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A história do longo percurso desta vítima do padre Anastácio é contada pela jornalista Sónia Simões. Sónia, quem é o João?

O João é um rapaz que tem agora 21 anos, mas que aos 14 anos deixou de querer sair de casa com medo. Pediu então à avó com quem vivia para ser visto por uma psicóloga, e essa psicóloga descobriu que ele tinha sido vítima de abuso sexual, numa primeira fase, por um amigo da família e, numa segunda fase, por um padre.

E foi precisamente essa psicóloga que ajudou, de certa forma, a encontrar uma forma de o João revelar os abusos de que tinha sido vítima.

Sim, quando ele recorreu a esta psicóloga, a família pensava que ele estava neste estado psicológico e depressivo, porque era vítima de bullying na escola.

E há vários detalhes. Tinha medo, por exemplo, de sair de casa.

O simples ato de sair à garagem dentro da propriedade onde vivia e de ser visto por pessoas atormentava-o. E portanto, ele estava fechado no quarto dele, sem querer ir às aulas e começou a conversar com esta psicóloga já no início de 2017. E ao longo das consultas, a psicóloga percebeu que o bullying e o sofrimento que ele passara na escola não era justificativo para o que ele estava a demonstrar e encontrou aqui uma técnica de o fazer falar sobre o que viveu, que foi através de uma carta escrita a ele próprio, em que ela fazia perguntas e ele respondia. E foi aí que veio a primeira revelação dos primeiros abusos, quando ele tinha apenas 11 anos e depois, mais tarde, os abusos por parte deste padre.

É um padre, importa também dizer, que estava próximo da família, portanto, era visita de casa.

Sim, este é um padre madeirense, que entretanto, por causa do processo que esta história deu origem, pediu para se afastar de funções e a Igreja permitiu. É, aliás, um padre que esteve desaparecido os últimos quatro anos e que há cerca de duas semanas decidiu apresentar-se na Procuradoria-Geral da República. Era um padre muito conhecido na Madeira, mas também na sequência de duas outras queixas-crime semelhantes a estas e que foram arquivadas, acabou por ser afastado para Paris por decisão da Igreja.

Quando a família do João toma conhecimento deste caso, o padre já não estava na Madeira.

Não, estava ao serviço de uma paróquia para a comunidade portuguesa perto de Paris, mas mantinha ligações ao Funchal, onde tem a sua família e à família desta vítima, de quem era amigo há muitos anos, era inclusive padrinho do tio desta vítima. E portanto, quando ia de férias ao Funchal, ia visitar esta família e era nessas alturas que aconteciam os abusos.

Onde é que está neste momento o padre Anastácio?

A última morada conhecida do padre Anastácio em 2018 foi em Paris. As autoridades nunca o encontraram, ele acabou por ser acusado à revelia e há duas semanas ficámos a saber que ele estava, afinal, aqui no continente, em Portugal, e a última morada que deu ao processo para ser notificado da sua condição de arguido e da acusação de cinco crimes de abuso sexual de que foi alvo, foi em São Martinho do Porto