Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E hoje recebemos André Branco Amaral, cronista regular do Observador, jurista, membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal, que assina um artigo com o título "Mário Soares". Bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite, André Branco Amaral.
Obrigado eu pelo convite.
O que leva alguém ideologicamente distante de Mário Soares, alguém que nunca votou no ex-primeiro-ministro e presidente da República, a escrever um texto com laivos de admiração sobre o antigo secretário-geral do PS?
Precisamente por isso, porque a política não é só a ideologia, nem são só as ideias políticas, são também, mas são no sentido de combate político. Eu discordei sempre de Mário Soares, apesar de nunca naturalmente tê-lo confrontado, até porque as idades não o permitiam. Sempre apoiei políticos e partidos que se opunham a Mário Soares. Sempre fiquei extremamente satisfeito quando ele perdeu e às vezes até irritado quando ganhava. No entanto, há uma coisa que nós temos de reconhecer, que Mário Soares foi uma personalidade extremamente importante na democracia portuguesa, no combate pela democracia portuguesa, na sua oposição não comunista ao Estado Novo, e depois na forma como ele esteve no PREC, naqueles dois anos, entre 25 de abril de 74 a 25 de abril de 76, todo o seu posicionamento, a enorme coragem política e física que ele exibiu nessa altura, e também depois na forma como Mário Soares exerceu principalmente o primeiro mandato enquanto presidente da República. Porque foi um presidente que procurou unir o país político, que estava extremamente dividido, fracionado devido à revolução, ao PREC, a todo o processo revolucionário. E Mário Soares percebeu isso, que tinha de unir o país político e conseguiu. E de facto, o Portugal de 91 era muito diferente do de 86. Muito mais em paz consigo mesmo e isso foi um feito que Mário Soares também conseguiu. Mário Soares tinha uma grande capacidade de ver, apesar de estar envolvido na política diária, nas lutas partidárias, ele conseguia ver o cenário por cima, ter uma visão global. E isso permitiu sempre estabelecer uma estratégia política para si e também para o país. Ele tinha uma visão clara do país. O Portugal que saiu do 25 de abril não foi só um Portugal que teve uma democracia, que lutava por uma democracia, mas foi também um Portugal que acabou com um império que vinha já há 500 anos. E ele direcionou o país, não foi ele, naturalmente, porque era também Sá Carneiro, Francisco Amaral, etc. Foi uma visão seguida por vários políticos da altura, mas que ele exerceu um lugar cimeiro nessa política de virar o país para a Europa. E como o próprio Mário Soares diria, aquilo que ele mais queria era que os portugueses vivessem bem e tivessem uma vida boa. E isso é algo que hoje em dia falta, ou seja, que os políticos tenham essa vontade, que é: o que queremos é que os portugueses vivam melhor. Que isso tem faltado no discurso político. E depois, essa capacidade de visão global, que hoje em dia está um pouco desaparecida. Nós vemos até um pouco isto no governo atual e no governo de António Costa, também no anterior. Não há uma visão conjunta do país, existe é uma visão setorial de satisfação de interesses pontuais da sociedade portuguesa numa tentativa de sobrevivência política, mas sem visão a longo prazo.
Falava aqui há pouco do papel de Mário Soares durante o PREC, o período revolucionário em curso, e conta um episódio relatado por Vasco Pulido Valente. Que episódio foi esse?
Isso foi bastante interessante, porque eu em 2018 fiz uma tertúlia no Grande Tertúlia Literária com o Vasco Pulido Valente e ele, simpaticamente, antes disso, convidou-me pra eu conversar com ele. E nós falámos várias horas e o Vasco Pulido Valente, a pessoa que ele mais admirava na política era Mário Soares. E contou-me isso, contou-me vários episódios, um deles foi esse, que foram almoçar perto da Avenida de Roma e depois disso ele convidou: "Não queres ir ao cinema? Vamos ao cinema." E foram ao Cinema Londres, que na altura ainda existia, naturalmente. E enquanto estavam ali, foram comprar o bilhete e estavam ali à espera que o filme começasse. Estamos a falar nos anos 70, portanto, muita gente ia ao cinema à tarde. As pessoas acercaram-se de Mário Soares e começaram a incitá-lo pra dizer que você não pode desistir deste combate contra as forças totalitárias, naquele caso eram os comunistas, e uma das coisas que ele me disse foi que ouviu alguém dizer: "Você tem que nos salvar". E, portanto, havia essa necessidade, ou seja, as pessoas sabiam que estavam à beira do abismo e viam em Mário Soares um político capaz de fazer frente a todas essas ameaças. E, de facto, Mário Soares fez isso no comício da Fonte Luminosa, na Alameda, e em todo o Verão Quente de 75 e depois em todo o processo no cerco da Assembleia Constituinte a 12 de novembro de 75, à qual ele conseguiu escapar à última da hora, que estava a discursar e o Manuel Alegre veio avisá-lo. Ele foi espreitar à janela e viu que o Parlamento estava a ser cercado e ele saiu para a residência oficial do Primeiro-Ministro, São Bento, e a partir daí foi pra sede do PS. E todo esse período que agora assinalamos fazendo 49 anos, em novembro de 275, em que ele esteve na frente da oposição política e nunca desistiu desse combate. Aliás, há uma entrevista, eu faço referência a isso, um programa na RTP3 da Clara Ferreira Alves, umas entrevistas a Mário Soares, e ele diz que aquilo que ele mais De que mais se orgulha. Isso também está muito dito, ele fala isso nas entrevistas que deu a Maria João Velez. Aquilo de que ele mais se orgulha foi da sua oposição ao Estado Novo, de durante 32 anos ter sempre se oposto e nunca ter desistido. E de fato, isso é admirável. É uma pessoa que está há 30 anos em oposição sem ver esse trabalho ser retribuído, mas continua. Mário Soares teve a sorte de ter tido essa retribuição política, foi primeiro-ministro, presidente da República, e foi uma personagem política extremamente importante e esteve presente sempre em todos os cenários. Portanto, é algo que, apesar de eu nunca ter sido socialista, nunca ter votado em Mário Soares, nem em 91, nem em 2006, quando ele se candidatou novamente, nem sequer quando ele foi cabeça de lista do Partido Socialista ao Parlamento Europeu, a verdade é que tenho que reconhecer que foi uma figura política ímpar e a democracia e o país lhe devem bastante.
André Branco Amaral, temos um minuto, mas gostava ainda de explorar a forma como termina o seu artigo e a sua crônica, apontando em evidência a importância da educação para a personalidade e para todos os traços de personalidade que aqui elencou de Mário Soares.
É verdade. Acho que há muitos traços de personalidade de Mário Soares que tendem a ser dele próprios. Naturalmente, as pessoas também nascem de determinada maneira. Mas algo que sempre me sobressaiu de quando li sobre Mário Soares e eu o ouvia, foi sempre essa chamada atenção de que os pais o tinham tratado, tinha tido uma boa educação, mas não só uma boa educação em termos de estudos, era uma boa educação, basicamente foi um filho bem-amado. Isso é algo que nós com o tempo fomos nos apercebendo. A forma como somos educados em casa, a segurança que nos dão, é extremamente importante para o nosso futuro. E Mário Soares era uma pessoa segura de si mesma, por personalidade, mas certeza também porque muito disso foi incutido pelos pais. Isso nota-se muito, que é a importância que nós temos em educar os nossos filhos, e às vezes até sobrinhos, pessoas que estejam ao nosso cuidado, porque de facto a personalidade deles vai ser muito decidida ou vai ser marcada pela forma como nós os tratamos. Acho que nesse aspecto, Mário Soares também é um exemplo que devemos ter em conta.
A importância da educação, veja-se Mário Soares. André Branco Amaral, muito obrigado por ter sido hoje o colunista do dia. Jurista, integra também a comissão executiva da Iniciativa Liberal e assina uma crônica que pode ler em observador.pt com o título "Mário Soares".