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"Mário Soares: o talento democrático" é o título escolhido pela colunista do dia na Rádio Observador, a investigadora universitária na área da Ciência Política, Mafalda Pratas. Muito bem-vinda, Mafalda.
Olá.
É um longo artigo a pretexto do centenário do nascimento de Mário Soares. Explanas o período de transição democrática em Portugal e o papel decisivo de Soares. A dada altura, sublinhas como o líder socialista percebeu que era importante legitimar a direita democrática na política parlamentar e também o Partido Comunista Português. Estamos hoje precisamente em emissão especial no Congresso do PCP em Almada. Foi graças a Soares que o PCP pôde entrar no sistema?
Eu acho que há aqui uma nuance. Embora eu diga que Mário Soares ajudou a legitimar e foi importante para legitimar a direita democrática, e isso é muito importante no período de transição, porque obviamente o regime autoritário anterior tinha sido um regime de direita e era muito importante que alguém estivesse disposto a incluir a direita democrática no sistema. No entanto, esta inclusão foi um pouco diferente, porque Mário Soares nunca olhou da mesma forma para a direita democrática, em quem via partidos igualmente de poder, partidos eleitorais, claro, mas também partidos que iriam ocupar e que iriam alternar no Executivo. Enquanto em relação ao Partido Comunista, eu creio que Mário Soares olhou sempre de forma diferente. Nomeadamente, eu creio que é muito importante perceber esta dualidade, que é: Mário Soares não quis ilegalizar o PCP, porque sabia que isso não era avisado num contexto tão polarizado como era o contexto em Portugal em 75, 76, mas simultaneamente também nunca quis trazer o PCP para a área governativa, pelo menos enquanto a União Soviética não tivesse caído. E mesmo depois disso, não sei se Mário Soares teria alguma vez, por exemplo, feito a geringonça, mas isso é uma discussão um pouco diferente. Pelo menos durante o seu tempo de vida, Mário Soares sempre considerou o PCP como parte da sociedade civil e que representando uma fatia relativamente pequena, 10%, mais ou menos 15% na melhor eleição de sempre, mas nunca olhou para o PCP como um igual em termos de parceiros de governo. E eu creio que é muito importante também sublinhar que Mário Soares, apesar de ter obviamente colaborado com o PCP durante o período pré-democrático, durante o regime autoritário, e foi até militante do PCP, eu creio que Mário Soares, uma vez derrubado o regime autoritário, soube distinguir o tipo de luta. Agora a luta já não era derrubar um regime, para o qual o PCP foi útil, mas sim construir um novo. E nesse novo regime, o PCP não tinha o mesmo modelo de sociedade. E eu creio que Mário Soares foi tolerante, na medida em que deixou o PCP existir e participar politicamente, eleitoralmente, mas não quis nunca fazer do PCP o seu parceiro de governo.
Mário Soares e Álvaro Cunhal ficaram conhecidos como inimigos íntimos. Uma relação de respeito especial, pese embora os diferendos e até terem estado de relações cortadas durante alguns anos?
Sim, eu acho que é justo. Eu acho que nunca se amaram mutuamente, e que nunca terão sido propriamente fãs um do outro, mas aprenderam a conviver juntos. É um pouco isso que também é democracia. Não temos que gostar de todos os nossos adversários políticos, mas eu creio que Mário Soares nunca, ao contrário até de muitas outras pessoas dentro do PS, Mário Soares nunca aceitou aliar-se ao PCP para impedir a direita democrática de governar. E isso foi um diferendo que Mário Soares teve com muita gente dentro do PS, porque havia muita gente, incluindo já nos anos 80, quando quiseram derrubar o governo minoritário de Cavaco Silva com o apoio do PCP e do PRD, Mário Soares nunca aprovou o plano de apresentar como governo alternativo, um governo do PS apoiado pela esquerda, incluindo o PCP, ou de levar o PCP para o governo.
Isso é uma distinção grande entre Soares e António Costa. Nesta altura, Mafalda, o PCP está numa fase descendente, precisamente pós-geringonça. Classificarias este período mesmo como um declínio? Será difícil ao partido dar a volta?
Sim, eu acho que neste momento é muito difícil ao partido dar a volta. Eu não sei se foi exatamente a geringonça, há um pouco essa tese, que corre que a geringonça prejudicou o PCP, mas na verdade, olhando para os dados desde os anos 80 até hoje, a queda foi relativamente constante, ou seja, de eleição para eleição. Houve ali um momento, que foi o momento em que Jerónimo de Sousa se torna secretário-geral do PCP no início dos anos 2000, que o PCP trava um pouco essa queda e sobe até um pouco, mas a tendência destas décadas foi uma tendência descendente e está neste momento a continuação dessa tendência é o que nós estamos a observar. E eu não creio que possam fazer grande coisa, a não ser que se queiram adaptar, que não parece manifestamente o caso, em termos de organização, de estratégias políticas, de alianças políticas. Não querem adaptar-se ao mundo de hoje e é muito difícil que um partido que tenha sido criado há um século e que esteja no mesmo formato há 50 anos, que consiga continuar a representar de forma fiel um eleitorado que já está a minguar na sociedade portuguesa. A própria sociedade portuguesa mudou muito desde 1974 e é normal que o PCP, não se tendo adaptado propriamente assim tanto, venha perder cada vez mais votos. Uma potencial Uma potencial solução para o PCP, já houve algumas colunas de jornal de simpatizantes do PCP, nunca militantes, a sugerir essa hipótese, e é uma hipótese que noutros países foi feita, que seria, de certa maneira, o PCP ir a eleições, embora como uma organização separada, ir por exemplo a eleições com os outros partidos de esquerda, por exemplo, com o Bloco de Esquerda. Obviamente nós sabemos que o Bloco de Esquerda e o PCP são inimigos históricos.
Aí já não são íntimos.
Exatamente, já não são íntimos, são inimigos históricos, mas a verdade é que se fossem a eleições juntos, podem ter grupos parlamentares separados, organizações separadas, mas se fossem a eleições juntos, ambos ganhariam mais deputados do que aquilo que têm hoje somados. E noutros países, por exemplo, Espanha, o PCE é um partido que está incluído na plataforma Somar e é evidente que o comunismo em Portugal nunca se adaptou como o comunismo em Espanha, França ou Itália, e o PCF também está incluído na nova Frente Popular em França. Se o PCP não está disposto a alterar-se minimamente e a tentar pensar fora da caixa para novas estratégias, eu creio que será condenado, se não à inexistência, pelo menos a um tamanho muito reduzido eleitoralmente.
E só para terminarmos, Mafalda, aqui a nossa conversa, nesse sentido do que estás a dizer, as próximas autárquicas vão ser um grande teste. Há 19 autarquias para manter, 11 autarcas em fim de ciclo.
Sim, sem dúvida. O PCP, uma das grandes forças durante os últimos 50 anos de democracia, foi de facto a implantação autárquica, que permitiu um acesso a recursos do Estado e a própria implantação local muito superior ao que seria se não tivessem essa implantação autárquica. E muitas vezes, sem dúvida que já temos visto isso nas eleições autárquicas anteriores, que muitas câmaras historicamente comunistas, como Almada, mas muitas outras, têm vindo progressivamente, por várias razões, nomeadamente por uma renovação geracional da população, mas pelo próprio estado um bocadinho obsoleto do Partido Comunista, têm vindo a perder câmaras historicamente comunistas e muitas vezes quando há esses autarcas em fim de ciclo, é o momento em que essa renovação acontece, porque enquanto o autarca está lá e é um autarca conhecido, há muita gente que vota no presidente da câmara atual, porque já conhece a figura, porque tem alguma confiança, enquanto se vier uma figura nova, como acontece quando os limites de mandato chegam ao fim, muitas vezes não há essa ligação pessoal ao candidato e o que resta é o partido e como sabemos, o partido quando vai a eleições tem tido resultados cada vez menos expressivos.
Vêm aí alturas decisivas para o PCP, também para outros partidos, mas esta nossa conversa até começou com Mário Soares e depois essa relação com o Partido Comunista Português e o futuro deste partido, qual será? A ver vamos. Mafalda Pratas, muito obrigada por teres sido a nossa colunista do dia.
Muito obrigada.