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Todas as semanas, além do episódio habitual ao domingo, esclarecemos dúvidas também no "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Neves. Bem-vindo, Ninja.

Hoje é dia de dúvidas. O Ninja vai tentar resolver. Vamos ver. Porque são dúvidas que me interessam.

Sim.

Não é que as outras não me interessem, interessam-me sempre muito.

Esta primeira, digo-te já que foi algo que eu também falei com o Bruno Cardoso Reis na semana passada, porque nós temos aqui um podcast e um programa que se chama "Cinco Continentes".

Então o que é que vocês concluíram?

Por causa desta questão de Saxônia-Anhalt, se há realmente tradução ou não. E nós falámos sobre isto e o Bruno disse que se dizia desta forma. E agora tu vais me dizer: "Não, não se diz, o Bruno está errado."

Que não se diz. Como é que ele dizia que se...

Não, porque havia esta necessidade de...

Primeiro, vamos dizer qual é a dúvida, antes de avançar.

Sim, que vamos lá. Já estou aqui a avançar.

A dúvida é do Mário Martins, em que diz: "Olá, eu sou o Mário, um ouvinte do Observador e do vosso podcast. Moro na Alemanha. Com as eleições numa Bundesland, num estado alemão, notei que nós portugueses traduzimos só metade do nome da Bundesland."

Aí está a questão.

"Sachsen-Anhalt por Saxônia-Anhalt. Existem muitos casos desses?", pergunta ele. "Afinal, temos a mania de traduzir muitos nomes de terras, mas por quê? Obrigado, Mário Martins." Obrigado, Mário. São duas perguntas diferentes, mas diz lá então o que é que o...

Não, o Bruno adotou a versão que também os media adotaram, que é Saxônia-Anhalt. Mas existe a outra em que nenhum dos dois é traduzido.

Ou seja, a nossa inclinação é: "Ah, mas temos que ser coerente, temos que traduzir tudo." Mas aqui há uma explicação mais longa e que vai ao encontro do que o Bruno disse. Este estado tem este nome porque junta dois nomes diferentes. Acontece o mesmo em Espanha, é um caso particular que também é semelhante a este, em que nós temos a região ou comunidade autónoma de Castela-La Mancha. Nós fazemos precisamente o mesmo. Em espanhol é castelhano, Castilla-La Mancha, nós traduzimos Castela, não traduzimos La Mancha. Apesar de a Mancha até termos o Dom Quixote. O que acontece aqui? A primeira pergunta é: por que nós traduzimos alguns nomes? O Mário diz muitos nomes, mas eu diria alguns nomes. A grande maioria dos nomes de terras e regiões não têm tradução em português. Os nomes dos países têm, quase todos. São raros os países em que nós não usamos o nome em português. Talvez o Malawi, que tem nome em inglês só.

Sim, mas não são muitos.

Em geral, temos tradução para todos, portanto, uma versão portuguesa. Nas regiões e nas cidades, temos tradução para uma parte. E por que temos? São aquelas regiões ou cidades que tiveram alguma visibilidade histórica em português, em que nós criamos este nome português. Isto não é uma regra, ou seja, há regiões com muita visibilidade que não têm nome em português, mas em geral, as que têm nome é porque os falantes do português precisavam de criar uma versão portuguesa. Então nós temos a Saxônia, que é uma região germânica muito importante ao longo da história, que teve e tem uma tradução portuguesa tradicional. Anhalt, não. Não é muito importante. Quando o Estado é criado com estes dois nomes, nós tínhamos uma tradução em português para uma parte do nome, não tínhamos para a outra, e por isso o nome ficou meio traduzido. E não há nada de mal nisto. Mesmo assim, Saxônia-Anhalt, tal como Castilla-La Mancha, passa a Castela-La Mancha. No caso de La Mancha, até é mais duvidoso, porque como eu estava a dizer, nós até tínhamos uma tradução que perdemos. Porque algumas perdem-se, como, por exemplo, e agora olhando para uma cidade e não para uma região, Frankfurt já foi Francoforte, nós perdemos esse.

E ainda bem.

Sim, ainda bem, mas lá está, é uma questão de hábito.

Sim, agora se calhar, se eu fosse habituado a usar, provavelmente iria estranhar Frankfurt.

Passado uns anos. O nome técnico para estes nomes portugueses de outras cidades ou regiões que têm nome próprio naquela cidade ou região é exônimo. Isto não é só em português, por exemplo, o nome Lisbon é o exônimo inglês da nossa cidade de Lisboa. Portanto, são nomes estrangeiros para cidades que não usam aquela língua. Não sei se respondi. Quanto à pergunta mais geral, por que nós temos a mania. Isto não é uma mania. Todas as línguas traduzem alguns nomes de terras e de regiões. Não há nenhuma língua que tenha como regra, pelo menos que eu conheça, não traduzir os nomes das terras ou dos países, ou das regiões. A questão é que só fazemos isso com aquelas que foram úteis a certa altura.

Muito bem. Um abraço para Mário Martins.

Um abraço para o Mário, na Alemanha. Já chegamos à Alemanha. Vamos agora à nova pergunta de António Levy Gomes: "Não compreendo porque é que, por exemplo, intrabucal ou bucal, que deriva de boca, se escreve com U. Sou médico, utilizo estas palavras com frequência e tenho sempre esta dúvida muito irritante. Não sei se é possível, mas se for, gostaria de ser..."

Avisado do dia em que vou dar esta resposta.

Está avisado.

António, está aqui a resposta.

Não sei se é possível avisá-lo ou não.

Depois eu escrevo um e-mail para o António a dar o link do episódio.

Muito obrigado pela pergunta, que é muito interessante, porque mostra aqui vários aspectos da língua. É a mesma razão pela qual nós temos lua, temos luar e depois temos lunar. Ou seja, uma missão lunar está relacionada com lua. Ou seja, é uma palavra latina que tem as suas transformações em português, fica em português com uma determinada forma, mas depois, a certa altura, nós vamos recuperar a forma latina para criar adjetivos ou criar palavras derivadas. Portanto, boca vem de uma palavra latina de origem desconhecida, mas provavelmente celta, que queria dizer bochechas. Os latinos é que começaram a usar para boca familiarmente. Boca, em latim, era os ou oris, que deu oral, é que era a palavra formal para boca. Portanto, buca, em latim, que era bochecha, deu origem a boca Mas muito depois, quando foi preciso criar derivados mais formais, fomos buscar outra vez ao latim, tal como lunar. Fomos buscar "buca" e ficou bucal. O mesmo acontece com olhos, oculus, olhos. São palavras que vamos ao latim outra vez. E acontece com muitos outros casos em que nós temos a tal via popular e via erudita, que acho que as pessoas todas se lembram na escola, há palavras que vão pela via popular, em que os falantes vão mastigando as palavras, "buca" ficou boca, e depois há a via erudita, em que alguém pensa: "Eu preciso agora de um termo médico para alguma coisa. Então vamos ao latim outra vez, porque o latim é a fonte das palavras." Há ainda uma curiosidade que o António não referiu, mas que é muito engraçada, é que nós também temos bocal com O, o bocal da garrafa.

Pois é.

Que vem precisamente também de boca. Ou seja, o que acontece aqui? Nós vamos a boca, palavra portuguesa, não a palavra latina, e criamos bocal. Mas como temos a nossa famosa regra da redução vocálica, que o O passa para U, e a palavra fica precisamente igual a bucal, com U, de origem diretamente latina. Não sei se está a ser claro agora. Ficamos com duas palavras relacionadas com boca, que se escrevem de maneira diferente e que se dizem da mesma maneira. Bocal com O para o bocal da garrafa e bucal com U para algo médico. Devo dizer que o bocal da garrafa é um nome, bucal é um adjetivo, mas é muito curioso como estas voltas todas da língua acabam com estas situações que parecem muito irregulares, mas não deixam de ser demonstrações da história do português.

E é isso que torna a nossa língua tão interessante, não é, Marco?

Muito obrigado, António, muito obrigado ao Mário e enviem mais dúvidas.

Sim, dúvidas para 91 002 41 85. Estas dúvidas nós recebemos por e-mail, mas no WhatsApp podem enviar áudios de até 30, 40 segundos para depois ouvirmos aqui no episódio de quarta-feira do "Português Suave", ou se a dúvida for incrível, não quer dizer que as outras não sejam, mas se for algo muito atual, até podemos ouvir no domingo, já aconteceu.

Sim, já aconteceu. E se mesmo assim quiserem enviar por e-mail, portuguessuave@observador.pt.

É isso mesmo.

Mas queremos ouvir.

Queremos ouvir os nossos ouvintes. Marco, estamos de regresso no domingo.

No domingo.

Até lá. Um abraço.