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Sem demoras, partimos para a conversa com o colunista do dia, que hoje é o padre João Basto. Colunista do Dia, "Rádio Observador", espaço em que escutamos um dos habituais colunistas do Observador. Recebemos hoje o padre João Basto, sacerdote, membro da equipe formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo, e falamos de um artigo intitulado "O argumento da cultura ocidental." Argumento que entra pelas europeias, pela campanha para as europeias. Boa tarde, padre João Basto. Vê nestas eleições europeias a entrada de um argumento que basicamente é o seguinte: Portugal descende da civilização greco-romana e faz parte do mundo judaico-cristão. Um argumento que, na sua opinião, levanta muitas dúvidas, muito por causa do contraditório que existe neste argumento. É assim?

Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite. Sim, é um argumento que tem sido utilizado, ou seja, como eu digo no artigo, há quem defenda, por exemplo, uma imigração mais restrita baseada nesse argumento, na ideia que nós descendemos de uma civilização judaico-cristã e greco-romana. Mas há também quem diga que, por exemplo, que a imigração tem que ser mais aberta, também baseado no mesmo argumento. Basicamente, a ideia do artigo remete-nos para aquilo que o George Steiner escreveu no famoso livro chamado A Ideia da Europa, que é uma conferência que ele proferiu numa universidade europeia, em que ele diz que o jardim do Goethe, o famoso poeta alemão, faz fronteira com campos de concentração. E a casa de Corneille, que é um famoso dramaturgo francês, situa-se na mesma praça onde Joana d'Arc foi queimada.

Onde vemos o bem, também existe o mal.

Exatamente. Ou seja, a herança europeia dá quase para defender tudo e o seu contrário. E isso é preciso também pontualizar, porque também me parece que a herança europeia é chamada à colação quando nos dá jeito. E quando é também para referir uma certa cultura erudita, quando a herança europeia também é muito mais do que Bach ou Shakespeare, por exemplo.

E para perceber, usar esse argumento em política é desnecessário ou é apenas algo que deve ser evitado neste mundo da política?

Não, eu acho que é um argumento importante. Ou seja, nós claramente descendemos de uma civilização greco-romana e de uma matriz cristã, judaico-cristã, se quisermos, mas isso realmente é muita coisa. Ou seja, nós vivemos através dos ombros de líderes gigantes como Júlio César, Augusto ou Péricles, mas todos estes três são também poderosos sanguinários. Portanto, não se pode dizer é que a cultura europeia, como se quis dizer, ou se quer dizer, e se quis dizer há algum tempo, é uma matriz de bem. E, portanto, nós temos que civilizar os outros povos a partir da nossa cultura, mas também não podemos dizer que a cultura europeia é uma grande máquina de destruir e de criar conceitos como o patriarcado, a escravidão. Não, a cultura europeia é muito mais complexa e contraditória entre si.

Diz no texto, neste artigo de opinião, que a herança cultural europeia não pode ser a canela no topo da política europeia, que só se utiliza quando dá jeito. O que está aqui, queria dizer, é que em tempo de campanha dá muitos jeitos, mas no resto do tempo não dá assim tanto?

Eu acho que é uma questão discutível. Ora é uma opinião pessoal, mas muitas vezes nós vemos os valores europeus invocados precisamente quando eles são benéficos para o orador ou para o político. Efetivamente, a herança europeia é contraditória, mas acho que existem valores como, por exemplo, o pluralismo político ou a tolerância, ou a ideia de liberdade, que são valores que, mesmo com as suas contradições, descendem da nossa ancestralidade histórica. E realmente, isso muitas vezes acontece ou é evocado unicamente em benefício pessoal. E vê-se na questão do clima, na questão da imigração, na questão da habitação, tudo isso é claramente evocado, esses argumentos são evocados, mas unicamente quando nos dá jeito, de maneira parcelar.

Mas a retórica política não funciona mesmo assim? Aquilo que pode ser verdade de um lado, pode ser mentira do outro.

É verdade. Ou seja, a própria herança cultural europeia, eu dou o exemplo de Cícero. Cícero é claramente aquele que lutou contra a tentativa oligárquica de destruir a República Romana, mas foi o mesmo que escreveu um tratado em que disse que os políticos tinham que desenterrar, fossem verdade ou não, acusações contra os seus inimigos políticos. E não podemos ter ilusões quanto a isso. O próprio Maquiavel foi muito claro. Agora, também podemos dizer, e também é lícito que se diga, que a política quando entra nesse tipo de dimensão, como também a doutrina social indica, a doutrina social da Igreja, quando a política entra nessa dimensão, unicamente passamos a ser matraquilhos num jogo onde ninguém vence, na verdade.

Padre João Basto, vê esta questão da herança cultural ser mais discutida em Portugal ou encontra exemplos mais preocupantes naquilo que é a campanha e a política feita em outros países?

Sim, sendo muito honesto, não tenho acompanhado muito a campanha nas europeias, em outros países. Aquilo que eu noto é claramente, contrariamente ao que se calhar seria expectável no final do século XX, existe hoje em dia uma tendência clara para recuperar um conjunto de valores que se dizem, que se tituliam sempre de matriz cristã. Já escrevi aliás sobre isso, a ideia de que, por exemplo, nós temos que proteger a civilização europeia das incursões Por exemplo, dos migrantes, para retomar um tema que já falamos aqui. A verdade é que a própria civilização europeia é a civilização que soube integrar os seus imigrantes, as vagas de refugiados que surgiram de outros países. A própria fundação de Portugal é disso exemplo, quer dizer, D. Afonso Henriques não é claramente um bárbaro contra os muçulmanos. Aliás, muitas vezes fez aliança contra regiões dominadas pelos muçulmanos, contra os espanhóis. Portanto, acho que aquilo que se ressalta e que deve ser ressaltado é a dimensão de diálogo. Aliás, que o Steiner retoma nesse livro, a ideia da Europa como o lugar dos cafés e como o lugar que se percorre a pé. Acho que são duas dimensões que seriam importantes recuperar, mais do que propriamente utilizar a herança cultural europeia como uma forma de argumento político, que muitas vezes é apresentado como incompleto.

Padre João Bastos, para terminar, onde identifica mais utilização deste tipo de discurso daquilo que é a nossa herança cultural, encontra mais nos extremos?

Desculpe, eu não percebi a pergunta.

Onde identifica mais é nos partidos mais extremistas, a utilização deste tipo de discurso?

Sim, parece-me que sim. Dou um exemplo que aconteceu em Portugal há uns tempos e não cito no artigo, mas de forma muito breve. Há uns anos houve um debate chamado "Europa Precisa de Deus", em que integrava o painel, ainda como deputada do Bloco de Esquerda, uma atual candidata por outro partido, de outra faixa política, que dizia que a Europa não precisava de Deus, precisava era de arroz. Mas o mesmo partido, não a mesma protagonista, mas o mesmo partido, foi aquele que citou o Papa Francisco para encostar André Ventura à parede na questão dos refugiados. Portanto, eu creio que nos extremos, claramente, é onde este argumento é mais utilizado.

Padre João Bastos, muito obrigado por ter estado conosco. Colunista do dia, estivemos a esmiuçar o artigo publicado em observador.pt intitulado "O Argumento da Cultura Ocidental".