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Quem tem estado a acompanhar esta cimeira ao longo dos últimos dias é o jornalista do Observador, João Francisco Gomes, que está agora conosco em estúdio. João, muito boa tarde. O que está a faltar para que se chegue a um acordo, e já com essa certeza de que os trabalhos vão ser prolongados para além do previsto?
Sim, vai cumprir-se uma tradição das últimas mais de 20 cimeiras do clima das Nações Unidas e as negociações vão ultrapassar largamente o prazo. Aliás, o prazo era às 18h desta sexta-feira, portanto, já vamos com mais de meia hora.
Qualquer coisa semelhante às reuniões sobre as cotas pesqueiras.
Justamente.
Pela madrugada adentro.
E o ponto aqui é que neste momento já não estão a ser discutidas grandes linhas de pensamento do que poderá ser o documento final, mas, e é isto que é mais importante, a formulação final do documento, a redação do texto. Hoje foi publicado, logo de manhãzinha, um segundo esboço daquilo que poderá ser o documento final, e é muito interessante comparar este esboço com um que tinha sido publicado na quarta-feira, para percebermos o tipo de coisas que estão aqui em causa neste momento, e o que está em causa são os temas clássicos que dividem os países nestas negociações, os combustíveis fósseis, portanto, a descontinuação e eliminação progressiva do recurso a combustíveis fósseis, a produção de eletricidade a partir da queima do carvão, etc. É muito interessante ver que, por exemplo, no primeiro esboço publicado na quarta-feira, um dos pontos dizia que a COP convocava as partes, as partes são os 197 países signatários do Acordo de Paris, a acelerar a descontinuação do carvão e dos subsídios para os combustíveis fósseis. Ora, no novo esboço que foi publicado esta sexta-feira, já líamos uma versão um bocadinho mais limada, mais polida deste compromisso, em que, por exemplo, já era acrescentado que as partes deviam acelerar o desenvolvimento, implementação e disseminação de tecnologias, etc., rumo a sistemas energéticos de baixas emissões, e depois dizia qualquer coisa como eliminação progressiva da eletricidade a carvão e dos subsídios ineficientes aos combustíveis fósseis. Por exemplo, a introdução desta pequenina palavra, ineficientes, que serve para quê? Serve para dar a vários países cuja economia depende ainda da exportação e importação de petróleo, alguma margem de manobra, porque há países que argumentam, por exemplo, que se eliminarem definitivamente todos os subsídios aos combustíveis fósseis, isso poderá causar tumultos sociais entre as classes.
E dar grandes vagas de desemprego, por exemplo.
Vagas de desemprego, aumento dos combustíveis que se tornem impossíveis de suportar pelas populações ainda muito dependentes dos combustíveis fósseis. Portanto, esta introdução desta pequenina palavrinha, permite precisamente dar esta margem a muitos países, que depois poderá ser aproveitada de uma forma mais ou menos extensiva. É neste tipo de coisas que a redação final do texto ainda está bastante presa.
E pra quem esteve a acompanhar ao longo destes últimos dias desta cimeira e os trabalhos, uma das críticas que se vai fazendo é de falta de vontade política para avançar com uma mudança. Nós já pudemos observar algumas aproximações em alguns pontos, por exemplo, entre gigantes como a China e os Estados Unidos. Há aqui também a União Europeia, sempre com várias promessas também de aumentar, por exemplo, o investimento para o combate às alterações climáticas. João Francisco Gomes, tu que tens acompanhado também estes temas do clima e do ambiente, e olhando para aquilo que foram as cimeiras passadas, há aqui um passo em frente nessa vontade política ou continua a haver aqui, em particular das grandes potências e também dos países que emitem muitas matérias poluentes, há por aqui ainda uma falta de vontade política que é difícil também de perceber numa altura em que se vão pedindo medidas drásticas também para tentar contornar aquilo que parece ser um rumo que já não tem volta atrás?
Sim, claramente. Eu diria que estamos a assistir aos dois fenômenos em simultâneo. Por um lado, há aqui um passo muito significativo dado em frente, é que o documento final, a julgar pelos dois esboços que foram já publicados, e portanto, este último documento poderá aproximar-se muito do que virá a ser o acordo de Glasgow, que virá a ser conhecido este fim de semana, inclui, pela primeira vez na história dos tratados das Nações Unidas sobre o clima, uma referência à importância de terminar com a exploração de combustíveis fósseis e de carvão. Portanto, esta inclusão, pela primeira vez, desta referência, está a ser considerada um grande passo em frente. É, pela primeira vez, assumir-se o compromisso expresso de trabalhar no sentido de eliminar a produção de combustíveis fósseis. Por outro lado, é evidente que temos assistido a algum tipo daquilo que António Guterres já veio classificar como promessas vazias ou vãs. Ou seja, não têm faltado discursos em torno da necessidade de manter o tal objetivo dos 1,5 graus possível de alcançar, mas, por exemplo, um dos principais acordos que saem desta COP26, ou que poderiam sair desta COP26, prende-se justamente com a questão do carvão. Um acordo assinado por cerca de 40 países que se comprometem a deixar de produzir eletricidade a carvão, aliás, como Portugal vai deixar de fazer no final deste mês, deixar de produzir eletricidade a carvão até o final da década de 2040. Isto é um compromisso muito importante que terá um impacto significativo nas emissões de gases com efeito estufa. Problema: alguns dos maiores produtores e consumidores de carvão, de eletricidade a partir do carvão, a nível mundial, e falamos dos Estados Unidos, da China, da Índia, da Austrália, não fizeram parte deste acordo. O mesmo aconteceu, por exemplo, com um acordo assinado entre vários governos e várias fabricantes de automóveis para descontinuar a produção de carros a combustíveis fósseis até 2035, nos casos dos mercados mais desenvolvidos, ou até 2040 para as outras economias. Novamente, a Alemanha, por exemplo, que é um dos maiores mercados de automóveis do mundo, os Estados Unidos, a China, mas também, por exemplo, a Volkswagen e a Toyota, que são os dois maiores fabricantes de carros do mundo, também não assinaram. Ou seja, há claramente acordos a serem alcançados e com uma grande importância pra esta questão das alterações climáticas, mas alguns dos principais atores estão a ficar de fora destes acordos e, portanto, a credibilidade ou a eficácia destes acordos ainda está por ser vista.