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E o que seria de nós sem o "Português Suave", mesmo em pleno mês de agosto? Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves, nós não te podemos deixar ir de férias. Quer dizer, podes ir, mas não podes deixar o "Português Suave".
Sim, eu vou de férias, já ando por aí, já estive em Peniche, até fui às Berlingas.
Pois foi.
E vou ainda nos outros sítios, depois eu te contar, mas também não sei se sem o "Português Suave" não seríamos férias para as pessoas mais descansadas. Eu acho que não, mas acho que as pessoas gostam.
Sim, e as pessoas têm sempre muitas dúvidas, portanto, nós não podemos.
Na língua portuguesa ninguém descansa. Sempre a usar a língua, sempre com dúvidas na língua portuguesa. E este é o episódio de agosto, portanto, o episódio em que vamos-
Continuamos a esclarecer os nossos ouvintes, não é?
Exatamente. Não são os episódios normais, é uma espécie de consultório de verão de emergência para as pessoas que estão na praia e não conseguem parar de pensar nas dúvidas.
Só não temos bolas de Berlim. Fazemos já este aviso prévio.
Podemos falar sobre a origem das bolas de Berlim, mas não hoje. Falamos depois. Hoje falamos sobre o nome Argélia e também sobre você, o famoso você. Será que é estrebaria? Será que não é estrebaria? Já falámos disso aqui, mas vamos voltar ao tema. Então, a primeira dúvida é de Vítor Silva, que diz: "Chamo-me Vítor Silva e sou da Póvoa de Varzim. Obrigado pelo programa. Tenho ouvido, quer no 'Observador', quer em outros programas de comentários, que o problema desta vaga de imigração é culpa da visita do primeiro-ministro espanhol a Algéria. Ao início pensei que a minha boa memória geográfica estava a falhar, porque não reconheci este país, mas no fim de contas estavam a referir-se a Argélia." Não sei quem é que disse Algéria, mas aqui a dúvida do Vítor é: por que razão é que nós dizemos Argélia, tradicionalmente, e quase todas as outras línguas dizem Algerie, por exemplo, em francês, ou seja, começa por Al. Olha, é de facto uma curiosidade do português, mas o que se passa é: a origem da palavra é árabe e começa pelo nome da cidade, capital da Argélia. Até porque o nome do país é relativamente recente. E em quase todas as línguas, esta adaptação do árabe foi feita com aquele L e com R no final. Em castelhano, começou por ser uma questão no castelhano, houve uma chamada metátese, ou seja, houve uma troca, que é relativamente comum, de sons, ainda por cima sons que se confundem muitas vezes. Nós sabemos que muitas vezes nós passamos o R para o L ou até mesmo o L para o R, como de "playa" passamos para "praia" em português. Neste caso, o fenômeno não foi no português, começou no castelhano, passaram a dizer Argel ou Argel, em castelhano. E foi por influência do castelhano que nós, em português, começamos a dizer também Argel e não Alger, como noutras línguas. E este Argel deu origem depois ao nome do país, Argélia. Portanto, nós mantivemos essa particularidade que tinha vindo de uma influência castelhana do português. As pessoas poderão perguntar: "Mas por quê? Por que nós não ficamos?" É porque às vezes é mesmo assim. Há coisas que não se explicam, não têm uma razão lógica. Os portugueses, neste caso, copiaram os castelhanos. Há outros casos em que vamos ser influenciados por outras línguas. Há casos em que somos nós que influenciamos as outras línguas. A maior parte das línguas da Europa dizem Japão de uma forma parecida com a nossa, porque nós começamos a dizer desta maneira. São influências mútuas entre as línguas que são normais. Portanto, a razão é esta: nós dizemos de maneira diferente das outras línguas, por causa da forma como pronunciávamos o nome daquela cidade, e essa forma teve influência castelhana.
Eu também já tinha notado esta questão e confesso que me fazia alguma confusão. Argélia. Porque parecia sempre que estava a dizer de forma errada, não te sei explicar, é diferente.
É Argélia, em português, mas diz a mesma coisa. Mas achas que está a haver, eu não sei, não tenho notado isso, mas tal como o Vítor aqui diz, achas que os jornalistas estão a começar a dizer Argélia, em vez de Argélia?
Eu não tenho notado nos jornalistas, mas às vezes em questões, quando falamos de competições de clubes, neste caso de seleções, ou até mesmo quando falamos e referimo-nos a países, fica sempre a dúvida, acho que agora se instalou a mais entre as pessoas, se se diz Argélia ou Argélia. E pode ter sido por causa da comunicação social, mas não tenho muita noção disso.
Pronto, o nome tradicional, e que é o que está nos dicionários, não diria, mais nas enciclopédias, mas nas referências geográficas, é Argélia. Vamos ver se agora há uma segunda influência estrangeira, tal como aconteceu no castelhano, e se nós começamos a dizer de outra maneira por causa das outras línguas, eu continuarei a dizer Argélia.
Muito bem. Um abraço pra Póvoa de Varzim, de onde é o Vítor Silva.
Um abraço também pra Póvoa de Varzim. Por acaso não vou lá nestas férias, mas é um ótimo sítio.
Por acaso, podia acontecer.
Sim, eu gosto muito.
Marco Neves, em tour pelo país.
Se eu for à Póvoa de Varzim, ouviço. Pode ser que encontre por lá o Vítor. Vamos agora a uma dúvida da Silvia. Hoje não temos nenhuma dúvida por áudio, curiosamente. Temos várias dúvidas aqui em carteira, que vamos ouvir nos próximos episódios, portanto não percam os próximos episódios. A Silvia enviou-nos uma das grandes dúvidas que eu recebo, não só de portugueses, mas também de muitos estrangeiros que querem perceber como é que nós tratamos as outras pessoas, qual é a forma mais habitual. E a Silvia diz: "Olá, Marco, gostava de lhe pedir um esclarecimento sobre uma expressão que eu ouvi recentemente e que me deixou completamente surpreendida. Pessoas mais velhas disseram que a frase 'você estrebaria' era usada", e eu agora acrescento, era e é usada. Eu ainda ouço, por vezes, esta frase. Continua a citar a Silvia agora: "Para censurar o uso de você, como se o pronome fosse um sinal de má educação ou até uma asneira. Confesso que fiquei incrédula. Passei mais de 40 anos sem nunca ter ouvido esta expressão, 'você estrebaria', e passei mais de 40 anos a usar você. O que mais me intriga é que, ao mesmo tempo, durante décadas, ensinou-se o você A mensagem é maior, mas a pergunta é esta. E ela pergunta no final: "Esta expressão tem alguma origem histórico regional, reflete uma norma de etiqueta de outras épocas ou é apenas um dito popular?" É o contrário. Obrigado, Silvia. Ela cumprimenta-nos e agradece.
Marco, eu também confesso que nunca tinha ouvido.
Esta expressão é comum, já ouvi muitas vezes em várias zonas até aqui de Lisboa. Mais do que uma expressão popular, é um pouquinho ao contrário. Eu vou tentar explicar o que se passa. O uso do você em português é muito complexo. Já houve vários estudos sobre isto e é muito difícil. É possível, ao mesmo tempo, uma pessoa passar décadas, como a Silvia passou, sem dar conta desta questão e usar o você sem qualquer mal e sem qualquer má educação. Por outro lado, é possível uma pessoa odiar a expressão desde sempre e achar que as pessoas que a usam são mal-educadas e que é uma coisa recente. Esta é a ideia que eu já ouvi de muitas pessoas. Eu já cheguei a ter um episódio, que já cheguei a contar no livro há muitos anos, de estar na faculdade e ter uma colega que eu sabia, porque é da minha terra, que usava o você com muita frequência, porque em Peniche é perfeitamente habitual, pelo menos nunca tive nenhum problema. Chegou a Lisboa e houve uma professora que ficou muito aborrecida quando ela usou a palavra você. Há aqui várias correntes na nossa língua. O que eu posso dizer sobre factos em relação a isto é: a origem da palavra você é vossa mercê. Uma expressão que, na sua origem, que já se usava no final da Idade Média, era uma expressão de respeito pelo outro. No entanto, este vossa mercê começou a ser usado, ao longo dos séculos, cada vez mais de uma forma um pouco irônica, não como forma de respeito, mas como forma quase de respeito falso. Depois, este vossa mercê começou a ser reduzido para você, e esta redução ficou marcada em Portugal, por ser mais típica, e eu digo isto com muitas cautelas, porque isto é muito complexo, porque depende muito da zona, mais típica do registo popular do que o registo mais formal. E muitas pessoas começaram a considerar o uso de você, principalmente em cidades como Lisboa ou outras cidades com muita exposição, digamos assim, cidades relacionadas com a capital ou com o poder ou com a universidade, começou a ser visto como uma forma de tratamento pouco polida, por ser muito popularucha na cabeça destas pessoas.
Eu lembro perfeitamente, Marco, de ter professores na faculdade que odiavam que os alunos tratassem o professor por você. Era quase um desprestígio, não é?
E sabes, porque isto é complicado, os falantes acabaram, em conjunto, por deslizar para formas de tratamento mais neutras, sem pronome, em que nós dizemos: "O senhor está bem? O senhor precisa de alguma coisa?" Ou então o nome: "O João está bem?" Ou então o tu, claro, quando nós temos intimidade suficiente. Há algum perigo pelo uso do você, porque depende muito da zona do país. Devo dizer que no Brasil a situação é completamente diferente, teve uma evolução muito diferente. O que eu proponho aqui, à Silvia, eu digo que sim, esta expressão existe. Não é uma expressão popular, porque no fundo é uma expressão destas tais elites que ficaram muito aborrecidas por haver depois um uso popular de você. É uma expressão ao contrário, não é bem uma expressão popular, é uma expressão de desprezo pela expressão. Devo dizer que o que eu aconselho é: nós sabemos que é uma expressão arriscada, portanto, proponho cautela. Quando uma pessoa faz, por exemplo, uma tradução, não convém pôr uma empresa a tratar os clientes por você, isso pode ser muito complicado. O que nós fazemos é o tratamento por terceira pessoa sem o pronome, portanto, tratamento com o pronome ocultado. Mas se alguém ouvir alguém dizer você, como acontece em tantas zonas deste país, não leve a mal, não suponha logo que é uma forma de má educação, porque não é. Pelo país fora, você é visto em muitas regiões e por muitas pessoas como uma forma de tratamento normal e uma forma de tratamento até com algum respeito. Vai depender da zona onde nós estamos, das nossas origens sociais, que também são importantes nesta questão da língua. É só o que eu proponho, que tenhamos cautela ao usar para o público, mas que não levemos a mal quando alguém usa você, porque é muito habitual por esse país fora.
Mas há muitas pessoas que levam a mal. E sei disso porque já aconteceu. Não sei por que existe este celeuma, acho que lhe podemos chamar assim, à volta do você.
É uma questão social, no fundo, é como encarnado e vermelho. Eu devo dizer que há pessoas que acham que o você é muito recente, mas a própria palavra você já aparece no registo escrito desde o século XVII, pelo menos. E vossa mercê, então, ainda é mais antiga. Mas pronto.
Marco Neves, você está de regresso no próximo episódio.
No próximo episódio cá estarei. Você, João, também espero que esteja por cá.
Sim, domingo, dia 23 de agosto.
E espero que ninguém tenha ficado muito ofendido com este nosso uso agora no final.
Não.
No dia 23 cá estaremos para falar de mais dúvidas de ouvintes.
E podem enviar para onde, Marco Neves?
portugues suave@observador.pt.
Ou então através do nosso WhatsApp, que é muito fácil. O Marco não decora, mas eu estou cá para ser a âncora deste programa. 91 002 41 85. 91 002 41 85.
Quarenta e um? Desculpa, estava a tentar decorar e não. Diz lá outra vez.
91.
91.
002.
002.
41.
41.
85. Agora tenta lá.
91 002 41 85.
Boa, Marco! Até bato palmas.
Para a semana já me esqueci.
É verdade. Dura pouco. Marco, um abraço e até ao próximo domingo.
Um abraço.