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Está no ar o "Português Suave", episódio extra à quarta-feira, só com dúvidas dos ouvintes. Olá, Marco Neves.
Olá, tudo bem? Prometi no último episódio, no domingo, que iríamos conversar sobre a palavra tosse. Espero que estejas melhor, se não estiveres melhor, de novo.
Estou ligeiramente melhor.
Portanto, tosse vem da palavra latina "tussis", que queria dizer, surpreendentemente, tosse.
E a tosse continua.
Faz parecer. Uma pessoa diz tosse, o nosso cérebro reage. Esta palavra vinha do protoindo-europeu, uma raiz protoindo-europeu que era algo como "steud", que queria dizer empurrar. Agora, por que razão é que empurrar deu tosse? Talvez estejamos a empurrar o ar para fora do nosso corpo.
Não sei. O certo é que ela ainda está cá, tem que ser resolvida eventualmente, mas vai ser. No último episódio, não deste domingo, mas já do outro, mas depois também vieram essas dúvidas para o episódio de quarta-feira. Não sei se te lembras, falamos da questão do trigo, de o trigo ser associado ao pão e muita gente dizer trigo em vez de pão. E recebemos alguns comentários no Spotify de pessoas a dizer: "Ainda ouço isso na minha zona, hoje em dia. Na minha zona chamava-se trigo ao pão, porque o pão era o de milho, que agora chamamos de broa. O milho era o cereal mais abundante." Portanto, há aqui algumas coisas.
E assim andam as palavras a dançar.
É verdade. Mas percebemos que, no fundo, as coisas fazem o seu sentido. O ritmo natural das coisas. Nós temos dúvidas hoje. Por quem que vamos começar, Marco? Vamos começar pelo Rui Freitas, que nos faz uma pergunta sobre duas palavras. Vamos ouvir.
Olá, daqui fala Rui Freitas, da Madeira, e tenho duas dúvidas para questionar. Uma delas relaciona-se com a palavra cômputo, porque é uma palavra que eu só ouço usarem na agregação cômputo-geral, se é possível utilizar sem esta agregação ou não. E a outra tem a ver com a palavra transladar, que sempre ouvi só relativamente a corpos, se também é possível usar fora desse contexto. Muito obrigado e parabéns pelo vosso programa.
Um abraço para a Madeira. Esta pronúncia deixa-me muito feliz.
É sempre bom, por isso é que é bom termos os ouvintes a mostrar.
Enriquece este programa.
O português de norte a sul e mais pra sul ainda, pras ilhas e mais pra onde for preciso.
Por onde for.
E pra outros países também, enquanto enviem. O cômputo-geral é uma espécie de fóssil em informação. O que eu quero dizer com isso? Já falamos aqui de fósseis, palavras que ficam presas dentro de uma expressão e só são usadas nessa expressão. Por exemplo, saber de cor, aquele cor só é usado em saber de cor. Já ninguém usa cor com o significado de coração, fora disso. Erro crasso. O erro crasso não tem origem no general romano, é simplesmente uma palavra que se fossilizou dentro da expressão. Crasso era uma palavra usada pra muitas outras coisas, hoje só em erro crasso. E cômputo-geral, não é ainda. Eu penso que cômputo ainda é usado fora desta expressão.
Penso que sim. Não tanto na oralidade, se calhar.
Sim, exato.
Mais escrito.
Mas usa-se o cômputo enquanto cálculo. Portanto, não me parece que seja ainda um fóssil, mas esta pergunta é um sinal que se calhar está a caminhar pra lá. Ou seja, está a tornar-se uma palavra que só se usa dentro da expressão. Está ligada a uma palavra muito comum no dia a dia, computador, computação.
Mas mesmo computador, já não usamos tanto.
Usamos o quê? Telemóvel.
Não, portátil, PC.
Há palavras que estão muito presentes e de repente começam a sair de cena.
Ou até, às vezes, usamos a própria marca.
Sim. Olha, passo o meu T.
O Mac, por exemplo. Faço a publicidade, peço desculpa, mas pronto.
Sim, é verdade. E a palavra internet também é curiosa, porque nós usamos muito, mas houve uma época em que nós usávamos mais. Íamos à internet, falávamos da internet.
Agora, o que é que dizemos? Wi-Fi.
Não só, vamos àquela página. Tornou-se tão importante na nossa vida, que já não falamos tantas vezes. Atenção, vamos dizer, não falamos tanto de ir à internet e internet usamos mais no contexto Wi-Fi. "Tens rede de internet, tens internet?" Não dizemos "eu tenho uma página na internet". É uma coisa que até já parece muito anos 90. "Eu criei uma página na internet." Não, criei uma página. E já toda a gente vai saber do que é que estamos a falar. As palavras vão mudando um pouco. Há um linguista americano muito famoso, John McWhorter, que usa uma metáfora, e eu gosto muito dessa metáfora, não é propriamente uma metáfora muito surpreendente, mas é uma metáfora muito precisa. As palavras são nuvens. Nuvens de significados que estão ali a rondar. Quando nós usamos a palavra numa frase ou num determinado contexto, é que ela acaba por se solidificar com um sentido preciso. Em relação à outra palavra que ele pergunta. O Rui faz-nos também uma pergunta sobre transladar. Transladar, em português, especializou-se para o transporte de corpos, é verdade. O que é curioso é que noutras línguas, não. E por isso, às vezes, há problemas de tradução. Como eu, há muitos anos, participei num projeto de tradução em que tínhamos o translado em espanhol, castelhano, mas era o translado de pessoas do aeroporto para o hotel.
Pois.
Que se fosse mal traduzido, não foi, seria muito grave, porque de repente tínhamos, imagina, num folheto turístico, a oferecer o serviço para todos os clientes de transladação. À chegada ao destino.
Não convém.
Felizmente, nós não fizemos nenhum erro nesse projeto, mas eu ri-me só a pensar no que é que poderia acontecer se aquilo fosse mal traduzido. As palavras, por vezes, têm a mesma origem, mas depois em cada língua acabam por ganhar uns sentidos um pouco diferentes.
Vamos ouvir agora o Caio.
E eu desconfio que vamos andar mais para Sul.
Olá, pessoal. Meu nome é Caio, sou do Rio de Janeiro, no Brasil. Gosto bastante do programa e me surgiu uma dúvida aqui de etimologia. Eu pensei na expressão andar a esmo e reparei que esmo é uma palavra que eu acho que, pelo menos aqui no Brasil, a gente só usa nessa expressão, andar a esmo, e fiquei curioso sobre a origem. Então queria que o Marco ajudasse a esclarecer qual é a origem de esmo.
Como eu disse, fomos mais para Sul. Passamos da Madeira para o Rio de Janeiro. E isto prova que o português suave chega muito longe. Muito obrigado, Caio, por nos ouvires tão longe.
Tivemos Madeira, Brasil, onde é que isto vai terminar?
Vamos acabar no Havaí.
Com uma saia havaiana e a fazer o hula-hula.
Não temos é o português do Havaí.
Ai que imagem, Marco. Não vamos fazer isto.
Bem, eu não sabia, confesso, qual era a origem de esmo, andar a esmo.
Eu também não.
É, no fundo, mais um fóssil, como estávamos agora a conversar, mas fui ver e é uma palavra que está relacionada com a palavra estimar. Estimar tem uma origem num verbo latino muito semelhante a estimar. Este verbo latino deu também origem a esmar, que é uma forma mais reduzida de estimar. E nesse caso, estimar tem a ver com tentar perceber o que vai acontecer, qual é a probabilidade. Andamos a esmo quando andamos só a estimar, não temos a certeza para onde é que vamos. Faz sentido. Só para dizer que é um pouco andar à toa, andar em estimativa.
Andar à deriva?
Exatamente, andar à deriva. Esmo é um, e desculpem agora o termo técnico, deverbal regressivo. O que isso quer dizer?
Deverbal?
Regressivo. Parece um insulto, não é? Tu és um grande deverbal regressivo.
Vou começar a usar.
Isso acontece quando nós temos um verbo, esmar, e depois desse verbo criamos um nome retirando uma parte do verbo. Esmar, retiramos esmar e fica esmo. E então cria-se uma palavra nova, que não é criada adicionando nada, mas sim retirando uma parte do verbo. E pronto, espero que o Caio tenha ficado satisfeito com esta origem.
Certeza. E que eu quero te dizer que tu és um grandessíssimo deverbal regressivo por todas as semanas nos trazeres aqui estas dúvidas.
Talvez no carro tenha escrito assim. Por acaso o carro não está sujo, mas se estivesse.
Imagina, grafitado. Deverbal regressivo. Era muito grande também para esse carro.
Mas fico contente, porque quer dizer que há mais pessoas a ouvir o Português Suave.
Sim, olha, podia ser uma forma de carinho, não é? Demonstrar carinho. Entretanto, nós estamos de regresso no domingo, mas já sabe que às quartas-feiras reunimos sempre aqui as dúvidas dos nossos ouvintes. No próximo episódio, pode ser a sua. Eu e o Marco Neves estamos à espera disso mesmo. A enviar para o número de telefone. Marco, eu hoje dei-te uma ajuda.
91 00 24 185. Está grafitado na parede.
E disse de forma diferente como eu digo, porque eu digo 91 002 41 85.
Também podemos dizer 91 002 4185.
Ai, disseste bem. Eu já estava a pensar se tinha escrito realmente bem. Envia áudios até 30 segundos para o nosso WhatsApp, mas se, entretanto, for uma pessoa mais tímida, se gostar de escrever, pode enviar também para portuguesuave@observador.pt. Marco, um abraço.
E até domingo.
Até domingo.