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Quando uma atleta olímpica diz em entrevista ao New York Times, uma semana antes de partir para os jogos, que o momento mais feliz da carreira foi o tempo em que esteve parada, os sinais dispararam. Foi o que fez a melhor ginasta de todos os tempos, a norte-americana Simone Biles, que aos 24 anos carrega o mundo nos ombros. São novamente palavras desta jovem que desabafou nas redes sociais. É um dos momentos que marca esta edição dos Jogos Olímpicos, as falhas de Biles, a forma como cometeu pequenos erros que tornaram evidente que algo não estava bem. Ontem a atleta saiu da competição em plena final feminina por equipas e os Estados Unidos acabaram por perder o ouro para a Rússia. Horas depois confirmava que não quis continuar e que a confiança que sente naquilo que é capaz de fazer é menor e que o foco agora é na saúde mental. Hoje chegou a confirmação que não vai participar também nas finais individuais marcadas pra amanhã. As restantes finais de aparelhos estão agendadas para a próxima semana e a Federação Norte-Americana de Ginástica diz que a atleta vai continuar a ser avaliada. É sobre isto que falamos hoje no "Porque Senão é Resposta". Comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Bem-vindos.

Olá.

Olá, Ana Filipa. Olá, Ricardo.

Eduardo, eu confesso que estive a acompanhar tudo isto através das caixas de comentários das redes sociais, onde se leem coisas completamente absurdas, obviamente, mas estive a ler um pouco sobre isto. E li também em alguns jornais uma frase que confesso que me assustou. Uma delas dizia: "Em Tóquio, Simone Biles já tinha mostrado sinais de ser, afinal, apenas humana". Não falhar é uma das maiores barreiras que podemos colocar em qualquer profissão, naquilo que fazemos, em qualquer momento da nossa vida?

É. Eu acho que todos nós queremos chutar pro gol e competir pra ganhar. Obviamente, não é a mesma coisa quando se ganha um desafio pequenino ou quando se ganha uma grande final. Não é a mesma coisa quando se ganha um jogo com o público restrito ou com milhões de pessoas em cima de nós. Sim, nós queremos sempre isto, jogar pra ganhar. Mas sabe, Ana Filipa, eu acho que a pandemia, por um lado, estes exemplos individuais por outros. Outros, aliás, no desporto nacional, também em contexto olímpico, que foram mais claros em Portugal, nomeadamente no atletismo, porque se tornaram mais públicos, ajudam-nos a perceber o quanto nós e a saúde mental andamos sempre de candeeiras às avessas. De repente, nós todos vendemo-nos como se fôssemos pessoas à prova de qualquer sobressalto. Não é verdade. Passamos a vida a replicar aquelas fórmulas do gênero: "Sou uma pessoa muito resolvida". Não é verdade. Nós não somos essas pessoas e nós todos fomos criando uma ideia muito absurda do desenvolvimento humano. E a psicologia, sobretudo as correntes de psicologia mais recentes, são completamente patetas, porque vendem a natureza humana como se, no fundo, os vencedores são aqueles que se controlam, são aqueles que se dominam, são aqueles que gerem as emoções, que iludem aquilo que sentem, tudo ao contrário do que nós somos. E, portanto, os vencedores não são aqueles que não tremem, são aqueles que gelam até o fundo da alma e depois, chegada a hora, entregam-se com tamanha paixão àquilo em que acreditam, que de repente se superam. É por isso que os vencedores não são aqueles que brilham nos treinos, são aqueles que às vezes tremelicam antes de entrar, falham os primeiros passos e, de repente, entregam-se com ganas àquilo em que acreditam. E só por isso é que são vencedores, mas nós criamos uma ideia completamente ao contrário, como se estas pessoas não fossem pessoas, não fossem humanas. E é tão estranho que seja assim.

Mas há realmente uma corrente e uma forma de estar recente que nos tenta incutir isso mesmo, que é aquela coisa de controlar e gerir as emoções ao ponto de conseguirmos gerir de tal forma que de certeza que não vamos falhar, porque somos os maiores lá da rua e os maiores dos jogos. Isso é uma corrente que tem ganhado força nos últimos tempos, Eduardo.

É um atentado à humanidade, Ricardo Conceição. Como sabem, eu tenho um apreço, uma relação íntima com a psicanálise, mas não transformando correntes de psicologia em ideologia, porque eu acho que ciência e ideologia não são bem a mesma coisa. A psicanálise do final do século XIX e de grande parte do século XX, era muito descrita como se um homem fosse uma perspectiva muito solitária de vida. Um homem descobria os seus conflitos e não fazia mais nada do que descobri-los, vivia com eles. E por isso se dizia que a psicanálise era muito solipsista, ou seja, não ligava às relações, não ligava às interações, ligava, no fundo, aos dramas individuais. E vai daí, vem uma corrente que se foi expandindo, que foi dando a ideia de que não, a psicanálise estava mal. Estava mal em muitas interpretações, claro que sim. Mas foi dando a ideia que, no fundo, o que nós temos é que racionalizar as coisas, o que nós temos é que as controlar. Quando estamos tristes, isso não é uma tristeza, é um período menos bom. Não podemos estar tristes aos olhos das correntes de psicologia mais tradicionais. Temos que ser positivos, sobretudo positivos, porque de repente Estarmos a viver um drama pessoal, um desamor ou uma doença de um familiar é uma coisa que não nos dá o direito de falharmos, de vacilarmos ou seja lá o que for. É tão absurdo e tão esquizofrénizante que a determinada altura substituiu uma dimensão solitária por outra igualmente solitária. O que é dramático é que estas pessoas sejam treinadas para ter sucesso. Criou-se aí um atentado à humanidade que, no fundo, são aquelas ideias muito pré-fabricadas. O que é importante é que nós tenhamos um treinador de emoções e não pensemos em mais nada. "Vai, tu consegues." Aqueles lugares comuns que são estúpidos todos os dias, porque não dão espaço às pessoas para terem a sua interioridade, para serem pessoas. Reparem, isto é uma expansão que vai do desporto à política, aos movimentos sociais. Vejam quando é que a humanidade mudou. Sempre que foi capaz de pôr amor nas coisas nas quais subiu de frente. Anos 60, anos 20, o 25 de abril, de que agora tanto se fala a propósito do falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho. Independentemente de todos os treinos que as pessoas podem ter, é essa paixão que nos alavanca, mas isso nunca se faz, nunca criando censura em relação a tudo o que nós somos humanos. Portanto, sim, Ricardo, nós de repente estamos numa ideologia, não são movimentos de psicologia, são ideologia barata, que nos dão a entender que as crianças têm que funcionar, as crianças engasgam-se nos exames de 12º ano, vamos medicá-las. Que é para fazerem de conta que elas não estão engasgadas, elas estão aterradas, mas fazem de conta que não estão. É tudo tão faz de conta, que acho magnífico que haja pessoas que tenham a coragem de dizer assim: "Chega de faz de conta, estou farta, quero ter uma vida. Reparem que eu sou uma pessoa e que de vez em quando também tenho as minhas coisas e que me apetece bater com a porta e dizer: "Chega".

Certo, daí a importância de exemplos como estes da Simone Biles. Nós estamos a falar de uma rapariga que tem 24 anos, que teve uma vida muito difícil. Aliás, para quem nos está a ouvir, há um perfil assinado pela jornalista Kátia Bruno, no site "O Observador", que relata muito bem isso. Relata também todo o controle à volta de pessoas que praticam esta modalidade. Por exemplo, no caso da Simone Biles, para além da alimentação, tudo o que é normal num atleta, até a vida amorosa é muito controlada, é muito escrutinada, para existir todo um controle para que a carreira da Simone Biles seja de facto exemplar. E ter alguém com 24 anos, Eduardo, que tenha maturidade de, perante uma dificuldade, dizer: "Não, eu não estou bem, não vou continuar, não quero colocar a minha vida, a minha saúde física e mental em risco", mesmo nos Jogos Olímpicos, é de facto um bom exemplo como há aqui uma viragem nesta perspectiva da importância da saúde mental.

Em absoluto. Nós, em Portugal, continuamos a pagar a saúde mental com imposto de luxo. É ridículo. Achamos que é sempre muito mais barato medicalizar as pessoas durante 30, 40 ou 50 anos ou tê-las em hospitalizações que nunca mais acabam. Nós continuamos, andamos para trás em termos de saúde mental, mas claramente para trás. Ainda bem que de repente há uma pandemia que nos diz assim: "Ei, reparem só o que andam a fazer." Agora, eu acho muito importante que nós possamos falar disto, sobretudo nos atletas também, aqueles que nos orgulham, porque eles também cometem exageros, erram. Nós não nos identificamos em tudo, mas os atletas vitoriosos não são aqueles que não erram, são aqueles que às vezes pegam na braçadeira e a lançam ao chão. São aqueles que, de alguma forma, são expostos na sua privacidade muito para além do que era razoável. São aqueles que, no fundo, às vezes são aproveitados por muita gente oportunista à volta deles e quantos não há. Mas depois são aqueles que, quando se olha para trás, têm alma e vão atrás daquilo em que acreditam. É isso que faz a diferença. E nós vivemos num mundo onde a paixão parece não ter direitos de cidadania. E nós, para termos paixão, temos que estar tristes de vez em quando. Achamos que a nossa vida é um nojo, mais do que uma porcaria, como dizem os adolescentes. E de repente, viste lá alguém que nos diz ao nosso lado: "Deixa-te de parvoíce e faz-te à vida", e nós zangamo-nos, cerramos os dentes e lá vamos. É isso que nos torna bonitos. E nós andamos todos a fazer de conta que somos uns autômatos. Isto é uma perfeita idiotice. Ainda bem que há pessoas que nos chamam a atenção para isso.

Eduardo, já temos aqui pouco tempo, mas há também aqui uma ideia comum de que pessoas que têm uma história de vida difícil, e há muitos campeões com histórias de vida complicadas, que essa vida difícil equipa estas pessoas com uma carapaça dura que ajuda a triunfar e a ultrapassar obstáculos. Esta teoria tem alguma razão de ser ou não?

Não. Eu há bocado estava a falar do Cristiano Ronaldo, como deram conta, não foi?

Sim.

Independentemente de outros atributos preciosos que ele possa ter tido na vida, eu acho que há um talento particular que ele tem, que se chama dores, e que ajuda muitas vezes a passar por muitas privacidades. Eu não acho que haja vidas fáceis, mesmo as pessoas da classe média ou as pessoas que às vezes são muito abastadas Às vezes têm vidas muito difíceis. Podem ter tido brinquedos incríveis, uma moto ou um carro aos 18 anos, ou seja lá o que for, mas todos têm uma história que não é tão fácil assim, não é drama que seja difícil. Agora, aquilo que depois faz a diferença são as pessoas ao nosso lado que nos deitam a mão, que nos dão ali um safanão e nos perguntam: "Mas por onde é que tu queres ir?" E isso é que nos faz falta, porque depois preocupa-me imenso estes jovens atletas que de repente são tirados de casa e colocados numa academia de alto rendimento e toda a gente trabalha pro alto rendimento e se esquece que eles são só miúdos que precisam de ser miúdos. Antes de serem jovens atletas ou de serem talentosos, são miúdos que precisam de ser miúdos. E eu acho que às vezes nós andamos vergados aos resultados, aos rankings. Nós vivemos num mundo de rankings, que é uma perfeita estupidez, porque de facto, aquilo que faz a diferença é sermos todos objetos absolutamente singulares. Nós somos singulares, somos o resultado da mais acabada improbabilidade. Um tal Ricardo Conceição, uma tal Ana Sofia que nós conhecemos. E eu também. E é tão divertido sermos todos tão improváveis e a determinada altura sermos amigos uns dos outros, porque de repente não há nas fias da vida assim Anas Filipas, que nos orientam e que nos trazem este tipo de questões.

Ana Filipas Rosa.

Rosa.

Certo.

Insubstituível. Para mim, só há uma, esta.

E mais nenhuma.

Pronto. É engraçado, mas acho que vamos continuar a falar deste tema da Simone Biles, se calhar, durante muitos anos. É de facto um dos pontos marcantes destes Jogos Olímpicos e se calhar devemos falar disto mais vezes para evitar às vezes comentários. Eu confesso que me chocou muito um comentário que li ontem nas redes sociais de uma senhora que dizia: "Esta rapariga desafia e faz aqueles exercícios complicados e depois põe-se com estes mimimis". Lá está, a saúde mental não é um mimimi, não é, Eduardo? Portanto, acho que vamos continuar a falar disto, também é preciso.

Se me permitem uma vulgaridade, a inveja humana é uma porcaria.

É verdade. Bom, voltamos ao "Porque sim, não é resposta" amanhã. Comigo, Ana Filipa Rosa, com o Eduardo Sá e com o Ricardo Conceição. Até amanhã.

Até amanhã.

Até amanhã.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.