangar-se com o meio mundo. No meio desta crise toda, no meio de tanta insensatez à nossa volta, no meio de pessoas que às vezes fazem questão de nos tirar a luz, porque se incomoda de termos a luz que às vezes lhes falta. Se nós deixamos que isto tenha volume, se hoje as pessoas tratam mal assim de uma forma gratuita, amanhã passarão a tratar muito pior.
Eduardo, será que a pandemia nos fez perder um pouco o jeito, aquele toque necessário, o hábito do contacto humano com os outros, aquele período de confinamento, ou permita-me aqui o trocadilho, agora é que nos caiu a máscara. E aproveitámos esse período sem grande contacto com os outros para deixarmos vir à superfície
Coisas negativas que estavam encerradas.
Eu acho que é mais isso, Bruno. Vamos mais uma vez aos adolescentes só pedir boleia pra que isto possa ficar claro. Os adolescentes, todos eles, reagiram à pandemia de uma forma muito sofrida. A não ser aqueles que eram muito tímidos, muito antissociais, vamos pôr isso com muitas aspas, que tinham muita dificuldade de se relacionarem em terreno aberto, que acharam que a pandemia era, naquela altura, uma boia de salvação. Eu digo naquela altura, porque aquilo que nos safa num determinado momento não nos organiza por inerência. E de fato, todos nós, o Bruno, a Tita, eu, os nossos amigos, quantas vezes nos disseram isso, que era muito engraçado chegar a pandemia pra nós percebermos que nós temos amigos. Andamos completamente desmazelados pra eles, já não nos lembramos às vezes da última mensagem que lhes enviamos, do último gosto e um abraço e outro tipo de coisas, ou dos cinco minutos que perdemos, que nunca são perdidos, mas que nós insistimos a dizer que perdemos, a falar com eles. E era muito curioso nós percebermos que a dimensão humana, de repente, estava na primeira fila de todos nós. As pessoas tornaram-se mais humanas, perceberam o óbvio: nós, pra estarmos bem, precisamos de estar bem uns com os outros. E com quantos mais nós tivermos bem, melhores nós estamos. E de fato, a expectativa era que depois de uma aprendizagem tão dura e tão de supetão, as pessoas dissessem: "Calma, nós andamos todos armados em parvos tempo demais, é altura de apanharmos a boleia e dizermos assim: nunca mais vou ficar desmazelado". E o nunca mais durou pra aí dois meses, Bruno. E as pessoas voltaram aos mesmos vícios e com esta particularidade, como diz.
E até pior, se calhar, não?
E até piores, Bruno, é verdade. A determinada altura, caiu mesmo a máscara e aquilo que fica não são pessoas humanas que estão a dizer: "Olha, um abraço, pá. Qual foi a última vez que eu te disse que gostava de ti?" Nada disso. São pessoas que ficam agrestes, viradas sobre si. E por isso é que eu acho que nós aqui, se calhar, temos que falar várias vezes nisso, porque começa a falar-se com uma naturalidade, que a mim me inquieta profundamente, da pandemia da solidão como a pandemia do futuro, num mundo em que nós até fazemos chamadas com imagem. Nós temos tantos meios de comunicação e, no fundo, parece que a solidão se arrasta, alastra de uma forma, que eu acho que devíamos ser todos levados a pensar. E os órgãos de comunicação, as rádios, que são tão intimistas também, à frente de tudo, deviam começar a fazer um contraponto a isto, porque é muito inquietante.
Mas quando se diz que a pandemia trazia tantas expectativas que as pessoas, de repente, percebessem o quanto era preciso o outro e a proximidade do outro, onde é que isso se perdeu? Por que se perdeu?
Ós Dito, ainda bem que nós não estamos no ar. Mas eu acho que nós andamos todos muito engolidos por drogas leves. E é muito curioso, porque nós passamos a vida a dizer que trabalhamos muito. Nós trabalhamos muito, é verdade que sim. E quando se vive em Lisboa, são duas horas pra vir, duas horas pra ir, é tudo feiote. Neste registo não tem muita graça, evidentemente. Mas também é verdade que se nós formos aos nossos avós, não precisamos de ir mais longe. Eles não tinham subsídio de férias, não tinham apoio na doença, eles não tinham micro-ondas, não tinham máquina de lavar louça, máquina de lavar roupa. Era tudo tão mais duro. Pra se comunicar, tinha que se mandar uma carta que sabe Deus quantos dias é que levava a chegar. E às vezes nós ficamos presos nas justificações e eu quando vejo aquelas pessoas dizerem: "Ai, que fantástico" ou "que medo" em relação à inteligência artificial, eu costumo dizer: calma, porque ela anda aí. Quando nós deitamos mãos às banalidades e nos justificamos com as banalidades, a inteligência artificial, nós somos muito mais inteligentes do que isto. E nós desmazelamo-nos. Quanto tempo por dia, se nós fôssemos a cronometrar o tempo que nós, nós os três, talvez não, mas o tempo que as pessoas crescidas perdem por dia a fazer scroll numa rede social é imenso. Às vezes, qualquer um de nós os três, quando se aventura e diz: "são cinco minutos só pra ver o que se passa", às vezes damos conta passaram 30.
E isso não é um sintoma de cansaço, Eduardo? Um cansaço até existencial.
É, Bruno. É sinal que as pessoas não estão tão bem assim. E por isso é que eu às vezes tenho medo dos termos, mas também não temos que fugir a eles. Não quer dizer que as pessoas estejam todas deprimidas, mas as pessoas não estão a amar a vida que têm, porque é óbvio, Bruno, que qualquer um de nós sabe que quando nós temos uma vida solheira e as coisas estão a correr bem, enfim, como deve ser, etc. Nós somos todos pessoas que põem a saúde mental à frente de tudo, mas pomos intuitivamente. Nós damos prioridade àquilo que merece prioridade e às vezes parecemos aquelas crianças que enrolam o caracol e se embalam e se deixam estar sozinhas quando naqueles 30 minutos em que estivemos a fazer scroll, podíamos telefonar. Olhe, já agora, pra pessoa que vive conosco e que às vezes será aquela que merece as nossas maiores distrações, a dizer: olha, qual foi a última vez em que disse que te amava? Olha, mas eu queria dizer que é uma sorte viver contigo e às vezes perdemos, com aspas, porque não é perder, perdemos três minutos. Os outros 27 ainda sobram pra fazer um sem-número de coisas. E sim, Bruno, significa que nós andamos todos mais embrenhados em muitas coisas que nós temos à mão sem fazer escolhas. E quando nós não fazemos escolhas, estamos mais doentes do que pode parecer. Sim, sem dúvida.
Hoje ficamos por aqui, Eduardo. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, continuem a escrever-nos para eduardo.sá@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo. Um abraço. Um abraço muito grande pra você e até amanhã.