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Junta-se aqui a nós Miguel Pinheiro, director executivo do Observador. Miguel, há aqui uma frase que fica para já neste final de conferência de imprensa que é: "Esta é a fase de serem os bancos a ajudar todos aqueles que são essenciais de serem ajudados", lembrando também o apoio que o país deu à banca. É um desafio para a banca portuguesa, é uma das ideias que fica destas medidas ou deste desejo do primeiro-ministro?
Eu diria que é a frase mais infeliz desta conferência de imprensa. Percebo demasiado bem o que o primeiro-ministro quer dizer com isso. Está a dizer: "Nós estivemos a ajudar os bancos durante a crise e agora é a vez de os bancos virem ajudar as pessoas". Se nós estivemos a ajudar os bancos é porque os bancos são muito importantes na sociedade em que nós vivemos. Os bancos não são os vilões que os portugueses foram forçados a ajudar e o próprio primeiro-ministro, tanto quanto julgo saber, participou e concordou com os auxílios que foram dados para que o nosso sistema bancário sobrevivesse. Este governo está preocupado com a desestruturação da sociedade portuguesa, uma sociedade onde não houvesse um sistema bancário a funcionar e no qual as pessoas tivessem confiança, aí seria mais uma forma de desestruturação. Não percebo, acho que lhe bastaria dizer que seguramente os bancos vão fazer o seu papel. De resto, o que é que vimos aqui mais? O primeiro-ministro deixou várias frases que dão a entender, como já se desconfiava, que na sua opinião o estado de emergência não era necessário. Ele disse por duas vezes que não tem sido necessário o estado de emergência para as pessoas cumprirem as suas obrigações. E depois novamente, quando falou sobre o cancelamento de voos, disse: "Ainda antes de ser decretado o estado de emergência, nós cancelámos os voos em articulação com a União Europeia". Ficou aqui esta necessidade de dizer ou insinuar que talvez isto não fosse necessário neste momento. De qualquer forma, o que nós vemos aqui são uma série de medidas que, como se esperava, vão mudar ainda mais a nossa vida.
Mas são medidas a meio gás ou não?
São a meio gás, mas são propositadamente a meio gás e de facto não faz sentido usarmos um martelo quando isso não é necessário. Se realmente aquilo a que nós estamos a assistir é à generalidade das pessoas a acatarem as recomendações de isolamento, de facto, se é assim, não é necessário estar aqui a criar um quadro de vigilância, um quadro securitário para imposição desse acatamento neste momento. O que pode acontecer, e é aquilo que o governo receia, tanto quanto se tem percebido, o governo receia que daqui a algum tempo haja um cansaço destas medidas e que esse cansaço leve a que as pessoas comecem a furar estas regras, como aliás temos visto noutros países. Temos visto em Espanha, por exemplo, temos visto casos de tentativas de furar estas regras. E aí talvez possa ser necessário usar essas medidas um bocadinho mais duras. De qualquer forma, ouvindo o primeiro-ministro, nós vemos, ele quando fala do papel da polícia, fala de um papel repressivo e de um papel pedagógico, mas aquele que vem em primeiro lugar, aquele que ele se lembrou primeiro é o repressivo.
Aí está.
É o repressivo.
Sim, prossegue.
E ficou também esta questão das Forças Armadas, desta possibilidade de se e quando for necessário utilizar as Forças Armadas neste esforço, mais uma vez.
Essa é que é a minha grande dúvida: e António Costa fala nisso em termos constitucionais, de que forma é que podem ser usadas as Forças Armadas? Hoje, por exemplo, na Alemanha optou-se por chamar as Forças Armadas, mas num trabalho de apoio. Podemos aqui pensar que será nesse serviço de apoio à comunidade ou num serviço repressivo? Esta é a minha dúvida.
Imagino que utilizar as Forças Armadas de forma repressiva dentro de um país será a última medida, seria preciso uma situação absolutamente caótica para se fazer isso. Eu imagino que aqui seja em questões logísticas, em questões de agilização de certas ações que possam ter que ser feitas. Aliás, também não seria absolutamente novo. Noutras situações de catástrofe, de incêndios, por exemplo, temos usado as Forças Armadas para ajudar em algumas situações.
Já é uma coisa habitual. É por isso que eu estou a dizer, já é uma situação habitual o recurso às Forças Armadas em situações mais complicadas e referiste aí bem a situação dos incêndios.
Sim, aquilo que nós temos visto nos outros países tem sido a utilização das Forças Armadas para esse tipo de funções. E aliás, também convém notar que o primeiro-ministro só falou das Forças Armadas na resposta a uma pergunta de um jornalista. Ele não quis vir falar das Forças Armadas. Aquilo que ele disse é um bocadinho uma evidência, e que é: se for necessário, quando for necessário, sabemos que podemos contar com as Forças Armadas para ajudar. E de facto, aquilo que nós temos visto nos outros países, e como referiste, na Alemanha, eles puseram os reservistas de alerta para poderem ajudar, é que a dada altura pode ser necessário usar, até porque as Forças Armadas têm capacidade de fazer uma série de coisas muito mais rapidamente e estão treinados para fazer uma série de coisas muito mais rapidamente e pode ser preciso recorrer a isso para resolver problemas logísticos.
Outros dados que podemos tirar daqui. Falávamos da situação da polícia e dessa necessidade da polícia vir pra rua e esse trabalho que a polícia poderá ter junto à população. Isto também numa altura em que temos os próprios agentes a dizer que têm dificuldades em termos de material. Vai ser complicado? Vai ser difícil, na tua sensibilidade, como é que o governo vai poder trabalhar com estes agentes de autoridade na rua, quando eles próprios dizem que não têm material suficiente para estarem protegidos?
Esse é o problema, mas o problema da falta de material começa até mais à frente do que isso. Os próprios médicos que estão nos hospitais a lidar diretamente com potenciais infectados também se queixam da mesma coisa. Existe, neste momento, uma falta generalizada de material. Vamos ver, em Portugal e noutros países. Obviamente era impossível prever uma situação destas. Teria sido necessária uma capacidade de resposta enorme para, aqui há umas semanas, o governo ter começado a comprar material. Também o material que está disponível é limitado e, portanto, o que nós temos agora são países no mundo inteiro, todos a quererem comprar a mesma coisa. Mas sim, esse é um problema. Até agora, o uso de material pela polícia tem sido limitado, por um lado porque há pouco e, por outro lado, para evitar o alarme social, as pessoas quando saem à rua, de repente, não vêem os policiais todos com máscaras ou com luvas. E isso pode transformar-se num problema, como é evidente, que o governo vai ter que gerir, até porque prevê aqui, por exemplo, esta necessidade de obrigar as pessoas que estão infectadas a ficarem em casa. Vamos ver. Um polícia que encontra uma pessoa na rua, não sabe se está infectada, não faz a menor ideia. E por isso eu imagino que a pressão dos agentes para saírem à rua com material de proteção vai aumentar. É um problema que o governo vai ter que resolver.
Outro problema que vai ter que ser resolvido é depois da passagem desta crise, que será uma outra crise, a crise econômica. Hoje, António Costa, nesta conferência, voltou outra vez a realçar que as atividades econômicas não podem parar. Aquelas que são diretamente ligadas à ligação com pessoas, como a restauração e afins, têm que arranjar alternativas. Há aqui um grande medo e uma grande preocupação com o que vem logo a seguir a esta crise do COVID-19. Como é que poderíamos esperar uma solução e a que tempo? Apesar de isto ser aquelas perguntas difíceis de responder, Miguel. Perdemos Miguel Pinheiros.
Estou aqui.
Estás aí. Ok. Ouviste a pergunta?
Sobre o que vem a seguir em termos económicos.
Exatamente. Dificuldades econômicas que podemos atravessar nos próximos dias, logo a seguir ao COVID-19.
Nós vemos aqui o primeiro-ministro a querer manter abertas todas as atividades econômicas que não implicam atendimento ao público, por duas razões. Em primeiro lugar, para nós continuarmos a ter aquelas coisas básicas: alimentação, continuar a haver luz e água na casa das pessoas. Essa é uma primeira preocupação e que é imediata. Isso não pode faltar. E, por outro lado, sim, claro. Se toda a economia entrar em paragem ao mesmo tempo agora e se isso se prolongar durante não sabemos quanto tempo, não sabemos se é um mês, se são dois meses, se são três meses, o que vem depois? Por isso, parece que o governo está a tentar arranjar um equilíbrio entre proteger as pessoas o máximo que é possível e, ao mesmo tempo, como isto vai demorar muito tempo, tentar manter a funcionar aquilo que for possível continuar a funcionar. E tentar que isso seja uma parte substancial da economia, não sei se é substancial ou não. Até porque depois entram outros problemas. Por exemplo, os serviços públicos funcionarem em teletrabalho. Os serviços públicos estão preparados para funcionarem em teletrabalho? A administração pública está toda ela preparada para funcionar em teletrabalho? Eu não sei muito bem. O primeiro-ministro sabe responder a isto? Nós temos uma administração pública assim tão ágil que consegue agora, de repente, funcionar em teletrabalho? É muito complicado.
Amanhã temos esta indicação também de que há um novo Conselho de Ministros aí para pacotes de apoio às famílias. O que é que poderá sair em termos de apoio já imediato às famílias? Tens alguma percepção disso?
O governo já quando fez o anúncio do pacote econômico, disse que iria tratar dos assuntos aos pedaços. Primeiro, aquela parte econômica, agora esta parte um bocadinho mais de saúde pública e de segurança e a seguir vir a parte das famílias. Já há uma série de medidas que foram sendo anunciadas isoladamente, mas é preciso, por um lado, haver uma visão de conjunto de como é que isto vai funcionar. Há muitas dúvidas em relação a alguns temas e, além disso, perceber se o governo vai mais longe ou não. Já em relação ao pacote econômico, o governo foi criticado por não ter ido tão longe quanto seria desejável. António Costa também se referiu a isso nesta conferência de imprensa. Diz que não somos um país rico e temos que ter cuidado para, quando isto acabar, não termos um problema maior entre mãos, mas é preciso resolver estes problemas agora. Compreendo que o governo aí tenha uma margem de manobra um bocadinho mais apertada, mas admito que eventualmente amanhã possam sair novidades e um alargamento daquilo que é conhecido até agora. Temos que esperar para ver.